quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 29

FOX ENTENDEU O QUE TER sido convocado para o meu escritório significava. Assim, ele se recusou a vir, e em vez disso enviou suas despedidas através de Neena, que preparou tudo para ele ficar em um hotel até que pudesse conseguir um voo para Clermont na manhã seguinte.
Me senti baixa, sorrateira de alguma forma, como se tivesse sido fácil demais. Eu estava preparada para uma batalha. Eu consegui fugir.
Mas Hale entrou pela porta todo sorrisos, vestido com esmero e pronto para sair como um cavalheiro. Seus braços estavam abertos quando ele cruzou o escritório, e eu me atirei neles, expressando-lhe os meus sentimentos.
— Eu sentirei tanto a sua falta — ele sussurrou em meu ouvido.
— Eu também. Mas você sabe como falar comigo se precisar, certo?
Ele assentiu.
— Neena me deu algumas informações juntamente com os meus detalhes do voo.
— Bom. Porque eu provavelmente precisarei falar com você em breve.
— Hã? — ele perguntou, dando um passo para trás e endireitando o paletó.
— Claro. Alguém tem que projetar o meu vestido de noiva.
Hale ficou ali, o sorriso apagando instantaneamente de seu rosto como se ele achasse que esta fosse uma piada distorcida.
— Eadlyn... o que quer dizer isso?
Segurei-o pelos ombros.
— Você me protegeu quando o povp jogou comida em mim. Fez amizade comigo antes de eu estar disposta a aceitá-la. Mesmo agora você tem me protegido, até quando eu não merecia. O mínimo que posso fazer é ser a sua primeira cliente. Estarei observando a sua carreira disparar com interesse, moço.
Seus olhos brilhavam com lágrimas, mas ele conseguiu se segurar.
— Estou com uma espécie de medo de sair — confessou. — Tanta coisa vai mudar, uma vez que eu estiver fora dessas paredes.
Balancei a cabeça.
— Mas isso não quer dizer que tudo será ruim.
Ele riu.
— Quando você se tornou tão otimista?
— Isso vem e vai.
— Como a maioria das coisas — ele comentou com um suspiro.
— Como a maioria das coisas — concordei. Abracei-o uma última vez. — Tenha um voo seguro, e comece a desenhar logo que chegar em casa.
— Você está de brincadeira? Começarei os esboços no carro!
Hale beijou meu rosto e piscou.
— Tchau, Eadlyn.
— Tchau.


Depois de Hale ter ido, tudo entrou em foco. Este era o fim. Havia dois pretendentes esperando, e uma alma gêmea de olhos azuis. Eu não tinha certeza sobre com quem falar primeiro. Depois de alguma reflexão, percebi que Eikko sabia o que estava por vir. Ele não seria surpreendido pelo meu anúncio. Mas Henri sim, e eu esperava que ele levasse a sério. Eu veria Kile em primeiro lugar, o que me deixava bastante tempo para conversar sobre tudo com calma com Henri através do uso doloroso de seu maravilhoso tradutor.
Eu tremia quando bati na porta de Kile. Não tinha preparado um discurso nem nada.
E enquanto assumia que ele diria que sim, eu realmente não tinha ideia. E se ele de repente decidisse que não valia a pena todo o trabalho?
Seu mordomo abriu a porta e se curvou profundamente.
— Majestade.
— Preciso falar com Sr. Kile, por favor.
— Eu sinto muito, senhorita, mas ele não está aqui. Ele mencionou pegar algo de seu antigo quarto.
— Oh. Bem, eu sei onde é. Obrigada.
Fui até o terceiro andar, seguindo o caminho que eu fizera na noite em que ele concordou em me beijar no corredor. Que diferentes estavam as nossas vidas desta vez.
A porta do quarto de Kile estava ligeiramente aberta, e eu podia vê-lo mexer em algo no canto do seu quarto. Ele arremessara o paletó e a gravata na cama e fora lixar um pequeno pedaço de madeira, supostamente se preparando para anexá-lo na estrutura ao lado dele.
— Posso entrar?
Ele levantou a cabeça, e alguns fios de cabelo caíam em seu rosto. Estava crescendo novamente. Não parecia tão ruim quanto eu me lembrava.
— Oi — disse ele, sacudindo a sujeira de suas mãos e vindo para me cumprimentar. — Eu estava esperando poder vê-la hoje.
— Oh, é mesmo?
Ele colocou um braço em volta da minha cintura e me puxou para dentro do quarto.
— Eu estava assistindo TV esta manhã, e vi todas essas coisas sobre Marid.
Revirei os olhos.
— Eu sei. Ele é parte do problema do momento.
Ele tirou um pouco de pó de uma cadeira, e eu me sentei em frente a ele, olhando para as suas pequenas criações. Esboços detalhados em tinta azul e preta, pilhas de livros com papéis saindo, e seus edifícios em miniatura espalhados como uma pequena cidade. Ele tinha feito um mundo aqui.
— Ele pode realmente propor casamento à você? — ele parecia nervoso, como se temesse que Marid pudesse levar a mim em vez do país.
— Ele pode, suponho, mas a resposta não seria afirmativa. — Eu suspirei. — Acontece que Marid não é o aliado que pensei que fosse. Ele tem ameaçado influenciar a opinião pública, e no começo eu não tinha certeza que ele poderia fazer isso. Só que da maneira como ele encantou todo mundo hoje... é brilhante, realmente. Assim como Lady Brice disse, é uma invasão livre de batalha.
— Invasão? Como? Ele está subitamente disputando a coroa?
Corri meus dedos sobre as linhas de um dos desenhos de Kile.
— Não acho que seja súbito. Penso que ele e sua família queriam fazer esse movimento há um bom tempo. A jovem rainha inapta foi uma oportunidade perfeita. Agora, ele quer ser meu consorte e usar o meu nome para fazer seus planos darem certo. Minha única esperança é me casar antes que ele possa tentar fazer a proposta, porque tenho certeza de que a imprensa vai me atacar se eu rejeitá-lo.
— Então vamos fazer isso.
— Fazer o quê?
— Casar. Eadlyn, eu me casaria com você esta noite. Entre nós e nossas famílias, não há nenhum impedimento. As pessoas têm sido atraídas por nós desde o início. Case-se comigo, Eadlyn.
Olhei para o rosto doce e preocupado de Kile Woodwork, e por um minuto, realmente pensei que eu pudesse. Eu disse a mim mesma que tudo seria fácil, podia caminhar por um corredor e encontrá-lo no final. Ele sempre me fazia rir. E depois dos nossos últimos dois meses lado a lado, eu sabia, sem dúvida, que ele me apoiaria pela vida inteira.
— Devo confessar, eu vim aqui agora para propor exatamente isso. Mas... eu não posso.
— Por quê? Será que é porque eu não me ajoelhei? — ele ajoelhou-se instantaneamente, segurando minhas mãos. — Ou, espere, é porque você deveria perguntar?
Eu desci ao chão ao lado dele.
— Não. Não é por causa disso.
Sua expressão caiu.
— Você não me ama.
Balancei a cabeça, rindo.
— Não, não é por isso. Na verdade, eu poderia amá-lo um pouco demais. Talvez não inteiramente de forma romântica, mas eu definitivamente amo.
— Então por quê?
— Por causa disso — respondi, apontando para o trabalho ao meu redor. — Kile, eu nunca serei capaz de lhe dizer o que significaria para mim tirar isso da sua vida apenas para me salvar de uma pessoa. Considerando o meu sofrimento para falar as coisas, isso é um milagre.
Ele riu, ainda segurando minhas mãos.
— Mas tudo o que você sempre quis foi fugir destas paredes. Tudo o que você quer fazer é construir. Acho que é uma coisa linda. Então, muitas pessoas no mundo querem derrubar as coisas. Como não seria maravilhoso que você faça o contrário?
— Mas eu desistiria. Eu não me importaria.
— Eu sim. Eu me importaria. E, eventualmente, quando o lado assustador da minha vida morresse, você se importaria, também. Morreria pouco a pouco de dor por isso. Você se ressentiria de mim. — Lágrimas estavam enchendo meus olhos. — Eu não posso viver em um mundo onde você não goste de mim.
— Eu posso ficar aqui, Eady. Estou lhe dizendo, eu quero.
— Eu não posso.
— Você pode. Acabou de dizer que precisava. Quem poderia fazer isso melhor do que eu?
Lágrimas quentes escorriam pelo meu rosto.
— Por favor, não me faça forçar sua saída.
— Você não pode me fazer sair daqui, Eadlyn.
Puxei minhas mãos das dele e levantei, limpando meu rosto. Olhei para baixo, para Kile, meu doce amigo se sacrificando, e me firmei.
— Kile Woodwork, você está banido do palácio por um ano.
— O quê? — ele se levantou, cerrando os punhos.
— Como compensação pela perda de sua casa, e por serviços prestados à família real, você ganhará um apartamento totalmente pago em Bonita.
— Bonita? Isso fico do outro lado do país!
— Além disso, fundos e materiais serão atribuídos a você para começar um projeto de habitação para os sem-teto na capital da província.
Seu rosto se suavizou.
— O quê?
— Se achar insuficiente, pode escrever para o palácio e pedir mais, e enviarei-lhe o mais rápido possível.
— Eadlyn...
— Você sempre fará parte da minha família, Kile, mas não o farei meu marido. Não posso fazer isso com você.
Sua voz era suave.
— Mas alguém será seu marido. Você precisa de um.
— Será Henri. Fox saiu algumas horas atrás, e Hale apenas entrou em um carro.
Ele ficou totalmente confuso.
— Este é realmente o fim, não é?
— E eu estava preparada para ficar com você pelo resto da minha vida. De certa forma, acho que ainda estou. Mas eu me odiaria se continuasse com isso. Seria insensível.
— E Henri? Você será feliz com ele?
Engoli em seco.
— Ele praticamente adora o chão que piso.
Kile assentiu, aceitando.
— Suponho que você poderia escolher pior do que a devoção absoluta.
Eu sorri.
— Obrigada. Você me manteve sã por muito tempo aqui, mas não posso tirar a única coisa de que você realmente gosta.
Ele assentiu.
— Eu compreendo.
Andei na direção dele e o abracei, mantendo-me tão perto que quase doía.
Sua voz soava apertada quando ele finalmente falou.
— Se houver algo que eu possa fazer para você, diga-me.
Chorei em sua camisa.
— Direi. E farei tudo o que me pedir.
— Só não se casar comigo.
Eu me afastei, feliz por vê-lo sorrir.
— A não ser me casar com você — eu me afastei, entrelaçando os dedos. — Farei o anúncio oficial amanhã. Preciso de você até lá para que a imprensa não fique sabendo do que está acontecendo. Depois disso, não quero ver a sua cara por um ano. Está me ouvindo, Woodwork?
— Eu tenho passe livre para o casamento, certo?
— Bem, é claro, para o casamento.
— E o Natal?
— Obviamente.
Ele considerou.
— E quanto ao seu aniversário?
— Bem, Ahren disse que voltaria, por isso provavelmente será uma festa maravilhosa.
Ele assentiu.
— Ok, então. Um ano, exceto por esses três dias.
— Perfeito. E, enquanto isso, você fará apenas a coisa que nasceu para fazer — eu disse com um encolher de ombros, como se tudo isso fosse nada.
Ele balançou a cabeça.
— Eu vou construir alguma coisa. Estou realmente indo embora para construir.
— E mudará a sua vida por causa disso.
— Obrigado, Sua Majestade.
— Por nada — beijei seu rosto e corri porta afora antes que eu mudasse de ideia. — Eu o vejo no estúdio amanhã. Te mando os detalhes assim que eu os tiver.
No corredor, apertei as mãos contra o estômago e respirei fundo. Eu tinha feito uma escolha. Então por que de repente sentia como se tivesse perdido o controle?
Corri de volta para o escritório, contente de ver que todos estavam em trabalhando, fazendo com que o dia seguinte corresse tão bem quanto possível. Que tudo parecesse bem para todo o mundo, exceto para mim.
— Lady Brice, por favor, pode chamar Erik para mim? Preciso falar com ele sobre as especificidades de amanhã.
— Considere feito.

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