quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 13

ESPERE, MAIS UMA vez, de que maneira essas peças podem se mover? — Hale perguntou antes de se esticar e pegar dois bolinhos e colocá-los em seu prato.
— Bispos se movem na diagonal. Eu não faria isso se fosse você, mas o funeral é seu.
Ele riu.
— Ok. E estas torrezinhas?
— Linhas retas, para os lados, para frente ou para trás.
Ele moveu a torre, comendo mais um dos meus peões.
— Honestamente, eu nunca pensaria que a senhorita era uma menina do xadrez.
— Eu não sou. Ahren costumava ser obcecado, e me obrigou a jogar com ele todos os dias durante meses. Mas então começou seu relacionamento com Camille, e todo o seu tempo do xadrez se transformou em horas para escrever cartas.
Movi meu bispo e tomei o seu cavalo.
— Ugh, eu nem sequer vi isso — lamentou entre mordidas. — Tive vontade de lhe perguntar sobre Ahren, mas não tinha certeza se a senhorita já havia superado.
Dei de ombros, preparada para desviar do assunto, mas em vez disso lembrei que, se eu queria de alguma forma ter uma chance de ser feliz, tinha que permitir que ultrapassassem as minhas barreiras. Suspirando, eu disse a verdade.
— Sinto falta dele. É como se eu tivesse crescido com um melhor amigo grudado em mim, e agora ele se foi. Tenho outras pessoas próximas, como minha dama de companhia, Neena. Não acho que eu tenha percebido o quanto conto com ela até Ahren ter ido embora e eu puder enxergar melhor. Mas isso me dá medo. E se chegar ao mesmo ponto que com Ahren, se ela for a pessoa que procuro para tudo, e então algo acontecer e ela for embora?
Hale acenou com a cabeça enquanto ouvia, e pude ver que ele tentava suprimir um sorriso.
— Não é engraçado! — reclamei, atirando um dos seus peões perdidos nele.
Ele riu alto, desviando-se da peça.
— Não, não estou sorrindo por causa disso. É só que... a última vez que falou disso você correu. Não está usando tênis debaixo desse vestido, está?
— De modo nenhum. Eles não combinam juntos — provoquei. — Não, realmente, ele deveria ter confiado em você, e confio agora. Desculpe se sou lenta. Me abrir para as pessoas não é uma das minhas habilidades.
— Sem pressa. Eu sou uma pessoa muito paciente.
Eu não podia mais encarar os seus olhos, então me concentrei no tabuleiro, observando suas mãos pairando acima dele.
— Quanto à forma como se sente sobre Neena — Hale continuou — mesmo que ela tivesse que ir embora, você não precisaria fazê-la perder uma amiga, assim como não precisa fazer Ahren perder a irmã dele. Pode ter que se esforçar mais para se manter em contato, mas se os ama tanto quanto diz, valerá a pena.
— Eu sei que isso é verdade — admiti. — Para mim já é bastante difícil fazer amigos, pois não saio muito. Então eu meio que preciso manter os que tenho.
Hale riu, e eu perdi o que ele fez no tabuleiro.
— Bem, eu só quero registrar e dizer que, mesmo que a senhorita não me escolha, terá a minha amizade para toda a vida, e estarei em um avião para Angeles num piscar de olhos se precisar de mim.
Abri um sorriso.
— Uma coisa por dia.
Ele concordou com a cabeça.
— Todos os dias.
— Eu realmente precisava ouvir isso. Obrigada. — Arrumei-me no assento e comecei a pensar em minha próxima jogada. — E você? Quem é seu melhor amigo?
— Na verdade, me perguntaram sobre isso algumas semanas atrás, logo após a saída de Burke. Meu melhor amigo é uma garota, e eles pensaram que eu estava escrevendo para “a minha namorada de quando eu voltasse para casa”. Deixe-me dizer, foi humilhante pedir a ela para ficar no telefone com um guarda afim de explicar que nunca, nunca estivemos romanticamente envolvidos.
Mordi o lábio, feliz que ele pudesse ver o humor nisso.
— Eu realmente sinto muito.
— Está tudo bem. Carrie deu fora nele, na verdade.
— Bem, estou feliz que ela tenha feito isso — eu limpei minha garganta. — Mas agora tenho que perguntar, você realmente nunca teve uma queda por ela?
— Não! — ele quase estremeceu. — Carrie é como uma irmã para mim. O pensamento de beijá-la só faz com que eu sinta enjoo.
Ergui minhas mãos, assustada pela forma ofendida que ele soou.
— Certo. Eu não preciso me preocupar com Carrie. Entendi.
— Desculpe — o desgosto em seu rosto mudou para um sorriso tímido. — É só que me perguntaram isso um milhão de vezes. Outros amigos, nossos pais... é como se todo mundo sempre quisesse que ficássemos juntos, e não sinto nada parecido com isso por ela.
— Entendi. Às vezes parece que todo mundo quer me juntar a Kile só porque crescemos juntos. Como se isso por si só fosse o suficiente para garantir que você vai se apaixonar.
— Bem, a diferença é que você realmente tem sentimentos por Kile. Qualquer pessoa vendo vocês poderia dizer. — Ele brincou com um peão descartado.
Olhei para o meu colo.
— Eu não deveria ter falado sobre isso. Eu sinto muito.
— Não, está tudo bem. Penso que a única maneira de manter a sanidade nisso tudo é lembrar que você é quem conduz, e é quem decide onde estamos. Tudo o que podemos fazer é sermos nós mesmos.
— Em que posição você acha que está, exatamente?
Ele me deu um pequeno sorriso.
— Eu não sei. Em algum lugar no meio?
Balancei a cabeça.
— Você está fazendo melhor do que isso.
— Mesmo?
— Mesmo.
Seu sorriso desapareceu um pouco.
— Isso é um pouco surpreendente, mas também assustador. Muita responsabilidade vem com a vitória da Seleção.
Acenei com a cabeça.
— Toneladas.
— Acho que eu nunca tinha parado para pensar sobre isso. Mas com a senhorita atuando como regente nesses dias, é um pouco... esmagador.
Olhei para ele, com a certeza de que tinha entendido mal alguma coisa.
— Você não está tentando sair, não é?
— Não — respondeu ele, continuando a rolar o peão na mão. — Eu só estou me dando conta da magnitude de tudo. Tenho certeza de que sua mãe teve momentos como este, também.
Ele estava estranhamente reflexivo, e isso parecia ser mais profundo do que a sua frustração sobre Carrie. Quando continuei, tentando manter o mesmo tom, ele evitou meus olhos.
— Perdi alguma coisa? Você sempre foi tão entusiasmado, a tal ponto que cheguei a me perguntar sobre a sua sanidade. Como perdeu subitamente a coragem?
— Eu não disse que perdi a coragem — ele respondeu. — Eu estava simplesmente expressando uma preocupação. Você está constantemente expressando suas preocupações. Qual a diferença?
Havia muita verdade nisso, mas eu claramente tocara em algo sensível. E depois de todo o esforço que fiz para me abrir com Hale, eu não entendia por que ele estava se fechando para mim. Enquanto eu não achava que ele era o tipo de cara que me testaria simplesmente por causa disso, eu me perguntava se talvez ele estivesse tentando avaliar a minha paciência. Fechei e abri as mãos debaixo da mesa, lembrando-me que eu confiava Hale.
— Talvez fosse melhor se nós mudarmos de assunto — sugeri.
— Concordo.
Mas a única coisa que se seguiu foi o silêncio.

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