quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 3

— EU?
— Você.
— Você tem certeza?
Peguei Neena pelos ombros.
— Você sempre me diz a verdade, mesmo quando eu não estou querendo ouvi-la. Você pode tolerar o pior de mim, e você é muito inteligente para passar os seus dias dobrando minhas roupas.
Ela sorriu, piscando para reprimir as lágrimas.
— A dama de companhia... Afinal, o que isso quer dizer?
— Bem, é uma mistura de ser uma companheira, o que você já é, e ajudar com o lado menos glamouroso do meu trabalho, como o agendamento de compromissos e ter certeza que eu me lembre de comer.
— Eu acho que posso lidar com isso — disse ela, sorrindo.
— Oh, oh, oh, e — Levantei minhas mãos, preparando-a para, provavelmente, a parte mais emocionante do trabalho — Isso significa que você não tem mais que usar esse uniforme. Então vá se trocar.
Neena riu.
— Eu não sei se eu tenho algo apropriado. Mas com certeza vou obter um conjunto para amanhã.
— Mas que besteira. Basta ir ao meu armário.
Ela ficou boquiaberta.
— Eu não posso.
— Umm, você pode e você deve. — Eu apontei para as amplas portas. — Vista-se depois me encontre no escritório, e vamos fazer isso, inteiramente, a cada dia.
Ela assentiu com a cabeça, e, como se tivéssemos feito isso mil vezes, ela jogou os braços em volta de mim.
— Obrigada.
— Obrigada a você — eu insisti.
— Eu não vou te decepcionar.
Eu me afastei, observando-a.
— Eu sei. A propósito, a sua primeira tarefa é escolher uma nova criada para mim.
— Não é um problema.
— Excelente. Vejo você em breve.
Eu saí do quarto, sentindo-me melhor sabendo que eu tinha pessoas em meu lado. General Leger seria minha linha com minha mãe e meu pai, Lady Brice seria a minha principal conselheira, e Neena iria me ajudar a assumir a carga do trabalho.
Fazia menos de um dia, e eu já entendia por que minha mãe pensou que eu iria precisar de um parceiro. E eu ainda a intenção de encontrar um. Eu só precisava de um pouco de tempo para descobrir como.


Naquela tarde, eu andava preocupada enquanto esperava por Kile do lado de fora do Salão dos homens. De todas as minhas relações com os selecionados, a nossa era a mais complicada, e mesmo assim, ainda a melhor delas para começar.
— Hey, — disse ele, vindo para me abraçar. Eu não poderia deixar de sorrir pensando em como seria se ele tivesse tentado isso há um mês. Eu teria mandado os guardas para cima dele. — Como vai você?
Fiz uma pausa.
— É engraçado – você foi o único que perguntou. — Nós nos separamos. — Eu estou bem, eu acho. Pelo menos enquanto estou ocupada. Mas com as coisas em segundo plano desacelerando, eu sou uma bola de nervos. Papai está em destroços. E está me matando o fato de Ahren não ter voltado. Eu pensei que ele viria pela mamãe, mas nem mesmo telefonou. Ele não deveria, pelo menos, ter feito isso?
Engoli em seco, sabendo que eu estava ficando muito difícil.
Kile pegou minha mão.
— Ok, vamos pensar sobre isso. Ele voou para França e se casou com Camille em um dia. Tem que haver uma tonelada de papelada oficial e outras coisas por em ordem. E há uma chance de que ele nem sequer ouviu sobre o que aconteceu.
Eu balancei a cabeça.
— Você está certo. E sei que ele se importa. Ele me deixou uma carta, e ela era honesta demais para eu questionar isso.
— Veja, ai está. E ontem à noite seu pai parecia estar a dois segundos de distância da necessidade de ser levado para o hospital. Estar com sua mãe e monitorá-la provavelmente lhe dá uma sensação de controle quando não há absolutamente nenhum. Além disso, ela já enfrentou muita coisa e sempre foi forte. Lembra-se da visita daquele embaixador?
Eu sorri.
— Você quer dizer aquele da União Argentina-Paraguaia?
— Sim! — Exclamou. — Eu ainda posso imaginá-lo perfeitamente. Ele era tão rude com todos, caindo, de bêbado, ao meio-dia por dois dias seguidos. Até que sua mãe, finalmente, agarrou-o pela orelha e o arrastou pela porta da frente.
Eu balancei minha cabeça.
— Eu lembro. Lembro-me também dos intermináveis telefonemas que se seguiram, tentando acalmar as coisas com o presidente deles.
Kile afastou esse detalhe distante.
— Esqueça isso. Apenas lembre-se que sua mãe não iria deixar as coisas simplesmente acontecerem com ela. Quando algo tenta arruinar sua vida, ela o arrasta para a rua.
Eu sorri.
— Verdade.
Ficamos ali, quietos por um momento, e foi agradável e calmo. Eu nunca tinha estado tão grata.
— Eu estou ocupada o resto do dia, mas talvez pudéssemos passar algum tempo juntos amanhã à noite?
Ele assentiu.
— Claro.
— Há muito o que falar.
Suas sobrancelhas se uniram.
— Como o quê?
Nós dois nos viramos ao mesmo tempo, observando a silhueta de alguém que chegava perto.
— Desculpe-me, Sua Alteza — disse o guarda com uma reverência — mas você tem um visitante.
— Um visitante?
Ele balançou a cabeça, não me dando informação alguma a respeito de quem poderia ser.
Suspirei.
— Bem. Vou entrar em contato mais tarde, ok?
Kile deu um aperto de mão rápido.
— Certo. Diga-me se você precisar de alguma coisa.
Eu sorri enquanto me afastava, sabendo que ele quis dizer aquilo de verdade. No fundo da minha mente, eu tinha certeza de que todos os jovens naquela sala teriam pressa para me ajudar se eu precisasse deles, e isso era como pequena luz brilhante num dia de muitas sombras.
Dobrei as escadas, tentando adivinhar quem estava aqui. Se tivesse sido da família, eles seriam levados a sala; e se fosse um governador ou algum outro visitante oficial, eles enviavam um cartão.
Quem era tão importante que ele não poderia nem mesmo ser anunciado?
Enquanto eu descia para o primeiro andar, a resposta à minha pergunta estava lá, seu sorriso brilhante fazendo a minha respiração prender.
Marid Illéa não tinha posto os pés no palácio em anos. Da última vez que eu tinha posto os olhos nele, ele era um pré-adolescente desengonçado que não teve domínio o bastante em uma conversa convencional. Mas suas bochechas redondas tinham se transformado em uma linha de mandíbula afiada o suficiente para cortar, e seus membros fibrosos tinham se preenchido, batendo nas costuras de seu terno com perfeita precisão.
Ele segurou o meu olhar enquanto eu me aproximava, e mesmo com suas mãos segurando uma cesta demasiadamente cheia, curvou-se e sorriu como se ele estivesse completamente desimpedido.
— Sua Alteza — disse ele. — Sinto muito por vir sem aviso prévio, mas assim que ouvimos falar sobre sua mãe, sentimos que tínhamos que fazer alguma coisa. Assim...
Ele estendeu a cesta para mim. Estava cheia de presentes. Flores, livros finos, potes de sopa com fitas em torno das tampas, e até mesmo um alguns itens de padaria que pareciam tão bons que foi difícil não pegar um para mim.
— Marid — eu disse, como uma saudação, uma pergunta e um aviso, tudo de uma vez. — Isto é muito nobre, considerando os acontecidos.
Ele encolheu os ombros.
— As discordâncias não significam uma perda de compaixão. Nossa rainha está doente, e este era o mínimo que podemos fazer.
Eu sorri, movida por sua aparição repentina. Fiz um gesto para um guarda.
— Leve isso para a ala hospitalar, por favor.
Ele pegou a cesta de presentes, e eu me virei de volta para Marid.
— Seus pais não quiseram vir?
Ele enfiou as mãos nos bolsos e fez uma careta.
— Eles tiveram medo que a visita parecesse mais política do que pessoal.
Eu balancei a cabeça.
— Compreensível. Mas, por favor, diga-lhes para que não se preocupem sobre isso no futuro. Eles ainda são bem-vindos aqui.
Marid suspirou.
— Eles não pensam assim, não depois da... saída deles.
Eu apertei os lábios, lembrando de tudo claramente.
August Illéa e meu pai tinham trabalhado juntos depois que meus avós morreram, tentando dissolver as castas tão rapidamente quanto eles poderiam. Quando August queixou-se que a mudança não estava acontecendo rápido o suficiente, meu pai tirou seu posto e disse-lhe para ele respeitar seu plano.
Quando meu pai não conseguia apagar o estigma da inferioridade nas castas, August disse que ele precisava por sua “bunda mimada” fora do palácio, nas ruas. Meu pai sempre tinha sido um homem paciente, e, pelo que eu me lembrava de August, ele estava sempre no limite.
No final, houve uma grande briga, e August e Georgia embalaram suas coisas, incluindo seu filho tímido, em meio a um furacão de mágoa e raiva.
Eu tinha ouvido a voz de Marid uma ou duas vezes no rádio desde então, dando um comentário político ou aconselhamento empresarial, mas era estranho agora, desde a sincronização de sua voz até os movimentos dos lábios, vendo-o sorrir com tanta facilidade quando eu me lembrava dele, na maioria das vezes, fechado em si mesmo quando era mais jovem.
— Honestamente, eu não entendo por que os nossos pais não têm se falado recentemente. Você certamente já viu os problemas com a discriminação pós-castas que temos tentado acalmar. Eu pensei que um deles pudesse romper isso e procurar o outro. É o passado de um ponto de orgulho, não mais.
Marid estendeu um braço.
— Talvez pudéssemos falar disso numa caminhada?
Liguei o meu braço no dele, e nós começamos a andar para o corredor.
— Como vão as coisas até agora?
Dei de ombros.
— O melhor possível nas circunstâncias.
— Eu gostaria de dizer-lhe para olhar para o lado bom, mas pode ser difícil encontrar um.
— Até agora, tudo em que posso pensar é que estou ajudando meus pais.
— Verdade. E quem sabe? Você pode ser capaz de fazer algumas alterações importantes enquanto você está no cargo. Como no caso de todas essas questões pós-castas. Nossos pais podem não ter feito direito, mas talvez você pudesse.
Esse pensamento me confortou menos do que ele pretendia. Eu não espero estar no controle tempo o suficiente para fazer qualquer alteração em tudo.
— Não tenho certeza de que eu seja capaz disso.
— Bem, Alteza...
— Por favor, Marid. É Eadlyn. Você me conhece desde antes de eu nascer.
Ele sorriu.
— Verdade. Ainda assim, você é a regente agora, e parece errado não tratá-la adequadamente.
— E como devo chamá-lo?
— Com nada diferente de um sujeito leal. Eu gostaria de oferecer qualquer ajuda que puder nesse momento de tensão. E eu sei que a dissolução das castas não foi tão impecável como todos esperavam, nem mesmo no começo. Passei anos emprestando meu ouvido para o público. Eu acho que já os ouvi muito claramente, e se o meu comentário for útil, por favor me avise.
Arqueei minhas sobrancelhas enquanto eu considerava suas palavras. Eu conheci muito mais sobre as vidas das pessoas comuns nos dias de hoje graças à Seleção, mas um especialista em opinião pública poderia ser uma ferramenta perfeita para ter em meu arsenal. E mesmo que eu não tenha grandes ambições para o meu curto período de tempo no trono, algo como isso poderia mostrar as pessoas que eu me importava, e que era crítico. Especialmente considerando o que Ahren havia dito em sua carta.
Cada vez que eu me lembrava de suas palavras, era como ser atingida com um soco dele, mas eu sabia que ele não teria me dito que as pessoas me desprezam se ele não pensasse que serviria para alguma coisa boa. Mesmo com a sua partida, eu confiava nisso.
— Obrigada, Marid. Se eu pudesse fazer qualquer coisa para aliviar o estresse que esta situação tem trazido para o meu pai, seria uma grande bênção. Quando ele estiver pronto para voltar ao trabalho, eu gostaria que o país estivesse o mais calmo do que ele viu em anos. Eu vou entrar em contato.
Ele tirou um cartão do bolso e entregou-o para mim.
— Esse é o meu número pessoal. Ligue a qualquer momento.
Eu sorri.
— Será que seus pais não vão ficar chateados com o fato de que você está me ajudando? Não está confraternizando com o inimigo?
— Não, não — disse ele, seu tom leve. — Nossos pais tinham o mesmo objetivo. Eles simplesmente tinham diferentes métodos de alcançá-lo. E agora, com a sua mãe doente, você não deveria ter que se preocupar tanto sobre coisas que são solucionáveis, e o moral do país é certamente uma delas. Agora, mais do que nunca, acho que nossos pais irão aprovar o fato de nós trabalharmos juntos.
— Vamos torcer — eu disse. — Muitas coisas foram quebradas recentemente. Alguns remendos me fariam bem.

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