quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 5

— BOM DIA, SUA ALTEZA.
— Bom dia — respondi para o mordomo. — Café forte, por favor, e tudo o que o chef tenha preparado para a Elite também será bom.
— Claro.
Ele voltou com mirtilo, panquecas e salsichas, e um ovo cozido cortado ao meio. Escolhi a minha refeição enquanto folheava os jornais. Havia notícias de mau tempo em certa área e alguma especulação sobre com quem eu poderia casar, mas, no geral, parecia que a nação perdera a vontade de fazer muito mais do que se preocupar com a minha mãe. Fiquei grata. Eu tinha certeza que o país se revoltaria quando fui nomeada regente. Parte de mim ainda estava preocupada com o fato de que se eu desse a mínima indicação de que eu poderia falhar, o ódio da nação se voltaria para mim sem piedade.
— Bom dia! — Alguém falou. Não alguém. Eu teria reconhecido a saudação de Henri mesmo na sepultura.
Ergui a cabeça para sorrir e acenar para ele e Erik. Eu meio que amei que Henri fosse imune à tristeza que pairava sobre o palácio. E Erik parecia ser a mão que guiava o seu patrão de volta ao chão, calmo e gentil, independente do que acontecia à sua volta.
Osten e Kaden entraram com Kile, as cabeças juntas enquanto se moviam. Kile estava tentando fazê-los sorrir – eu podia ver em sua linguagem corporal – e, por sua vez, meus irmãos lhe deram um pequeno sorriso com lábios apertados. Ean entrou com Hale e Fox, e fiquei agradavelmente surpresa ao finalmente vê-lo interagir com alguns dos outros. Gunner veio atrás deles, como alguém esquecido. Eu o mantive na Elite porque não conseguia me livrar do fato de como seu poema me fez rir. Mas, tirando isso, eu mal o conhecia. Teria que me esforçar mais com ele, com todos eles.
Meus irmãos sentaram-se juntos em seus lugares habituais, mais contidos do que o normal. Ver a mesa da nossa família tão vazia enviou uma pontada de tristeza por todo o meu corpo. Esse tipo de dor, calma e silenciosa, pode surgir tão rapidamente que uma pessoa poderia nem perceber. Eu podia vê-la tentando rastejar sob meus irmãos agora, a forma como eles estavam com a cabeça um pouco mais baixa, provavelmente nem mesmo cientes de que estavam fazendo isso.
— Osten? — Ele olhou para cima, me encarando, e pude sentir os olhos da Elite sobre nós dois. — Você se lembra da época em que mamãe nos fazia panquecas?
Kaden começou a rir, voltando-se para os outros para contar a história.
— Mamãe aprendeu a cozinhar enquanto crescia, e de vez em quando fazia comida para nós, só por diversão. A última vez que ela tentou foi há mais ou menos quatro anos.
Eu sorri.
— Ela sabia que estava sem prática, mas queria nos fazer panquecas de mirtilo. Aconteceu que ela queria arrumar as frutas nas panquecas para que elas formassem estrelas, flores e rostos. Mas ela deixou a massa na assadeira por tanto tempo para organizar a decoração que, quando ela virou as panquecas, elas estavam todas queimadas.
Osten riu.
— Eu me lembro! Lembro-me das panquecas crocantes!
Ouvi risadas da Elite.
— Você reclamou tanto, e nem sequer tentou provar uma! — Kaden acusou.
Balancei a cabeça com vergonha.
— Foi autopreservação.
— Elas estavam muito boas, na verdade. Crocantes, mas boas — Osten mordeu uma das panquecas na frente dele. — Fazem estas daqui parecerem moles.
Ouvi um risinho alto e vi que Fox balançava a cabeça.
— Meu pai é um cozinheiro terrível, também — ele disse, projetando a sua voz. — Nós grelhamos demais, e ele está sempre dizendo que estão “dourados” — Fox levantou os dedos para enfatizar a palavra.
— O que significa que, na verdade, estão queimados, não é? — perguntou Gunner.
— Sim.
— Meu pai — Erik falou timidamente. Fiquei surpresa que ele quisesse se juntar à conversa, e me vi inclinando a cabeça sobre o braço, indecisa. — Ele e minha mãe têm um prato que sempre fazem, e exige fritura. Na última vez em que ele o preparou, saiu do apartamento enquanto cozinhava, e a fumaça foi tão forte que eles tiveram que morar comigo por dois dias enquanto arejavam a casa.
— Você tem um quarto de hóspedes? — perguntou Kile.
Erik balançou a cabeça.
— Não. Assim a sala se tornou meu quarto, o que foi um prazer quando minha mãe acordou às seis e decidiu iniciar a limpeza.
Gunner riu em concordância.
— Por que os pais sempre fazem isso? E sempre em um dia quando podemos dormir?
Apertei os olhos.
— Não dá para simplesmente dizer não?
Fox riu descontroladamente.
— Talvez você possa, Alteza.
Eu estava muito consciente de que estava sendo provocada, mas sabia que era tudo brincadeira.
Hale falou.
— Falando nisso, ninguém está preocupado em ser incrivelmente mimado dessa forma e caso perder, ser obrigado a ir para casa depois de viver assim? — Ele fez um gesto para a mesa e o salão.
— Eu não — Kile respondeu sem rodeios, e os rapazes irromperam em conversas.
O salão se dissolveu em histórias e comentários, o fim de cada sentença provocando uma nova memória em alguém. A conversação ficou tão alta, o riso tão turbulento, que ninguém notou a única criada que caminhava cuidadosamente pelo centro do salão. Ela fez uma reverência e inclinou o rosto perto do meu.
— Sua mãe está acordada.
Um turbilhão de emoções tomou conta de mim, uma dúzia de sentimentos, todos praticamente não identificáveis, exceto a sensação de alegria.
— Obrigada! — Eu corri do salão, com medo demais para esperar por Kaden e Osten.
Meus pés voaram pelos corredores e eu irrompi na ala hospitalar, parando apenas para me preparar uma vez que cheguei à porta. Abrindo-a lentamente, eu estava ciente do monitor cardíaco ainda gravando cada batida, com o ritmo assinalado acima de um entalhe, quando nossos olhos se encontraram.
— Mãe? — sussurrei.
Papai olhou por cima do ombro, sorrindo, embora seus olhos estivessem vermelhos e cheios de lágrimas.
— Eadlyn — mamãe sussurrou, estendendo a mão.
Fui até ela, as lágrimas nos meus olhos borrando tanto a minha visão que eu dificilmente poderia fazê-las sair.
— Oi, mãe. Como você está? — passei meus dedos ao redor dos dela, tentando não agarrar com muita força.
— Dói um pouco. — O que significava que devia doer muito.
— Bem, você vai tomar seu tempo para se sentir melhor, ok? Sem pressa.
— Como você está?
Levantei-me um pouco, na esperança de convencê-la.
— Está tudo sob controle, e Kaden e Osten estão indo muito bem, tenho certeza de que eles estão vindo bem atrás de mim. E eu tenho um encontro hoje à noite.
— Bom trabalho, Eady — papai sorriu e virou a cabeça de volta para a mamãe. — Viu, querida? Não estou, e nem precisava estar lá fora. Eu posso ficar aqui com você.
— Ahren? — perguntou minha mãe, tomando uma respiração profunda depois.
Eu estava cabisbaixa. Quando abri minha boca para dizer a ela que não tinha ouvido falar dele, meu pai falou.
— Ele ligou esta manhã.
Fiquei ali, atordoada.
— Oh?
— Ele espera voltar para casa em breve, mas disse que havia algumas complicações, embora fosse um pouco confuso demais para explicar o que era. Ele me disse para lhe dizer que te ama.
Eu esperava que aquelas palavras fossem para mim, mas meu pai estava olhando diretamente para mamãe quando ele falou.
— Eu quero o meu filho — ela falou, a voz embargada.
— Eu sei querida. Em breve. — Papai esfregou a mão da mamãe.
— Mamãe? — Osten entrou no quarto, com o rosto mostrando que ele mal estava contendo sua excitação.
Kaden fungava, mantendo-se de pé, como se estivesse acima de chorar.
— Oi. — Mamãe conseguiu abrir um grande sorriso para eles, e quando Osten inclinou-se e a abraçou, ela fez uma careta de dor mas não deixou escapar nenhum som.
— Temos sido bonzinhos — ele prometeu.
Minha mãe sorriu.
— Bem, pare com isso imediatamente.
Nós rimos.
— Oi, mãe — Kaden beijou a bochecha dela, ainda parecendo com medo de tocá-la.
Ela levantou a mão para o seu rosto. Ela parecia ficar mais forte a cada segundo simplesmente por nos ver. Fiquei imaginando o que teria feito se Ahren estivesse aqui. Levantaria da cama?
— Eu queria que vocês soubessem que estou bem — seu peito subia e descia de forma agressiva, mas seu sorriso não vacilou. — acho que posso voltar para o andar de cima amanhã.
Meu pai assentiu rapidamente.
— Sim, se conseguirmos passar o dia de hoje sem incidentes, sua mãe pode se recuperar no quarto dela.
— Isso é realmente bom — a voz de Kaden elevou-se com a notícia. — Então você está a meio caminho de voltar ao normal.
Eu não queria acabar com a esperança em seus olhos, ou nos de Osten. Kaden era tipicamente tão inteligente, que vê-lo com toda essa pretensão não deixava dúvidas do quanto ele desejava que isso fosse verdade.
— Exatamente — disse mamãe.
— Ok, todo mundo — meu pai falou. — Agora que vocês já viram a mamãe, quero que voltem para os seus estudos. Nós ainda temos um país para administrar.
— Eadlyn nos deu o dia de folga — Osten protestou.
Eu sorri, culpada. Quando saímos da cama esta manhã, esta foi a minha única ordem. Eu precisava deles para me divertir. Mamãe riu, um som fraco, mas bonito.
— Como uma rainha generosa.
— Rainha ainda não — protestei, grata que a verdadeira rainha ainda vivesse e falasse e sorrisse.
— Todavia — papai disse — a mãe de vocês precisa de descanso. Vou me certificar de que vocês poderão vê-la novamente antes de dormir.
Isso acalmou os meninos, e eles foram embora, acenando para a mamãe.
Beijei sua cabeça.
— Eu te amo.
— Minha menina — seus dedos fracos tocaram meu cabelo. — Eu te amo.
Essas palavras foram o primeiro suporte do meu dia, e eu poderia passar o resto dele sabendo que Kile Woodwork seria o outro. Quando saí da ala hospitalar, me deparei com outra Woodwork.
— Madame Marlee? — perguntei.
Ela olhou para cima do banco em que estava sentada, torcendo um lenço em suas mãos, o rosto manchado de tanto chorar.
— Você está bem?
Ela sorriu.
— Mais do que bem. Eu estava com tanto medo que ela pudesse não voltar, e... eu honestamente não sei o que faria sem ela. Estar aqui, com a sua mãe, tem sido toda a minha vida.
Sentei-me, abraçando a melhor amiga da minha mãe, e ela se agarrou a mim como se eu fosse sua própria filha. Parte de mim se sentiu triste, porque eu sabia que ela não estava sendo dramática quando falou. Um olhar para as palmas das mãos cheias de cicatrizes revelava a longa história de como ela passara de digna Selecionada para traidora e depois para senhora fiel. Quando falavam sobre o passado, alguns detalhes eram encobertos, e nunca me intrometi porque não era da minha conta. Mas eu temia que, por vezes, Madame Marlee sentisse como se o perdão dos meus pais ainda fosse uma dívida sobre ela e seu marido, devendo pagá-los em devoção.
— Disseram que você e seus irmãos estavam visitando-a, e eu quero vê-la, mas não queria tomar o tempo de vocês.
— Você viu os meninos saindo? Estamos todos bem agora. Apresse-se antes que ela caia no sono. Eu sei que ela gostaria de vê-la.
Ela enxugou suas bochechas novamente.
— Como estou?
Eu ri.
— Positivamente miserável — apertei sua mão. — Vá lá dentro. E pode tentar vê-los para mim de vez em quando? Sei que não serei capaz de vir aqui tão frequentemente quanto eu gostaria.
— Não se preocupe. Enviarei atualizações tão frequentemente quanto puder.
— Obrigada, Madame Marlee.
Depois de um último abraço, ela caminhou para a ala hospitalar. Eu suspirei, tentando me deixar aproveitar este breve momento de calma. Pelo menos por agora, tudo estava no caminho de melhorar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário