sábado, 14 de maio de 2016

Capítulo 17

Bolas de boliche
Esmagando meus inimigos
Vai um problema aí?

PELO MENOS, não fomos parar no Peru.
Meus pés bateram numa pedra e machuquei os tornozelos. Cambaleamos até uma parede, mas Meg foi uma almofada conveniente.
Estávamos em um túnel escuro cheio de vigas de carvalho. O buraco por onde caímos sumiu, substituído por um teto de terra. Não vi sinal das outras equipes, mas de algum lugar acima consegui ouvir vagamente Harley dizendo:
— Vai! Vai! Vai!
— Quando eu recuperar meus poderes — jurei —, vou transformar Harley em uma constelação nova, chamada Mordedor de Calcanhares. Constelações não falam.
Meg apontou para um ponto no corredor.
— Olhe.
Conforme minha visão se ajustava, reparei que a luz fraca do túnel emanava de uma fruta cintilante menos de cinquenta metros à frente.
— Uma maçã dourada — falei.
Meg deu um pulo para a frente, me puxando junto.
— Espere! — pedi. — Pode haver armadilhas!
Como se para ilustrar o que eu disse, Connor e Paulo surgiram da escuridão do outro lado do corredor. Paulo pegou a maçã dourada e gritou:
— BRASIL!
Connor sorriu para nós.
— Lerdos demais, otários!
O teto se abriu e choveram esferas de ferro do tamanho de melões.
— Corra! — gritou Connor.
Ele e Paulo deram uma desajeitada meia-volta e saíram correndo, perseguidos por uma horda de bolas de canhões com pavios acesos.
O som parou rapidamente. Sem a maçã brilhante, ficamos na escuridão total.
— Que ótimo. — A voz de Meg ecoou. — E agora?
— Sugiro que a gente vá na outra direção.
Era mais fácil falar do que fazer. A escuridão pareceu incomodar mais Meg do que a mim.
Graças ao corpo mortal, eu já me sentia aleijado e desprovido de sentidos. Além disso, costumava usar mais do que a visão. A música exigia audição apurada. A arqueria necessitava de certa sensibilidade e da capacidade de identificar a direção do vento. (Está certo, a visão também ajudava, mas deu para ter uma ideia.)
Nós prosseguimos, os braços estendidos à frente. Prestei atenção aos barulhos, em busca de cliques, estalos ou rangidos suspeitos que indicassem uma série de explosões se aproximando, mas desconfiava de que, se ouvisse algo alarmante, seria tarde demais.
Depois de um tempo, Meg e eu aprendemos a andar com nossas pernas unidas em sincronia. Não era fácil. Eu tinha um senso perfeito de ritmo. Meg estava sempre um pouquinho atrasada ou adiantada, o que nos fazia virar para a esquerda ou direita e dar de cara com a parede.
Continuamos andando pelo que poderiam ter sido minutos ou dias. Ali, o tempo enganava. Lembrei o que Austin me contara sobre o Labirinto estar diferente desde a morte do seu criador. Aquilo começou a fazer sentido para mim. O ar parecia mais fresco, como se o lugar não estivesse engolindo tantos corpos. As paredes não irradiavam o antigo calor maligno. Pelo que percebi, também não havia sangue nem gosma escorrendo por elas, uma melhora e tanto. No passado, não era possível dar um passo dentro do Labirinto de Dédalo sem sentir o desejo que o consumia: Vou destruir sua mente e seu corpo. Agora, a atmosfera era mais sonolenta, e a mensagem, não tão virulenta: Ei, se você morrer aqui, tudo bem.
— Nunca gostei de Dédalo — murmurei. — Aquele velho canalha não sabia quando parar. Ele sempre tinha que usar a tecnologia mais avançada, fazer as atualizações mais recentes. Eu falei para ele não fazer esse labirinto perceptivo. “A inteligência artificial vai nos destruir, cara”, tentei avisar. Mas nãããão. Ele tinha que dar ao Labirinto uma consciência malévola.
— Não sei do que você está falando — disse Meg. — Mas talvez você não devesse falar mal do Labirinto enquanto estamos dentro dele.
Então, parei ao ouvir o som do saxofone de Austin. Estava baixo e ecoando por tantos corredores que não consegui identificar de onde vinha. De repente, sumiu. Eu esperava que ele e Kayla tivessem encontrado suas três maçãs e escapado com segurança.
Finalmente, Meg e eu chegamos a uma bifurcação no corredor. Só percebi pelo fluxo de ar e pela diferença de temperatura no rosto.
— Por que paramos? — perguntou Meg.
— Shh. — Ouvi com atenção.
Do corredor do lado direito vinha um leve som agudo, como uma serra de mesa. O corredor da esquerda estava silencioso, mas exalava um odor leve que era desagradavelmente familiar... não era bem enxofre, mas uma mistura vaporosa de minerais do fundo da terra.
— Não estou ouvindo nada — reclamou Meg.
— Um barulho de serra à direita — falei para ela. — À esquerda, um cheiro ruim.
— Escolho o cheiro ruim.
— Ah, jura?
Meg me deu a língua, sua marca registrada, depois seguiu para a esquerda, me puxando junto.
O aro de bronze ao redor da minha perna começou a incomodar. Eu sentia a pulsação da artéria femoral de Meg, o que atrapalhava meu ritmo. Sempre que fico nervoso (o que não acontece com frequência), gosto de cantarolar uma música para me acalmar, normalmente o “Bolero” de Ravel ou a música grega antiga “Epitáfio de Sícilo”. Mas, com a pulsação de Meg me desconcentrando, a única melodia que consegui conjurar foi a da “Dança da galinha”. Nada tranquilizador.
Seguimos em frente. O cheiro de vapores vulcânicos se intensificou. Minha pulsação perdeu o ritmo perfeito. Meu coração batia a cada tchu, tchu, tchu, tchu da “Dança da galinha”. Fiquei com medo de saber onde estávamos. Falei para mim mesmo que não era possível. Nós não podíamos ter percorrido metade do mundo andando. Mas aquele era o Labirinto. Aqui embaixo, as distâncias não significavam nada. O lugar sabia explorar as fraquezas das vítimas. Pior: tinha um senso de humor cruel.
— Estou vendo luz! — disse Meg.
Ela estava certa. A escuridão total tinha se transformado em um cinza-escuro. À frente, o túnel terminava, chegava a uma caverna estreita e comprida como uma fissura vulcânica. Parecia que uma garra colossal atacara o corredor, deixando uma ferida na terra. Vi criaturas com garras desse tamanho no Tártaro. Não tinha nenhuma vontade de revê-las.
— A gente devia voltar — falei.
— Que besteira — retrucou Meg. — Você não está vendo o brilho dourado? Tem uma maçã lá.
Eu só via névoas de cinzas e gás.
— O brilho pode ser lava — falei. — Ou radiação. Ou olhos. Olhos brilhantes nunca são um bom sinal.
— É uma maçã — insistiu Meg. — Estou sentindo cheiro de maçã.
— Ah, agora você desenvolveu sentidos apurados?
Meg avançou, me deixando sem escolha além de ir junto. Para uma garotinha, ela era boa em usar seu peso. No final do túnel, nos vimos em um ressalto estreito. O penhasco em frente estava a menos de cinco metros, mas a fenda parecia despencar eternamente. Talvez uns cinquenta metros acima, a abertura irregular se abria em uma câmara maior.
Um cubo de gelo dolorosamente grande parecia subir pela minha garganta. Eu nunca tinha visto aquele lugar de baixo, mas sabia exatamente onde estávamos. Era o onfalo, o umbigo do mundo antigo.
— Você está tremendo.
Tentei tapar a boca de Meg, mas ela me mordeu na mesma hora.
— Não toque em mim — rosnou.
— Por favor, faça silêncio.
— Por quê?
— Porque logo acima de nós... — Minha voz falhou. — Delfos. A câmara do oráculo.
O nariz de Meg tremeu como o de um coelho.
— Isso é impossível.
— Não é, não — sussurrei. — E, se isso for Delfos, significa que...
De cima de nós veio um sibilar tão alto que parecia que um oceano inteiro tinha caído em uma frigideira e evaporado formando uma nuvem enorme. O ressalto tremeu. Caíram pedrinhas em nossas costas. Um corpo monstruoso deslizou pela fenda acima de nossas cabeças, cobrindo completamente a abertura. O cheiro de pele de cobra em processo de troca queimou minhas narinas.
— Píton. — Minha voz estava agora um oitavo mais aguda do que a de Meg. — Ele está aqui.

Nenhum comentário:

Postar um comentário