sábado, 14 de maio de 2016

Capítulo 33

Abandono dói
Nada nele é doce, nada
Não me deixe jamais

AS ÁRVORES ESTAVAM USANDO as vozes interiores.
Quando passei pelo portão, percebi que ainda balbuciavam, soltando frases sem sentido como sonâmbulos em uma festa. Olhei para o bosque. Nenhum sinal de Meg. Chamei o nome dela. As árvores falaram ainda mais alto, me deixando cada vez mais entorpecido. Eu me apoiei no carvalho mais próximo.
— Cuidado aí, cara — disse a árvore.
Segui em frente e ouvi as árvores entoando versos, como se estivessem brincando de rimar:

Azuis as cavernas são
Acerte a coloração
Para o Oeste, queimando
Páginas virando
Indiana
Madura é a banana
A felicidade vem de repente
Baratas e serpentes

Nada fazia sentido, mas cada verso carregava o peso de uma profecia. Senti como se dezenas de declarações importantes, cada uma vital para a minha sobrevivência, estivessem sendo misturadas, colocadas em um revólver e disparadas na minha cara.
(Que imagem poderosa. Vou ter que usar em um haicai.)
— Meg! — chamei de novo.
Nenhuma resposta. O bosque não parecia ser muito grande. Por que ela não me ouvia? Por que eu não a via?
Segui em frente, cantarolando um tom perfeito de Lá em uma frequência de 440 hertz para me manter concentrado. Ao passar pelo segundo círculo de árvores, os carvalhos ficaram mais falantes.
— Ei, amigão, tem uma moeda? — perguntou um.
Outro tentou me contar uma piada sobre um pinguim e uma freira que foram a uma lanchonete. Um terceiro carvalho recitava um infomercial para um colega, na tentativa de vender um processador de alimentos.
— E você não vai acreditar na qualidade da massa que ele faz!
— Uau! — disse a outra árvore. — Ele faz massas também!
— Linguine fresco em minutos! — anunciou o carvalho vendedor com entusiasmo.
Não entendi por que um carvalho ia querer linguine, mas continuei andando. Mais um minuto ali e eu acabaria comprando o processador de alimentos por três parcelas de apenas 39,99 dólares, e minha sanidade se perderia para sempre.
Finalmente, cheguei ao centro do bosque. Do outro lado, no maior carvalho, Meg estava de costas para o tronco, com os olhos bem fechados. Ainda segurava o sino de vento, mas o objeto parecia esquecido em sua mão. Os cilindros de metal se moveram sem emitir som, encostados no vestido.
Aos pés dela, Pêssego se balançava para a frente e para trás, rindo.
— Maçã? Pêssego! Manga? Pêssego!
Toquei no ombro dela.
— Meg.
Ela se encolheu. Olhou para mim como se eu fosse uma ilusão de ótica inteligente. Os olhos tremiam de medo.
— Não vou aguentar — disse ela. — Não vou aguentar.
As vozes estavam dominando Meg. Era como se cem estações de rádio estivessem tocando ao mesmo tempo, dividindo meu cérebro à força em canais diferentes. Era terrível, mas eu pelo menos estava acostumado com profecias. Meg, por outro lado, era filha de Deméter. As árvores gostavam dela. Estavam todas tentando contar coisas para a menina, lutando por sua atenção. Em pouco tempo, destruiriam por completo sua mente.
— O sino de vento — falei. — Pendure na árvore!
Apontei para o galho mais baixo, bem acima de nós. Eu não conseguiria alcançá-lo sozinho, mas, se levantasse Meg...
Meg recuou, balançando a cabeça. As vozes de Dodona eram tão caóticas que eu não sabia se ela tinha me ouvido. Se tinha, não entendeu ou não confiou em mim.
Precisei deixar meu ressentimento de lado. Ok, Meg era enteada de Nero. Foi enviada para me atrair até ali, e nossa amizade toda era uma mentira. Ela não tinha direito de não confiar em mim, mas eu não podia deixar que a amargura me dominasse. Se eu a culpasse pela forma como Nero distorceu as emoções dela, eu não seria melhor do que o Besta. Além do mais, não era porque ela mentiu sobre ser minha amiga que eu não era amigo dela. Ela estava em perigo. Eu não deixaria que se perdesse na loucura das piadas de pinguim do bosque.
Eu me agachei e entrelacei os dedos para servir de apoio.
— Por favor — pedi.
À minha esquerda, Pêssego rolou de costas e gritou:
— Linguine? Pêssego!
Meg fez uma careta. Vi em seus olhos que ela havia decidido cooperar comigo; não por confiar em mim, mas porque Pêssego estava sofrendo.
E eu achando que meu coração não podia ser mais pisoteado. Ser traído era uma coisa. Ser considerado menos importante do que um espírito das frutas de fralda era bem diferente.
Mesmo assim, fiquei firme quando Meg apoiou o pé esquerdo na minha mão. Com toda a força que me restava, eu a levantei. Ela pisou nos meus ombros e apoiou um dos pés na minha cabeça.
Nota mental: colocar uma etiqueta no meu couro cabeludo com o aviso — NÃO SUBIR NO ÚLTIMO DEGRAU.
Com as costas apoiadas no carvalho, eu sentia as vozes do bosque subindo pelo tronco e vibrando na casca. A árvore central parecia ser uma grande antena parabólica, captando todas as falas desconexas.
Meus joelhos estavam quase cedendo. As solas dos tênis de Meg esmagavam minha testa. O lá 440 Hz que eu estava cantarolando logo murchou para sol sustenido.
Finalmente, Meg amarrou o sino de vento no galho. Ela pulou no exato momento em que minhas pernas falharam, e nós dois acabamos esparramados no chão.
O sino de vento balançou e tocou, captando notas no vento e transformando dissonância em acordes.
O bosque ficou em silêncio, como se as árvores estivessem ouvindo e pensando Aaaah, que lindo.
E então, o chão tremeu. O carvalho central chacoalhou com tanta força que choveram bolotas.
Meg se levantou. Aproximou-se da árvore e encostou no tronco.
— Fale — ordenou ela.
Uma única voz soou do sino de vento, como uma líder de torcida gritando em um megafone:

Houve um deus, Apolo era chamado
Entrou em uma caverna azul acompanhado
Ele e mais dois montados
No cuspidor de fogo alado
A morte e loucura forçado

O sino de vento parou. O bosque mergulhou na calmaria, como se satisfeito com a sentença de morte que me dera.

* * *

Ah, que horror!
Eu aceitaria um soneto sem problemas. Uma quadra teria sido motivo de comemoração. Mas apenas as profecias mais mortais são passadas na forma de limerique.
Olhei para o sino de vento, torcendo para que falasse de novo e se corrigisse. Ops, foi mal! Essa profecia era para outro Apolo!
Mas não tive tanta sorte. Recebi um pronunciamento pior do que mil propagandas de máquinas de fazer massa.
Pêssego se levantou. Balançou a cabeça e sibilou para o carvalho, o que expressou meus sentimentos com perfeição. Ele abraçou a perna de Meg como se a garota fosse a única coisa que o impedisse de desaparecer por completo. A cena seria quase fofa, não fossem as presas e os olhos brilhantes do karpos.
Meg me olhou com cautela. As lentes dos óculos estavam rachadas.
— Aquela profecia — disse ela. — Você entendeu?
Engoli em seco um monte de fuligem.
— Talvez. Parte dela. Nós precisamos conversar com Rachel...
— Não existe mais nós. — O tom de Meg soou tão acre quanto os gases vulcânicos de Delfos. — Faça o que tiver que fazer. É minha última ordem.
Isso me atingiu como uma lança enfiada até o queixo, como se já não bastasse ela ter mentido para mim e me traído.
— Meg, não dá. — Foi impossível disfarçar o tremor na voz. — Você reivindicou meus serviços. Até que minhas provações acabem...
— Eu liberto você.
— Não! — gritei.
Eu não conseguia suportar a ideia de ser abandonado. Não de novo. Não por essa rainha do lixão desgrenhada de quem aprendi a gostar tanto.
— Você não pode acreditar em Nero agora — falei. — Você ouviu os planos dele. Ele quer destruir a ilha toda! Você viu o que ele tentou fazer com os reféns.
— Ele... ele não teria queimado ninguém. Ele prometeu. Se segurou. Você viu. Aquele não era o Besta.
Minha caixa torácica parecia uma harpa com as cordas esticadas demais.
— Meg... Nero é o Besta. Ele matou seu pai.
— Não! Nero é meu padrasto. Meu pai... meu pai libertou o Besta. Ele o deixou irritado.
— Meg...
— Pare! — Ela tapou os ouvidos. — Você não o conhece. Nero é bom para mim. Vou falar com ele. Vai ficar tudo bem.
Seu estado de negação era tão completo, tão irracional, que vi que não havia como discutir. Ela me lembrou dolorosamente de mim mesmo quando caí na Terra, de como me recusei a aceitar minha nova realidade. Sem a ajuda de Meg, eu teria morrido. Agora, os papéis estavam invertidos.
Eu me aproximei dela, mas o rosnado de Pêssego me fez parar.
Meg recuou.
— Terminamos por aqui.
— Não, Meg, não mesmo — falei. — Estamos unidos, quer você goste ou não.
Eu me dei conta de que, alguns dias antes, ela havia me dito a mesma coisa.
Ela me lançou um último olhar pelas lentes rachadas. Eu teria dado qualquer coisa para ela ter feito uma careta nesse momento. Queria andar pelas ruas de Manhattan com ela dando estrelas nos cruzamentos. Senti falta de mancar com ela pelo Labirinto, com nossas pernas amarradas. Eu teria aceitado uma boa guerra de lixo em um beco. Mas ela só se virou e saiu correndo, com Pêssego logo atrás. Eles se dissolveram entre as árvores, como Dafne fizera muito tempo antes.
Acima da minha cabeça, uma brisa fez o sino de vento tilintar. Daquela vez, nenhuma voz ecoou das árvores. Eu não sabia por quanto tempo Dodona ficaria em silêncio, mas não queria estar aqui se os carvalhos decidissem contar piadas de novo.
Eu me virei e vi uma coisa estranha aos meus pés: uma flecha com cabo de carvalho e pena verde.
Não devia haver flechas ali. Eu não levei nenhuma para o bosque. Mas estava tão atordoado que não dei importância a isso. Fiz o que qualquer arqueiro faria: peguei a flecha e a coloquei na minha aljava.

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