quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 14

O SALÃO ESTAVA preparado para a chegada dos visitantes. Duas fileiras de cadeiras foram posicionadas no estilo de um estádio, lembrando-me de como os Selecionados costumavam sentar-se para o Jornal Oficial. Tínhamos comida e bebidas ao redor da sala, um posto de segurança na porta, e câmeras circulando.
Atrás da equipe de produção, a Elite sentava-se contra a parede, e todos eles pareciam estar animados por encontrar uma parte do meu trabalho que eles pudessem observar. Fiquei feliz em ver que Kile e Erik (embora certamente suas ações fossem mais para o benefício de Henri) tivessem trazido cadernos. Eles vieram para trabalhar.
— A senhorita está linda — Marid me assegurou, provavelmente notando que eu puxava o meu colarinho.
— Eu estava tentando parecer eficiente sem fazer coisas muito formais.
— E conseguiu. A senhorita só precisa se acalmar. Eles não estão aqui para atacá-la; estão aqui para falar com você. A única coisa que tem que fazer é ouvir.
Concordei com a cabeça.
— Ouvir. Eu posso fazer isso. — Respirei fundo. Nós nunca tínhamos feito nada parecido com isso antes, e eu estava tão tonta quanto horrorizada. — Como você encontrou essas pessoas? São seus amigos?
— Não exatamente. Algumas ligaram para a rádio depois que falei, e outras foram sugeridas por conhecidos. É uma boa mistura de status sociais e econômicos, o que deverá criar uma discussão bem equilibrada.
Assimilei as palavras. Isso era tudo o aquilo significava: uma discussão. Eu queria ver os rostos das pessoas que realmente viviam no nosso país, ouvir suas vozes. Não era uma enorme multidão; era um grupo pequeno.
— Nós vamos conseguir, tudo bem? — disse ele, tranquilizador.
— Tudo bem.
E eu me lembrei que essa assembleia era uma coisa boa enquanto nossos convidados começavam a chegar no salão.
Fui apertar a mão de uma mulher que parecia ter levado mais tempo fazendo seu cabelo do que eu e seu marido, o qual estava muito bonito, mas ao mesmo tempo poderia ter feito alguém desmaiar com a quantidade de água de colônia que passara.
— Sua Alteza — a mulher cumprimentou, fazendo uma reverência. — Meu nome é Sharron Spinner, e este é o meu marido, Don. — Ele fez uma reverência. — Estamos muito satisfeitos por estarmos aqui. É tão bom que o palácio esteja separando um tempo para escutar o seu povo.
Eu balancei a cabeça.
— Há bastante tempo. Por favor, sirvam-se de algumas bebidas e fiquem à vontade. Os produtores podem parar para entrevistá-los, mas os senhores não têm obrigação alguma de falar com eles se não quiserem.
Sharron tocou os cantos dos lábios, certificando-se de que sua maquiagem estava tão impecável quanto possível.
— Não, eu não me importo, absolutamente. Vamos, querido.
Eu mal podia conter um revirar de olhos. Os Spinner pareciam um pouco ansiosos demais para estar na frente das câmeras. Após os Spinner, vieram os Barns e os Palter. Havia uma menina sozinha, Bree Marksman, e dois homens mais jovens, Joel e Blake, que haviam se conhecido aqui e já conversavam como amigos. Finalmente, um casal mais jovem que se apresentou como Shell entrou. Parecia que eles tinham feito o melhor para juntar algumas roupas para a ocasião e tinham chegado há pouco tempo.
— Brenton e Ally, vocês disseram? — fiz um gesto com a mão, convidando-os a caminhar ao meu lado.
— Sim, Alteza. Muito obrigado por nos receber.
Brenton sorriu, parecendo grato e tímido ao mesmo tempo.
— Isso significa que nós poderemos nos mudar agora?
Parei, voltando-me para eles. Ally engoliu em seco, claramente tentando não acumular esperanças.
— Mudar-se?
— Sim. Da parte baixa de Zuni. Temos tentado sair da nossa vizinhança faz um tempo.
— Não é muito seguro — Ally acrescentou calmamente.
— Nós estamos pensando em começar uma família. Mas eles sempre mudam os preços dos apartamentos.
— Tivemos amigos que se mudaram, e eles não tiveram quaisquer problemas — Ally insistiu.
— Mas quando tentamos entrar na mesma área, o aluguel era o dobro do que foi para Nic e Ellen.
— Os proprietários disseram que nossos amigos devem ter falado o valor errado da taxa, mas... bem, não quero acusar ninguém de nada, mas Nic nasceu um Três, e nós dois nascemos Cinco.
— Nós apenas queremos viver em algum lugar mais seguro — Brenton acrescentou com um dar de ombros. — Mesmo que a senhorita não possa corrigir isso, pensamos que o encontro com a princesa poderia ajudar.
— Alteza — chamou o produtor. — Sinto interromper, mas estamos começando.
Ele mostrou aos Shell os seus lugares, e eu me sentei de frente para todo o grupo, não tendo certeza de como começar.
Ri, tentando quebrar a tensão.
— Como nunca fizemos isso antes, não temos um itinerário a seguir. Alguém tem alguma pergunta?
Um dos homens jovens – Blake, lembrei-me – levantou a mão, e vi as câmeras mudarem de ângulo para se concentrar em seu rosto.
— Sim, Blake?
— Quando o rei volta?
E, simples assim, tornei-me insignificante.
— Não tenho certeza. Depende de quando minha mãe estiver totalmente recuperada.
— Mas ele vai voltar, certo?
Obriguei-me a sorrir.
— Se por alguma razão ele não retornar, o país continuará como de costume. Eu sempre fui a próxima na linha de sucessão, e tenho os mesmos ideais que meu pai. Ele queria tanto ver as castas terem um fim, e agora que elas se foram, tentaremos apagar ainda mais os rastros que elas deixaram.
Olhei para cima na direção de Marid, que me deu um rápido sinal de positivo.
— Mas essa é a questão — começou Andrew Barns. — O palácio não fez nada para ajudar aqueles de nós cujos pais eram Cinco, Seis ou inferiores.
— Penso que estamos perdidos sobre o que seria mais eficaz. Essa é parte da razão pela qual vocês estão aqui hoje. Queremos ouvi-los — cruzei minhas mãos no colo, esperando que parecessem firmes.
— Monarcas alguma vez ouvem realmente seus súditos? — perguntou Bree. — Já pensou em entregar o governo para o povo? Não acha que há uma chance de que poderíamos fazer um trabalho melhor do que você?
— Bem...
Sharron me cortou, virando-se para Bree.
— Querida, você mal pode se vestir. Como acha que poderia dirigir um país?
— Me dê uma votação! — Bree exigiu. — Só isso mudaria tudo completamente.
O Sr. Palter – Jamal – inclinou-se para frente.
— Você é muito jovem — disse ele, concordando com Bree. — Eu quero ver mudanças. Eu vivi com as Castas. Era Três, e perdi muito desde então. Vocês crianças não sabem o suficiente sobre como era nem mesmo para contribuir com a conversa.
O outro rapaz levantou-se, enfurecido.
— Só porque sou jovem não significa que não presto atenção ou que não sei como as pessoas lutaram. Eu quero que este país seja o melhor para todos, não apenas para mim.
Tínhamos começado há menos de cinco minutos, e toda a conversa tinha se transformado em um concurso de quem falava mais alto. Nem parecia que eu estava lá. Muitas pessoas se referiam a mim, é claro, mas ninguém realmente falou comigo.
Eu deveria ter compreendido que uma ampla gama de estilos de vida significava que teríamos conflito, mas eu desejava que Marid tivesse selecionado melhor essas pessoas. Ou então, talvez ele tivesse escolhido, e mesmo assim acabou que as pessoas não se importavam se eu estava ou não presente. Eu tinha passado tanto tempo preocupada que eles me odiassem que não tinha parado para considerar a possibilidade de que eu simplesmente fosse irrelevante aos seus olhos.
— Se pudéssemos talvez levantar nossas mãos um a um — sugeri, tentando recuperar o controle. — Não posso ouvir suas percepções se estiverem todos falando ao mesmo tempo.
— Eu exijo uma votação! — Bree gritou, e os outros ficaram em silêncio. Ela olhou para mim. — Vocês não têm ideia de como nossas vidas realmente são. Olhe para esta sala. — Ela apontou para uma pintura feita habilmente e para as tapeçarias, os pratos de porcelana e copos de espumantes. — Como podemos confiar em seu julgamento quando a senhorita está desconectada de seu povo? Vocês governam nossas vidas sem nenhuma compreensão do que significa viver à nossa maneira.
— É um bom argumento — concordou Suzette Palter. — A senhorita nunca passou um dia na sujeira ou em fuga. É fácil tomar decisões sobre a vida de outras pessoas quando não se tem que vivê-la.
Fiquei ali sentada, olhando para esses estranhos. Eu era responsável por eles. Mas como poderia ser? Como uma pessoa pode se certificar de que toda e cada alma tivesse todas as chances que podiam ter, de que tivessem tudo o que era necessário? Não era possível. E, no entanto, deixar o cargo não parecia ser a solução.
— Sinto muito, mas tenho que interromper — disse Marid, saindo das sombras. — A princesa é gentil demais para lembrá-los quem exatamente ela é, mas como seu amigo muito querido, não posso permitir que falem com ela desta forma.
Ele me lembrou de alguns dos meus tutores, a maneira como eles ficavam em cima de mim e me faziam sentir constrangida, mesmo quando eu não tinha certeza de que havia razão para isso.
— A Princesa Eadlyn pode não ser sua soberana hoje, mas está destinada ao trono. Ela o ganhou através de uma longa linha de tradição e sacrifício. Vocês se esquecem que, enquanto vocês tem suas escolhas de profissão, moradia e do seu próprio futuro, o dela foi lhe atribuído no momento do nascimento. E ela aceitou de bom grado o peso disso por causa de vocês. Gritar com ela por ser jovem é injusto, pois todos nós sabemos que seu pai tinha apenas um pouco mais de experiência quando subiu ao trono. A Princesa Eadlyn estudou incansavelmente ao seu lado durante anos e já disse que pretende realizar suas vontades. Digam-lhe como fazer isso.
Bree inclinou a cabeça.
— Eu já falei.
— Se a senhorita está sugerindo que de repente nos tornemos uma democracia, isso poderia causar mais estragos em sua vida do que pode imaginar, — Marid insistiu.
— Mas se a senhorita quer uma votação — comecei — talvez nós pudéssemos falar sobre como implementar isso localmente. É mais viável que os líderes mais próximos de você, aqueles que realmente veem sua área no dia a dia, lhe forneça o que é necessário.
Bree não sorriu, mas relaxou os ombros contraídos.
— Esse seria um começo.
— Ok, então — vi Neena tomar notas ferozmente. — Brenton, você mencionou algo sobre a moradia quando chegou. Pode me contar mais sobre isso?
Depois de quinze minutos, o grupo chegou à decisão de que a habitação nunca devia ser negada a ninguém com base em sua profissão ou histórico de Castas, e que todos os preços deviam ser tornados públicos para que não pudessem ser uma forma de restringir certas pessoas.
— Eu não quero soar esnobe — disse Sharron — mas alguns de nós vivem em áreas onde preferiríamos... que certas pessoas não viessem.
— Você fracassou — um dos rapazes disse. — Isso soa completamente esnobe.
Eu suspirei, pensando.
— Suponho que, se você vive em um bairro rico, é necessário uma quantidade considerável de dinheiro para se mudar para lá em primeiro lugar. E em segundo, você está assumindo que as pessoas com poucos recursos seriam vizinhos horríveis. O que você disse sobre mim, Suzette, estava certo — ela se animou ao som de seu nome e sorriu por estar certa, sem saber sobre o que ainda. — Eu nunca vivi fora do palácio. Mas, graças à Seleção, jovens de diversas origens entraram em minha vida, e eles já me ensinaram muito. Alguns deles trabalhavam durante a escola ou ajudavam suas famílias, ou apenas tentavam dominar o inglês para que pudessem ter mais oportunidades. Eles podem ter passado por suas vidas com muito menos do que eu, mas enriqueceram minha vida de maneiras que não posso começar a expressar. Sharron? — perguntei. — Isso não vale alguma coisa?
Ela não respondeu.
— No final do dia, não poderei forçar qualquer um de vocês a tratar as pessoas da maneira que deveriam. Mas estejam cientes de que as leis que eu criar não farão muito menos do que levar cada um de vocês a mostrar bondade para com seus concidadãos.
Vi o sorriso de Marid e sabia que mesmo que eu não tivesse começado esta assembleia de forma perfeita, eu dera um grande passo. Parecia uma vitória.


Quando a reunião acabou, eu me sentia pronta para entrar em colapso por tanta tensão. Quase duas horas de conversa e eu sentia como se tivesse passado uma semana trabalhando.
Graças a Deus a Elite parecia entender quão drenada eu estava, me deixando com pouco mais que algumas reverências educadas. Haveria muito tempo para discutir sobre isso com eles mais tarde. Neste momento, eu só queria cair em um sofá.
Lamentei-me para Marid.
— Tenho a sensação de que eles querem que façamos isso de novo, mas eu me recuso até ter me recuperado totalmente de hoje. O que pode levar anos.
Ele riu.
— A senhorita foi muito bem. Eles foram os únicos que tornaram o encontro difícil. Mas considerando que esta foi a primeira vez, ninguém sabia como se comportar. Se repetir, será muito melhor em todos os aspectos.
— Espero que sim — apertei minhas mãos. — Fico pensando sobre Bree, em como ela era passional.
— Passional — ele revirou os olhos. — Aí está uma palavra para ela.
— Estou falando sério. Isso importava tanto para ela — eu lamentei, pensando em como ela parecia à beira das lágrimas algumas vezes. — Estudei ciência política toda a minha vida. Eu sei sobre repúblicas, monarquias constitucionais e democracias. Pergunto-me se talvez ela esteja certa. Talvez devêssemos...
— Deixe-me interrompê-la agora mesmo. Já se esqueceu de como ela pareceu quando viu que não estava conseguindo obter sucesso? Realmente quer que as escolhas do país sejam feitas por alguém como ela?
— Ela é uma voz de milhões.
— Exatamente. E eu estudei política tanto quanto a senhorita e sob uma lente muito mais variada. Confie em mim, é muito melhor manter o controle aqui. — Ele segurou minhas mãos nas suas, sorrindo, e eu afastei meus pensamentos. — E você é muito capaz. Não deixe que um pequeno grupo de pessoas que não têm ideia de como expressar razoavelmente suas opiniões mine sua confiança.
Balancei a cabeça.
— Eu estava um pouco abalada, só isso.
— Claro que estava. Esta foi uma multidão resistente. Mas a senhorita pode se esquecer de tudo com uma garrafa de vinho. Sei que há adegas excelentes aqui.
— Há — respondi com um sorriso.
— Venha, então. Vamos celebrar. Você acabou de fazer uma coisa maravilhosa para o seu povo. Precisa de mais que uma taça.

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