sábado, 14 de maio de 2016

Capítulo 13

Corrida da morte
Mas que palavras terríveis
Ah, deuses. Meg, não!

ERA TUDO CULPA DE HARLEY.
Depois de falar do desaparecimento de Miranda Gardiner (“Como precaução, fiquem longe da floresta até conseguirmos mais informações”), Quíron chamou o jovem filho de Hefesto para explicar como a corrida de três pernas da morte funcionaria. Logo ficou claro que Harley havia arquitetado o projeto todo. E, sério, a ideia era tão apavorante que só podia ter surgido da mente de um garoto de oito anos.
Confesso que me perdi nos detalhes depois que ele mencionou os frisbees de serra elétrica explosivos.
— E eles vão fazer tipo ZUM! — Harley deu pulinhos de empolgação. — E depois BUZZ! E POW! — Representou todo tipo de caos com as mãos. — Vocês vão ter que ser bem rápidos, ou vão morrer. Vai ser incrível!
Os outros campistas resmungaram e se remexeram nos bancos.
Quíron levantou a mão pedindo silêncio.
— Sei que tivemos problemas na última vez — disse ele —, mas felizmente nossos curandeiros do chalé de Apolo conseguiram prender de volta os braços de Paulo.
Em uma mesa no fundo, um adolescente musculoso se levantou e começou a falar no que presumi ser português. Ele usava uma regata branca exibindo o peitoral moreno, e consegui ver cicatrizes claras ao redor dos bíceps. Disparando xingamentos, ele apontou para Harley, para o chalé de Apolo e para todo mundo, praticamente.
— Ah, obrigado, Paulo — disse Quíron, perplexo. — Estou feliz por você estar se sentindo melhor.
Austin se inclinou para mim e sussurrou:
— Paulo compreende inglês bem, mas só fala português. Pelo menos, é o que alega. Nenhum de nós consegue entender uma palavra do que ele diz.
Eu também não entendia português. Havia anos que Atena insistia que o monte Olimpo podia migrar para o Brasil algum dia e que deveríamos estar preparados para essa possibilidade. Ela até comprou DVDs do Berlitz Idiomas para todos os deuses como presente de Saturnália, mas o que Atena sabe?
— Ele parece agitado — comentei.
Will deu de ombros.
— Paulo tem sorte de cicatrizar rápido, porque é filho de Hebe, a deusa da juventude e tal.
— Você não para de olhar — comentou Nico.
— Não estou olhando — disse Will. — Só estou avaliando como a cirurgia nos braços dele foi bem-sucedida.
— Humpf.
Paulo finalmente se sentou. Quíron citou uma longa lista de outros ferimentos que eles sofreram durante a primeira corrida de três pernas da morte, e acrescentou que esperava evitá-los desta vez: queimaduras de segundo grau, tímpanos perfurados, uma distensão da virilha e dois casos de dança irlandesa crônica.
O semideus solitário à mesa de Atena levantou a mão.
— Quíron, vou falar só uma coisinha... Três campistas desapareceram. Tem certeza de que fazer uma corrida de obstáculos perigosa é uma boa ideia?
Quíron deu um sorriso sofrido.
— Excelente pergunta, Malcolm. Mas essa corrida não vai levar vocês para a floresta, que acreditamos ser a área mais perigosa. Os sátiros, as dríades e eu vamos continuar investigando os desaparecimentos. Não descansaremos enquanto nossos campistas desaparecidos não forem encontrados. Mas, nesse meio-tempo, essa corrida de três pernas vai ajudar vocês a trabalharem melhor em equipe. Também expandirá nossa compreensão do Labirinto.
A palavra me acertou na cara como o cecê de Ares. Eu me virei para Austin.
— Labirinto? Ele está falando do Labirinto de Dédalo?
Austin assentiu, os dedos mexendo nas contas de cerâmica no pescoço. Tive uma lembrança repentina da mãe dele, Latricia, mexendo em seu colar de conchas quando dava aulas em Oberlin.
Até eu aprendi coisas nas aulas de teoria da música de Latricia Lake, apesar de achá-la tão linda a ponto de me distrair de tudo.
— Durante a guerra com Gaia — disse Austin —, o Labirinto reabriu. Estamos tentando mapeá-lo desde então.
— Isso é impossível — falei. — É loucura. O Labirinto é uma criação reconhecidamente malévola! Não pode ser mapeado, não se pode confiar nele.
Como sempre, só consegui acesso a trechos aleatórios das minhas lembranças, mas tinha quase certeza de que estava falando a verdade. Eu me lembrava de Dédalo. Muito tempo antes, o rei de Creta mandou que ele construísse um labirinto para prender o monstruoso Minotauro. Mas, ah, não, um simples labirinto não era bom o bastante para um inventor brilhante como Dédalo. Ele tinha que fazer seu Labirinto autoconsciente e mutável. Ao longo dos séculos, ele se expandiu por baixo da superfície do planeta como um sistema invasivo de raízes.
Esses inventores brilhantes e estúpidos.
— É diferente agora — explicou Austin. — Desde que Dédalo morreu... Não sei. É difícil descrever. Não parece tão mau. Nem tão letal.
— Ah, isso me deixa mais tranquilo. Então é claro que vocês decidiram fazer a corrida de três pernas nele.
Will tossiu.
— Outra coisa, pai... Ninguém quer decepcionar Harley.
Olhei para a mesa principal. Quíron ainda discursava sobre as virtudes do trabalho em equipe enquanto Harley dava pulinhos ao seu lado. Eu conseguia entender por que os outros campistas talvez quisessem adotar o garoto como mascote não oficial. Ele era um pirralhinho fofo, mesmo sendo assustadoramente forte para uma criança de oito anos. O sorriso era contagiante. Seu entusiasmo pareceu melhorar o humor do grupo todo. Mesmo assim, reconheci o brilho de loucura nos olhos dele. Era a mesma expressão que o pai, Hefesto, fazia sempre que inventava algum autômato que mais tarde ficaria louco e começaria a destruir cidades.
— Além disso — dizia Quíron —, lembrem que nenhum dos desaparecimentos infelizes tem relação com o Labirinto. Fiquem com seus companheiros e provavelmente estarão seguros... pelo menos, tão seguros quanto é possível estar em uma corrida de três pernas da morte.
— É — disse Harley. — Ninguém nem morreu ainda.
Ele pareceu decepcionado, como se quisesse que nos esforçássemos mais.
— Diante de uma crise — prosseguiu Quíron —, é importante continuar com as atividades regulares. Temos que ficar alertas e na melhor forma possível. Nossos campistas desaparecidos não esperariam menos de nós. Agora, quanto às equipes de corrida, vocês vão poder escolher seus parceiros...
Em seguida, os campistas começaram a correr uns para cima dos outros tentando agarrar seus companheiros preferidos. Parecia um ataque de piranhas. Antes que eu pudesse avaliar minhas opções, Meg McCaffrey apontou para mim do outro lado do pavilhão, a expressão igual à do tio Sam no pôster do recrutamento.
Claro, pensei. Por que minha sorte melhoraria agora?
Quíron bateu o casco no chão.
— Chega, pessoal, sosseguem! A corrida vai ser amanhã à tarde. Obrigado, Harley, pela dedicação nas... hã, inúmeras surpresas letais.
— BLAM! — Harley voltou correndo para a mesa de Hefesto e se juntou à irmã mais velha, Nyssa.
— Isso nos leva à outra notícia — disse Quíron. — Como vocês devem saber, estamos com dois recém-chegados especiais. Primeiro, deem as boas-vindas ao deus Apolo!
Normalmente, essa seria a deixa para que eu me levantasse, abrisse os braços e sorrisse enquanto uma luz radiante brilhasse ao meu redor. A multidão adoradora aplaudiria e jogaria flores e bombons de chocolate aos meus pés.
Dessa vez, não recebi aplausos, só olhares nervosos. Tive um impulso estranho e nada característico de afundar um pouco mais na cadeira e puxar o casaco por cima da cabeça. Precisei fazer um esforço heroico para me controlar.
Com dificuldade, Quíron sustentou o sorriso.
— Sei que isso é incomum — disse ele —, mas os deuses se tornam, sim, mortais de tempos em tempos. Vocês não deveriam ficar tão assustados. A presença de Apolo entre nós pode ser um bom presságio, uma chance para... — Ele pareceu perder o fio da meada do próprio argumento. — Ah... fazermos uma coisa boa. Tenho certeza de que o melhor caminho a seguir vai ficar claro com o tempo. Agora, por favor, façam Apolo se sentir em casa. Tratem-no como qualquer outro novo campista.
À mesa de Hermes, Connor Stoll levantou a mão.
— Isso quer dizer que o Chalé de Ares vai poder enfiar a cabeça dele em uma privada?
À mesa de Ares, Sherman Yang soltou uma risada debochada.
— Nós não fazemos isso com todo mundo, Connor. Só com os novatos que merecem.
Sherman olhou para Meg, que obviamente estava terminando seu último cachorro-quente. Os cantos da boca dela estavam cobertos de mostarda.
Connor Stoll sorriu para Sherman. Se eu o conhecesse, diria que aquele era um olhar de conspiração. Foi nessa hora que reparei na mochila aberta aos pés de Connor. Escapando da mochila havia algo semelhante a uma rede.
Então a ficha caiu: os dois garotos que Meg havia humilhado estavam se preparando para a vingança. Eu não precisava ser Nêmesis para entender a atração da vingança. Ainda assim... senti uma vontade estranha de avisar Meg.
Tentei fazer contato visual, mas ela continuava concentrada no jantar.
— Obrigado, Sherman — continuou Quíron. — É bom saber que você não vai dar um banho de privada no deus da arqueria. Quanto ao resto de vocês, vamos mantê-los avisados sobre a situação do nosso convidado. Estou mandando dois dos nossos melhores sátiros, Millard e Herbert — ele indicou os dois sátiros à esquerda —, para entregar em mãos uma mensagem para Rachel Dare em Nova York. Com sorte, ela também vai poder se juntar a nós em breve e ajudar a determinar qual a melhor forma de ajudarmos Apolo.
Aquilo causou alguns resmungos. Captei as palavras oráculo e profecias. Em uma mesa próxima, uma garota murmurou para si mesma em italiano: Cegos guiando cegos.
Olhei para ela de cara feia, mas a jovem era bem bonita. Devia ter uns dois anos a mais do que eu (mortalmente falando), com cabelo escuro curtinho e olhos amendoados devastadoramente intensos.
Eu talvez tenha corado.
Virei para meus companheiros de mesa.
— Hã... então, sátiros. Por que não mandar aquele amigo de Percy?
— Grover? — perguntou Nico. — Ele está na Califórnia. Todo o Conselho dos Anciãos de Casco Fendido está lá, em uma reunião por causa da seca.
— Ah.
Meu ânimo desmoronou. Eu lembrava que Grover era bem versátil, mas, se estava cuidando de desastres naturais da Califórnia, era provável que só voltasse na próxima década.
— Finalmente — disse Quíron —, recebemos uma nova semideusa no acampamento, Meg McCaffrey!
Ela limpou a boca e ficou de pé.
Ao seu lado, Alice Miyazawa disse:
— Não vai se levantar, Meg?
Julia Feingold riu.
À mesa de Ares, Sherman Yang se levantou.
— Essa aí... essa aí merece boas-vindas especiais. O que você acha, Connor?
Connor enfiou a mão na mochila.
— Acho que talvez o lago de canoagem.
— Meg... — comecei a dizer.
E então foi o Hades na Terra.
Sherman Yang avançou na direção de Meg. Connor Stoll pegou uma rede dourada e jogou nela, que gritou e tentou se soltar enquanto alguns campistas cantarolavam: “Mergulho! Mergulho!”
Quíron fez o que pôde para acalmá-los.
— Semideuses, esperem um momento! — gritou.
Um uivo gutural interrompeu os procedimentos. Do alto de uma colunata, um borrão gorducho com asas frondosas e uma fralda de pano desceu voando e pousou nas costas de Sherman Yang, derrubando-o de cara no chão de pedra. Pêssego, o karpos, se levantou e gritou, batendo no peito. Os olhos brilhavam, verdes de raiva. Ele pulou em Connor Stoll, prendeu as pernas gorduchas ao redor do pescoço do semideus e começou a puxar seu cabelo com as garras.
— Sai daí! — gritou Connor, se debatendo cegamente pelo pavilhão. — Sai daí!
Lentamente, os outros semideuses superaram o choque e vários puxaram suas espadas.
— C’è un karpos! — gritou a garota italiana.
— Matem! — disse Alice Miyazawa.
— Não! — gritei.
Normalmente, essa ordem teria iniciado uma situação de calamidade, com todos os mortais se deitando no chão para esperar minhas próximas ordens. Mas eu era um mero mortal com voz falhada de adolescente.
Fiquei assistindo horrorizado à minha própria filha Kayla tirar uma flecha da aljava.
— Pêssego, larga ele! — gritou Meg.
Ela se soltou da rede, jogou-a longe e correu para cima de Connor.
karpos pulou do pescoço do menino e caiu aos pés de Meg, mostrando as presas e sibilando para os outros campistas, que tinham formado um semicírculo torto com as armas em punho.
— Meg, saia da frente — disse Nico di Angelo. — Essa coisa é perigosa.
— Não! — A voz de Meg soou aguda. — Não mate ele!
Sherman Yang rolou, gemendo. O rosto parecia pior do que devia estar. Um corte na testa pode gerar uma quantidade absurda de sangue, mas aquela visão aumentou a determinação dos outros campistas. Kayla armou o arco, decidida. Julia Feingold desembainhou uma adaga.
— Esperem! — pedi.
Uma mente mais primitiva jamais conseguiria absorver o que aconteceu em seguida.
Julia atacou. Kayla disparou a flecha.
Meg estendeu as mãos, e uma luz dourada suave brilhou entre seus dedos. De repente, a jovem McCaffrey estava segurando duas espadas, cada uma delas uma lâmina curvada no antigo estilo trácio, siccae feitas de ouro imperial. Eu não via armas assim desde a queda de Roma. Pareciam ter surgido do nada, mas minha longa experiência com itens mágicos me disse que deviam ter sido invocadas dos anéis de lua que Meg sempre usava.
As duas espadas giraram. Meg ao mesmo tempo cortou a flecha que Kayla havia disparado e desarmou Julia, fazendo a adaga sair deslizando pelo chão.
— Mas que Hades? — perguntou Connor. O cabelo dele tinha sido arrancado em vários pontos, então ele parecia uma boneca maltratada. — Quem é essa garota?
Pêssego se agachou ao lado de Meg, rosnando, enquanto ela afastava os semideuses confusos e furiosos com as duas espadas.
Minha visão devia ser melhor do que a dos mortais comuns, porque vi o sinal brilhante primeiro, uma luz cintilante sobre a cabeça de Meg.
Quando reconheci o símbolo, meu coração virou chumbo. Odiei o que vi, mas achei que devia mostrar.
— Olhem.
Os outros pareceram confusos. Em seguida, o brilho ficou mais intenso: havia uma foice dourada holográfica com alguns ramos de trigo girando acima da cabeça de Meg McCaffrey.
Um garoto ofegou.
— Ela é comunista!
Uma garota sentada à mesa do chalé 4 deu uma risadinha de repulsa para ele.
— Não, Damien, aquele é o símbolo da minha mãe. — Sua expressão desmoronou quando ela se deu conta da verdade. — Hã, o que quer dizer... que também é o símbolo da mãe dela.
Minha cabeça girou. Eu não queria saber daquilo. Eu não queria servir a uma semideusa filha dela. Mas então os crescentes nos anéis de Meg fizeram sentido. Não eram luas, eram lâminas de foice. Como o único olimpiano presente, achei que devia tornar o título oficial.
— Minha amiga não está mais sem parentesco — anunciei.
Os outros semideuses se ajoelharam respeitosamente, alguns com mais relutância do que outros.
— Senhoras e senhores — falei, com a voz tão amarga quanto o chá de Quíron —, uma salva de palmas para Meg McCaffrey, filha de Deméter.

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