sábado, 14 de maio de 2016

Capítulo 35

Estátua desnuda
Ou um Colosso Neurótico
Cadê a cueca?

ATÉ MEUS DONS SOBRENATURAIS de descrição me fugiram naquela hora.
Imagine como é se ver representado em uma estátua de bronze de trinta metros, uma réplica da sua magnificência brilhando sob a luz do fim da tarde.
Agora, imagine que essa estátua ridiculamente linda está saindo do Estreito de Long Island e subindo pela margem norte. Na mão, traz um leme de navio, uma lâmina do tamanho de um bombardeiro, presa em uma haste de quinze metros, que o sr. Bonitão está levantando para esmigalhar o Acampamento Meio-Sangue.
Foi essa visão que nos recebeu quando chegamos voando da floresta.
— Como essa coisa está viva? — perguntou Kayla. — O que Nero fez? Comprou on-line?
— A Triunvirato S.A. tem muitos recursos — expliquei. — Eles tiveram séculos para se preparar. Quando reconstruíram a estátua, só precisaram enchê-la de magia, normalmente direcionando as forças vitais dos espíritos do vento ou da água. Não tenho certeza. Hefesto entende mais dessas coisas.
— E como matamos a criatura?
— Estou... estou trabalhando nisso.
Por todo o vale, campistas gritavam e corriam para pegar suas armas. Nico e Will estavam se debatendo no lago, aparentemente depois de a canoa deles ter sido virada. Quíron galopava pelas dunas, atacando o Colosso com suas flechas. Até para os meus padrões, Quíron era um excelente arqueiro. Ele mirou nas juntas e fendas, mas seus disparos não pareceram fazer nem cosquinha no autômato. Dezenas de flechas estavam presas às axilas e ao pescoço do Colosso, como pelos descontrolados.
— Mais aljavas! — gritou Quíron. — Rápido!
Rachel Dare cambaleou para fora do arsenal levando umas seis e, depressa, as entregou ao centauro.
O Colosso tentou usar o leme para esmagar o pavilhão de refeições, mas a lâmina se chocou contra a fronteira mágica do acampamento e soltou fagulhas, como se tivesse atingido metal. O sr. Bonitão deu mais um passo em terra firme, porém a barreira o empurrou de volta com a força de um túnel de vento.
Na Colina Meio-Sangue, uma aura prateada envolvia a Atena Partenos. Eu não sabia se os semideuses podiam ver, mas de vez em quando um raio de luz ultravioleta era disparado do elmo de Atena, que funcionava como um holofote, acertando o peito do Colosso e afastando o invasor. Ao lado dela, no pinheiro alto, o Velocino de Ouro brilhava com energia vibrante. O dragão Peleu sibilava e andava ao redor do tronco, pronto para defender seu território.
Eram forças poderosas, mas não era preciso ser nenhum deus para saber que em breve elas falhariam. As barreiras defensivas do acampamento estavam preparadas para afastar um monstro qualquer ocasional, para confundir mortais e impedir que detectassem o vale e para fornecer uma linha rápida de defesa contra forças invasoras. Um gigante de bronze celestial criminalmente lindo de trinta metros era uma coisa bem diferente. Em pouco tempo o Colosso romperia a barreira e destruiria tudo no caminho.
— Apolo! — Kayla me cutucou. — O que a gente vai fazer?
Respirei fundo, mais uma vez com a percepção desagradável de que esperavam que eu tivesse respostas. Meu primeiro instinto foi pedir que um semideus experiente tomasse a frente. O fim de semana ainda não tinha chegado? Onde estava Percy Jackson? E aqueles pretores romanos Frank Zhang e Reyna Ramírez-Arellano? Sim, eles se sairiam bem.
Meu segundo instinto foi me virar para Meg McCaffrey. Como me acostumei rápido com a presença irritante e estranhamente afável dela! Mas ela tinha ido embora. Sua ausência era um Colosso pisoteando meu coração. (Essa foi uma metáfora fácil de bolar, pois o Colosso estava no momento pisoteando muitas coisas.)
As formigas-soldados ao redor de Mama esperavam as ordens da rainha. Os semideuses me olharam, aflitos, com pedaços aleatórios de pano voando de seus corpos enquanto seguíamos pelos ares. Eu me inclinei para a frente e, com delicadeza, me dirigi a Mama:
— Sei que não posso pedir que você arrisque sua vida por nós.
Mama zumbiu como se dissesse: Você está certíssimo!
— Mas você poderia dar uma volta na cabeça da estátua? — pedi. — Só o bastante para distraí-la. Depois, pode nos deixar na praia?
Ela estalou as mandíbulas, em dúvida.
— Você é a melhor mãe do mundo — acrescentei —, e está linda hoje.
Essa tática sempre funcionava com Leto, e também funcionou com a Mama formiga. Ela tremeu as antenas, talvez enviando um sinal de alta frequência para os soldados, e as três formigas viraram para a direita.
Abaixo de nós, mais campistas entraram na batalha. Sherman Yang prendera dois pégasos a uma carruagem e agora corria ao redor das pernas da estátua enquanto Julia e Alice jogavam dardos elétricos nos joelhos do Colosso. Os disparos acertaram as juntas e descarregaram raios de luz azul, mas a estátua não deu a mínima. Enquanto isso, nos pés dela, Connor Stoll e Harley usavam lança-chamas idênticos para dar ao Colosso o melhor serviço de derretimento de pés da área, enquanto as gêmeas de Nice cuidavam de uma catapulta, jogando rochas na virilha de bronze celestial do monumento.
Malcolm Pace, um verdadeiro filho de Atena, estava coordenando os ataques de um posto de comando montado às pressas no gramado central. Ele e Nyssa haviam espalhado mapas em uma mesa de jogo e estavam gritando coordenadas de alvos enquanto Chiara, Damien, Paulo e Billie corriam para montar balistas ao redor da lareira comunitária.
Malcolm era um ótimo comandante, a não ser por um detalhe: na correria, ele se esqueceu de vestir a calça. A cueca vermelha causava uma impressão e tanto junto com a espada e a couraça.
Mama mergulhou em direção ao Colosso, fazendo com que meu estômago despencasse junto.
Reservei um momento para apreciar as feições majestosas da estátua, a testa de metal envolta em uma coroa espinhenta que representava os raios de sol. O Colosso deveria ser a representação de Nero como o deus-sol, mas o imperador teve a sabedoria de deixar o rosto mais parecido com o meu do que com o dele. Só a linha do nariz e a barba horrível no pescoço indicavam a feiura característica de Nero.
Além do mais... eu mencionei que a estátua de trinta metros estava totalmente nua? Claro que estava. Os deuses quase sempre são retratados nus, porque somos seres sem defeitos. Por que alguém cobriria a perfeição? Mesmo assim, foi meio desconcertante ver meu eu peladão andando por aí, batendo com um leme de navio no Acampamento Meio-Sangue.
Quando nos aproximamos do Colosso, gritei:
— IMPOSTOR! EU SOU O VERDADEIRO APOLO! VOCÊ É FEIO!
Ah, querido leitor, você não sabe como foi difícil gritar essas palavras para meu próprio rosto lindo, mas eu realmente fiz isso. Para você ver como eu era corajoso!
O Colosso não gostou de ser insultado. Quando Mama e seus soldados se afastaram, a estátua levantou o leme para nos golpear.
Você já colidiu com um bombardeiro? Tive um flashback repentino de Dresden, na Alemanha, em 1945, quando havia tantos aviões no céu que foi impossível encontrar uma pista segura no ar. O eixo da carruagem do Sol ficou desalinhado durante semanas depois disso.
Percebi que as formigas não voavam rápido o suficiente para fugir do alcance do leme. Vi a catástrofe se aproximando em câmera lenta. No último segundo, gritei:
— Mergulhem!
Nós mergulhamos com tudo. O leme passou de raspão nas asas das formigas, mas foi o bastante para nos arremessar em direção à praia.

* * *

Fiquei agradecido pela areia macia.
Comi um monte dela quando caímos.
Por pura sorte, nenhum de nós morreu, mas Kayla e Austin tiveram que me ajudar a me levantar.
— Você está bem? — perguntou Austin.
— Estou — respondi. — Temos que ir logo.
O Colosso olhou para nós, provavelmente tentando discernir se já estávamos agonizando e prestes a morrer ou se precisávamos de uma dor adicional. Eu queria chamar a atenção dele e consegui. Viva.
Olhei para Mama e seus soldados, que estavam se sacudindo para tirar areia da carapaça.
— Obrigado. Agora se salvem. Voem!
Não precisei falar duas vezes. Acho que as formigas têm um medo natural de humanoides enormes prestes a esmagá-las com um pé gigante. Mama e os guardas sumiram zumbindo no céu. Miranda olhou para eles.
— Eu nunca achei que diria isso sobre insetos, mas vou sentir falta deles.
— Ei! — gritou Nico di Angelo.
Ele e Will subiram as dunas, ainda encharcados por causa do mergulho no lago de canoagem.
— Qual é o plano?
Will parecia calmo, mas eu o conhecia bem o suficiente agora para saber que por dentro estava inquieto como um fio desencapado.
BUM.
A estátua virou na nossa direção. Mais um passo e estaria em cima de nós.
— Não tem uma válvula de controle no tornozelo dela? — perguntou Ellis. — Se conseguirmos abrir...
— Não — falei. — Você está pensando em Talos. Este não é Talos.
Nico afastou o cabelo molhado da testa.
— Qual é nossa outra opção?
De onde eu estava, tinha uma vista linda do nariz do Colosso. As narinas eram seladas com bronze... acho que porque Nero não queria que seus detratores tentassem disparar flechas na cachola imperial.
Eu dei um gritinho.
Kayla segurou meu braço.
— Apolo, o que foi?
Flechas entrando na cabeça do Colosso. Ah, deuses, eu tive uma ideia que nunca, jamais funcionaria. No entanto, parecia melhor do que a outra opção, que era ser esmagado por um pé de bronze de duas toneladas.
— Will, Kayla, Austin — chamei —, venham comigo.
— E Nico — disse Nico. — Tenho atestado médico.
— Tudo bem! — concordei. — Ellis, Cecil, Miranda... façam o que puderem para chamar a atenção do Colosso.
A sombra de um pé enorme escureceu a areia.
— Agora! — gritei. — Se espalhem!

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