quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 25

— QUE LUGAR É ESSE? — perguntou Erik.
Eu tinha feito o meu melhor para torná-lo aconchegante, esgueirando-me com uma cesta cheia de velas e cobertores, e outra cheia de comida, quando todos saíram para jantar.
Erik disse que estava passando mal, eu falei que tinha trabalho, e nós nos encontramos em um local discreto no segundo andar. Uma das passagens mais fáceis que levavam até o enorme lugar secreto era pelo antigo quarto da minha mãe, o que ela usara durante a sua Seleção. Às vezes, ela peregrinava até lá, dizendo que era o lugar mais calmo do palácio para se estar.
— Quando os rebeldes eram uma ameaça mortal, a família real usava aquelas passagens para escapar aqui para baixo — falei para Erik enquanto atravessávamos o espaço vazio. — Mas este lugar não foi utilizado por mais de uma década, e agora acho que pode ser o segredo mais bem guardado do palácio.
— Em outras palavras, ninguém vai nos encontrar — Erik respondeu com um sorriso.
— Não se nós não quisermos que eles nos encontrem.
Ele respirou fundo.
— Eu me senti tão culpado hoje, dividido entre a animação pelo seu convite e a culpa, já que não serei uma escolha sua.
Balancei a cabeça, puxando as tampas do cesto e colocando-as em cima dos cobertores.
— Eu sei. Venho amaldiçoando a Seleção desde que meus pais a mencionaram pela primeira vez. E então volto atrás, porque se ela nunca tivesse acontecido...
Nós compartilhamos um longo olhar. Eu o quebrei com um suspiro, continuando a montar nosso piquenique à luz de velas.
— Sabe, não se esperava que meu pai se casasse com a minha mãe.
— Você está brincando — disse ele, juntando-se a mim.
— Aparentemente, meu avô tinha escolhido a dedo as meninas que vieram para competir. Ele só colocou três Cinco para apaziguar as castas mais baixas, e odiou a minha mãe desde o início. Além disso, descobri que meus pais costumavam discutir o tempo todo. — Dei de ombros, ainda surpresa com a história deles. — Eu cresci pensando neles como um conto de fadas, sabe? Acontece que eles eram como qualquer outras pessoas. De alguma forma, isso torna tudo ainda mais mágico.
Deixei as palavras se assentarem, pensando em tudo o que eu sabia agora.
— Eles dançam lentamente quando chove. Não tenho ideia do porquê, mas cada vez que o céu fica cinza, podemos encontrá-los juntos. — Eu sorri. — Lembro de uma vez que meu pai invadiu o Salão das Mulheres, o que é completamente inadequado. Homens deveriam ser convidados a entrar. Mas estava chovendo, e ele não ia esperar para encontrá-la. E uma vez que ele disparou com ela pelo corredor, ela apenas riu e riu. Ela ainda usava o cabelo solto, então nunca vou esquecer aquela cascata vermelha. É como se não importasse o que acontecesse, eles pudessem se encontrar de novo lá.
— Eu sei o que você quer dizer — Erik olhou para a garrafa de vinho tinto que eu tinha surrupiado e sorriu. — Meus pais fazem isso com o omenalörtsy.
Passei os braços em volta dos meus joelhos, arrumando a saia do vestido sob de mim.
— O que é isso?
— É como uma rosquinha de maçã. Minha mãe fez um lote quando eles estavam namorando, e tornou-se a coisa especial deles. Quando algo de bom acontece: omenalörtsy. Quando eles estão se entendendo depois de uma briga: omenalörtsy. Quando parece que é uma sexta-feira maravilhosa: omenalörtsy.
— Como eles se conheceram?
— Vai soar estranho, mas através de porcas e parafusos.
Eu apertei os olhos.
— Então... eles são mecânicos?
— Não — ele respondeu com uma risada. — Meus pais se conheciam basicamente pela vida inteira. Cresceram na mesma cidade pequena, em Swendway. Quando tinham onze anos, alguns garotos da escola pegaram meu pai, e jogaram seu trabalho escolar na lama. Minha mãe era ainda menor do que ele na época, mas foi para cima, gritando com eles e puxando meu pai para longe. Ele estava envergonhado, mas ela, enfurecida. Ela o obrigou a formar um plano, e naquela noite eles se encontraram na rua de trás, correram para cada uma das casas dos três agressores e roubaram os parafusos das rodas das bicicletas para que eles tivessem que andar. Durante semanas depois disso, sempre que viam que um dos três tinha substituído os parafusos, minha mãe e meu pai iam roubá-los. Depois de um tempo, os valentões desistiram e passaram a andar.
— Gostei da sua mãe — comentei entre mordidas de pão.
— Oh, vocês se dariam muito bem. Ela adora comida e música e está constantemente buscando um bom motivo para rir. Meu pai, por outro lado... Bem, se você pensa que eu sou tímido, deveria conhecê-lo. Ele fica muito mais confortável com livros do que com pessoas, e pode demorar um pouco para se sentir bem com estranhos. De qualquer forma, meus pais cresceram, e por serem pessoas muito diferentes, tiveram histórias diferentes. Minha mãe teve vários namorados, enquanto meu pai passava fins de semana na biblioteca. Quando meu pai ficou mais velho, ele comprou uma bicicleta. E uma manhã, ele acordou e percebeu que os parafusos para as rodas estavam faltando.
— Não!
— Sim. E ela fez isso até que ele fosse sensato e começasse a ir com ela para a escola. E eles foram juntos para todos os lugares desde então.
— Isso é incrível.
Ele assentiu.
— Eles se casaram jovens, mas esperaram algum tempo para começar uma família. Me disseram para eu não me ofender, mas eles não estavam prontos para compartilhar o outro com mais ninguém, nem mesmo comigo.
Balancei a cabeça.
— Eu realmente gostaria de poder conhecê-los.
— Eles teriam gostado de você. Papai poderia passar a maior parte da visita se escondendo no quarto dele, mas teria gostado de você do mesmo jeito.
Erik tirou a rolha do vinho, e nós dividimos frutas, pão e queijo. Por um longo tempo, não falamos. O silêncio fez tudo parecer maior, melhor. Não havia pressa para preencher o silêncio, e depois de dias e dias de inquietude, o silêncio confortável, com sendo Erik o objeto mais suave do meu mundo. Era como estar sozinha sem realmente estar sozinha.
— Tenho que fazer uma pergunta embaraçosa — falei depois de um tempo.
— Oh, não — ele respirou fundo. — Tudo bem, eu estou pronto.
— Qual é o seu nome completo?
Ele quase cuspiu seu vinho.
— Pensei que eu teria que confessar algum segredo obscuro!
— Eu me sinto mal por tê-lo beijado e não saber nem seu sobrenome.
Ele assentiu.
— É Eikko Petteri Koskinen.
— Eikko Pet... Petteri?
— Koskinen.
— Koskinen.
— Perfeito.
— Está tudo bem se eu te chamar assim? Eikko? Gosto do seu nome.
Ele encolheu os ombros.
— Eu só mudei porque achava que era muito estranho.
— Não — insisti. — Não é estranho.
Ele olhou para baixo, brincando com o cobertor
— E você? Seu nome completo?
Suspirei.
— Houve algum debate sobre nomes do meio, por isso é Eadlyn Helena Margarete Schreave.
— É bem comprido — ele brincou.
— É pretensioso, também. Meu nome significa literalmente — princesa pérola brilhante.
Ele tentou esconder o sorriso.
— Seus pais a chamavam de princesa?
— Sim. Sim, eu sou a Rainha Princesa Schreave, obrigada.
— Eu não deveria rir.
— E ainda assim você ri — espanei as migalhas do meu vestido. — Faz-me sentir como se eu estivesse predestinada a me tornar infantil.
Ele agarrou minha mão, forçando-me a olhar para ele.
— Você não é infantil.
— Na primeira vez que nós realmente nos falamos, eu corrigi suas maneiras.
Ele deu de ombros.
— Elas precisavam de correção.
Eu sorri tristemente.
— Eu não sei por que, mas isso me faz querer chorar.
— Por favor, não. Aquele foi um bom dia para mim. — Questionei-o com os olhos, segurando em sua mão enquanto ele continuava. — Lembra quando você se levantou para o café e estava falando com Henri? Depois, olhou para baixo e me assegurou que estava tudo bem. Não precisava fazer isso. Você estava ocupada e com pressa, e ainda assim falou comigo. Mesmo depois de saber que eu era o tipo de pessoa que roía as unhas quando estava nervoso.
Isso me fez querer chorar ainda mais.
— Tudo começou aí, então?
— Praticamente. E eu me castiguei por isso todos os dias desde então. Mas, é claro, assumi que ninguém jamais saberia, muito menos você.
— Eu fui um pouco lenta — admiti. — Acho que foi quando você me puxou da cozinha. Não estava preocupado com o que estava acontecendo, ou como poderíamos parecer correndo por uma sala lotada, ou qualquer outra coisa no mundo. Eu estava inquieta, e você me trouxe de volta à Terra. Muitas pessoas tem a função de me manter na linha, mas parece que ninguém me faz sentir tão normal quanto você.
Ele engoliu em seco.
— Me desculpe, eu não poderei fazer isso por muito mais tempo.
— Você não tem ideia do quanto eu gostaria que pudesse.
Depois de um momento tenso de silêncio, ele limpou a garganta.
— Você poderia por favor... quando isso acabar, poderia não entrar em contato comigo? Tenho certeza de que pode me encontrar a qualquer momento que quiser. Mas por favor, não faça isso. Vocês têm sido uns amigos maravilhosos para mim. Eu não quero me tornar o tipo de homem que trai seus amigos.
— E eu não quero ser o tipo de mulher que engana o marido. Quando acabar, acabou.
— Obrigado — ele sussurrou.
— Mas não será esta noite — eu o lembrei.
Ele olhou para baixo, sorrindo um pouco.
— Eu sei. Estou tentando decidir se tenho coragem suficiente para pedir-lhe outro beijo.
Fui para mais perto dele.
— Você pode pedir um. Ou dois. Ou uma dúzia.
Ele riu antes de me puxar para si, a força do nosso movimento derrubando seu copo de vinho e fazendo tremular a chama das velas.

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