sábado, 14 de maio de 2016

Capítulo 6

Aquaman dirige
Nada pode ser pior
Não, não, pode sim

PARA MINHA GRANDE DECEPÇÃO, os Jackson não tinham um arco com aljava sobrando para me emprestar.
— Sou péssimo em arco e flecha — explicou Percy.
— É, mas eu não — retruquei. — É por isso que você devia estar sempre preparado para as minhas necessidades.
Mas Sally nos emprestou bons casacos, de fleece. O meu era azul com a palavra BLOFIS escrita por dentro da gola. Talvez fosse uma proteção misteriosa contra espíritos do mau. Hécate saberia. Bruxaria não era mesmo minha praia.
Quando chegamos ao Prius, Meg pediu para ir na frente, o que foi mais um exemplo da injustiça que era minha atual existência. Deuses não andam no banco traseiro. Sugeri novamente ir atrás deles em um Maserati ou em um Lamborghini, mas Percy admitiu que não possuía nenhum dos dois. O Prius era o único carro da família.
Como eu ia dizendo... Uau. Simplesmente uau.
Sentado no banco de trás, logo fiquei enjoado. Eu costumava guiar minha carruagem do Sol pelo céu, onde todas as pistas eram de alta velocidade. Não estava acostumado com a via expressa de Long Island. Acredite, mesmo ao meio-dia em pleno mês de janeiro, não há nada de expresso nas suas vias expressas.
Percy freou, e fomos jogados para a frente. No fundo, eu desejava poder lançar uma bola de fogo e derreter os carros em nosso caminho, abrindo passagem para nossa jornada, que obviamente era mais importante que a de qualquer um deles.
— Seu Prius não tem lança-chamas? Lasers? Ao menos facas hefestianas no para-choque? Que tipo de veículo econômico é este?
Percy olhou pelo retrovisor.
— Vocês têm carros assim no Monte Olimpo?
— Nós não temos engarrafamento. Isso eu posso jurar.
Meg ficou puxando seus anéis de lua. Mais uma vez, me perguntei se havia alguma ligação entre ela e Ártemis. A lua era o símbolo da minha irmã. Teria Ártemis enviado Meg para cuidar de mim? Ainda que fosse o caso, não parecia fazer sentido. Ártemis tinha dificuldade de compartilhar qualquer coisa comigo: semideuses, flechas, nações, festas de aniversário. É uma coisa de irmãos gêmeos. Além do mais, Meg McCaffrey não me parecia uma das seguidoras da minha irmã. Tinha outro tipo de aura... que eu seria capaz de reconhecer facilmente se fosse um deus. Mas não. Tinha que contar com intuição mortal, que era como tentar pegar uma agulha de costura usando luvas de forno.
Meg se virou e olhou pelo para-brisa traseiro, provavelmente procurando alguma bolha brilhante nos seguindo.
— Pelo menos não estamos sendo...
— Não diga — avisou Percy.
Meg bufou.
— Você não sabe o que eu ia...
— Você ia dizer “Pelo menos não estamos sendo seguidos” — afirmou Percy. — Isso vai nos amaldiçoar. Na mesma hora, vamos perceber que estamos sendo seguidos. E então, vamos acabar em uma enorme batalha que vai destruir o carro da minha família e provavelmente a estrada inteira também. Em seguida, vamos ter que correr até o acampamento.
Meg arregalou os olhos.
— Você consegue prever o futuro?
— Não é preciso. — Percy foi para a faixa que estava andando um pouco menos devagar. — É que já fiz muito isso. Além do mais — ele me lançou um olhar acusatório —, ninguém mais consegue prever o futuro. O oráculo não está funcionando.
— Que oráculo? — perguntou Meg.
Nenhum de nós respondeu. Por um instante, fiquei perplexo demais para falar. E, acredite, tenho que ficar muito perplexo para isso acontecer.
— Ainda não está funcionando? — perguntei, baixinho.
— Você não sabia? — retrucou Percy. — Ah, claro, você esteve fora por seis meses, mas isso aconteceu sob sua vigília.
Que injustiça. Eu estava ocupado me escondendo da ira de Zeus na época, uma desculpa perfeitamente legítima. Como poderia saber que Gaia ia tirar vantagem do caos da guerra e trazer meu maior e mais antigo inimigo das profundezas do Tártaro para tomar posse de sua antiga morada na caverna de Delfos e cortar a fonte do meu poder profético?
Ah, sim, estou ouvindo daqui suas críticas: Você é o deus da profecia, Apolo. Como poderia não saber que isso ia acontecer?
O que você verá em seguida será uma bela careta no maior estilo Meg McCaffrey.
Engoli o gosto do medo e da pasta de sete camadas.
— Eu só... Eu imaginei... Eu torcia para que isso já estivesse resolvido a essa altura.
— Você quer dizer resolvido por semideuses — disse Percy —, enviados em uma grande missão para recuperar o Oráculo de Delfos?
— Exatamente! — Eu sabia que Percy ia entender. — Acho que Quíron esqueceu. Vou lembrá-lo assim que chegarmos ao acampamento, e então ele pode despachar alguns de vocês, gentalha talentosa, quer dizer, heróis...
— Olha, a questão é a seguinte — disse Percy. — Para sair em uma missão, nós precisamos de uma profecia, certo? As regras são essas. Se não tem oráculo, não tem profecia, então estamos presos em um...
— Ardil 88. — Suspirei.
Meg jogou um pedaço de linha em mim.
— É Ardil 22.
— Não — expliquei, pacientemente. — Isso é um Ardil 88, ou seja, quatro vezes pior.
Tenho a sensação de que estou flutuando em um banho quente e alguém tirou a tampa do ralo: a água gira ao meu redor, me puxando para baixo. Em pouco tempo, eu estaria tremendo, ou então seria sugado pelo ralo para o esgoto da desesperança. (Não ria. É uma metáfora perfeitamente razoável. Além do mais, quando se é um deus, é bem possível ser sugado por um ralo, se for pego desprevenido, relaxado e por acaso mudar de forma no momento errado. Uma vez, acordei em uma unidade de tratamento de esgoto em Biloxi, mas isso é outra história.)
Eu começava a ter um vislumbre do que me aguardava na minha temporada como mortal. O oráculo estava sendo controlado por forças hostis. Meu inimigo estava à espreita, ganhando forças a cada dia com os vapores mágicos das cavernas de Delfos. E eu era um mortal fraco comprometido com uma semideusa não treinada que jogava lixo e mordia as cutículas.
Não. Zeus não podia esperar que eu consertasse isso. Não na minha atual condição.
Ainda assim... alguém mandou aqueles delinquentes me interceptarem no beco. Alguém sabia onde eu ia cair.
Ninguém mais consegue prever o futuro, dissera Percy.
Mas não era bem assim.
— Ei, vocês dois.
Meg jogou fiapos de linha em nós. De onde ela estava tirando tanta linha? Percebi que vinha ignorando-a. Havia sido bom enquanto durou.
— Sim, desculpe, Meg — falei. — Sabe, o Oráculo de Delfos é um antigo...
— Não estou nem aí pra isso — disse ela. — São três bolhas brilhosas agora.
— O quê? — perguntou Percy.
Ela apontou para trás do carro.
— Olhem.
Costurando em meio ao trânsito e se aproximando de nós rapidamente havia três aparições cintilantes e vagamente humanoides, plumas oscilantes como fumaça de granada tocadas pelo rei Midas.
— Pelo menos uma vez na vida eu gostaria de fazer um trajeto tranquilo — resmungou Percy. — Se segurem. Vamos ter que cortar caminho.

* * *

A definição que Percy dava a cortar caminho era diferente da minha.
Eu imaginava que pegaríamos um atalho. Mas o que ele fez foi acelerar para a saída mais próxima da rodovia, atravessar o estacionamento de um shopping e passar pelo drive-thru de um restaurante mexicano sem pedir nada. Desviamos para uma área industrial de armazéns dilapidados, as aparições esfumaçadas ainda na nossa cola.
Os nós dos meus dedos ficaram brancos de tanto apertar o cinto de segurança.
— Seu plano é morrer em um acidente de trânsito só para fugir da luta? — perguntei.
— Ha-ha. — Percy virou o volante para a direita. Seguimos em disparada, os armazéns dando lugar a amontoados de prédios e centros comerciais abandonados. — Estou indo para a praia. Luto melhor perto da água.
— Por causa de Poseidon? — indagou Meg, agarrada à porta.
— É — concordou Percy. — Isso descreve praticamente minha vida: por causa de Poseidon.
Meg deu pulinhos de empolgação, o que me pareceu sem sentido, considerando que o carro já vinha pulando bastante.
— Você é tipo o Aquaman? — perguntou ela. — Vai fazer os peixes lutarem por você?
— Obrigado — disse Percy. — Ouvi pouquíssimas piadas do Aquaman na vida.
— Não era piada! — protestou Meg.
Olhei pela janela de trás. As três plumas cintilantes ainda estavam se aproximando. Uma delas passou por um homem de meia-idade atravessando a rua. O pedestre mortal desabou na mesma hora.
— Ah, eu conheço esses espíritos! — gritei. — Eles são... hã...
Meu cérebro ficou enevoado.
— O quê? — perguntou Percy. — São o quê?
— Esqueci! Eu odeio ser mortal! Quatro mil anos de conhecimento, todos os segredos do universo, um mar de sabedoria... perdidos, só porque não consigo guardar tudo nessa cabeça de xícara!
— Espere! — Percy fez o Prius voar por um cruzamento com a linha ferroviária.
Meg gritou quando sua cabeça bateu no teto do carro. Em seguida, começou a rir descontroladamente.
A paisagem se expandiu para um campo de verdade: terras cultivadas, vinhedos inertes, pomares de árvores sem folhas.
— Só mais ou menos um quilômetro até a praia — disse Percy. — Além do mais, estamos quase na fronteira do acampamento. Vamos conseguir. Vamos conseguir.
Na verdade, não conseguiríamos. Uma das nuvens de fumaça brilhante deu um golpe sujo, se materializando no asfalto bem na nossa frente.
Instintivamente, Percy desviou.
O Prius saiu da pista e atravessou uma cerca de arame farpado, invadindo um pomar. Percy conseguiu desviar de todas as árvores, mas o carro derrapou na lama gelada e foi parar entre dois troncos. Milagrosamente, os air bags não foram acionados.
Percy soltou o cinto de segurança.
— Vocês estão bem?
Meg empurrou a porta do passageiro.
— Não quer abrir. Me tira daqui!
Percy tentou abrir a porta dele também. Estava firmemente emperrada contra um pessegueiro.
— Aqui atrás — falei. — Pulem o banco!
Abri minha porta com um chute e cambaleei para fora do carro, as pernas parecendo amortecedores gastos.
As três figuras esfumaçadas tinham parado na entrada do pomar. Avançavam devagar, assumindo formas sólidas. Ganharam braços e pernas. Os rostos formaram olhos e bocas grandes e famintas.
Eu soube instintivamente que já tinha enfrentado esses espíritos antes. Não conseguia lembrar o que eram, mas eu os tinha dispersado muitas vezes, enviando-os para o esquecimento com o mesmo esforço que gastaria com um bando de mosquitos.
Infelizmente, eu não era mais um deus. Era um garoto de dezesseis anos em pânico. As palmas das minhas mãos estavam suando. Meus dentes estavam batendo. Meu único pensamento coerente era: CARACA!
Percy e Meg tentavam sair do Prius. Eles precisavam de tempo, o que significava que eu tinha que criar alguma interferência.
— PAREM! — gritei para os espíritos. — Sou o deus Apolo!
Para minha agradável surpresa, os três espíritos pararam. Ficaram no mesmo lugar, a uns dez metros de distância.
Ouvi Meg grunhir enquanto saía pelo banco de trás. Percy saiu depois dela.
Avancei na direção dos espíritos, a lama gelada estalando sob meus sapatos. Minha respiração soltava vapor no ar gelado. Levantei a mão em um antigo gesto de três dedos para afastar o mal.
— Nos deixem em paz ou sejam destruídos! — entoei para os espíritos. — BLOFIS!
As formas esfumaçadas tremeluziram. Minhas esperanças aumentaram. Esperei que elas se dissipassem ou fugissem de medo.
Mas na realidade elas se solidificaram em cadáveres sinistros com olhos amarelos. As roupas esfarrapadas, os membros cobertos de feridas abertas e bolhas escorrendo.
— Ah, não. — Meu pomo de adão despencou até o peito como uma bola de bilhar. — Lembrei agora.
Percy e Meg pararam ao meu lado. Com um chiado metálico, a caneta de Percy virou uma lâmina de bronze celestial cintilante.
— Lembrou o quê? — perguntou ele. — Como matar essas coisas?
— Não — respondi. — Lembrei o que eles são: nosoi, espíritos das chagas. E também... que eles não podem ser mortos.

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