sábado, 14 de maio de 2016

Capítulo 4

Residência Jackson
Nada de trono dourado
Isso é sério, cara?

OUTRA COISA QUE NUNCA entendi: como vocês, mortais, conseguem morar em lugares tão pequenos? Onde está o orgulho? O senso de estilo?
O apartamento dos Jackson não tinha nenhuma sala do trono grandiosa, nem colunatas, terraços e salões de banquete, nem mesmo banhos termais. Tinha uma salinha com uma cozinha adjacente e um único corredor levando ao que eu supunha que fossem os quartos. Ficava no quinto andar e, embora eu não fosse inflexível a ponto de exigir um elevador, achei estranho não ter nenhuma pista de pouso para carruagens voadoras. O que eles faziam quando chegavam visitas do céu?
Atrás da bancada da cozinha, fazendo um smoothie, estava uma mortal muito atraente de uns quarenta anos. O cabelo castanho comprido tinha algumas mechas grisalhas, mas os olhos brilhantes, o sorriso fácil e o vestido festivo tie-dye lhe davam uma aparência mais jovem.
Quando entramos, ela desligou o liquidificador e saiu de detrás da bancada.
— Sibila sagrada! — gritei. — Senhora, tem alguma coisa errada com sua barriga!
A mulher parou, intrigada, e olhou para a própria barriga enormemente inchada.
— Bem, estou grávida de sete meses.
Senti vontade de chorar por ela. Carregar aquele peso não parecia natural. Minha irmã, Ártemis, tinha experiência com partos, mas essa era a única área das artes da cura que sempre achei melhor deixar aos cuidados dos outros.
— Como você é capaz de suportar isso? — perguntei. — Minha mãe, Leto, sofreu durante uma longa gravidez, mas só porque Hera a amaldiçoou. Você foi amaldiçoada?
Percy parou ao meu lado.
— Hã, Apolo, ela não foi amaldiçoada. E, por favor, não mencione Hera.
— Pobre mulher. — Balancei a cabeça. — Uma deusa jamais se permitiria ficar tão sobrecarregada. Ela daria à luz assim que tivesse vontade.
— Isso deve ser bom — concordou a mulher.
Percy Jackson tossiu.
— Enfim... Mãe, estes são Apolo e a amiga dele, Meg. Pessoal, esta é minha mãe.
A mãe de Jackson sorriu e apertou nossas mãos.
— Me chamem de Sally.
Ela estreitou os olhos ao notar meu nariz machucado.
— Querido, isso parece estar doendo. O que aconteceu?
Tentei explicar, mas me enrolei com as palavras. Eu, o deus da poesia, com uma língua de veludo, não consegui descrever minha desgraça para aquela mulher.
Então entendi por que Poseidon ficou tão apaixonado. Sally Jackson tinha a combinação certa de compaixão, força e beleza. Era uma daquelas raras mulheres mortais que conseguiam se conectar espiritualmente com um deus como sua semelhante: não sentia medo de nós nem cobiçava o que podíamos oferecer, apenas nos presenteava com verdadeira companhia.
Se ainda fosse imortal, talvez eu mesmo tivesse flertado com ela. Mas no momento eu era um garoto de dezesseis anos. Minha forma mortal estava se impregnando no meu estado mental. Eu via Sally Jackson como uma figura materna, o que ao mesmo tempo me consternava e constrangia.
Pensei em quantos anos havia que eu não falava com minha própria mãe. Eu devia convidá-la para almoçar quando voltasse ao Olimpo.
— Olha — Sally bateu no meu ombro —, Percy pode ajudar você a fazer um curativo e limpar isso aí.
— Posso?
Sally olhou para ele com a sobrancelha levemente erguida, aquela típica expressão maternal.
— Tem um kit de primeiros socorros no banheiro, querido. Apolo pode tomar um banho e vestir alguma roupa sua. Vocês dois são mais ou menos do mesmo tamanho.
— Isso é muito deprimente — disse Percy.
Sally segurou delicadamente o queixo de Meg. Ainda bem que a menina não a mordeu. A expressão da mulher continuava gentil e tranquilizadora, mas consegui ver a preocupação nos olhos dela. Sem dúvida, estava pensando: quem vestiu essa pobre garota de sinal de trânsito?
— Tenho umas roupas que podem servir em você, querida — disse ela. — Roupas pré-gravidez, claro. Tome um banho. Depois, vamos arrumar alguma coisa para você comer.
— Eu gosto de comida — murmurou Meg.
Sally riu.
— Então nós temos isso em comum. Percy, você leva Apolo. Nos encontramos de novo daqui a pouco.

* * *

Então foi isso: tomei banho, cuidei dos curativos e coloquei roupas herdadas de Jackson. Percy me deixou sozinho no banheiro para cuidar de tudo, pelo que fiquei muito grato. Ele me ofereceu ambrosia e néctar, comida e bebida dos deuses, para cicatrizar os ferimentos, mas eu não sabia se seria seguro consumir isso na minha forma mortal. Não queria entrar em autocombustão, então preferi os itens de primeiros socorros convencionais.
Quando terminei, olhei meu rosto machucado no espelho do banheiro. Talvez as roupas estivessem impregnadas de raivinha adolescente, porque mais do que nunca eu me sentia um aluno revoltado do ensino médio. Pensei em quanto era injusto estar sendo punido, em quanto meu pai era ridículo, que mais ninguém na história do universo tinha vivenciado os mesmos problemas que eu.
É claro que tudo aquilo era empiricamente verdade. Sem exageros.
Ao menos meus ferimentos pareciam estar cicatrizando mais rápido do que os de um mortal normal. O inchaço do nariz tinha diminuído. Minhas costelas ainda doíam, mas eu não estava mais com a sensação de que havia alguém tricotando um suéter com agulhas quentes dentro do meu peito.
A cura acelerada era o mínimo que Zeus podia fazer por mim. Afinal, eu era um deus das artes medicinais. Zeus provavelmente só queria que eu me recuperasse depressa para enfrentar mais dor, mas fiquei agradecido mesmo assim.
Eu me perguntei se devia acender uma pequena fogueira na pia de Percy Jackson, quem sabe queimar algumas ataduras em agradecimento, mas acabei concluindo que isso poderia diminuir a hospitalidade da família.
Observei a camiseta preta que Percy tinha me emprestado. Na frente havia o logo dos discos do Led Zeppelin: Ícaro alado caindo do céu. Eu não tinha nada contra o Led Zeppelin. Aliás, havia inspirado suas melhores músicas. Mas tinha uma ligeira desconfiança de que havia sido uma piadinha de Percy me dar justo aquela camiseta: a queda do céu. Sim, ha-ha. Não era preciso ser um deus da poesia para enxergar a metáfora. Mas decidi não comentar nada. Não daria esse gostinho a ele.
Respirei fundo. Em seguida, fiz meu discurso motivacional de sempre para o espelho.
— Você é lindo e as pessoas te amam!
Então saí para enfrentar o mundo.
Percy estava sentado na cama, olhando para a trilha de gotas de sangue que deixei no tapete.
— Me desculpe por isso — falei.
Ele estendeu as mãos.
— Na verdade, eu estava pensando na última vez que meu nariz sangrou.
— Ah...
Embora enevoada e incompleta, a lembrança me veio à mente. Atenas. A Acrópole. Nós, deuses, lutamos lado a lado com Percy Jackson e seus amigos. Derrotamos um exército de gigantes, mas uma gota do sangue de Percy caiu no solo e despertou Gaia, a Mãe Terra, que não estava de bom humor.
Foi quando Zeus se virou contra mim. Ele me acusou de começar a coisa toda só porque Gaia havia ludibriado minha prole, um garoto chamado Octavian, levando-o a incitar os acampamentos romano e grego a uma guerra civil que quase destruiu a civilização humana. Eu pergunto: como pode ter sido culpa minha?
Mesmo assim, Zeus me declarou responsável pela ilusão de grandeza de Octavian. Zeus pareceu considerar o egoísmo uma característica que o garoto herdou de mim. O que é ridículo. Tenho autopercepção suficiente para não ser egoísta.
— O que aconteceu com você, cara? — A voz de Percy me despertou dos devaneios. — A guerra terminou em agosto. Estamos em janeiro.
— Estamos?
Acho que eu devia ter desconfiado pelo tempo frio, mas nem havia parado para pensar nisso.
— Na última vez que nos encontramos — disse Percy —, Zeus estava massacrando você na Acrópole. E então, bam, o vaporizou. Ninguém viu nem ouviu falar de você em seis meses.
Tentei lembrar, mas, em vez de se tornarem mais claras, minhas lembranças da época divina ficavam cada vez mais indistintas. O que aconteceu nos últimos seis meses? Estive em algum tipo de estase? Zeus havia demorado tanto tempo assim para decidir o que fazer comigo? Talvez houvesse um motivo para ele ter esperado até esse momento para me jogar na Terra.
A voz do meu pai ainda ecoava em meus ouvidos: Sua culpa. Sua punição. Minha vergonha parecia recente e intensa, como se a conversa tivesse acabado de acontecer, mas não havia como ter certeza.
Depois de viver por tantos milênios, eu tinha dificuldade de me achar no tempo. Eu escutava uma música no Spotify e pensava: “Ah, essa é nova!” Aí, percebia que era o “Concerto para piano nº 20 em ré menor” de Mozart, de mais de duzentos anos atrás. Ou me perguntava por que Heródoto, o historiador, não estava nos meus contatos. Aí lembrava que Heródoto não tem smartphone porque morreu na Idade do Ferro.
É muito irritante a brevidade da vida de vocês, mortais.
— Eu... eu não faço ideia de onde estava — admiti. — Tenho algumas falhas na memória.
Percy fez uma careta.
— Odeio falhas na memória. Ano passado, perdi um semestre inteiro graças a Hera.
— Ah, é.
Eu não me lembrava muito bem sobre o que Percy Jackson estava falando. Durante a guerra com Gaia, fiquei mais concentrado nos meus fabulosos feitos heroicos. Mas imagino que ele e os amigos tenham passado por maus bocados.
— Ah, não tema — falei. — Sempre há novas oportunidades para conquistar a fama! Foi por isso que vim até você pedir ajuda!
Ele fez aquela expressão confusa de novo, como se quisesse me dar um chute, quando eu tinha certeza de que devia estar lutando para conter a gratidão.
— Olha, cara...
— Você poderia parar de me chamar de cara? É um doloroso lembrete de que sou humano.
— Tudo bem... Apolo, posso muito bem levar você e Meg para o acampamento, se é isso o que querem. Nunca viro as costas para um semideus que precisa de ajuda...
— Maravilhoso! Você tem alguma outra coisa além do Prius? Um Maserati, talvez? Eu aceitaria um Lamborghini.
— Mas — continuou Percy —, não posso me envolver em nenhuma outra Grande Profecia nem nada assim. Eu fiz umas promessas.
Olhei para ele sem entender muito bem.
— Promessas?
Percy entrelaçou os dedos. Eram longos e ágeis. Ele teria sido um excelente músico.
— Perdi boa parte do meu segundo ano na escola por causa da guerra com Gaia. Passei o outono inteiro tentando recuperar as matérias atrasadas. Se eu quiser ir para a faculdade com Annabeth no outono que vem, tenho que ficar longe de problemas e conseguir meu diploma.
— Annabeth. — Tentei me lembrar de onde conhecia esse nome. — É a loura assustadora?
— Ela mesma. Fiz uma promessa bem específica de que não morreria enquanto ela estivesse fora.
— Fora?
Percy acenou com a mão vagamente.
— Ela foi passar algumas semanas em Boston. Uma emergência familiar. A questão é...
— Você está dizendo que não pode me oferecer seu serviço integral para me levar de volta ao trono?
— Hã... é. — Ele apontou para a porta do quarto. — Além do mais, minha mãe está grávida. Vou ter uma irmãzinha. Eu gostaria de estar por perto para conhecê-la.
— Ah, eu entendo. Lembro quando Ártemis nasceu...
— Vocês não são gêmeos?
— Eu sempre a vi como minha irmãzinha.
Percy contorceu a boca.
— Enfim, além de minha mãe estar grávida, ela vai lançar seu primeiro livro na primavera, então eu gostaria de ficar vivo por tempo suficiente para...
— Que maravilha! Lembre-a de queimar os sacrifícios adequados. Calíope fica bem sensível quando os romancistas esquecem de agradecer.
— Tudo bem. Mas o que estou dizendo... é que não posso sair por aí em outra missão. Não posso fazer isso com minha família.
Percy olhou pela janela. No peitoril havia uma planta com delicadas folhas prateadas dentro de um vaso, possivelmente um enlace lunar.
— Já causei ataques cardíacos suficientes à minha mãe para uma vida inteira. Ela acabou de me perdoar por ter desaparecido no ano passado, mas jurei para ela e para Paul que não faria isso de novo.
— Paul?
— Meu padrasto. Ele está em um treinamento de professores hoje. É um bom sujeito.
— Entendo.
Na verdade, não entendia. Eu queria voltar a falar dos meus problemas. Estava impaciente por Percy ter desviado a conversa para ele. Infelizmente, percebi que esse tipo de egocentrismo é comum entre semideuses.
— Você compreende que tenho que encontrar um jeito de voltar para o Olimpo — falei. — Isso provavelmente envolve várias provações árduas com um grande risco de morte. Você seria capaz de recusar tamanha glória?
— É, tenho certeza de que seria, sim. Desculpe.
Repuxei os lábios. Sempre fiquei decepcionado quando mortais se colocavam em primeiro lugar e não conseguiam enxergar a situação como um todo: a importância de me colocar em primeiro lugar.
Mas eu precisava lembrar a mim mesmo que esse jovem já havia me ajudado em várias outras ocasiões. Ele conquistara minha boa vontade.
— Entendo — falei, sendo incrivelmente generoso. — Você ao menos vai nos acompanhar ao Acampamento Meio-Sangue?
— Isso eu posso fazer.
Percy enfiou a mão no bolso do moletom e pegou uma caneta esferográfica. Por um instante, achei que ele quisesse meu autógrafo. Não sei dizer quantas vezes isso aconteceu. Mas então lembrei que a caneta era o disfarce da espada dele, Contracorrente.
Percy sorriu, e parte daquela malícia antiga de semideus brilhou em seus olhos.
— Vamos ver se Meg está pronta para um passeio no campo.

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