sábado, 14 de maio de 2016

Capítulo 18

Besta está por perto
Acho melhor nos escondermos
No lixo, é claro

SE EU JÁ TINHA ficado assim tão apavorado?
Talvez quando Tifão saiu em um rompante por aí, dispersando os deuses pelo caminho. Talvez quando Gaia soltou os gigantes para destruir o Olimpo. Ou quem sabe quando flagrei, sem querer, Ares nu no ginásio. Isso bastou para deixar meu cabelo branco por um século.
Mas em todas essas vezes eu era um deus. Ali, era só um mortal fraco e pequeno, escondido na escuridão. A única coisa que me restava era rezar para meu inimigo de longa data não sentir minha presença. Pela primeira vez em minha gloriosa vida, eu queria ser invisível.
Ah, por que o Labirinto me levou até ali? Assim que pensei, me repreendi: é claro que ele me levaria aonde eu menos queria. Austin estivera errado sobre o Labirinto. Continuava maligno, feito para matar. Só estava sendo mais sutil nos homicídios.
Meg pareceu alheia ao perigo. Mesmo com um monstro imortal a uns trinta metros acima de nós, teve a coragem de persistir na tarefa. Ela me cutucou e apontou para um pequeno ressalto na parede oposta, onde uma maçã dourada brilhava alegremente.
Harley tinha colocado a maçã ali? Eu não conseguia imaginar. Era mais provável que o garoto tivesse jogado maçãs douradas em vários corredores, confiando que elas rolariam por conta própria até os locais mais perigosos. Eu estava começando a pegar antipatia por aquele garoto.
— É um pulo fácil — sussurrou Meg.
Lancei-lhe um olhar que em outras circunstâncias teria torrado a menina.
— Perigoso demais.
— Maçã — sibilou ela.
— Monstro! — sibilei em resposta.
— Um.
— Não!
— Dois.
— Não!
— Três.
Ela pulou.
O que significa que eu também pulei. Chegamos ao ressalto, mas nossos calcanhares fizeram um monte de pedrinhas cair como chuva no abismo. Só minha coordenação e graça naturais nos salvaram de cair para trás e morrer. Meg pegou a maçã.
— Quem se aproxima? — ribombou o monstro, acima de nós.
A voz... Deuses do céu, eu me lembrava daquela voz, grave e rouca, como se ela respirasse xenônio em vez de ar. Até onde eu sabia, era isso mesmo que acontecia. Píton era bem capaz de produzir sua cota de gases tóxicos.
O monstro mudou de posição. Mais cascalho caiu na fenda.
Fiquei completamente imóvel, encostado na pedra fria. Meus tímpanos pulsavam a cada batimento do meu coração. Eu queria que Meg parasse de respirar. Queria que as pedrinhas dos óculos dela parassem de brilhar.
Píton nos ouvira. Rezei a todos os deuses pedindo que o monstro concluísse que o barulho não era nada. Ele só precisaria respirar na fenda, e aquilo já seria o suficiente para nos matar. Não havia como escapar do arroto venenoso dele, não daquela distância, não sendo um mortal.
E então, da caverna acima veio outra voz, menor e bem mais humana.
— Oi, meu amigo reptiliano.
Quase chorei de alívio. Não fazia ideia de quem era o recém-chegado, nem por que foi tão tolo de anunciar sua presença a Píton, mas eu sempre ficava agradecido quando humanos se sacrificavam para me salvar. Os bons costumes não haviam morrido, afinal!
A gargalhada rouca de Píton fez meus dentes baterem.
— Ah, eu estava me perguntando se você faria mesmo a viagem, Monsieur Besta.
— Não me chame assim — interrompeu o homem. — E o trajeto foi bem simples, agora que o Labirinto voltou a funcionar.
— Estou muito feliz. — O tom de Píton foi seco como basalto.
Não consegui identificar muita coisa na voz do homem, pois estava abafada por várias toneladas de carne reptiliana, mas ele parecia bem mais calmo e controlado do que jamais estive na presença de Píton. Eu já tinha ouvido o termo Besta sendo usado para descrever alguém antes, mas, como sempre, minha capacidade cerebral mortal me deixou na mão.
Se ao menos conseguisse reter só as informações importantes! Eu sabia descrever a sobremesa que comi na primeira vez que jantei com o rei Minos (bolo de especiarias). As cores dos quítons que os filhos de Níobe estavam usando quando os assassinei, também (um tom de laranja não muito digno). Mas não conseguia me lembrar de uma coisa tão básica... Seria esse Besta um lutador, um astro do cinema ou um político? Talvez os três?
Ao meu lado, sob o brilho da maçã, Meg parecia ter virado bronze. Os olhos estavam arregalados de medo. Meio tarde demais para isso, mas pelo menos ela estava em silêncio. Se eu não fosse muito sábio, diria que a voz do homem a apavorou mais do que a do monstro.
— E então, Píton — continuou ele —, alguma palavra profética para compartilhar comigo?
— Na hora certa... meu senhor.
As últimas palavras foram ditas com certo humor, mas não sei se outra pessoa teria percebido. Com exceção de mim, poucos foram vítimas do sarcasmo de Píton e sobreviveram para contar a história.
— Preciso de mais do que suas garantias — retrucou o homem. — Antes de prosseguirmos, temos que assumir o controle de todos os oráculos.
Todos os oráculos. Essa afirmação quase me fez cair do penhasco, mas de alguma forma mantive o equilíbrio.
— Na hora certa — repetiu Píton —, como nós combinamos. Não chegamos até aqui sendo precipitados, chegamos? Você não revelou suas cartas quando os titãs invadiram Nova York. Eu não fui à guerra com os gigantes de Gaia. Nós dois percebemos que a hora da vitória ainda não havia chegado. Você precisa ter um pouco mais de paciência.
— Não me dê sermão, cobra. Enquanto você dormia, eu construí um império. Passei séculos...
— Sim, sim. — O monstro expirou, provocando um tremor no penhasco. — E se você quer mesmo que seu império saia das sombras, precisa cumprir a sua parte do acordo primeiro. Quando vai destruir Apolo?
Sufoquei um gritinho. Não devia ter ficado surpreso por eles estarem falando de mim. Por milênios, imaginei que todo mundo sempre estivesse falando de mim. Eu era tão interessante que as pessoas não conseguiam evitar. Mas essa história de me destruir... não me agradou nem um pouco.
Nunca vi Meg tão apavorada. Eu queria acreditar que ela estava preocupada comigo, mas tive a sensação de que estava com mais medo por si mesma. Essas prioridades distorcidas dos semideuses...
O homem se aproximou da fenda. A voz ficou mais nítida e alta.
— Não se preocupe com Apolo. Ele está exatamente onde preciso. Vai servir ao nosso propósito, e quando não for mais útil...
Ele não se deu ao trabalho de terminar a frase. Temi que não terminasse com vamos dar a ele um belo presente e mandá-lo seguir com a vida. Com um arrepio, reconheci a voz do meu sonho. Foi por causa da risadinha anasalada do cara de terno roxo. Também tinha a sensação de que já o ouvira cantar, muitos anos antes, mas não fazia sentido... Por que eu sofreria vendo um show de um homem feio de terno roxo que se intitulava Besta? Eu nem era  de polca death metal!
Píton moveu o corpo, jogando mais pedrinhas em nós.
— E como exatamente você vai convencê-lo a servir ao nosso propósito?
Besta riu.
— Tenho uma ajuda valiosa no acampamento que vai conduzir Apolo em nossa direção. Além do mais, estou aumentando nossa jogada. Apolo não vai ter escolha. Ele e a garota vão abrir o portão.
Um bafo do vapor de Píton chegou ao meu nariz, o bastante para me deixar tonto, mas, por sorte, não para me matar.
— Espero que você esteja certo — disse o monstro. — Sua avaliação no passado foi... questionável. Eu me pergunto se você escolheu as ferramentas certas para este trabalho. Será que aprendeu com os erros do passado?
O homem deu um rosnado tão profundo que quase acreditei que estava virando uma besta de verdade. Eu já tinha visto isso acontecer muitas vezes. Ao meu lado, Meg choramingou.
— Escute aqui, seu réptil grandão — disse o homem —, meu único erro foi não atear fogo nos meus inimigos rápido o bastante e com mais frequência. Garanto que estou mais forte do que nunca. Minha organização está em toda parte. Meus colegas estão prontos. Quando controlarmos todos os quatro oráculos, vamos controlar o próprio destino!
— E que dia glorioso vai ser esse. — A voz de Píton estava falhando de tanto desprezo. — Mas, antes disso, você precisa destruir o quinto oráculo, não é mesmo? De todos, este é o único que eu não consigo controlar. Você precisa botar fogo no bosque de...
— Dodona — completei.
A palavra pulou voluntariamente da minha boca e ecoou pela fenda. Entre tantos momentos idiotas para relembrar uma informação, entre tantos momentos idiotas para dizê-la em voz alta... ah, o corpo de Lester Papadopoulos era um lugar horrível para se habitar.
Acima de nós, a conversa parou.
Meg sibilou para mim:
— Seu idiota.
— O que foi isso? — perguntou Besta.
Em vez de responder Ah, somos só nós dois, fizemos uma coisa ainda mais imbecil. Um de nós, Meg ou eu (pessoalmente, prefiro colocar a culpa nela), deve ter escorregado numa pedra. Caímos do ressalto para as nuvens de enxofre abaixo.

* * *

SQUISH.
O Labirinto definitivamente tinha senso de humor. Em vez de permitir que nos estatelássemos em um chão de pedra e morrêssemos, ele nos largou em uma pilha de sacos molhados cheios de lixo.
Caso você esteja contando, já deve ter notado que era a segunda vez que eu caía no lixo desde que me tornei mortal, ou seja, duas vezes a mais do que qualquer deus devia ter que aturar.
Caímos na pilha de lixo em uma confusão de três pernas. Paramos lá no fundo, cobertos de gosma, mas, milagrosamente, vivos.
Meg se sentou, coberta por uma camada de grãos de café.
Tirei uma casca de banana da cabeça e joguei longe.
— Tem algum motivo para você ficar nos jogando em pilhas de lixo?
— Eu? Foi você que se desequilibrou!
Meg limpou o rosto, sem muito sucesso. Na outra mão, dedos trêmulos seguravam a maçã.
— Você está bem? — perguntei.
— Ótima — retrucou ela.
Obviamente, não era verdade. Ela parecia ter acabado de passar pela casa mal-assombrada de Hades. (Dica de profissional: NÃO FAÇA ISSO.) Seu rosto estava pálido. Ela havia mordido o lábio com tanta força que os dentes estavam rosados de sangue. Também detectei um leve odor de urina, o que significava que um de nós ficara com tanto medo que perdeu o controle da bexiga, e eu tinha setenta e cinco por cento de certeza de que não havia sido eu.
— Aquele homem lá em cima — falei. — Você reconheceu a voz dele?
— Cale a boca. É uma ordem!
Tentei retrucar. Para minha consternação, descobri que não conseguia. Minha voz aceitou a ordem de Meg por conta própria, o que não era um bom presságio. Decidi guardar minhas perguntas sobre Besta para depois.
Observei ao redor. Tubos de lixo se enfileiravam nas paredes pelos quatro cantos do pequeno porão deplorável. Enquanto eu olhava, outro saco de dejetos veio deslizando pelo tubo da direita e caiu na pilha. O cheiro era tão forte que poderia ter queimado a tinta da parede se o concreto estivesse pintado. Mas era melhor do que cheirar os vapores de Píton. A única saída visível era uma porta de metal com uma placa de risco biológico.
— Onde estamos? — perguntou Meg.
Olhei para ela com raiva, esperando.
— Pode falar agora.
— Você não vai acreditar, mas parece que estamos em um depósito de lixo.
— Mas onde?
— Pode ser em qualquer lugar. O Labirinto faz intercessão com locais subterrâneos por todo o mundo.
— Como Delfos.
Meg olhou de cara feia para mim, como se nossa pequena excursão grega tivesse sido culpa minha e não... bem, só indiretamente culpa minha.
— Foi inesperado — concordei. — Precisamos falar com Quíron.
— O que é Dodona?
— Eu... explico tudo depois. — Não queria que Meg me calasse de novo. Também não queria falar sobre Dodona ainda preso no Labirinto. Minha pele estava arrepiada de pavor, e eu duvidava de que fosse só porque eu estava coberto de algum líquido grudento. — Primeiro, precisamos sair daqui.
Meg olhou para trás de mim.
— Ah, não foi um desperdício total. — Ela enfiou a mão no lixo e pegou uma segunda fruta brilhante. — Só falta uma maçã agora.
— Perfeito. — Minha última preocupação naquele momento era terminar a corrida ridícula de Harley, mas pelo menos faria Meg se mexer. — Agora, por que não vemos que perigos biológicos terríveis nos esperam atrás daquela porta?

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