quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 19

PERMANECI PARADA ENQUANTO Neena prendia os alfinetes nas costas do meu vestido para a coroação. Era um espetáculo, tomara que caia com uma saia longa, todo dourado. O manto era meio pesado, mas eu só precisava usar na igreja. Eu tinha escolhido aquele dentre os três modelos que me foram oferecidos, mas provavelmente não iria usá-lo se tivesse tido tempo para desenhar eu mesma. Porém, como todo mundo que me via com ele ficava encantado, tive que segurar a língua e agradecer.
— Você está linda, querida — mamãe disse enquanto eu estava em uma plataforma elevada na frente dos espelhos enormes que tinham sido trazidos para o meu quarto especialmente para esta arrumação.
— Obrigada, mãe. Você acha que ele se compara ao seu?
Ela riu.
— Meu vestido de coroação também foi o meu vestido de noiva, por isso não há comparação. O seu é perfeito para a ocasião.
Neena riu quando toquei o bordado no corpete.
— É definitivamente o vestido mais ostensivo que já usei.
— É bom se acostumar, a senhorita terá que usar um parecido quando se casar — Neena brincou.
Meu sorriso desapareceu.
— Verdade. Isso será um desafio, não é?
— Você está bem? — ela perguntou, olhando-me no espelho.
— Sim. Só um pouco cansada.
— Não me importa o que mais aconteça esta semana, você precisa descansar — mamãe ordenou. — O sábado será longo, e você estará no centro de tudo.
— Sim, senhora. — Eu a vi brincando com seu colar. — Mamãe? O que você acha que teria feito se não tivesse se casado com o papai? Se ficasse até o fim e ele escolhesse outra pessoa?
Ela balançou a cabeça.
— Ele quase fez isso. Você sabe sobre o massacre. — Ela engoliu em seco, fazendo uma pausa de um minuto. Depois de todo esse tempo, ainda era difícil para ela relembrar. — Naquele dia, ele poderia ter ido por um caminho totalmente diferente, o que significava que eu teria que ir, também.
— Você teria sido embora sem problemas?
— Eventualmente — ela respondeu devagar. — Não acho que nenhum de nós teria vivido uma vida que fosse necessariamente ruim. Ela só não poderia ter sido melhor do que foi.
— Mas você não ficaria completamente miserável o resto da sua vida?
Ela estudou o meu rosto no espelho.
— Se está preocupada em deixar seus pretendentes para baixo, você não pode pensar nisso.
Pressionei minhas mãos no estômago, segurando o vestido apertado como Neena pediu.
— Eu sei. É apenas mais difícil neste ponto do que eu pensava que seria.
— Tudo vai ficar claro. Confie em mim. E seu pai e eu vamos apoiá-la em qualquer escolha que você fizer.
— Obrigada.
— Acho que está finalmente pronto — Neena comentou, recuando para avaliar seu trabalho. — Se está contente com ele, pode retirá-lo, e eu vou ao correio enviá-lo de volta para Allmond.
Mamãe mordiscou algumas fatias de maçã.
— Não entendo por que ele não a deixa fazer a costura. Ele confia em você para ajustá-lo.
Ela encolheu os ombros.
— Eu só segui as ordens.
Uma batida tranquila na porta chamou a nossa atenção.
— Entre — Neena respondeu, voltando ao seu antigo papel. Eu queria que ela pudesse simplesmente administrar toda a minha vida para mim. Tudo parecia mais fácil com ela ao redor.
Um mordomo entrou e fez uma reverência.
— Perdoe-me, Alteza. Há alguma confusão sobre o terno para um dos senhores.
— Qual deles?
— Erik, senhorita.
— O tradutor? — perguntou a mãe.
— Sim, Majestade.
— Estou indo — falei, seguindo-o porta afora.
— Não quer tirar o vestido? — perguntou Neena.
— Vai me dar a oportunidade de praticar meu andar.
E me deu mesmo. O vestido era incrivelmente pesado e foi um pouco difícil quando tiver que descer as escadas. Eu precisaria de saltos mais resistentes.
Quando me aproximei do quarto de Erik, eu podia ouvi-lo implorar a alguém para reconsiderar.
— Eu não sou da Elite. Seria inadequado.
Empurrei a porta, encontrando-o em um terno com riscos de giz nas laterais e alfinetes nas bordas.
— Alteza — cumprimentou o alfaiate, imediatamente fazendo uma reverência.
Erik, no entanto, encarou e encarou, incapaz de desviar o olhar do vestido.
— Estamos tendo um problema para chegar a um acordo quanto ao terno dele, senhorita — o alfaiate fez sinal para o terno riscado de giz.
Erik recuperou a compostura.
— Eu não quero confundir ninguém, vestindo um terno que corresponde ao que a Elite está vestindo.
— Mas o senhor estará andando na procissão, e haverá dezenas de fotos — o alfaiate insistiu. — A uniformidade é melhor.
Erik olhou para mim, os olhos suplicantes.
Pressionei meus dedos em meus lábios, considerando.
— Pode nos dar um momento, por favor?
O alfaiate curvou-se novamente e saiu, e cruzei o quarto para ficar na frente de Erik.
— Parece bastante adequado — falei com um sorriso.
— E está — ele admitiu. — Eu apenas não tenho certeza de que seja uma boa ideia.
— O quê? Ter uma boa aparência por um dia?
— Eu não sou da Elite. É... confuso para mim ficar com eles, parecendo com eles, quando eu não posso... eu não sou...
Coloquei a mão em seu peito.
— O alfaiate está certo. Você vai querer se misturar. Uma cor diferente de terno não ajudaria no seu caso.
Ele suspirou.
— Mas eu...
— E se a sua gravata for de uma cor ligeiramente diferente? — ofereci rapidamente.
— Esta é a minha única opção?
— Sim. Além disso, pense no quanto sua mãe vai adorar isso.
Ele revirou os olhos.
— Isso é tão injusto. Você ganhou.
Bati palmas.
— Viu? Não foi tão difícil.
— Claro que foi fácil para você. Você a única que dá as ordens.
— Não tive a intenção de ordenar nada, não realmente.
Ele sorriu.
— Claro que teve. A senhorita foi feita para isso.
Eu não podia dizer se isso era uma crítica ou um elogio.
— O que você acha? — perguntei, estendendo os braços. — Quero dizer, você tem que tentar imaginar sem todos os alfinetes.
Ele fez uma pausa.
— Você está de tirar o fôlego, Eadlyn. Eu não conseguia sequer lembrar porque eu estava tão agitado quando você entrou.
Eu tentei não corar.
— Estive pensando se não era demais.
— Está perfeito. Posso ver que é um pouco diferente do seu estilo habitual, mas, novamente, o seu guarda-roupa típico não se destina a um dia de coroação.
Eu me virei e olhei no espelho. Essa frase tornou a coisa toda muito melhor.
— Obrigada. Acho que eu o analisei demais.
Ele estava ao meu lado. Era cômico, essas roupas bonitas, umas dos melhores que já tinha visto, marcadas em giz e presas por alfinetes. Nós nos parecíamos com bonecas.
— Parece ser um talento seu.
Fiz uma careta, mas assenti. Ele estava certo.
— Percebo que não estou em posição de dizer-lhe o que fazer — disse ele — mas a senhorita parece lidar com as coisas muito melhor quando pensa menos sobre elas. Esqueça sua cabeça. Confie nos seus instintos. Confie no seu coração.
— Eu tenho pavor do meu coração.
Eu não tive a intenção de dizer essas palavras em voz alta, mas havia algo nele que fez desta sala, e deste momento, o único lugar no qual eu poderia admitir a verdade.
Ele se inclinou para perto da minha orelha e sussurrou:
— Não há nada lá para temer — ele limpou a garganta, em seguida, virou-se para os nossos reflexos. — Talvez tudo o que a senhorita precise seja de um pouco de sorte. Vê este anel? — ele perguntou, estendendo a dedo mindinho.
Eu o vi. Eu o tinha notado uma dúzia de vezes. Por que alguém discutia consigo mesmo e se recusava a vestir um terno se já estava usando uma joia?
— Este foi o anel de casamento da minha tetravó. O desenho da trama é uma coisa tradicional da Noruécia. Você vê isso em todos os lugares na Suécia. — Ele tirou o anel e segurou-o entre dois dedos. — Sobreviveu a tudo, desde as guerras à fome, até mesmo à migração da minha família para Illéa. Eu deveria dar para a garota com quem eu fosse casar. Ordens da minha mãe.
Eu sorri, encantada com sua excitação. Me perguntei se havia alguém esperando por ele em casa na esperança de usá-lo algum dia.
— Mas parece dar muita sorte — continuou ele. — E acho que a senhorita poderia usá-lo neste momento.
Ele estendeu o anel para mim, mas eu balancei a cabeça.
— Eu não posso fazer isso! É uma relíquia de família.
— Sim, mas é uma relíquia de muita sorte. É o guia de várias pessoas para seus companheiros de alma. E é apenas temporário. Até a senhorita chegar ao final da Seleção, ou Henri e eu sairmos. O que ocorrer primeiro.
Hesitante, deslizei o anel em meu dedo, notando quão macio ele era.
— Obrigada, Erik.
Olhei em seus olhos azuis. Levou apenas um segundo para ouvir o coração no qual eu tinha tão pouca fé. Fiquei mergulhada naquele olhar penetrante e no cheiro quente de sua pele... e eu estava quase explodindo.
Sem considerar as repercussões ou as complicações, sem saber se ele sentia algo parecido com o que estava sentido, eu me inclinei na direção dele. E fiquei muito satisfeita ao perceber que ele não estava se afastando. Estávamos tão perto que eu podia sentir sua respiração em meus lábios.
— Temos uma decisão? — perguntou o alfaiate, voltando para dentro.
Eu me afastei de Erik.
— Sim. Por favor, pode terminar o terno, senhor. — Sem olhar para trás, corri para fora. Meu coração estava disparado quando encontrei um quarto de hóspedes vazio e corri para dentro, batendo a porta atrás de mim.
Eu a vinha sentido cada vez maior agora, essa sensação que tinha se escondido sob a superfície por algum tempo. Eu tinha enxergado Erik, essa pessoa que nunca teve a intenção de ser vista, e meu coração bobo, inútil e imperfeito continuava a sussurrar seu nome. Apertei as mãos contra o peito, contra o meu coração ainda acelerado.
— Coração irresponsável! O que você foi fazer?
Antes eu me perguntava como seria possível, num passe de mágica, encontrar uma alma gêmea num grupo aleatório de rapazes.
Mas agora eu não podia questionar mais nada.

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