quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 30

EU ESTAVA NO SALÃO AO LADO do escritório, esperando que ele chegasse. A cada segundo, a obstrução em minha garganta crescia cada vez mais, ameaçando prender todas as palavras que eu tinha a dizer para ele.
— Sua Majestade? — Ele chamou em voz baixa, e mesmo havendo pessoas por perto, ele não pensou duas vezes antes de sorrir para mim como se eu fosse o seu sol e estrelas.
— Preciso falar com você sobre amanhã. Pode fechar as portas, por favor? — tentei manter minha voz calma, mas sua expressão mostrou que ele sabia que o eu estava fazendo. E que estava tentando diminuir quão importante e duro era.
— Você está bem? — ele sussurrou, embora estivéssemos sozinhos.
Exalei, tentando manter a calma.
— Não completamente.
— De acordo com a notícia, você tem um pretendente inesperado — ele falou francamente.
Acenei com a cabeça.
— Há quanto isso tem sido um problema?
— Há mais tempo do que eu sabia.
— Imagino que tenha lhe trazido bastante estresse.
— Tem feito muito mais do que isso. — Eu engoli. — Devido a este problema, serei forçada a anunciar meu noivado amanhã.
— Oh. — A pequena palavra segurava todo um mundo de choque.
— E por Kile ter outras atividades que não posso ignorar, escolherei Henri. Hoje.
Ele não era capaz de formar qualquer palavra.
Peguei sua mão, e ele permitiu que eu o fizesse. Nem sequer me olhou com raiva, o que teria sido justo, já que eu estava quebrando quase todas as promessas que tinha feito. Ele estava, muito simplesmente, triste. Uma sensação com que eu me identificava.
— Tenho certeza que você entende que terei que sair depois de amanhã — ele falou calmamente.
— Pedirei a Neena que encontre outro tradutor. Você não deve ser forçado a se substituir — minha respiração ficou presta, e as lágrimas vieram. — Estou pensando em ir vê-lo dentro de uma hora. Você acha que... poderia não estar no quarto?
Ele assentiu.
— Se tivesse me pedido para ficar, poderia ter sido a primeira vez que eu recusaria algo para você.
Ficamos ali, calmamente de mãos dadas. Talvez se ficássemos assim, nada precisasse mudar.
— Eu tinha me preparado, — disse ele. — Entendi o que estava por vir e ainda assim...
A dor de ficar de pé ali assistindo o lábio de Eikko tremer foi demais.
Atirei os braços em sua direção.
— Eikko, eu preciso que você escute isso. Só uma vez, preciso que você saiba que, sem dúvidas, eu te amo. E se eu fosse livre, se pensasse apenas em mim mesma, eu fugiria com você agora. Mas Marid usaria minha ausência como uma razão para tomar o trono, e o meu povo. — Balancei a cabeça. — Eu não posso...
Ele pegou meu rosto em suas mãos, fazendo-me olhar em seus olhos. Embora eles estivessem cheios de lágrimas, estavam mais límpidos do que nunca.
— É um privilégio para mim estar em segundo lugar depois do seu povo. O que mostra a rainha maravilhosa que você se tornou, não pode suportar perdê-los.
Eu o puxei para mim, beijando-o como se nossas vidas dependessem disso. Talvez não tenha sido o beijo mais bonito, com a umidade sob nossos narizes e o rímel escorrendo no meu rosto, mas era a junção de todos os outros que nós nunca chegaríamos a ter.
Kile estava certo. Era o último beijo que importava.
Dei um passo atrás, limpando o rosto. Eu realmente queria ser uma dama neste momento. Estiquei a mão, devolvendo o anel de sua tataravó do meu dedo.
— Não seja boba.
— É uma relíquia de família, Eikko.
Ele envolveu sua mão ao redor da minha.
— No dia em que o dei a você, eu não tinha intenção de levá-lo de volta. Eu não poderia dá-lo a qualquer outra pessoa.
Sorri tristemente ao colocá-lo de volta no lugar.
— Está bem, então — com um movimento, puxei meu anel de sinete de uma vez.
— Eadlyn, isto é para a realeza.
— E você teria sido um excelente príncipe. Para o resto de sua vida, você terá a prova.
Nós olhamos para os nossos anéis. Eles não estavam em nossas mãos esquerdas, mas era o mais perto disso que teríamos. Uma parte do meu coração sempre estaria amarrada a Eikko.
— Eu tenho que ir — disse ele. — Ele deve estar no quarto.
Balancei a cabeça.
Eikko deu um leve beijo na minha bochecha e sussurrou em meu ouvido:
— Eu te amo. Espero que você tenha uma vida linda.
E então, como se não pudesse aguentar outro segundo, ele saiu do escritório, fechando a porta atrás dele.
Sentei-me, agarrando o braço do sofá. Eu me sentia muito enjoada. Como se pudesse desmaiar. Ou vomitar. Corri para a porta que dava direto no corredor, disparando para meu quarto o mais rápido que pude.
— Minha senhora? — Eloise chamou enquanto eu desviava dela e ia para o banheiro, vomitando tudo o que tinha comido hoje.
Entre as rajadas de vômito, eu gemia, furiosa, quebrada e muito cansada.
— Ponha tudo para fora — Eloise sussurrou, aproximando-se com um pano húmido. — Eu a entendo.
Ela ajoelhou-se atrás de mim e colocou os braços em volta do meu estômago. A pressão era surpreendentemente suave.
— Não posso imaginar como é ser a senhorita. Todos têm uma opinião, todos têm um pedido. Mas enquanto estiver aqui, grite e chore tudo que quiser, está bem? Tornaremos tudo melhor depois disso.
Eu soluçava, me apoiando inclinada nela. Ela nem sequer falou mais uma palavra, apenas me segurou enquanto eu deixava tudo sair do meu sistema.
— Obrigada — falei quando minha respiração tinha abrandado.
— A qualquer hora. Agora, precisa voltar ao trabalho?
— Tenho que pedir Henri em casamento.
Se ela ficou surpresa, não demonstrou.
— Primeiro as coisas mais importantes. Vamos lavar seu rosto.
E assim comecei o lento processo de preparar-me para a primeira etapa do resto da minha vida.

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