sábado, 14 de maio de 2016

Capítulo 39

Quer bater no Leo?
Algo supercompreensível
O Garanhão mereceu

OS SEMIDEUSES TIVERAM QUE pegar senha.
Nico saiu distribuindo papeizinhos com números, gritando:
— A fila começa à esquerda! Fila única, pessoal!
— Isso é mesmo necessário? — perguntou Leo.
— É — disse Miranda Gardiner, que pegou o primeiro número.
Ela deu um soco no braço de Leo.
— Ai! — reclamou ele.
— Você é um idiota e a gente odeia você — disse Miranda. Em seguida, o abraçou e lhe deu um beijo na bochecha. — Se desaparecer outra vez, vamos fazer fila para matar você.
— Tudo bem, tudo bem!
Miranda teve que ir embora, porque a fila estava ficando bem comprida atrás dela. Percy e eu nos sentamos à mesa de piquenique com Leo e sua companheira, ninguém menos do que a feiticeira imortal Calipso. Embora Leo estivesse recebendo socos de todo mundo no acampamento, eu tinha certeza de que ele era a pessoa menos desconfortável ali.
Quando se viram, Percy e Calipso deram um abraço constrangido. Eu não testemunhava um cumprimento tão tenso desde que Pátroclo conheceu o prêmio de guerra de Aquiles, Briseida. (Longa história. Fofoca das boas. Me pergunte depois.) Calipso nunca gostou de mim, então fez questão de me ignorar, mas fiquei esperando que gritasse “BU!” e me transformasse em perereca. O suspense estava me matando.
Percy abraçou Leo, nada de socos. Mesmo assim, o filho de Poseidon parecia indignado.
— Não consigo acreditar — disse ele. — Seis meses...
— Eu já falei — disse Leo. — Nós tentamos mandar mais pergaminhos holográficos. Tentamos mensagens de Íris, visões em sonhos, telefonemas. Nada funcionou. Ai! Oi, Alice, como vai? Enfim, nós tivemos um problema atrás do outro.
Calipso assentiu.
— A Albânia foi particularmente difícil.
Do meio da fila, Nico di Angelo gritou:
— Por favor, não mencionem a Albânia! E aí, quem é o próximo? A fila é única.
Damien White deu um soco no braço de Leo e saiu andando e sorrindo. Eu não sabia nem se Damien conhecia Leo. Acho que ele só não podia perder a chance de dar um soco em alguém.
Leo massageou o bíceps.
— Ei, não é justo. Aquele cara está voltando para a fila. Mas, como eu estava dizendo, se Festus não tivesse captado o sinal daquele sinalizador ontem, nós ainda estaríamos voando por aí, procurando um jeito de sair do Mar de Monstros.
— Ah, odeio aquele lugar — disse Percy. — Eles têm um ciclope enorme, Polifemo...
— Não é? — concordou Leo. — Qual é a do bafo daquele cara?
— Meninos — disse Calipso —, que tal a gente se concentrar no presente?
Ela não olhou para mim, mas tive a impressão de que com “presente” ela quis dizer “esse ex-deus tolo e seus problemas”.
— É — disse Percy. — Esses problemas de comunicação... Rachel Dare acha que tem alguma coisa a ver com essa tal de empresa Triunvirato.
Rachel tinha ido à Casa Grande chamar Quíron, mas Percy nos contou de forma resumida o que ela havia descoberto sobre os imperadores e a corporação do mal. Claro que não sabíamos muito.
Depois dos socos de mais seis pessoas, o filho de Hefesto já estava inteirado do assunto.
Ele massageou o braço dolorido.
— Cara, por que não me surpreende corporações modernas serem chefiadas por imperadores romanos zumbis?
— Eles não são zumbis — falei. — E não sei se eles chefiam todas as corporações...
Leo descartou minhas explicações.
— Mas eles estão tentando conquistar os oráculos.
— Sim — concordei.
— E isso é ruim.
— Muito.
— Então você precisa da nossa ajuda. Ai! Ei, Sherman. Onde você arrumou essa cicatriz, cara?
Enquanto Sherman contava para Leo a história da Chutadora de Virilhas McCaffrey e do Bebê Demônio Pêssego, eu observei Calipso.
Ela estava bem diferente do que eu lembrava. O cabelo ainda era comprido e tinha aquele tom castanho e caramelo. Os olhos amendoados ainda eram escuros e inteligentes. Mas, agora, em vez de quíton, ela usava uma calça jeans moderna, uma blusa branca e um casaco de esqui rosa-shocking.
Parecia mais nova, da minha idade mortal. Eu me perguntei se ela foi punida com a mortalidade por abandonar a ilha encantada. Se foi, não parecia justo manter a beleza inigualável. Ela não tinha banha nem acne.
Enquanto eu a examinava, ela esticou dois dedos na direção do outro lado da mesa de piquenique, onde uma jarra de limonada suava à luz do sol. Eu já a vira fazer esse tipo de coisa, ordenar que seus servos aéreos invisíveis levassem objetos até ela. Daquela vez, nada aconteceu.
Uma expressão de decepção surgiu em seu rosto. E então, ela se deu conta de que eu estava olhando. Suas bochechas ficaram vermelhas.
— Desde que deixei Ogígia, não tenho mais poderes — admitiu ela. — Sou totalmente mortal. Não perco as esperanças, mas...
— Quer beber alguma coisa? — perguntou Percy.
— Pode deixar.
Leo alcançou a jarra primeiro.
Eu não esperava sentir solidariedade por Calipso. Nós dissemos palavras duras um para o outro no passado. Alguns milênios atrás, eu me opus à petição dela para sair de Ogígia antes do prazo determinado por causa de um... ah, um drama entre nós. (Longa história. Fofoca das boas. Não me pergunte depois.)
Mesmo assim, como deus caído, eu entendia como era desconcertante ficar sem seus poderes. Por outro lado, fiquei aliviado. Isso queria dizer que ela não podia me transformar em perereca nem pedir que seus servos aéreos me jogassem de cima da Atena Partenos.
— Aqui está.
Leo entregou a ela um copo de limonada. Ele parecia mais sombrio e ansioso, como se... É, bem, faz sentido. Leo salvou Calipso da ilha-prisão. Com isso, Calipso perdeu seus poderes, e Leo se sentia responsável.
Calipso sorriu, mas seus olhos ainda traziam um toque de melancolia.
— Obrigada, gatinho.
— Gatinho? — perguntou Percy.
O rosto de Leo se iluminou.
— É. Mas ela não quer me chamar de Garanhão. Não sei por quê... Ai!
Era a vez de Harley. O garotinho deu um soco em Leo, depois o abraçou e começou a chorar.
— Oi, mano. — Leo bagunçou o cabelo dele e teve o bom senso de parecer envergonhado. — Você me trouxe para casa com esse seu sinalizador, Mestre H. Você é um herói! Sabe que eu nunca teria deixado você sem resposta daquele jeito de propósito, né?
Harley chorou e assentiu. Depois, deu outro soco em Leo e saiu correndo. Leo parecia prestes a vomitar. Harley era forte.
— De qualquer modo — disse Calipso —, esses problemas com os imperadores romanos... como podemos ajudar?
Eu arqueei as sobrancelhas.
— Você vai me ajudar, então? Apesar de... ah, bom, eu sempre soube que você tinha um coração gentil e misericordioso, Calipso. Pretendia visitar você em Ogígia com mais frequência...
— Me poupe. — Calipso tomou um gole de limonada. — Vou ajudar você se Leo decidir ajudar, e ele parece ter alguma afeição por você, não sei por quê.
Eu soltei o ar que estava prendendo havia... ah, uma hora.
— Fico agradecido. Leo Valdez, você sempre foi um cavalheiro e um gênio. Afinal, o Valdezinator é criação sua.
Leo sorriu.
— Eu criei, né? Acho que foi uma coisa bem legal. E onde fica esse próximo oráculo que você... Ai!
Tinha chegado a vez de Nyssa. Ela deu um tapa em Leo e o repreendeu em um espanhol desenfreado.
— Tá, tudo bem, tudo bem. — Leo massageou o rosto. — Caramba, hermana, eu também amo você!
Ele voltou a atenção para mim.
— E esse próximo oráculo, você disse que era onde?
Percy bateu na mesa de piquenique.
— Quíron e eu estávamos falando sobre isso. Ele acha que essa coisa de triunvirato... que eles dividiram os Estados Unidos em três partes, com um imperador encarregado de cada uma. Sabemos que Nero está entocado em Nova York, então achamos que o próximo oráculo fica no território do segundo cara, talvez no Meio-Oeste dos Estados Unidos.
— Ah, o Meio-Oeste dos Estados Unidos! — Leo abriu os braços. — Moleza, então. Vamos só procurar no centro do país!
— Sempre sarcástico — comentou Percy.
— Ei, cara, eu naveguei com os vigaristas mais sarcásticos por todos os sete mares.
Os dois fizeram um high five, apesar de eu não ter entendido bem por quê. Pensei em um trecho da profecia que ouvi no bosque, alguma coisa sobre Indiana. Poderia ser um ponto de partida...
A última pessoa da fila era o próprio Quíron, empurrado na cadeira de rodas por Rachel Dare. O velho centauro deu um sorriso caloroso e paternal para Leo.
— Meu garoto, fico tão feliz de ter você de volta. E você libertou Calipso, estou vendo. Muito bem, e bem-vindos, os dois!
Quíron abriu os braços.
— Ah, obrigado, Quíron.
Leo se inclinou para a frente para abraçá-lo.
De debaixo do cobertor no colo de Quíron, a perna equina da frente surgiu e acertou com o casco na barriga de Leo. Com a mesma agilidade, a perna sumiu.
— Sr. Valdez — disse Quíron, mantendo o tom gentil —, se você fizer qualquer outra coisa parecida novamente...
— Eu entendi, eu entendi! — Leo massageou a barriga. — Caramba, para um professor você tem um chute forte à beça.
Rachel sorriu e empurrou Quíron para longe. Calipso e Percy ajudaram Leo a se levantar.
— Aí, Nico — gritou Leo —, me diga que acabaram as agressões físicas.
— Por enquanto. — Nico sorriu. — Ainda estamos tentando falar com a Costa Oeste. Tem algumas dezenas de pessoas lá que vão querer bater em você também.
Leo fez uma careta.
— Nossa, mal posso esperar! Bom, acho melhor eu me cuidar, então, para resistir à próxima leva de socos. Onde vocês vão almoçar, agora que o Colosso destruiu o pavilhão de jantar?

* * *

Percy foi embora naquela noite, antes do jantar.
Eu esperava uma despedida emocionada; ele me pediria conselhos sobre provas, ser herói e viver a vida em geral. Depois que ele me ajudou a derrotar o Colosso, seria o mínimo que eu poderia fazer.
Mas ele estava mais interessado em se despedir de Leo e Calipso. Não participei da conversa deles, mas os três pareceram ter se entendido. Percy e Leo se abraçaram. Calipso deu até um beijinho na bochecha de Percy. Depois, o filho de Poseidon adentrou o Estreito de Long Island com seu cachorro extremamente grande e os dois desapareceram debaixo da água. A sra. O’Leary nadava? Viajava pelas sombras das baleias? Eu não sabia.
Como o almoço, o jantar foi um evento casual. Quando a noite caiu, nós comemos em toalhas de piquenique ao redor da lareira, que ardia com o calor de Héstia e afastava o frio do inverno. O dragão Festus foi farejar ao redor dos chalés, cuspindo fogo no céu de vez em quando por nenhum motivo aparente.
— Ele levou umas pancadas quando estávamos na Córsega — explicou Leo. — Às vezes, cospe aleatoriamente, desse jeito.
— Mas ainda não fritou ninguém importante — acrescentou Calipso, com a sobrancelha arqueada. — Vamos ver se ele vai gostar de você.
Os olhos vermelhos brilhantes de Festus reluziam na escuridão. Depois de dirigir a carruagem do sol por tanto tempo, não fiquei nervoso por ter que subir em um dragão de metal, mas, quando pensei no lugar para onde estávamos indo, gerânios floresceram na minha barriga.
— Eu queria ir sozinho — contei a eles. — A profecia de Dodona fala de um comedor de fogo de bronze, mas... me parece errado pedir para vocês arriscarem suas vidas. Vocês passaram por tanta coisa só para chegarem aqui.
Calipso inclinou a cabeça, intrigada.
— Talvez você realmente tenha mudado. Isso não me parece coisa do Apolo de quem me lembro. Sem contar que você já foi bem mais bonito.
— Eu ainda estou bem bonito — protestei. — Só preciso me livrar dessas espinhas.
Ela deu um sorrisinho debochado.
— É, acho que você não perdeu totalmente a arrogância.
— Como é?
— Pessoal — interrompeu Leo —, se vamos viajar juntos, vamos tentar ser amigos. — Ele apertou uma bolsa de gelo no bíceps dolorido. — Além do mais, nós estávamos mesmo planejando ir para a Costa Oeste. Tenho que encontrar meus amigos Jason e Piper e Frank e Hazel e... bom, todo mundo do Acampamento Júpiter, acho. Vai ser divertido.
— Divertido? — perguntei. — O Oráculo de Trofônio, ao que tudo indica, vai me arremessar em um mar de morte e loucura. Mesmo que eu sobreviva a isso, minhas outras provações sem dúvida serão longas, dolorosas e muito provavelmente fatais.
— Exatamente — disse Leo. — Divertido. Mas não sei se é uma boa ideia chamar essa missão de Provações de Apolo. Acho que devíamos chamá-la de Turnê Mundial da Volta da Vitória de Leo Valdez.
Calipso riu e entrelaçou os dedos nos de Leo. Ela podia não ser mais imortal, mas ainda tinha uma graça e tranquilidade que eu não conseguia compreender. Talvez sentisse falta dos poderes, mas parecia genuinamente feliz com Valdez... e nessa nova forma jovem e mortal, mesmo que isso significasse que ela podia morrer a qualquer momento.
Ao contrário de mim, ela escolheu ser mortal. Sabia que deixar Ogígia era um risco, mas agiu por vontade própria. Foi muito corajosa.
— Ei, cara — disse Leo. — Não fique assim. Nós vamos encontrá-la.
Eu me mexi, um pouco desconcertado.
— O quê?
— Sua amiga Meg. Nós vamos encontrá-la. Não se preocupe.
Uma bolha de escuridão explodiu dentro de mim. Pela primeira vez, eu não estava pensando em Meg. Estava pensando em mim, e isso me fez sentir culpa. Talvez Calipso estivesse certa ao questionar se eu realmente havia mudado.
Olhei para a floresta silenciosa. Lembrei-me de Meg me arrastando pela mata quando eu estava com frio, encharcado e delirante. Lembrei que ela lutou sem medo contra os myrmekos e que mandou Pêssego apagar o fósforo quando Nero estava prestes a botar fogo nos reféns, apesar do medo de libertar o Besta. Eu tinha que fazê-la perceber que Nero era mau, muito mau. Tinha que encontrá-la. Mas como?
— Meg sabe a profecia — falei. — Se contar a Nero, ele também vai saber nosso plano.
Calipso deu uma mordida na maçã.
— Eu não sei de nada que aconteceu no Império Romano. Um imperador pode ser tão ruim assim?
— Ah, pode — garanti a ela. — E ele se aliou a outros dois. Não sabemos quais, mas é seguro supor que são igualmente implacáveis. Tiveram séculos para acumular fortunas, adquirir propriedades, construir exércitos... Quem sabe do que são capazes?
— Ah — disse Leo. — Nós derrotamos Gaia em uns quarenta segundos. Isso vai ser moleza.
Eu recordava que o que nos levou à luta com Gaia envolveu meses de sofrimento e encontros de raspão com a morte. Leo morreu, na verdade. Eu também queria lembrá-lo que o triunvirato podia muito bem ter orquestrado nossos problemas anteriores com os titãs e gigantes, o que os tornaria mais poderosos do que qualquer coisa que Leo já tivesse enfrentado. Mas decidi que mencionar isso poderia afetar o ânimo do grupo.
— Nós vamos conseguir — disse Calipso. — Temos que conseguir. Então, vamos conseguir. Eu fiquei presa em uma ilha por milhares de anos. Não sei quanto tempo essa vida mortal vai durar, mas pretendo viver intensamente e sem medo.
— Essa é minha mamacita — disse Leo.
— O que já falei sobre me chamar de mamacita?
Leo deu um sorrisinho encabulado.
— De manhã, vamos pegar nossos suprimentos. Assim que Festus passar por um ajuste e uma troca de óleo, poderemos partir.
Pensei nos suprimentos que levaria comigo. Eu tinha pouquíssimas coisas: roupas emprestadas, um arco, um ukulele e uma flecha teatral demais.
No entanto, a verdadeira dificuldade seria me despedir de Will, Austin e Kayla. Eles me ajudaram tanto e me receberam tão bem; fizeram por mim mais do que eu jamais fiz por eles. Lágrimas arderam nos meus olhos. Antes que eu pudesse começar a chorar, Will Solace apareceu, iluminado pela luz da lareira.
— Ei, pessoal! Nós fizemos uma fogueira no anfiteatro! É hora da cantoria. Venham!
Houve suspiros misturados com gritos de alegria, mas quase todo mundo se levantou e seguiu para a fogueira, onde Nico di Angelo aparecia delineado pelas chamas, preparando espetos de marshmallows no que pareciam ossos de fêmur.
— Ah, cara. — Leo fez uma careta. — Sou péssimo em cantorias. Eu sempre bato palmas fora de hora e canto o refrão errado. Podemos pular essa parte?
— Ah, não! — falei.
Eu me levantei, me sentindo melhor de repente. Era possível que amanhã eu fosse chorar e pensar nas despedidas. Era possível que em dois dias nós voássemos direto para a morte. Mas, hoje, eu pretendia me divertir com minha família. O que Calipso disse? Viver intensamente e sem medo. Se ela podia fazer isso, o brilhante e fabuloso Apolo também podia.
— Cantar é bom para os espíritos. Você nunca deve desperdiçar uma oportunidade de cantar — insisti.
Calipso sorriu.
— Não acredito que vou dizer isso, mas pela primeira vez concordo com Apolo. Venha, Leo. Vou ensinar as harmonias a você.
Juntos, nós três andamos em direção aos sons de gargalhadas, à música e ao fogo quente crepitando.

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