quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 23

— AQUI ESTÁ ELA, A MULHER do momento — disse ele, envolvendo um braço à minha volta enquanto a entrevistadora ria.
— Majestade, como está se sentindo? — ela perguntou, apontando o microfone na minha cara.
— Posso dizer cansada? — brinquei. — Bem, foi um dia incrível, e com tantas coisas angustiantes acontecendo em nosso país recentemente, eu certamente espero que o dia de hoje levante o ânimo de todos. E estou muito animada para começar a trabalhar. Graças aos maravilhosos rapazes na Seleção e aos amigos, como o Sr. Illéa aqui, comecei a conhecer muito mais sobre meu povo. Espero ser capaz de encontrar maneiras de ouvir e responder às necessidades de modo muito mais eficiente.
— A senhorita pode nos dar alguma dica sobre o que está planejando fazer? — ela perguntou ansiosamente.
— Bem, acho que a nossa reunião no palácio, que foi ideia toda de Marid — respondi, apontando para ele — começou um pouco difícil, mas acabou por ser muito informativa. E o Sr. Woodwork, na verdade, tem uma proposta bastante interessante sobre dar aos cidadãos uma maneira muito mais fácil de apresentar petições à coroa. Não posso dizer muito sobre isso no momento, mas é incrivelmente inspirador.
— Falando em propostas — ela falou com entusiasmo — há alguma notícia pela frente?
Eu ri.
— Deixe-me passar pela minha primeira semana como rainha e, em seguida, mudarei meu foco de volta para a vida amorosa.
— É justo. E quanto a você, senhor? Algum conselho para a nossa nova rainha?
Virei-me para enfrentar Marid, que deu de ombros e abaixou a cabeça.
— Eu só quero que ela tenha toda a sorte com seu reinado, e termine a sua Seleção. O homem que ganhar seu coração será mais sortudo do que pensa.
Marid engoliu, parecendo ter dificuldade em encontrar os olhos da entrevistadora novamente.
Ela acenou cordialmente.
— Ele certamente será. — Ela se virou para a câmera e deu um sinal.
Segundos depois, sua atenção não era mais nossa.
Tomei o braço de Marid e o girei, levando-nos para fora do alcance das vozes.
— Não quero ser rude depois de toda a bondade que expressou em tudo o que fizemos, mas você está se comportando inadequadamente.
— Como assim? — perguntou.
— Como se você e eu pudéssemos ter tido algo se a Seleção não tivesse acontecido. Esta é a terceira vez que o vejo fazer algo assim, mas eu nem mesmo o vi nos últimos anos. Devo me casar com um dos meus candidatos, ou seja, você agir como alguém magoado quando não temos nem tivemos absolutamente nada é inaceitável. Devo insistir que pare com isso.
— E por que eu faria isso? — ele perguntou, sua voz tornando-se escorregadia.
— Perdão?
— Se a sua família estivesse prestando a menor atenção ao povo, a senhorita poderia ter aprendido que quando se trata do público, eu tenho uma voz incrivelmente poderosa. Eles valorizam o que eu faço. Você deveria ver as pilhas de cartas de fãs que recebo. Nem todo mundo pensa que a linha Schreave é a única válida.
Congelei, com medo de que o que ele dizia fosse verdade.
— Você me deve muito, Eadlyn. Eu a deixei bem nos jornais e falei bem de você em entrevistas, salvei a assembleia no palácio. Eu fiz isso, não você.
— Eu poderia ter...
— Não, você não poderia. E esse é o problema. Você não pode fazer este trabalho sozinha. É quase impossível, razão pela qual você se casar é uma ideia maravilhosa. Só que está procurando no lugar errado.
Eu estava chocada demais para falar.
— E, vamos ser honestos: se qualquer um desses rapazes estivesse animado com isso, não estariam eles pulando ao seu redor neste exato momento? Olhando melhor, todos eles são indiferentes.
Meu choque virou angústia. Olhei ao redor da sala. Ele estava certo. Ninguém da Elite parecia remotamente consciente da minha presença.
— Entretanto, se você se casar comigo, a linha Illéa-Schreave estará completamente segura. Ninguém se atreveria a questionar o seu direito de governar se você fosse a minha esposa.
O salão oscilou um pouco, e eu lutei para me manter em pé.
— E você pode verificar os números se quiser, mas, na opinião pública, meu índice de aprovação é o dobro do seu. Eu poderia elevá-la para tolerável esta noite.
— Marid — falei, odiando que a minha voz soasse tão fraca. — Isso não é possível.
— Mas é. Ou acaba com esta Seleção você mesma, ou posso espalhar rumores sobre nós a tal ponto que ninguém a levará a sério de qualquer maneira. Até o momento eu estou pronto, você só parecerá mais insensível do que já pensam que é.
Endireite minhas costas.
— Eu vou arruiná-lo — prometi.
— Experimente. Veremos o quão rápido eles se viram contra você. — Ele beijou minha bochecha. — Você tem meu número.
Marid afastou-se, casualmente apertando as mãos daqueles que passaram por ele como se ele já fosse um membro da família real. Enquanto todos os olhos pareciam segui-lo, eu calmamente desviei para fora da sala.
Eu era uma tola. Quando eu tinha pensado que Hale se importava comigo, que Ean estava aqui para me apoiar, eu não poderia ter estado mais errada. Eu estava errada confiando em Burke, Jack e Baden. Eu tinha pensado que Marid estava aqui para me ajudar, e ele só estava tentando se colocar no trono. Meus instintos estavam errados em tudo, e de repente parecia que as pessoas ao meu redor não eram nada além de falsas.
Eu estava enganada sobre todos? Estava errada em confiar em Neena ou em Lady Brice? Kile não era o amigo que eu pensava que era? Eu poderia confiar no que eu sentia ou pensava sobre qualquer um?
Debrucei-me contra a parede, à beira das lágrimas. Eu era a rainha. Nenhuma pessoa era mais poderosa que eu. E ainda assim eu nunca me senti mais impotente.
Outra figura surgiu da porta, e antes que eu pudesse sumir vista, o rosto de Erik surgiu.
— Majestade, sinto muito. Eu estava apenas escapando das multidões. Foi um pouco demais para mim lá dentro.
Eu não respondi.
— Parece ter sido um pouco demais para a senhorita também — acrescentou com cautela.
Eu olhava para o chão.
— Majestade? — ele se aproximou, sussurrando: — Posso ajudar?
Olhei descontroladamente para aqueles olhos azuis e abandonei todas as preocupações em minha cabeça. Meu coração dizia corra. Então peguei a mão dele e fiz exatamente isso.
Eu disparei prlo corredor, olhando para trás uma vez para certificar-me de que ninguém estava nos seguindo.
Como eu esperava, o Salão das Mulheres estava vazio. Deixando as luzes apagadas, puxei-o para mais perto da janela, para que eu, pelo menos, tivesse a lua para me ajudar a ver.
— Correndo o risco de fazer uma tolice ainda maior do que as que já fiz, você pode, por favor, me responder uma coisa? E você deve ser absolutamente honesto. Eu lhe dou permissão para ferir meus sentimentos. Eu tenho que saber.
Depois de um longo momento, ele assentiu, embora sua expressão me dissesse que ele estava apavorado com o que poderia vir.
— Existe uma chance de que você sinta por mim o que eu sinto por você? Se já sentiu ainda que apenas uma fração dessa revolta que está acontecendo no meu coração, eu preciso saber.
Erik soltou um suspiro, parecendo atordoado e triste ao mesmo tempo.
— Majestade, eu...
— Não! — interrompi, tirando a coroa da minha cabeça e arremessando-a pela sala. — Não Majestade. Eadlyn. Eu sou apenas Eadlyn.
Ele sorriu.
— Você sempre será apenas Eadlyn. E sempre será a rainha. Você é tudo para todos. E infinitamente mais para mim.
Coloquei a mão em seu peito e pude sentir seu coração batendo em compasso com o meu. Ele parecia subitamente consciente do quão desesperada eu estava mesmo sem que eu tivesse expressado em palavras, então segurou meu rosto com as mãos e se inclinou para me beijar.
Cada momento que nós tivemos juntos dançou pela minha cabeça. Sua postura desajeitada no dia em que nos conhecemos, e como eu o repreendi antes do desfile quando ele roía as unhas. A maneira como ele me protegeu quando a briga irrompeu na cozinha, e como meus olhos foram para ele uma e outra vez quando os rapazes estavam em profunda oração do lado de fora da ala hospitalar. E, mais surpreendentemente, o momento no Salão da Mulheres, quando Camille me perguntou em quem eu mais pensava, e quão duro eu lutei para me impedir de dizer seu nome em voz alta.
Tudo isso, toda a mágica de cada segundo proibido queimou pelo meu corpo à medida que continuamos o nosso beijo perigosamente traidor. Quando finalmente nos separamos, eu estava em lágrimas, e percebi porque Ahren foi embora, e porque o medo de perder nossa mãe parecia quase indolor diante disso.
Ele sacudiu a cabeça, ainda me segurando.
— Claro que na única vez em que me apaixono, é por alguém de outra estratosfera.
Enfiei os dedos em sua camisa, no colete, com muita raiva por eu não poder segurá-lo para sempre.
— Esta será a primeira vez na minha vida que eu serei capaz de ter algo que eu realmente quero. É tão cruel que esse algo seja você.
Ele engoliu em seco.
— É realmente impossível, então?
Meu rosto caiu. Eu não queria dizer as palavras.
— Temo que sim. De muitas maneiras agora. Mal posso entender tudo para poder explicar, mas tudo ficou muito mais complicado para mim.
— Você não me deve uma explicação. Eu já sabia. Eu que cometi o erro de me deixar esperar por uma chance. Isso é tudo.
— Sinto muito — sussurrei, deixando cair o meu olhar. — Se eu pensasse que poderia cancelar essa coisa toda, eu o faria. Mas seria mais um erro no topo de todas as outras coisas egoístas e estúpidas que eu fiz.
Usando a outra mão, eles gentilmente levantou meu queixo.
— Por favor, não fale dessa forma da mulher que eu amo.
Meu sorriso foi fraco.
— Eu tenho sido tão injusta com você. Isso me devora viva, é maravilhoso, mas talvez tivesse sido melhor se nunca tivéssemos conhecido.
— Bem — disse ele, de alguma forma sendo capaz de encontrar conforto no meio de nós sendo dilacerados. — Não há nenhuma vergonha em amar quem se ama, e há grande honra em fazer o que é certo. É uma pena que essas duas coisas não estejam juntas no nosso caso, mas isso não faz com que este momento não seja importante para mim.
— Ou para mim.
Ele segurou minha mão tão ternamente, ainda parecendo chocado que tivesse a coragem de fazer tudo isso.
— Eu tenho que voltar. Odiaria causar um escândalo.
Suspirei.
— Você está certo. — E eu ainda não podia deixá-lo ir. Eu estava me pressionando contra ele. — Eu ainda não estou noiva — sussurrei. — Você poderia me encontrar amanhã à noite?
Era impossível não ver todas as engrenagens girando em sua cabeça. Também foi fácil ver o momento em que ele parou de pensar e assentiu de qualquer maneira.
— Eu vou acertar com você. Você pode sair agora, eu vou em poucos minutos.
Erik me deu um último beijo apressado e correu de volta para o corredor. Enquanto isso, recuperei minha coroa e fui até o abrigo escondido atrás da estante de livros. Eu queria ter certeza de que ninguém me encontraria esta noite.
Não havia mais rebeldes em Illéa, nem ameaças das quais fugir. Mas ainda havia dezenas de passagens secretas no palácio, e eu conhecia cada uma delas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário