quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 28

TODOS SAÍRAM num acesso de raiva para o almoço, e fiquei na sala, numa desejosa solidão. Na verdade, desejava estar com Eikko, mas não havia maneira de fazer isso sem levantar suspeitas. Rangendo os dentes, liguei a TV novamente. Zapeei pelos canais, observando as imagens de Marid na tela.
Talvez as pessoas estivessem certas. Talvez eu devesse renunciar agora. Se nós treinássemos Kaden para a trono, poderia salvar tudo. Seria humilhante para mim abdicar depois de menos de uma semana, mas isso poderia, pelo menos, poupar o resto da minha família de ser envergonhada.
— Majestade? — Josie chegou perto de mim. — Posso trazer alguma coisa? Alguma comida? Café?
— Não, Josie. Perdi meu apetite.
— Eu não a culpo — ela disse com um pequeno sorriso.
— Quero agradecer-lhe por ter vindo me avisar hoje. Sei que não parece muito, mas esses cinco minutos extras me ajudaram a me preparar. Teria sido mil vezes pior se Sir Andrews tivesse visto primeiro.
Ela arregalou os olhos.
— Ele é horrível. Será que eles gritam assim o tempo todo?
Balancei a cabeça.
— Não a Srta. Brice ou o General Leger. Mas os outros eram assim com papai também. É como se eles achassem que a única maneira de nos fazer entender o quão inflexíveis eles são é a gritar sobre isso.
Ficamos em silêncio por um minuto, observando o belo rosto de Marid na tela. Ele certamente teve o seu momento.
— Eu sinto muito, Eadlyn — Josie sussurrou, puxando o meu foco de volta para ela. — Por tudo, e pelo jeito como fui, e por tudo o que você está lidando com agora.
— Você não tinha ideia, não é? — perguntei, suavizando o meu tom de voz.
Envergonhada, ela balançou a cabeça.
— Pensei que todo mundo fizesse o trabalho, e você acabava só dizendo sim ou não.
— Que tudo era só festas, dinheiro e poder?
— Sim — ela soltou um quase risada. — Não posso acreditar que passei a minha vida inteira querendo ser uma princesa só para ver que nunca poderia... nunca lidaria com isso.
Eu me mexi no sofá, finalmente expressando algo positivo desde o início.
— Foi por isso que você colocou o nome do Kile? Porque poderia ser uma princesa?
Ela corou ferozmente.
— Eu não achei que ele realmente estivesse preparado. E se estivesse, não achei que houvesse alguma possibilidade de você escolhê-lo. Quando vi aquele beijo na primeira página dos jornais, fiquei tão animada. Comecei a desenhar coroas em meus cadernos.
— E agora?
— Eu ainda gostaria de ter minha própria coroa, mas sei que não fiz por merecer — ela sorriu lentamente. — E percebo que, mesmo se ele ganhar, eu não seria exatamente uma princesa, mas ainda sinto como um grande negócio. Olho para sua tia May, como ela é glamourosa, viajando pelo mundo e conhecendo todas essas pessoas e parecendo um modelo.
— Posso ver a apelação — concordei. — Os irmãos da mamãe definitivamente estiveram melhor do que ela em diversas situações.
Quando pensei em meus tios, uma ideia maravilhosa chegou a mim, e fiquei muito feliz que pelo menos uma coisa boa pudesse vir daquele dia.
Josie brincava com a bainha de seu vestido.
— Sim, parece divertido. Mas eu era muito obcecada com isso. Me desculpe, eu trouxe momentos difíceis.
— Assim como eu. Foi difícil crescer com alguém que queria ser eu sem fazer qualquer trabalho.
— E foi difícil para mim crescer à sua sombra — ela parecia triste, insegura de si mesma agora.
— Sabe, Josie, não é tarde demais para se apaixonar por outra coisa. Você foi de excelente ajuda para mim, e eu gostaria de ajudá-la a encontrar o caminho certo. Enquanto esse caminho estiver longe das minhas tiaras.
Ela riu.
— Eu não tenho ideia por onde começar.
— Bem, você já provou nos últimos dias o quão útil pode ser. E se nós a colocarmos na folha de pagamento, como estagiária do escritório? Qualquer coisa que queira fazer, precisará ter seu próprio dinheiro.
— Sério? — ela engasgou.
— Sério.
Josie deixou o outro lado da sala, esmagando-me em um abraço. Pela primeira vez, eu não me importava de ela estar tão perto.
— Obrigada.
— De nada. Tenho que fazer o bem que eu puder enquanto estiver aqui.
Ela se afastou.
— Eu juro, se você sair, nunca vou te perdoar.
Receber aquela frase significava muito.
— Percebo que não significa muito, mas ainda assim. Não faça isso. Você não pode.
Balancei a cabeça.
— Eu não vou. Eu prometo. Por mais tentador que seja, sou orgulhosa demais para fazer isso.


Caro Tio Gerad,
Esta carta está muito atrasada. Como você está? Como está o trabalho? Como está... Ok, eu preciso de um favor. O namorado da minha dama de companhia também é um cientista talentoso. Não tenho completa certeza se o seu campo e o dele são semelhantes, mas achei que o senhor pudesse pelo menos ter uma conexão que o trouxesse para trabalhar em Angeles. Significaria muito para ela se ele estivesse mais perto, e significaria muito para mim que ela estivesse feliz. Você acha que poderia ajudar?
Lembrete amigável: eu sou sua rainha.
Obrigada! Te amo muito! Venha nos visitar em breve!
Eadlyn

Nenhum comentário:

Postar um comentário