sábado, 14 de maio de 2016

Capítulo 21

Gente intrometida
Sempre queimando os oráculos
Romanos são fogo

EU ERA UM DEUS DRAMÁTICO.
Achei minha última frase bem impactante. Por isso esperava olhos arregalados, talvez música de órgão ao fundo. As luzes se apagariam antes que eu dissesse mais alguma coisa. Momentos depois, eu seria encontrado morto com uma faca nas costas. Seria incrível!
Espere aí. Eu sou mortal. Assassinato me mataria. Deixa pra lá.
De qualquer modo, nada disso aconteceu. Meus três companheiros só ficaram me encarando.
— Quatro outros oráculos — disse Rachel. — Você quer dizer que tem quatro outras Pítias...
— Não, minha querida. Só existe uma Pítia... você. Delfos é único.
Rachel ainda parecia prestes a enfiar um pincel número dez no meu nariz.
— Então esses quatro oráculos não únicos...
— Bem, um era a Sibila de Cumas. — Eu sequei o suor das palmas das mãos. (Por que as palmas das mãos mortais suam?) — Foi ela quem escreveu os livros sibilinos, as profecias que a harpia Ella memorizou.
Meg nos observava, confusa.
— Uma harpia... como aquelas moças-galinhas que arrumam tudo depois do almoço?
Quíron sorriu.
— Ella é uma harpia muito especial, Meg. Anos atrás, ela encontrou um exemplar dos livros proféticos, que achávamos que tinham sido queimados antes da queda de Roma. Agora, nossos amigos do Acampamento Júpiter estão tentando reconstruí-los com base nas lembranças de Ella.
Rachel cruzou os braços.
— E os outros três oráculos? Tenho certeza de que nenhum deles era uma bela e jovem sacerdotisa que você elogiava por... como você descreveu mesmo?... “Conversas brilhantes”?
— Ah...
Eu não sabia bem por quê, mas parecia que minhas espinhas estavam se transformando em insetos vivos e rastejando pelo meu rosto.
— Bem, de acordo com minha pesquisa extensa...
— Uns livros que ele folheou ontem à noite — esclareceu Meg.
— Isso! Havia um oráculo na Eritreia e outro na Caverna de Trofônio.
— Caramba — disse Quíron. — Eu tinha me esquecido desses outros dois.
Eu dei de ombros; também não me lembrava de quase nada sobre eles. Foram os que menos renderam de minhas franquias proféticas.
— E o quinto era o Bosque de Dodona — concluí.
— Um bosque — disse Meg. — De árvores.
— É, Meg, de árvores. Bosques costumam ser compostos de árvores e não de, digamos, picolés de chocolate. Dodona era um grupo de carvalhos sagrados plantados pela Mãe Deusa nos primeiros dias do mundo. Quando os olimpianos nasceram, eles já eram antigos.
— Mãe Deusa? — Rachel estremeceu, ainda que estivesse de casaco. — Por favor, diga que você não está falando de Gaia.
— Não é ela, felizmente. Estou falando de Reia, a rainha dos titãs, mãe da primeira geração de deuses olimpianos. As árvores sagradas dela falavam. Às vezes, diziam profecias.
— As vozes na floresta — adivinhou Meg.
— Exatamente. Acredito que o Bosque de Dodona tenha renascido na floresta do acampamento. Em meus sonhos, vi uma mulher de coroa implorando para que eu encontrasse o oráculo dela. Creio que era Reia, apesar de ainda não entender por que ela estava usando um símbolo da paz e falando sacou.
— Um símbolo da paz? — perguntou Quíron.
— Grande e de metal — confirmei.
Rachel bateu com os dedos no braço do sofá.
— Se Reia é titã, ela é má, certo?
— Nem todos os titãs eram maus — expliquei. — Reia era uma alma bondosa. Ela ficou do lado dos deuses na primeira grande guerra. Acho que quer nos ajudar também, para que seu bosque não caia nas mãos de nossos inimigos.
O rabo de Quíron tremeu.
— Meu amigo, Reia não é vista há milênios. O bosque dela pegou fogo há muito tempo. O imperador Teodósio mandou que o último carvalho fosse cortado em...
— É, é, eu sei.
Senti uma pontada entre os olhos, como sempre acontecia quando alguém mencionava Teodósio. Então lembrei que o valentão fechou todos os templos antigos do império, basicamente despejando os deuses olimpianos. Eu tinha um alvo de arco e flecha com a cara dele desenhada.
— Mesmo assim — continuei —, muitas coisas desse tempo sobreviveram ou se regeneraram. O Labirinto se reconstruiu. Por que um bosque de árvores sagradas não poderia surgir de novo bem aqui neste vale?
Meg afundou ainda mais nas almofadas.
— Isso é tão estranho. — A jovem McCaffrey resumia nossas conversas de forma extremamente eficiente. — Então, se as vozes das árvores são sagradas e tal, por que estão fazendo as pessoas se perderem?
— É a primeira vez que você faz uma boa pergunta. — Eu esperava que o elogio não subisse à cabeça de Meg. — Antigamente, os sacerdotes de Dodona cuidavam das árvores, podando-as, molhando-as e canalizando as vozes delas ao pendurar sinos de vento nos galhos.
— E qual é a função dessas coisas? — perguntou Meg.
— Sei lá, não sou sacerdote. Mas, com os cuidados adequados, essas árvores eram capazes de adivinhar o futuro.
Rachel ajeitou a saia.
— E sem cuidados adequados?
— As vozes ficavam sem foco — expliquei. — Eram um coro desenfreado e desarmônico. — Fiz uma pausa, orgulhoso de minha escolha de palavras. Torci para que anotassem para a posteridade, mas ninguém se mexeu. — Sem cuidados, o bosque poderia sem dúvida nenhuma levar mortais à loucura.
Quíron franziu a testa, apreensivo.
— Então agora nossos campistas desaparecidos devem estar vagando por entre as árvores, talvez loucos por causa das vozes.
— Ou podem já estar mortos — acrescentou Meg.
— Não. — Eu não conseguia suportar essa possibilidade. — Eles ainda estão vivos. Besta só está usando-os, tentando me atrair.
— Como você pode ter tanta certeza? — perguntou Rachel. — E por quê? Se Píton já controla Delfos, por que esses outros oráculos são tão importantes para ele?
Encarei a parede antes agraciada por uma imagem minha. Mas nenhuma resposta surgiu magicamente no espaço branco.
— Não sei. Acredito que nossos inimigos queiram nos isolar de todas as fontes possíveis de profecias. Sem poder ver e direcionar nosso destino, vamos murchar e morrer, tanto os deuses quanto os mortais, qualquer pessoa que se oponha ao Triunvirato.
Meg virou de cabeça para baixo no sofá e tirou os tênis vermelhos.
— Eles estão estrangulando nossas raízes — disse ela, balançando os dedos dos pés para demonstrar.
Olhei para Rachel, na esperança de que ela perdoasse os maus modos da minha senhora trombadinha.
— O Bosque de Dodona é tão importante porque, segundo Píton, é o único que ele não consegue controlar. Não sei exatamente o motivo, talvez porque Dodona seja o único oráculo que não tem ligação comigo. Os poderes dele vêm de Reia. Então, se o bosque estiver funcionando e se estiver livre da influência de Píton, e se estiver aqui no acampamento...
— Poderia nos fornecer profecias. — Os olhos de Quíron brilharam. — Poderia nos dar uma chance contra nossos inimigos.
Sorri para Rachel, uma espécie de pedido de desculpas.
— É claro que preferimos que nosso amado Oráculo de Delfos volte a funcionar o mais rápido possível — falei. — E vai voltar, em algum momento. Mas, agora, o Bosque de Dodona pode ser nossa única esperança.
O cabelo de Meg arrastou no chão; seu rosto estava da cor do meu gado sagrado.
— Essas profecias não são todas esquisitas, misteriosas e vagas, e as pessoas não morrem tentando fugir delas?
— Meg, já falei que você não pode confiar nas críticas daquele site, o avaliemeuoraculo.com. O fator beleza da Sibila de Cumas está completamente errado, por exemplo. Eu me lembro disso bem claramente.
Rachel apoiou o queixo no punho.
— Ah, é? Conte mais.
— Hã, o que estou dizendo é que o Bosque de Dodona é uma força benevolente. Já ajudou heróis antes. O mastro do Argo original, por exemplo, foi entalhado a partir de um galho de uma das árvores sagradas. Ele falava com os argonautas e lhes dava orientações.
— Humm. — Quíron assentiu. — E é por isso que nosso Besta misterioso quer destruir o bosque.
— É o que parece — concluí. — E é por isso que temos que salvá-lo.
Meg virou de novo no sofá, e as pernas derrubaram a mesinha de centro de três pernas, espalhando chá e biscoitos.
— Ops.
Trinquei meus dentes mortais, que não durariam um ano se eu continuasse andando com Meg.
Rachel e Quíron agiram com sabedoria ao ignorar a exibição de Megacidade da minha jovem amiga.
— Apolo... — O velho centauro ficou olhando uma cascata de chá escorrer pela beirada da mesa. — Se você estiver certo sobre Dodona, como vamos proceder? Já temos pouca gente. Se enviarmos grupos de busca para a floresta, não temos garantia de que irão voltar.
Meg tirou o cabelo dos olhos.
— Nós vamos. Só Apolo e eu.
Minha língua tentou se esconder nas profundezas da minha garganta...
— Nós... nós vamos?
— Você disse que tem que passar por umas provações ou sei lá o quê para mostrar que é digno, certo? Essa vai ser a primeira.
Parte de mim sabia que ela estava certa, mas o que restava do meu eu divino se rebelou contra a ideia. Eu nunca fiz meu próprio trabalho sujo. Preferiria enviar um bom grupo de heróis para a morte certa... ou, você sabe, para a glória.
Mas Reia foi bem clara em meu sonho: encontrar o oráculo era uma tarefa minha. E, graças à crueldade de Zeus, aonde quer que eu fosse, Meg ia atrás. Até onde eu sabia, Zeus estava ciente da existência do Besta e dos planos dele, e me mandou aqui especificamente para resolver essa situação... uma constatação que não me deixou nem um pouco empolgado para dar a ele uma linda gravata de Dia dos Pais.
Eu também me lembrava da outra parte do sonho: Besta de terno roxo, me encorajando a encontrar o oráculo para que ele pudesse queimá-lo. Ainda havia muitas coisas que eu não entendia, mas eu precisava agir logo. Austin e Kayla dependiam de mim.
Rachel colocou a mão em meu joelho, e eu me encolhi na hora. Para minha surpresa, ela não me machucou. Seu olhar estava mais para determinado do que zangado.
— Apolo, você tem que tentar. Se conseguirmos ter um vislumbre do futuro... bem, pode ser a única maneira de fazer as coisas voltarem ao normal. — Ela olhou com pesar para as paredes vazias da caverna. — Eu gostaria de ter um futuro de novo.
Quíron mexeu as patas da frente.
— O que você precisa de nós, velho amigo? Como podemos ajudar?
Olhei para Meg. Infelizmente, nós percebemos que não havia outra saída. Estávamos presos um ao outro, e não podíamos colocar mais ninguém em risco.
— Meg está certa — falei. — Nós dois temos que fazer isso. Devíamos partir imediatamente, mas...
— Ficamos acordados a noite toda — disse Meg. — Precisamos dormir um pouco.
Que maravilha, pensei. Agora Meg está terminando minhas frases.
Dessa vez, eu não tinha como discordar dela. Apesar da minha vontade de correr para a floresta o quanto antes e salvar meus filhos, eu precisava agir com cautela. Não podia estragar tudo. Além disso, estava cada vez mais seguro de que Besta manteria os prisioneiros vivos, por ora. Ele precisava dos semideuses para me atrair para a armadilha.
Quíron se levantou nas patas da frente.
— Esta noite, então. Descansem e se preparem, meus heróis. Creio que vocês vão precisar de todas as suas forças e de toda a sua inteligência para o que se aproxima.

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