sábado, 14 de maio de 2016

Capítulo 28

Um conselho aos pais
Mães, não deixem suas larvas
Virarem formigas

MEG SE DEBATEU NA casca de gosma.
— Me tire daqui!
— Não tenho como cortar! — Meus dedos foram até a corda de ukulele no meu pescoço. — Na verdade, tenho as suas espadas, quer dizer, seus anéis...
— Você não precisa cortar nada. Quando a formiga me deixou aqui, soltei o pacote de sementes. Deve estar por aí.
Meg estava certa. Vi o saco amassado perto dos pés dela.
Aproximei-me lentamente, de olho nas formigas. Elas estavam reunidas na entrada, como se com medo de chegar mais perto. Talvez a trilha de formigas mortas no caminho tivesse deixado as criaturas em dúvida.
— Formigas legais — falei. — Formigas excelentes e calmas.
Eu me agachei e peguei o pacote. Uma olhada rápida lá dentro me mostrou que restavam seis sementes.
— Agora o quê, Meg?
— Jogue na gosma — disse ela.
Apontei para os gerânios florescendo perto do pescoço e do sovaco dela.
— Quantas sementes fizeram isso?
— Uma.
— Então essa quantidade vai sufocar você até a morte. Já transformei gente demais de quem eu gostava em flores, Meg. Não vou...
— ANDA LOGO!
As formigas não gostaram do tom dela. Elas avançaram, estalando as mandíbulas. Sacudi as sementes de gerânio acima do casulo de Meg, depois prendi a flecha no arco. Matar uma formiga não adiantaria se as outras três nos fizessem em pedacinhos, então escolhi um alvo diferente.
Disparei no teto da caverna, acima da cabeça das formigas.
Foi uma ideia desesperada, mas eu já tinha obtido sucesso derrubando prédios com flechas antes. Em 464 a.C., provoquei um terremoto que quase exterminou a população de Esparta ao acertar uma falha geológica no ângulo certo. (Nunca gostei muito dos espartanos.)
Dessa vez, tive menos sorte. A flecha entrou na terra batida com um baque seco. As formigas deram outro passo à frente, ácido pingando da boca. Atrás de mim, Meg lutou para se libertar do casulo, que estava coberto com um tapete de flores roxas.
Ela precisava de mais tempo.
Sem ideias, tirei o lenço de Paulo do pescoço e balancei feito um louco, tentando canalizar meu brasileiro interior.
— PARA TRÁS, FORMIGAS DO MAL! — gritei. — BRASIL!
As formigas hesitaram, talvez por causa das cores intensas da bandeira ou da minha voz, ou talvez da minha confiança insana repentina. Enquanto isso, rachaduras se espalharam pelo teto, e então milhares de toneladas de terra caíram nos myrmekos.
Quando a poeira baixou, metade do local tinha sumido junto com as malditas formigas. Olhei para o meu lenço.
— Estige me morda! Ele tem mesmo poderes mágicos. Não posso contar isso para Paulo, senão ele vai ficar insuportável.
— Aqui! — gritou Meg.
Eu me virei. Outro myrmeko estava subindo em uma pilha de carcaças, aparentemente da segunda saída na qual não reparei, atrás das pilhas nojentas de comida.
Antes que eu pudesse pensar no que fazer, Meg rugiu e saiu do amontoado de gosma, jogando gerânios em todas as direções.
— Meus anéis! — gritou ela.
Eu os arranquei do pescoço e os arremessei. Assim que Meg os pegou, duas espadas douradas surgiram nas mãos dela.
O myrmeko mal teve tempo de pensar Ops antes de Meg atacar. Ela cortou a cabeça protegida pela carapaça. O corpo desabou em uma pilha fumegante.
Meg se virou para mim. O rosto dela era uma agitação de culpa, infelicidade e amargura. Fiquei com medo de ela vir para cima de mim.
— Apolo, eu... — A voz dela falhou.
Achei que ela ainda estivesse sofrendo os efeitos da minha música. Estava extremamente abalada. Fiz uma nota mental de nunca mais cantar de forma tão sincera quando houvesse a possibilidade de algum mortal estar ouvindo.
— Tudo bem, Meg. Eu que devia pedir desculpas. Coloquei você nessa confusão toda.
Meg balançou a cabeça.
— Você não entende. Eu...
Um grito enfurecido ecoou pela câmara, sacudindo o teto danificado e fazendo chover pedaços de terra em nossa cabeça. O tom do grito me lembrou Hera sempre que ela disparava pelos corredores do Olimpo, gritando comigo por ter deixado o assento divino da privada levantado.
— É a formiga rainha — deduzi. — Temos que ir.
Meg apontou a espada para a única saída que restava.
— Mas o som veio de lá. Assim vamos dar de cara com ela.
— Exatamente. Melhor deixarmos as pazes para depois, né? Um ainda pode acabar fazendo o outro morrer.

* * *

Encontramos a formiga rainha.
Oba.
Todos os corredores deviam levar à rainha. Eles irradiavam da câmara dela como as pontas de uma estrela. Sua Majestade tinha três vezes o tamanho dos maiores soldados, uma massa gigantesca de quitina e apêndices farpados, com asas ovais diáfanas dobradas nas costas. Os olhos eram poças vidradas de ônix. O abdome, um saco transparente pulsante cheio de ovos brilhantes. A visão me fez lamentar ter inventado as cápsulas de gel.
O abdome inchado poderia deixá-la mais lenta em uma briga, mas ela era tão grande que seria capaz de nos interceptar antes de chegarmos à saída mais próxima. As mandíbulas nos cortariam ao meio como galhos secos.
— Meg — falei —, o que você acha de usar suas espadas contra essa moça?
Meg ficou perplexa.
— É uma mãe dando à luz.
— É... e é um inseto, coisa que você odeia. E os filhos dela estavam preparando você para o jantar.
Meg franziu a testa.
— Mesmo assim... não acho certo fazer isso.
A rainha sibilou, um som seco de spray. Imaginei que já teria nos borrifado com ácido se não estivesse preocupada com os efeitos de longa duração de corrosivos nas larvas dela. Todo cuidado é pouco para formigas rainhas atualmente.
— Você tem alguma outra ideia? — perguntei a Meg. — De preferência uma que não envolva morrer?
Ela apontou para um túnel logo atrás do amontoado de ovos da rainha.
— A gente tem que ir para aquele lado. Leva à floresta.
— Como você pode ter certeza?
Meg inclinou a cabeça.
— As árvores. É como... Eu consigo ouvi-las crescendo.
Isso me lembrou outra coisa que as Musas me disseram uma vez: que conseguiam ouvir a tinta secando em novas páginas de poesia. Achei que fazia sentido uma filha de Deméter conseguir ouvir o crescimento de plantas. Além do mais, não me surpreendeu que precisássemos chegar justamente ao túnel com acesso mais perigoso.
— Cante — disse Meg. — Cante como você cantou antes.
— Eu... eu não consigo. Estou quase sem voz.
Além do mais, pensei, não quero correr o risco de perder você de novo.
Eu havia libertado Meg, então talvez tivesse cumprido meu juramento a Pete, o deus do gêiser. Ainda assim, ao cantar e usar o arco, quebrei meu juramento pelo Rio Estige não só uma vez, mas duas. Outra cantoria só me tornaria mais transgressor. Independentemente de quais fossem as punições cósmicas que me aguardavam, eu não queria que recaíssem sobre Meg.
Sua Majestade bateu o maxilar para nós: um aviso, nos mandando recuar. Mais alguns centímetros e minha cabeça teria rolado na terra.
Comecei a cantar, ou melhor, fiz o que pude com a voz rouca que me restou. Decidi cantar um rap. Comecei com o ritmo bum chica chica. Cantei um som no qual as Nove Musas e eu estávamos trabalhando pouco antes da guerra com Gaia.
A rainha arqueou as costas. Acho que não esperava ouvir um rap.
Lancei um olhar para Meg que dizia claramente Me ajude!.
Ela balançou a cabeça. Com duas espadas na mão, virava uma louca. Mas era só pedir uma ajudinha com uma batida musical que a menina ficava acanhada.
Tudo bem, pensei. Faço sozinho.
Comecei a cantar “Dance”, do Nas, que, devo confessar, é uma das odes mais emocionantes às mães que já inspirei um artista a compor. (De nada, Nas.) Tomei algumas liberdades com a letra. Posso ter mudado anjo para mãe de ninhada e mulher para inseto. Mas o sentimento permaneceu. Fiz uma serenata para a rainha grávida, canalizando meu amor pela minha querida mãe, Leto. Quando cantei que só podia desejar me casar com uma mulher (ou inseto) tão linda como ela um dia, a dor em meu coração era verdadeira. Eu jamais teria uma parceira assim. Não estava no meu destino.
As antenas da rainha tremeram. A cabeça balançou para a frente e para trás. Ovos ficavam saindo do abdome, o que dificultou minha concentração, mas eu insisti.
Quando terminei, me apoiei em um joelho e estiquei os braços em homenagem a ela, esperando o veredito da rainha. Ela tanto poderia me matar, quanto me deixar vivo. Eu estava esgotado.
Dediquei tudo àquela música e não conseguia cantar nem mais um verso.
Ao meu lado, Meg ficou totalmente imóvel, segurando as espadas.
Sua Majestade tremeu. Ela virou a cabeça para trás e berrou, um som mais de dor do que de raiva. Ela se inclinou e cutucou meu peito delicadamente, me empurrando na direção do túnel para onde precisávamos ir.
— Obrigado — grunhi. — Eu... peço desculpas pelas formigas que matei.
A rainha ronronou e estalou, expulsando mais alguns ovos, como quem diz Não se preocupe, sempre posso fazer mais.
Fiz um carinho na testa da formiga rainha.
— Posso chamar você de Mama?
A boca do inseto espumou de um jeito satisfeito.
— Apolo — pediu Meg —, vamos, antes que ela mude de ideia.
Eu não sabia se Mama mudaria de ideia. Tive a sensação de que ela aceitou minha lealdade e nos adotou na ninhada. Mas Meg estava certa; precisávamos ir logo. Mama nos observou ir embora. Entramos no túnel e vimos o brilho da luz do dia acima de nós.

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