quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 33

O ESTÚDIO TINHA SIDO REFORMADO. Discutir o meu noivado na frente de uma plateia de amigos, familiares e membros da equipe enquanto tudo era transmitido ao vivo para todo o país não era exatamente o nível de intimidade que eu estava pensando, mas, por vezes, uma garota só tem que pegar o que ela pode ter.
Vasculhei a sala em busca de mamãe e papai. Eu precisava vê-los, ver seus sorrisos depois da minha escolha. Se estivessem felizes e calmos, então eu poderia ser, também. Mas eles não estavam aqui, ainda. Kaden, no entanto, sim.
Eu o assisti da porta, vendo-o olhar para a sala como se estivesse um pouco enfeitiçado. Ele se assustou um pouco quando apareci do lado dele.
— Você está bem?
Ele limpou a garganta e olhou para seus pés, corando.
— Sim, tudo está ótimo. Só estou passeando.
Segui seu olhar para ver se eu conseguia descobrir o que ele observava, e ficou mais do evidente. Josie tinha desistido de penteados elaborados e joias excessivas. Tinha abandonado a maquiagem pesada e as roupas vistosas. Olhando para ela agora – o cabelo um pouco enrolado, o toque de gloss nos lábios, e um vestido azul apropriado para a idade – parecia que ela finalmente estava sendo ela mesma em vez de tentar ser eu.
— Josie está muito bonita esta noite — comentei.
— Oh? Eu não tinha notado. Mas agora que você mencionou, sim, ela parece bem.
Madame Marlee, parecendo alegre e calma, falou algo para o Sr. Carter, e Josie riu. O som ainda era um pouco alto demais para os meus ouvidos, mas não muito, no entanto.
— Já que você não está na transmissão, talvez devesse sentar-se com ela. Parece que ela tem um assento livre ao lado. — olhei para baixo, para Kaden, observando o pequeno sorriso surgindo em seu rosto antes que ele o cobrisse.
— Suponho que sim. Quer dizer, eu realmente não tenho planos para sentar-me com mais ninguém.
Ele andou até ela, endireitando o terno no caminho, e me vi morrendo de vontade de saber tudo o que iria acontecer.
— Eadlyn.
Virei-me para a voz da mamãe, feliz em vê-la vindo de braços abertos.
— Como está se sentindo?
— Totalmente maravilhosa e nem de todo apavorada — brinquei.
— Não se preocupe. Henri é uma boa escolha. Uma improvável, mas muito boa ainda.
Olhei para o fundo da sala, onde Eikko arrumava a gravata de Henri, e eles falavam rapidamente, seus lábios num amontoado de formas que eu não podia ler.
— O que é engraçado, porém, é que não há porque se ter inveja.
Olhei para a mamãe, confusa.
— Inveja?
— Mais cedo hoje, quando você falava com Marlee, você disse que tinha inveja pelo o que ela fez por amor.
— Eu disse isso? — engoli.
— Disse. E me pergunto por que estaria com inveja de alguém que sofre para chegar à pessoa amada quando parece que um menino muito doce está caindo em seus braços.
Congelei. Como eu poderia sair dessa?
— Talvez uma palavra melhor teria sido admirar. O que ela fez foi muito valente.
Mamãe revirou os olhos.
— Se quer mentir para mim, tudo bem, mas sugiro que pare de fazer isso consigo mesma antes que se encontre em uma posição da qual não pode sair.
Com isso, ela seguiu em frente, tomando um assento ao lado de Madame Lucy e General Leger. O estúdio era geralmente frio, mas eu tinha certeza de que o frio que passou por mim não estava relacionado com o ar-condicionado.
— E o senhor espere aqui — disse a produtora, arrastando Henri para ficar ao meu lado. — Nós ainda temos algum tempo, mas não saiam correndo. Alguém viu Gavril? — ela gritou para ninguém em particular.
Henri apontou para a gravata que Eikko tinha acabado de colocar nele.
— Está bom?
— Sim — escovei os ombros e mangas. Olhei por sobre seu ombro para Eikko, que tinha feito um trabalho incrível em arrumá-lo. Eu esperava parecer tão calma por fora como ele parecia. Por dentro parecia que eu era uma camisola com um fio solto que era puxado e puxado até que eu não fosse nada, somente um laço no chão.
Dei a volta em torno de Henri sob a desculpa de conferir seu terno mais uma vez em todos os ângulos.
Deixei cair meu braço quando passei por Eikko, e nossos dedos se encontraram em um toque antes que eu voltasse para ficar na frente do meu noivo.
A emoção correndo pela minha pele foi eletrizante, então apertei as mãos na minha frente, concentrando-me na sensação do meu anel de noivado contra as costas dos meus dedos. Do outro lado, a figura de Eikko desapareceu no meio da multidão, presumivelmente para poder encontrar o seu próprio nível de sanidade, neste momento.
— Então — perguntei, de frente para Henri — você está pronto?
Ele olhou para mim, sua expressão geralmente eufórica, indistinta.
— Você está?
Eu queria dizer que sim, e podia ouvir a palavra na minha cabeça, mas eu não conseguia expressá-la com minha boca. Então, eu apenas sorri e acenei com a cabeça.
Ele olhou para trás de mim.
Tomando minha mão, ele me puxou para o fundo da sala, em direção a Eikko.
— En voi — Henri disse, seu tom mais solene do que eu já ouvi.
Os olhos de Eikko vieram como um flash na nossa direção.
— Miksi EI?
— Eu sou lento aqui — disse Henri, apontando para sua boca. — Não aqui. — Ele apontou para os olhos.
Minha respiração acelerou, sabendo que minha vida estava prestes a desmoronar, e aterrorizada pelo o que poderia acontecer depois isso ocorresse.
— Vocês são amor — ele falou, apontando entre nós.
Quando Eikko começou a sacudir a cabeça, Henri suspirou e pegou a mão direita dele, apontando para o anel de sinete. E então pegou a minha, que ainda usava o anel de Eikko.
— Eikko, por favor, explique a ele. Eu tenho que seguir com minha Seleção. Diga-lhe que nunca mais vai precisar duvidar de mim.
Eikko aceitou meu apelo rapidamente, mas a expressão de Henri manteve-se implacável.
— Por favor — implorei, agarrando seu braço.
Sua expressão era incrivelmente doce quando ele falou.
— Eu digo não. — Ele pegou minha mão e gentilmente tirou meu anel de noivado.
A sala começou a girar nas bordas. Eu estava a minutos de um anúncio ao vivo, e tinha acabado de ser rejeitada.
Henri agarrou meu rosto, olhando profundamente em meus olhos.
— Amo você — prometeu. — Amo você. — Então ele virou-se e agarrou o braço de Eikko. — E amo você. Meu bom amigo. Muito bom amigo.
Eikko engoliu, parecendo pronto para chorar com as palavras de Henri. Durante a maior parte dos últimos dois meses, tudo o que eles tiveram eram um ao outro. Esqueça o que este momento significa para mim. O que isso significa para eles?
Henri nos empurrou juntos.
— Você ficar juntos. Eu faço seu bolo!
Apesar das minhas preocupações, eu ri. Olhando nos olhos de Eikko, eu ansiava deixar acontecer e dar ao meu coração a única coisa que ele realmente queria. Mas eu não podia esquecer o meu medo. Vasculhei a sala, procurando a única pessoa de que eu precisava agora. Quando o encontrei, eu me virei para os meus meninos.
— Esperem aqui. Por favor.
Corri até o outro lado do estúdio.
— Papai! Papai, eu preciso da sua ajuda.
— Querida, o que está errado?
Eu respirei fundo.
— Eu não quero me casar com Henri, quero me casar com Eikko.
— Quem?
— Erik. O tradutor. Sou apaixonada por ele, e quero me casar com ele. E mesmo que ele odeie tirar fotos, quero tirar mil para poder colocá-lo em minha parede e ele possa acordar rindo para nós todos os dias, assim como você faz com a mamãe. E quero que ele me faça rosquinhas de maçã, assim como a mãe dele faz para seu pai. Mesmo se eu não couber mais em nenhum dos meus vestidos. E quero que nós encontremos nossa própria coisa ou talvez descubramos que a nossa própria coisa é tudo, porque sinto como se, ao tê-lo, mesmo as coisas estúpidas importam.
Ele ficou lá, a boca ligeiramente aberta.
— Mas uma palavra sua e eu nunca vou mencioná-lo novamente. Quero fazer a coisa certa, e sei que você nunca vai me deixar fazer algo estúpido. Diga-me o que devo fazer, e eu não vou questioná-lo, pai.
Ele olhou para o relógio, os olhos ainda arregalados de choque.
— Eadlyn, você só tem sete minutos.
Segui seu olhar, e ele estava certo. Faltavam só sete.
— Então me ajude. Me diga o que fazer!
Depois de um segundo atordoado, ele se virou para mim e me puxou para fora do estúdio.
— Nós todos sabemos que você queria fazer isso rápido por causa de Marid, e acho que há valor em sua linha de pensamento. Mas você não pode deixar que um valentão decida o resto de sua vida. Confie em mim. Você não tem que anunciar nada hoje.
— Essa não é a questão. Eu quero estar com Eikko tanto que dói, mas eu fiz tantas, tantas coisas idiotas e egoístas no passado que temo que o povo não vá me perdoar se eu quebrar mesmo a regra mais ínfima. Não posso suportar decepcioná-los, pai. Não posso suportar decepcionar você.
— Eu? Decepcionar-me com uma regra boba? — Ele balançou a cabeça. — Eadlyn, você vem de uma longa linha de traidores. Você não pode me decepcionar.
— O quê?
Ele sorriu.
— Seu irmão fugir para a França era tecnicamente o suficiente para começar uma guerra. E acho que ele sabia disso. Será que isso o deteve?
Eu balancei minha cabeça.
— Sua mãe — ele disse com uma risada — conspirou com o governo italiano para financiar os rebeldes nortistas, um movimento que a teria enviado a sepultura se meu pai tivesse descoberto.
Fiquei ali, atordoada.
— E eu? Tenho mantido vivo alguém que deveria estar morto há mais de vinte anos.
— Os Woodwork? — adivinhei.
— Ha! Não, eu esqueci deles, embora oficialmente eles tenham sido perdoados. Na verdade, é alguém muito mais perigoso aos olhos da monarquia.
— Papai, eu não entendo.
Ele suspirou, olhando o salão de cima a baixo como um espião, antes de rapidamente desabotoar sua camisa.
— Temo que só haja uma maneira de explicar isso. — Ele se virou e rapidamente abaixou a camisa e o paletó.
Engasguei com horror quando dei a volta no meu pai. Ele estava coberto de marcas, algumas largas como se tivessem se curado, sem qualquer tratamento, e outras finas e enrugadas.
Não parecia haver qualquer uniformidade às marcas, exceto que todos elas devem ter vindo da mesma cana ou chicote.
— Papai... Papai, o que aconteceu com você?
— Meu pai aconteceu comigo — ele puxou a camisa de volta e abotoou-a tão rápido quanto podia, falando numa enxurrada de palavras. — Desculpe eu nunca tê-la levado à praia, filha. Eu simplesmente não podia fazer isso.
Minha postura diminuiu. De todas as coisas para se desculpar.
— Eu não entendo. Por que ele fez isso com você?
— Para me manter na linha, para me manter calmo, para me tornar um líder melhor... ele tinha uma miríade de razões. Mas você precisa saber apenas sobre dois desses espancamentos. O primeiro é aquele que aconteceu depois que sua mãe propôs a eliminação as castas — ele balançou a cabeça, quase sorrindo enquanto se lembrava. — Ela escolheu propor em um Jornal Oficial, enquanto ainda estava na Seleção. É claro que meu pai, que já a odiava, viu isso como uma ameaça ao seu controle. O que era mesmo. Tal sugestão é traiçoeira. Como falei, isso acontece na família. Eu me preocupei que ele fosse puni-la, então o deixei descontar em mim em vez disso.
— Oh meu Deus.
— De fato. Essa foi a última surra que suportei, e por toda a minha vida, nunca irei me arrepender. Eu a levaria mais cem vezes por ela.
Eu nunca tive conhecimento disso. Tudo o que eu sabia era que eles fizeram a eliminação das castas juntos. Assim, muitos dos detalhes desagradáveis da história foram encobertos. Havia partes bastante terríveis juntamente com a parte maravilhosa.
— Eu quase odeio perguntar isso, mas qual é a outra que eu precisava saber?
Ele colocou o último de seus botões na casa e suspirou.
— A primeira.
Engoli em seco, sem saber se queria ouvir esta história ou não.
— Veja, meu pai era um homem muito vaidoso. Ele pensou que o mundo lhe devia tudo porque ele era rei. E, na verdade, ele não tinha motivo para ser infeliz. Ele tinha poder, uma casa maravilhosa, uma esposa que o adorava, e um filho que adorava andar na linha. Mas nunca foi o suficiente.
Seus olhos estavam sem foco, e eu o ouvi, ainda sem entender.
— Eu sempre sabia quando sua amante estava chegando. Ele dava a minha mãe um presente no início do dia, como se estivesse pagando por seus pecados antes de cometê-los. Em seguida, no jantar, enchia sua taça de vinho mais e mais até que ela ficasse sonolenta. E, claro, os quartos eram separados. Presumo que foi ideia dele, não dela. Não posso imaginá-la intencionalmente separando-se do meu pai. Ela o adorava genuinamente.
— De qualquer forma, eu tinha uns onze anos quando caminhava pelo palácio e a vi saindo uma noite, o cabelo uma bagunça e uma capa sobre os ombros como se pudesse encobrir o que tinha feito. Eu sabia. Sabia por que ela estava lá, e a odiava por isso. Mais do que eu o odiava, o que era injusto. Assim que ela se foi, fui até o meu pai. Ele estava com seu robe, bêbado e suado. E eu lhe disse: “Eu nunca vou esquecer isso, o senhor não pode deixar aquela prostituta vir aqui novamente”. Como se eu pudesse dizer ao rei o que ele podia fazer. Ele me agarrou pelo braço com tanta força que deslocou meu ombro. Me atirou ao chão e me bateu não sei quantas vezes. Eu estava tão tonto com a dor que desmaiei. Acordei no meu quarto com meu braço em uma tipoia. Quando voltei a mim, meu mordomo disse que eu não deveria ir para a algazarra com os guardas, que eu era jovem demais para considerá-los camaradas.
Papai balançou a cabeça.
— Eu não sei quem foi demitido ou pior para fazer essa história parecer legítima, mas sabia que era para eu ficar quieto. E eu era tão pequeno, não me atrevi a me arriscar contando a alguém. Quando fiquei mais velho, escondi tudo por causa da vergonha. E então, de alguma forma na minha cabeça, transformei a dor em algo para se orgulhar. Suportei a sofrendo sozinho, sem apoio, e isso era algo admirável. É claro que não era. Fui estúpido, mas fazemos desculpas para nós mesmos quando somos pequenos.
Ele me deu um sorriso fraco.
— Sinto muito, papai.
— Tudo bem. Ele me fez uma pessoa mais forte e, espero, um pai melhor. Espero que eu tenha feito o certo com você.
Meus olhos se encheram de água.
— Você fez.
— Bom. Bem, para responder a sua pergunta, alguns anos mais tarde pensei que meu pai realmente tinha se livrado de sua amante. Como disse, eu sabia quando ele estava planejando trazê-la, e o observei ir para a velha rotina e até escapei várias noites só para ter certeza. Ela tinha desaparecido por meses e, em seguida, um dia, lá estava ela, andando pelo corredor como se fosse dona do lugar. Eu estava cheio de tanta raiva daquela mulher, irado que ela teve a ousadia de mostrar seu rosto enquanto minha mãe dormia. Então eu a parei e lhe disse algo nesse sentido. Ela inclinou a cabeça e sorriu para mim, como se eu fosse um erro, como se eu não fosse nada. Então ela baixou o rosto no meu ouvido e sussurrou: “Direi à sua irmã mais nova que você disse Olá.” E ela se afastou, deixando-me completamente chocado. Devo ter ficado ali por uns dez minutos, atordoado demais para se mover. Ela disse simplesmente para me afetar? Será que eu realmente tenho uma meia-irmã que não conheço? Eu não ia implorar por respostas, e ficou claro que eu não poderia obtê-las com o meu pai. Só depois que ele morreu eu pude tentar procurá-la. — Ele engoliu em seco. — Aqui está a coisa, porém. Filhos ilegítimos de um membro da família real não estão autorizados a viver.
— O que? Por quê?
— Acho que é porque eles podem ser uma ameaça à linhagem real. Guerra civil ou instabilidade política nunca é algo bom. Mesmo agora, olhe para o problema que Marid causou. Assim, no passado, eliminavam-se essas ameaças assim que elas eram descobertas — ele falou tudo isso com frieza, desconectada de uma forma.
— Então você a matou?
Ele sorriu para si mesmo.
— Não. Fiquei encantado no momento em que pus os olhos nela. Ela era apenas uma criança, e não tinha ideia de quem era seu pai. Não era culpa dela que tivesse nascido metade real. Então, eu a levei para longe da mãe, a mantive perto de mim, e passei a protegê-la desde então.
Ele finalmente arriscou olhar nos meus olhos.
— Lady Brice? — perguntei.
— Lady Brice.
Eu não sabia o que dizer. Eu tinha outra tia. E ela fizera tanto por mim quanto qualquer outra pessoa da minha família, recentemente. Mais do que alguns, realmente. Eu estava em dívida com ela.
— Eu me sinto mal por mantê-la nas sombras — ele admitiu.
— Eu sei. Se ela tem sangue real, sinto que ela merece mais.
— Não é possível. E ela entende isso. Ela é grata o suficiente por estar aqui — ele respondeu. E embora nós dois soubéssemos a verdade, eu podia ver que não concordávamos que fosse satisfatório. — Então veja, cometi traição todos os dias durante os últimos vinte anos. Sua mãe já cometeu também, como o seu irmão. Ouso dizer que Kaden pode ser o único que conseguirá continuar sem nunca quebrar uma regra.
Sorri para essa verdade, temendo apenas a quantidade de regras que Osten poderia quebrar.
— Quebre a regra estúpida, Eadlyn. Case com o homem que ama. Se ele é bom o suficiente para você aprovar, então eu certamente também aprovarei. E se as pessoas não o fizerem, não é um problema. Porque quem é você?
— Sou Eadlyn Schreave e nenhuma pessoa é tão poderosa quanto eu — eu soltei sem pensar.
Ele assentiu.
— É isso mesmo.
O produtor irrompeu pela porta.
— Graças a Deus! A senhorita tem dez segundos. Corra!

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