quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 34

ENTREI COMO UM FURAÇÃO na sala, procurando por Eikko. Eu não podia vê-lo na multidão de pessoas que corria em torno de mim.
Tropecei para o palco enquanto a luz da câmera ficava vermelha e tirei meu cabelo do rosto enquanto começava a falar sem absolutamente nenhuma ideia de onde as minhas palavras me levariam.
— Boa noite, Illéa.
Quebrei todas as regras que aprendi sobre os discursos públicos. Minha postura estava curvada, meu tom era irregular e eu não me incomodei em olhar para a câmera, porque estava ocupada demais procurando por Eikko.
— Temos um pouco de surpresa para vocês esta noite. Nesta edição especial do Jornal Oficial, venho com um importante anúncio.
Finalmente eu vi, meio escondido atrás de Henri.
— Por favor, se juntem a mim para saudar o Sr. Eikko Koskinen no palco.
A sala aplaudiu, e fiquei ali esperando que ele enfrentasse as câmeras por mim. Eikko engoliu e ajeitou a gravata enquanto Henri lhe deu tapinhas nas costas, instigando-o a se mover.
Peguei a mão dele e o convidei a ficar do meu lado, me sentindo um pouco tonta e preocupada que ele pudesse estar se sentindo da mesma maneira.
— Alguns de vocês podem se lembrar deste senhor de um Jornal Oficial, há algumas semanas. Ele é o tradutor do Sr. Henri, e desde a sua chegada ao palácio, provou-se inteligente, amável, honroso, engraçado, e uma dúzia de outras coisas que eu não sabia que queria até que as vi nele. — Olhei, e algo sobre a sua expressão, a esperança em seus olhos, me acalmou. Esqueci-me das câmeras. — Assim, estou perdidamente apaixonada por ele.
— E eu por você — ele respondeu tão baixinho que ninguém poderia ter notado.
— Eikko Petteri Koskinen, você me daria a honra extraordinária de se tornar o meu marido?
Ele soltou um lindo riso incrédulo, e o mundo parou. Não houve ninguém caindo de joelhos ou lutando com anéis. Era apenas ele e eu.
E milhões de pessoas assistindo.
Ele se virou, e eu o segui com os olhos, sabendo que ele estava à procura de Henri. Seu amigo estava lá acenando com as mãos e murmurando sim exageradamente, de olhos arregalados.
— Sim — Eikko finalmente disse, rindo enquanto ele respondia.
Eu voei para ele, envolvendo os braços em volta do seu pescoço e puxando-o para um beijo. Estava vagamente consciente de aplausos e assobios, mas o bater de alegria do meu coração tinha afogado tudo.
Um canto da minha mente me disse que eu deveria estar preocupada sobre como o país poderia reagir, como as coisas iriam se desenrolar depois desta noite. Mas o resto de mim silenciou essa preocupação, e eu sabia, com certeza pura e perfeita, que eu tinha encontrado minha alma gêmea.
Eu me afastei para olhar para ele, indescritivelmente feliz.
Depois de um segundo, a confusão se estabeleceu em seu rosto.
— Então... o que eu faço agora?
Eu sorri.
— Basta ficar ao meu lado por um momento. Tenho outra coisa para cuidar. E, em seguida, quero falar com você.
— Eu também.
As palmas esmaeceram, e eu olhei para a câmera, bastante completa para ter mais medo, e disse a meu povo a coisa mais verdadeira que eu sabia.
— Estou ciente de que só fui sua rainha por alguns dias, mas nesse curto espaço de tempo, e por um longo tempo antes, tenho estado muito preocupada com o meu lugar em seus corações. Não tenho a certeza se entenderei por que recebi tanta desaprovação, mas somente agora vejo que eu não deveria me importar. Minha vida deve ser totalmente minha, não de vocês. E, ao mesmo tempo, sua vida deve ser totalmente de vocês, e não minha.
Naquele momento senti o clima no estúdio mudar, e talvez eu estivesse louca, mas parecia que era maior do que eu podia ver.
— Estes últimos dois meses têm sido um turbilhão para mim. Tenho feito tudo enquanto quase perdi minha mãe, vi o meu amado gêmeo mudar para o exterior, fui coroada rainha e terminei a Seleção com alguém que ninguém esperava. — Eu sorri, pensando em quão rápido tudo aconteceu, como devia estar dilacerada, mas não estava. — Durante esse tempo, alguns de vocês têm sido simpáticos, enquanto outros se sentiram ignorados. Alguns têm sido solidários, outros, agressivos. Até recentemente eu teria dito que esses sentimentos não tinham fundamento, mas agora tenho a certeza de que não é verdade.
“Antes da Seleção, eu vivia minha vida dentro de um pequeno círculo de conhecidos. Admito, minha maior preocupação no mundo era o meu próprio conforto, e para mantê-lo eu estava disposta a sacrificar um vasto conjunto de coisas, incluindo o bem-estar de muitos ao meu redor. Eu não tenho orgulho de dizer isso.
Eu me concentrei no tapete por um momento, com a necessidade de me equilibrar.
— Mas encontrar estes jovens me mostrou um mundo além dos muros nos quais eu tinha me fechado. E apenas nestas últimas semanas que aprendi o quão pouco eu sabia sobre meu próprio país. Orçamentos e propostas podem me dar um modelo de suas necessidades, mas foi o fato de vê-los cara-a-cara que me mostrou muito mais. Como tal — tomei uma respiração profunda — venho diante de vocês agora de anunciar que Illéa vai se tornar uma monarquia constitucional.
Houve suspiros e murmúrios ao redor da sala, e dei-lhes um momento para compreender, imaginando que aqueles que estavam assistindo em casa necessitariam da mesma consideração.
— Por favor, não vejam isso como se eu estivesse me esquivando dos meus deveres. Na verdade, sei agora que amo vocês demais para tentar fazer este trabalho sozinha. Mesmo com um parceiro — falei, olhando para Eikko e sorrindo — seria demasiado grande para qualquer um, como foi demonstrado pelas mortes prematuras e problemas de saúde de meus antecessores. Farei a minha parte para que vocês possam fazer a sua.
“Por muito tempo, nós aqui no palácio temos procurado maneiras de tornar sua vida melhor, mais feliz, apenas para descobrir que não há como de fazer isso. Suas vidas precisam estar em suas mãos. Só então é que veremos a mudança que muitos de vocês têm esperado gerações para ver.
“Encontrarei um primeiro-ministro adequado nesse ínterim, e planejaremos realizar as eleições corretamente dentro dos próximos dois anos. Não posso começar a expressar como estou ansiosa para ver o que vocês tem em mente para o nosso país. Estou certa de que haverá muitas perguntas e ideias sobre como se deve reinventar nosso país, mas por favor, saibam que nós da família real estamos do seu lado. Eu não posso governar seus corações mais do que vocês podem governar o meu. Acredito que é hora de todos nós pararmos e procurarmos um futuro melhor.
Eu sorri, sem sentir medo ou ansiedade, mas uma sensação de paz. Se qualquer um de nós tivesse parado de se preocupar com a forma como parecia que estávamos fazendo e se concentrasse em como estávamos realmente fazendo, teríamos chegado a essa conclusão há muito tempo.
— Muito obrigada por seu apoio. Para mim, para minha família, e para o meu noivo. Eu amo vocês, Illéa. Boa noite.
Vi quando as luzes das câmeras se apagaram, e saí do palco com uma onda de gritos. Os conselheiros estavam com raiva, obviamente, voltando-se para meu pai e exigindo respostas.
— Por que vocês estão gritando comigo, seus tolos? — ele gritou de volta para eles. — Ela é sua rainha, pelo amor de Deus. Perguntem a ela.
Virei-me para Eikko.
— Você está bem?
Ele riu.
— Eu nunca estivesse mais feliz ou mais apavorado.
— Isso resume tudo muito bem.
— Hey!— Kile chamou, com Henri vindo por trás dele para abraçar Eikko. Enquanto eles começaram a celebrar, eu me afastei. Havia muito mais que precisava ser cuidado.
Abri caminho com os cotovelos, passando por conselheiros confusos e irados, discando um número familiar no telefone na parte de trás do estúdio.
Marid atendeu instantaneamente.
— O que você acabou de fazer? — Ele berrou.
— Eu não o convidei para qualquer participação no meu reinado.
— Você percebe o quão estúpido isso foi?
— O que percebi foi que algo perfeitamente normal o horrorizou completamente há algumas semanas. Faz sentido agora. Por que você iria querer poder nas mãos de uma pessoa se ela não fosse você?
— Se você acha que esta será a última vez que ouviu falar de mim...
— Certamente será. Parece que meu ouvido está agora mais perto do meu povo, então não preciso mais de você. Adeus.
Eu sorri, positivamente feliz, agora sabendo este importante fato: meu país nunca poderia ser tirado de mim agora, eu distribuiria felizmente o poder. Meu povo queria a felicidade tanto quanto eu, e eu estava certa de que todos estavam errados em tentar viver as vidas dos outros por eles mesmos.
— Eadlyn! — Lady Brice chamou, correndo para mim. — Você é brilhante, brilhante menina!
— Você vai fazer isso, certo?
— Fazer o quê?
— Ser a primeira-ministra. É só até que tenhamos eleições, mas até lá.
Ela riu.
— Eu não tenho certeza de que seja a melhor pessoa para o trabalho. Além disso, há...
— Vamos, tia Brice.
Por uma fração de segundo, ela pareceu absolutamente horrorizada. Então seus olhos nadaram com lágrimas.
— Nunca pensei que escutaria essas palavras.
Estendi a mão para ela, abraçando a mulher que se tornou uma das minhas maiores confidentes.
Foi estranho porque, mesmo que eu nunca a tivesse perdido, abraçando-a agora eu sentia muito como se tivesse algo de volta. Como quando Ahren veio para a coroação.
— Oh, meu Deus, eu tenho que ligar para Ahren! — exclamei.
— Vamos acrescentar na lista de coisas a fazer. Obter contratos, certo. Mudar o país, certo. Qual é o próximo na ordem do dia?
Olhei ao redor da sala, observando meu pai apertar a mão de Eikko e mamãe se aproximar e beijar seu rosto.
— Mudar a minha vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário