sábado, 14 de maio de 2016

Capítulo 5

Pastinha gostosa
Cookie azul de chocolate
Amo essa mulher

SALLY JACKSON ERA UMA feiticeira tão poderosa quanto Circe. Ela transformou uma moleca de rua em uma garotinha incrivelmente bonita. O cabelo escuro de Meg estava brilhoso e penteado. O rosto redondo estava limpo. Os óculos estilo gatinho tinham sido polidos até as pedrinhas nas hastes brilharem. Evidentemente, ela insistiu em ficar com os tênis vermelhos velhos, mas estava usando uma legging preta nova e uma túnica verde que ia até o joelho.
A sra. Jackson encontrou um jeito de manter o antigo visual de Meg, mas fazendo alguns ajustes para deixá-lo mais equilibrado. A menina agora tinha uma aura de elfo primaveril que me lembrou muito uma dríade. Na verdade...
Uma onda repentina de emoção tomou conta de mim. Eu sufoquei o choro.
Meg fez beicinho.
— Estou tão feia assim?
— Não, não — falei. — É que...
Eu queria dizer você me lembra uma pessoa, mas não ousava tocar nesse assunto. Só dois mortais partiram meu coração. Mesmo depois de tantos séculos, era impossível para mim pensar nela — ou até pronunciar seu nome — sem cair em desespero.
Não me entenda mal. Eu não me sentia atraído por Meg, de jeito nenhum. Eu tinha dezesseis anos (ou mais de quatro mil, dependendo de como você encarasse a situação), ela tinha só doze.
Mas, olhando para ela agora, me dei conta de que Meg McCaffrey podia ser filha do meu antigo amor... se meu antigo amor tivesse vivido o bastante para ter filhos.
Era doloroso demais. Desviei o olhar.
— Bem — disse Sally Jackson, com alegria forçada —, que tal eu fazer o almoço enquanto vocês três... conversam?
Ela lançou um olhar preocupado para Percy e foi para a cozinha, com as mãos apoiadas na barriga grávida.
Meg se sentou na beirada do sofá.
— Percy, sua mãe é tão normal.
— Hum... Obrigado?
Ele empurrou uma pilha de apostilas para o lado na mesa de centro e abriu espaço.
— Estou vendo que você gosta de estudar — comentei. — Muito bem.
Percy riu com deboche.
— Eu odeio estudar. Já tenho uma bolsa integral para estudar na Universidade Nova Roma, mas eles querem que eu passe em todas as matérias do ensino médio e ainda por cima tire uma boa nota nos exames de admissão. Dá para acreditar? Sem mencionar que tenho que passar na APIS.
— Passar no quê? — perguntou Meg.
— É uma prova para semideuses romanos — expliquei. — A Avalição de Poderes Incríveis dos Semideuses.
Percy franziu a testa.
— É isso que a sigla significa?
— É claro que é. Eu sei porque escrevi as seções de análise de música e poesia.
— Nunca vou perdoar você por isso — disse Percy.
Meg ficou de pé.
— Então você é mesmo um semideus? Como eu?
— Infelizmente, sim. — Percy afundou na poltrona, e eu me sentei no sofá. — Meu pai é a parte divina da família. Poseidon. E os seus?
As pernas de Meg ficaram imóveis. Ela observou as cutículas roídas, os anéis de lua crescente nos dedos do meio.
— Não conheci meus pais... direito.
Percy hesitou.
— Lar adotivo? Pais adotivos?
Imediatamente pensei em uma planta chamada Mimosa pudica, ou dormideira, criação do deus Pã. Assim que as folhas são tocadas, a planta se fecha como autodefesa. E esse parecia ser o caso de Meg, encolhendo-se diante das perguntas de Percy.
Ele levantou as mãos.
— Desculpe. Não quis ser xereta. — Percy me lançou um olhar curioso. — E como vocês se conheceram?
Contei a história para ele. Posso ter exagerado um pouco na parte em que me defendi bravamente de Cade e Mikey, mas só por questões narrativas, você entende.
Quando terminei, Sally Jackson voltou. Colocou na mesa uma tigela de nachos e uma caçarola cheia de uma coisa cremosa com camadas multicoloridas, como rocha sedimentar.
— Já trago os sanduíches — disse ela —, mas não quis desperdiçar o restinho da pasta que tinha na geladeira.
— Oba! — Percy enfiou um nacho na pasta. — Minha mãe é famosa por essa pasta, pessoal.
Sally bagunçou o cabelo dele.
— Leva guacamole, creme azedo, feijões refritos, molho...
— Tem sete camadas? — Ergui o rosto, maravilhado. — Você sabia que sete é meu número sagrado? Você inventou isso para mim?
Sally limpou as mãos no avental.
— Bem, na verdade, não posso levar o crédito...
— Você é modesta demais! — Experimentei a pasta. O gosto era quase tão bom quanto nachos de ambrosia. — Você terá fama imortal por isso, Sally Jackson!
— Que fofo. — Ela apontou para a cozinha. — Já volto.
Em pouco tempo, estávamos comendo sanduíches de peru e nachos e bebendo smoothies de banana. Meg parecia um esquilo, enfiando mais comida na boca do que podia comer. Minha barriga estava cheia. Eu nunca tinha sido tão feliz. Sentia um desejo estranho de ligar um Xbox e jogar Call of Duty.
— Percy, sua mãe é incrível — falei.
— Não é? — Ele terminou o smoothie. — Voltando à sua história... você tem que ser servo da Meg agora? Vocês mal se conhecem.
— Mal é generosidade sua — falei. — Mas é isso mesmo que você ouviu. Meu destino agora está ligado ao da jovem McCaffrey.
— Nós estamos cooperando — disse Meg.
Ela pareceu saborear a palavra.
Percy pegou a caneta esferográfica no bolso. Ele bateu com ela no joelho, pensativo.
— E essa coisa toda de se tornar mortal... você já passou por isso duas vezes?
— Não por escolha — garanti. — Na primeira vez, tivemos uma pequena rebelião no Olimpo. Tentamos destronar Zeus.
Percy fez uma careta.
— Imagino que não tenha dado muito certo.
— Eu levei a maior parte da culpa, naturalmente. Ah, e seu pai, Poseidon. Nós dois fomos jogados na Terra como mortais, fomos obrigados a servir Laomedonte, o rei de Troia. Ele era um senhor rígido. Até se recusou a pagar por nosso trabalho!
Meg quase engasgou com o sanduíche.
— Eu tenho que pagar?
Uma imagem apavorante me veio à mente: Meg McCaffrey tentando me pagar com tampinhas de garrafa, bolinhas de gude e pedaços de barbante colorido.
— Pode ficar tranquila — falei. — Não vou apresentar uma conta no final nem nada. Mas, como eu estava dizendo, na segunda vez que virei mortal, Zeus estava zangado porque matei alguns ciclopes.
Percy franziu a testa.
— Cara, isso não é legal. Meu irmão é um ciclope.
— Eram ciclopes maus! Eles lançaram o raio que matou um dos meus filhos!
Meg quicou no braço do sofá.
— O irmão de Percy é um ciclope? Que irado!
Respirei fundo e tentei pensar em coisas boas.
— De qualquer modo, fiquei preso a Admeto, o rei da Tessália. Ele era um senhor gentil. Eu gostava tanto dele que fiz todas as suas vacas terem bezerros gêmeos.
— Posso ter vacas bebês também? — perguntou Meg.
— Bem, Meg — comecei —, primeiro você teria que ter algumas mamães vacas. Sabe...
— Pessoal — interrompeu Percy. — Só para relembrar, você tem que ser servo de Meg por...?
— Uma quantidade indefinida de tempo. Provavelmente, um ano. Possivelmente mais.
— E, durante esse tempo...
— Vou indubitavelmente encarar muitas provações e dificuldades.
— Como conseguir vacas para mim — disse Meg.
Trinquei os dentes.
— Que provações vão ser, eu ainda não sei. Mas, se eu passar por elas e provar que sou digno, Zeus vai me perdoar e permitir que eu retorne ao Olimpo.
Percy não pareceu convencido, provavelmente porque eu não fui convincente. Eu precisava acreditar que minha punição mortal seria temporária, como havia sido das outras duas vezes. Mas Zeus criou uma regra rigorosa: Três erros e você está fora. Só me restava torcer para que isso não se aplicasse a mim.
— Eu preciso de mais tempo para entender o que está acontecendo — falei. — Quando chegarmos ao Acampamento Meio-Sangue, vou falar com Quíron e tentar descobrir quais dos meus poderes divinos permaneceram comigo nesta forma mortal.
— Se é que você ainda tem algum — comentou Percy.
— Vamos pensar positivo.
Percy se recostou na poltrona.
— Alguma ideia de que tipo de espíritos estão seguindo vocês?
— Bolhas brilhantes — disse Meg. — Eram brilhantes e meio... bolhudas.
Percy assentiu, sério.
— Essas são as piores.
— Não importa — declarei. — Sejam o que forem, temos que fugir o mais rápido possível. Quando chegarmos ao acampamento, as fronteiras mágicas vão me proteger.
— E a mim? — perguntou Meg.
— Ah, sim. A você também.
Percy franziu a testa.
— Apolo, se você é realmente um mortal, tipo, cem por cento mortal, você vai conseguir entrar no Acampamento Meio-Sangue?
A pasta de sete camadas da mãe de Percy começou a revirar no meu estômago.
— Não diga uma coisa dessas, por favor. Claro que eu vou entrar. Eu tenho que entrar.
— Mas você pode se machucar em batalha agora... — refletiu Percy. — Se bem que talvez os monstros ignorem você, porque você não é importante?
— Pare com isso!
Minhas mãos tremiam. Ser mortal já era traumático o bastante. A ideia de ser barrado no acampamento, de não ser importante... Não. Não podia ser.
— Tenho certeza de que mantive alguns dos meus poderes — argumentei. — Por exemplo, ainda sou deslumbrante, tirando as espinhas e o excesso de peso. Eu devo ter outras habilidades!
Percy se virou para Meg.
— E você? Eu soube que você arrasa no lançamento de sacos de lixo. Você tem mais alguma habilidade da qual eu deva saber? Convocar relâmpagos? Fazer privadas explodirem?
Meg deu um sorriso hesitante.
— Isso não é um poder.
— Claro que é — disse Percy. — Alguns dos melhores semideuses começaram explodindo privadas.
Meg riu.
Não gostei do jeito como ela estava sorrindo para Percy. Eu não queria que a garota tivesse uma paixonite. A gente talvez nunca saísse dali. Por mais que eu gostasse da comida de Sally Jackson (um cheiro divino de biscoitos assando vinha da cozinha), eu precisava ir o mais rápido possível para o acampamento.
— Hã, ok — Eu esfreguei as mãos. — Quando podemos partir?
Percy olhou para o relógio na parede.
— Agora, acho. Se vocês estão sendo seguidos, prefiro que os monstros fiquem atrás da gente do que farejando ao redor do apartamento.
— Que magnânimo — falei.
Percy indicou as apostilas com desgosto.
— Eu só preciso voltar ainda hoje para cá. Tenho muita coisa para estudar. Nas primeiras duas vezes que fiz o exame de admissão para a faculdade... Argh. Se não fosse a ajuda de Annabeth...
— Quem é essa? — perguntou Meg.
— Minha namorada.
A expressão de Meg murchou. Fiquei feliz de não haver sacos de lixo por perto.
— Faça uma pausa! — pedi. — Seu cérebro vai ficar renovado depois de uma viagem tranquila até Long Island.
— Hã... — disse Percy. — Acho pouco provável. Tudo bem. Vamos.
Ele se levantou na hora em que Sally Jackson se aproximava com um prato de biscoitos com gotas de chocolate recém-assados. Por algum motivo, os biscoitos eram azuis, e o cheiro era divino.
Posso dizer isso porque eu sou divino.
— Mãe, não surte — disse Percy.
Sally suspirou.
— Eu odeio quando você diz isso.
— Só vou levar Apolo e Meg para o acampamento. Só isso. Volto logo depois.
— Acho que já ouvi isso.
— Eu prometo.
Sally olhou para mim e depois para Meg. A expressão dela se suavizou, sua gentileza natural talvez superando a preocupação.
— Tudo bem. Tomem cuidado. Foi um prazer conhecer vocês dois. Tentem não morrer.
Percy deu um beijo na bochecha dela. Ele esticou a mão para pegar um biscoito, mas ela afastou o prato.
— Ah, não — disse ela. — Apolo e Meg podem pegar um, mas vou fazer o restante de refém até você voltar em segurança. E vá logo, querido. Será uma pena se Paul comer todos quando ele chegar em casa.
Percy fechou a cara. E se virou para nós.
— Estão ouvindo? Um prato de biscoitos depende de mim. Se vocês me fizerem morrer no caminho, vou ficar furioso.

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