quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 18

SENTEI-ME NO MEU QUARTO, à espera de Hale. Eu queria ter essa conversa em um lugar que fosse íntimo e confortável. Minhas mãos suavam, e percebi abruptamente que estava ficando triste por que eu realmente não queria mandar os meninos para casa. Eu sabia que somente um ficaria no final, mas quase desejei que os outros pudessem chamar o palácio de lar também, ou talvez que prometessem vir nas férias.
Levantei a cabeça quando ouvi a batida na porta e fui abri-la. Eu não queria Eloise por perto nessa hora.
Hale fez uma reverência.
— Vossa Alteza.
— Entre. Está com fome? Com sede?
— Não, eu estou bem. — Ele esfregou as mãos, parecendo tão nervoso quanto eu.
Sentei-me à mesa, e ele se juntou a mim.
Quando eu não pude suportar o silêncio por mais tempo, falei.
— Preciso que você me diga o que está acontecendo.
Ele engoliu em seco.
— E eu quero contar. Mas não sei o que vou fazer se você acabar me odiando por causa disso.
Apesar do calor, senti um arrepio.
— Por que eu o odiaria, Hale? O que você fez?
— Não é algo que fiz. É algo que não posso fazer.
— O que é?
— Casar com você.
Embora eu estivesse esperando por isso, embora o meu coração nunca tivesse sido realmente dele, ainda foi um golpe doloroso.
— O que... — tive que parar e respirar. Este era o meu pior medo voltando à vida. Eu não era amável. Eu sabia. Tudo o que foi preciso foi ele passar algumas semanas ao meu lado para descobrir. — O que aconteceu de repente para você ter tanta certeza de que não poderia se casar comigo?
Ele fez uma pausa, parecendo aflito, e tive algum consolo com o fato de que ele não parecia querer me machucar.
— Descobri que tenha sentimentos por outra pessoa.
Pelo menos era mais fácil de seguir do que a minha preocupação inicial.
— Carrie?
Ele balançou sua cabeça.
— Ean.
Fiquei em um silêncio absoluto. Ean? Como, Ean, Ean?
Eu não tinha percebido. Hale era tão tranquilo, tão romântico. Mas instantaneamente tudo sobre Ean ficou claro.
Quando as Castas ainda vigoravam, era lei que cada família permanecesse na casta do marido. Por causa disso, só poderia haver um homem num casal formando família. O mesmo acontecia com as mulheres: sem casamento, nenhuma família legítima. Algumas pessoas viviam juntas sem se preocupar com o casamento, chamando os seus amantes de companheiros de quarto, mas isso não era visto com bons olhos. Mamãe me contou sobre um casal do mesmo sexo dos arredores de Carolina que foi tão evitado ao ponto de ser expulso da cidade.
Eu nunca tinha me preocupado com essa história. Parecia-me que muitas pessoas tiveram dificuldades de muitas formas enquanto ela crescia. Por que alguém usaria sua vida para tornar a do outro mais difícil?
Independentemente disso, casais do mesmo sexo tendiam a viver nas sombras, nos arredores da sociedade, e, infelizmente, ainda era o caso hoje. Isso fez com que a aceitação de Ean de não encontrar o amor em sua vida fosse muito mais compreensível. Mas Hale?
— Como... como você...?
— Começamos a conversar uma noite no Salão dos Homens. Eu não tinha conseguido dormir e decidi ir lá para ler. Encontrei-o escrevendo em seu diário — Hale sorriu para si mesmo. — Você não vê isso quando olha para ele, mas ele é realmente muito poético. De qualquer forma, nós apenas conversamos. E, eu ainda não sei como acabamos sentados um ao lado do outro, mas então ele me beijou, e... eu soube por que nunca tive uma queda por Carrie. Eu soube por que, mesmo que você seja a mais inteligente, mais engraçada, mais corajosa garota que conheço, eu não poderia me casar com você.
Fechei os olhos, levando isso em conta. E eu me sentia absolutamente chocada, porque tudo o que me veio à mente foi o quanto tudo poderia me afetar. Esqueci que Hale teria que explicar esta descoberta sobre si mesmo para a sua família, esqueci que Ean podia finalmente ser forçado a se aceitar. O que a imprensa diria quando eles finalmente descobrissem que não um, mas dois dos meus pretendentes prefeririam estar um com o outro do que comigo?
Às vezes, eu era uma pessoa realmente horrível.
— Sei que ser um Selecionado e ter um relacionamento com outra pessoa é traição — Hale suspirou. Ergui os olhos, tendo esquecido esse detalhe. — Mas também sei que uma vida curta e honesta é melhor do que uma longa e enganosa.
— Hale — insisti, inclinando-me sobre a mesa para pegar a mão dele. — O que o faz pensar que eu poderia mesmo puni-lo?
— Eu conheço as regras.
Suspirei.
— Nós vivemos nossas vidas vinculadas por elas, não é?
Ele assentiu.
— Talvez você e eu pudéssemos fazer um acordo?
— Que tipo de acordo?
Puxei as minhas mãos para trás, juntando-as.
— Se você me fizer o favor de ficar até depois da coroação e me deixar dispensar você e Ean algumas semanas – ou talvez até mesmo alguns dias depois – então eu lhe permitiria sair do palácio sem qualquer tipo de repercussão.
Ele olhou para mim.
— Sério?
— Admito, estou preocupada com as consequências de tudo isso. Mas se parecer que vocês dois se apaixonaram depois que foram eliminados, então ninguém poderia acusá-lo de traição. E, me desculpe, mas se a imprensa descobrir, eles vão me dilacerar por isso.
— Eu realmente não queria tornar as coisas mais difíceis para você. Não estou apaixonado por você, mas eu te amo o suficiente para dizer a verdade.
De pé, acabei com o espaço entre nós. Ele se levantou também, e joguei meus braços em torno dele, descansando minha cabeça em seu ombro.
— Eu sei. E eu te amo também. Eu não lhe desejo uma vida algemado a mim quando ela iria torná-lo infeliz.
— Existe algo que eu possa fazer por você? Deixar a Seleção com a sua bênção foi mais do que eu esperava. Como posso ajudá-la?
Dei um passo para trás.
— Basta ser um candidato exemplar da Seleção por mais alguns dias. Sei que é pedir muito, mas vendo meu passado, a coroação significa o mundo para mim.
— Não é pedir muito, Eadlyn. É pedir quase nada.
Coloquei a mão em seu rosto. Uma coisa por dia.
— Então, ele é o único ou o quê?
Hale riu, o alívio finalmente chegando até ele.
— Eu não sei. Quer dizer, eu nunca me senti assim antes.
Balancei a cabeça.
— Como ele e eu não nos falamos muito, talvez você gostaria de dizer-lhe como suas eliminações vão funcionar? Ele provavelmente vai voltar para casa antes de você, uma vez que publicamente parecia um candidato menos provável.
Dizer isso em voz alta causou um pouco de dor no meu peito também. Ean tinha sido um porto seguro; e mesmo sabendo a verdade, não me agradava a ideia de ter que mandá-lo para casa.
— Obrigado. Por tudo isso.
— Não foi nada.
Hale veio ao meu encontro e me abraçou novamente antes de correr. Eu sorri, pensando que Hale e eu estávamos em situações muito semelhantes: a cabeça jogada no futuro, sem qualquer garantia de um felizes para sempre. Ao mesmo tempo, isso significava algo que nós avançamos, não é?
Eu gostava de pensar que sim.


O dia tinha ido de maravilhoso para complicado muito rapidamente, e no final dele eu estava pronta para ignorar o jantar e cair direto na cama. Abri minha porta, tentando segurar me concentrar nas melhoras partes do dia. Lady Brice dizendo que eu era sábia. A imprensa sendo esperançosa. O sorriso de Hale antes de correr para fora da sala.
— Você sabe — uma voz profunda falou — acho que posso ser o favorito da sua criada pessoal.
Kile descansava na minha cama, os braços confortavelmente cruzados atrás da cabeça.
Eu ri.
— E por que isso?
— Porque foi muito fácil suborná-la.
— O mínimo que você poderia ter feito era tirar os sapatos.
Ele fez uma cara e os tirou, em seguida, deu um tapinha no espaço na cama ao seu lado.
Eu caí na cama, parecendo incrivelmente grosseira. Ele rolou, ficando de frente para mim, e tive um vislumbre de seus dedos.
— Que raios você fez hoje?
— Passei a tarde desenhando com carvões — ele respondeu, lançando suas mãos enegrecidas ao alto. — Não se preocupe. Elas não vão contaminar seus lençóis. Meus dedos estão apenas com manchas.
— O que você esteve imaginando?
— Sei que isso pode ser ultrapassar os limites, mas eu estava pensando sobre o palácio, e eu queria saber se poderia ser útil ter coisas como isso mais vezes. Eu estava redesenhando uma das salas de estar, transformando-a em uma sala do trono permanente, onde você pode receber as pessoas, ouvir petições individuais, e resolvê-los a sós. Algo oficial, mas discreto.
— Isso é muito atencioso.
Ele deu de ombros.
— Eu te disse, continuo fazendo as coisas para você — o brilho em seus olhos era tão infantil que por um momento esqueci que estávamos à beira de tantas coisas adultas. — Você também pode querer pensar sobre a criação de uma estação de rádio — comentou ele.
— Ugh, por quê? Os Jornais Oficiais são ruins o suficiente.
— Quando eu tinha aulas em Fernley, meus amigos e eu ouvíamos muito o rádio. Gostávamos de deixá-lo na cozinha ou de tê-lo por perto enquanto trabalhávamos e sempre que ouvíamos algo interessante, a gente parava, escutava e comentava. Pode ser uma boa maneira de alcançar as pessoas. E não é tão ruim quanto ter uma câmera na sua cara.
— Interessante. Vou pensar sobre isso — toquei a ponta de seus dedos sujos. — Queria trabalhar em alguma coisa?
Ele fez uma careta.
— Lembra-se das casas populares que eu estava falando? Eu estava tentando ver se elas poderiam ser construídas com um andar superior, para famílias maiores. Mas olhando para os materiais que eu queria usar, isso não parece possível. O metal seria fino demais. Seria útil se eu pudesse realmente construir um e testá-lo. Talvez um dia.
Olhei para ele.
— Você sabe, Kile, príncipes raramente sujam as mãos.
— Eu sei — ele sorriu. — Isso é mais agradável para se pensar que qualquer coisa. — ele mudou o peso e a conversa em um movimento rápido. — As notícias pareciam boas hoje.
— Sim. Agora só tenho que manter esse ritmo. Embora eu não tenha nenhuma ideia de como farei isso.
— Você não tem que fazer. Às vezes as coisas simplesmente acontecem.
— Seria bom não tentar trabalhar tanto — bocejei. Principalmente num dia que foi tão cansativo.
— Quer que eu vá embora para que você possa descansar um pouco?
— Não — eu disse, me aproximando um pouco mais e virando de barriga para cima. — Você pode ficar aqui por um tempo?
— Certo.
Ele segurou minha mão, e olhou para a pintura intrincada no meu teto.
— Eadlyn?
— Sim.
— Você está bem?
— Estou. Sinto que eu estaria fazendo as coisas melhor se pudesse ir mais devagar, mas tudo tem que ser agora, agora, agora.
— Você poderia voltar atrás com a coroação. Fique como regente por um tempo. É praticamente a mesma coisa.
— Eu sei, mas não é o mesmo. Meu pai estava bem comigo como regente, mas mesmo no curto período de tempo, uma vez que definida uma data para a coroação, ele tem estado muito melhor. Sei que é tudo mental, mas se isso o ajuda a dormir, se o ajuda com a mamãe, o que ajuda a obter melhor...
— Entendo o que você está dizendo. Mas o que mais? Você não está adiantando a Seleção, está?
— Não de propósito. Parece mais que ela é quem está se adiantando por mim.
— O que você quer dizer?
Suspirei.
— Eu realmente não posso contar agora. Talvez possa, uma vez que tudo estiver resolvido.
— Você pode confiar em mim.
— Eu sei — inclinei minha cabeça em seu ombro. — Kile?
— Sim?
— Você se lembra do nosso primeiro beijo?
— Como eu poderia esquecer? Foi impresso na capa de cada jornal.
— Não, não esse. Nosso primeiro beijo.
Depois de um momento de confusão, ele respirou fundo.
— Oh. Meu. Deus.
Eu apenas fiquei deitada rindo.
Quando eu tinha quatro anos e Kile, seis, ele e eu brincávamos muito juntos. Eu ainda não me lembrava o que o fez começar a odiar a vida no palácio ou quando a nossa antipatia mútua um pelo outro começou, mas naquela época Kile era como um outro Ahren. Um dia nós três estávamos brincando de esconde-esconde, e Kile me encontrou. Em vez de me delatar, porém, ele se inclinou e me beijou na boca. Levantei-me e o empurrei para o chão, jurando-lhe que se ele tentasse fazer aquilo novamente, eu o enforcaria.
— Como uma criança de 4 anos de idade sabe ameaçar a vida de alguém? — ele brincou.
— Acho que alguém me provocou, suponho.
— Espere, esta é a sua maneira de me dizer que você teria me enforcado? Porque se é assim, isto foi incrivelmente frio.
— Não — eu ri. — Senti que você merecia um pedido de desculpas agora.
— Está bem. Alguns anos muito esquisitos depois. Quando as pessoas me perguntam sobre o meu primeiro beijo, eu nunca falo desse. Digo-lhes que foi com a filha do primeiro-ministro saudita. Mas acho que este foi na verdade o meu segundo.
— Por que você não fala sobre mim?
— Porque pensei que você poderia seguir em frente com a coisa do enforcamento — brincou. — Acho que bloqueei essa memória. Não foi exatamente um primeiro beijo fantástico.
Eu comecei a rir.
— Mamãe me disse que no primeiro beijo dela com o papai, ela praticamente quis voltar no tempo.
— Sério?!
— Sim.
Kile riu.
— Você sabe do de Ahren?
— Não.
Mas Kile me fez cócegas, e eu estava em lágrimas antes de ele dizer uma palavra.
— Foi com uma das meninas italianas, mas ele estava resfriado e... — ele parou porque estava rindo demais. — Oh, cara, ele precisou espirrar no meio do beijo, e então havia muco em todos os lugares.
— O quê?
— Eu não vi o beijo, mas eu estava lá no resultado. Só o agarrei e nós corremos.
Meu estômago doía de tanto rir, e demorou um pouco para conseguirmos parar. Quando finalmente nos acalmamos, eu percebi uma coisa.
— Não conheço ninguém que tenha tido um primeiro beijo bom.
Depois de um segundo, ele respondeu.
— Nem eu. Talvez os beijos especiais não sejam os primeiros. Talvez sejam os últimos.

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