sábado, 14 de maio de 2016

Capítulo 12

Ó, cachorro-quente
Com refri e batata frita
Não tenho nada mesmo

EU NÃO ESTAVA NO clima de comemorar.
Principalmente sentado a uma mesa de piquenique comendo comida mortal. Com mortais.
O pavilhão de refeições era bem agradável. Até no inverno as fronteiras mágicas do acampamento nos protegiam do pior dos elementos. Sentado ao ar livre no calor das tochas e braseiros, só senti um friozinho. O Estreito de Long Island cintilava ao luar. (Oi, Ártemis. Nem precisa se dar ao trabalho de me cumprimentar.) Na Colina Meio-Sangue, a Atena Partenos brilhava como a maior luz noturna do mundo. Nem a floresta parecia muito assustadora, com os pinheiros envoltos em uma leve névoa prateada.
Meu jantar, no entanto, não estava nada poético. Era cachorro-quente, batata frita e um líquido escuro que me disseram ser um refrigerante chamado Coca-Cola. Eu não sabia por que os humanos consumiam uma bebida feita de cola nem com que tipo de cola era produzida, mas era a parte mais gostosa da refeição, o que foi desconcertante.
Sentei à mesa do chalé de Apolo com meus filhos Austin, Kayla e Will, e também Nico di Angelo. Eu não via diferença alguma entre a minha mesa e as dos outros deuses. A minha deveria ser mais brilhante e elegante. Deveria tocar música ou recitar poesia. Mas era só um pedaço de pedra com um banco de cada lado. Achei o assento desconfortável, embora minha prole não parecesse se importar.
Austin e Kayla me encheram de perguntas sobre o Olimpo, a guerra com Gaia e a sensação de ser um deus e depois virar humano. Eu sabia que eles não queriam ser grosseiros. Por serem meus filhos, tinham uma tendência natural para a mais pura delicadeza. No entanto, as perguntas eram um lembrete doloroso do meu status decadente.
Além disso, com o passar das horas, eu ia me esquecendo cada vez mais da minha vida divina. Era alarmante a velocidade com que meus neurônios cosmicamente perfeitos se deterioravam. Antes, cada lembrança era como um arquivo de áudio em alta definição. Depois elas passavam para cilindros fonográficos, feitos de cera. E, acredite, eu me lembro dos cilindros fonográficos. Eles não duravam muito na carruagem do Sol.
Will e Nico estavam sentados lado a lado, fazendo brincadeirinhas bobas. Eles eram um casal tão fofo que acabei me sentindo desolado. Vê-los juntos despertou as lembranças dos poucos meses dourados que passei com Jacinto antes do ciúme, antes do acidente horrível...
— Nico — falei, por fim —, você não devia estar sentado à mesa de Hades?
Ele deu de ombros.
— Tecnicamente, sim. Mas, se eu me sento sozinho lá, coisas estranhas acontecem. Rachaduras se abrem no chão e zumbis começam a sair e andar por aí. É um problema de humor. Não consigo controlar. Foi o que falei para Quíron.
— E isso é verdade? — perguntei.
Nico deu um sorrisinho.
— Tenho atestado do meu médico.
Will levantou a mão.
— Que sou eu.
— Quíron decidiu que não valia a pena discutir — acrescentou Nico. — Quando eu me sento com outras pessoas, como... ah, esse pessoal aqui, por exemplo... os zumbis não aparecem. Todo mundo fica feliz.
Will assentiu serenamente.
— É a coisa mais estranha do mundo. Não que Nico fosse usar seus poderes para conseguir o que quer.
— Claro que não — concordou Nico.
Olhei para o outro lado do pavilhão de refeições. Como era tradição no acampamento, Meg tinha sido colocada com os filhos de Hermes, pois sua paternidade divina ainda não fora determinada. Ela não pareceu se importar. Estava ocupada recriando o Concurso de Comilança de Cachorros-Quentes de Coney Island sozinha. As outras duas garotas, Julia e Alice, olhavam para ela com uma mistura de fascinação e horror.
À sua frente na mesa estava sentado um garoto magrelo e mais velho, de cabelo castanho crespo: Connor Stoll, deduzi, embora jamais fosse ser capaz de diferenciá-lo do irmão mais velho, Travis.
Apesar da escuridão, Connor estava de óculos de sol, sem dúvida para proteger os olhos de um novo cutucão. Também reparei que ele foi sábio o bastante para manter as mãos longe da boca de Meg.
No pavilhão todo, contei dezenove campistas. A maioria estava sozinha em sua respectiva mesa: Sherman Yang representando Ares; uma garota que eu não conhecia representando Afrodite; outra garota representando Deméter. À mesa do chalé de Nice, duas meninas de cabelo escuro que evidentemente eram gêmeas estavam conversando curvadas sobre um mapa. O próprio Quíron, mais uma vez em forma de centauro, estava à mesa principal, tomando Coca-Cola enquanto conversava com dois sátiros que pareciam cabisbaixos. Os homens-bode ficavam me olhando, depois comiam os talheres, como os sátiros costumam fazer quando estão nervosos. Seis dríades lindas andavam entre as mesas, oferecendo comidas e bebidas, mas eu estava tão preocupado que mal consegui apreciar totalmente a beleza delas. Mais trágico ainda: eu me sentia constrangido demais para flertar com elas. O que havia de errado comigo?
Observei os campistas na esperança de conseguir identificar servos em potencial... quer dizer, novos amigos. Os deuses sempre gostam de manter alguns semideuses veteranos e fortes por perto para mandá-los para batalhas e missões perigosas ou para tirar as bolinhas das nossas togas.
Infelizmente, ninguém no jantar se destacou como um possível subordinado. Eu desejava um grupo maior de talentos.
— Onde estão... os outros? — perguntei a Will.
Tive vontade de dizer a galerinha popular, mas achei que podia ser mal interpretado.
Will deu uma mordida em sua pizza.
— Você está procurando alguém específico?
— As pessoas que partiram naquela missão de barco, por exemplo.
Will e Nico trocaram um olhar que talvez significasse Lá vamos nós. Acho que já responderam muitas perguntas sobre os sete semideuses lendários que lutaram lado a lado com os deuses contra os gigantes de Gaia. Doía em mim nunca mais ter visto aqueles heróis. Depois de qualquer grande batalha, eu gostava de tirar uma foto em grupo — e de conseguir direitos exclusivos para compor baladas épicas sobre a exploração deles.
— Bem — começou Nico —, você viu Percy. Ele e Annabeth estão fazendo o último ano do ensino médio em Nova York. Hazel e Frank estão no Acampamento Júpiter, na Décima Segunda Legião.
— Ah, sim.
Tentei formar uma imagem mental clara do Acampamento Júpiter, a enclave romana perto de Berkeley, Califórnia, mas os detalhes eram obscuros. Só conseguia me lembrar das conversas com Octavian, do jeito como ele virou minha cabeça com seus elogios e promessas. Aquele garoto burro... era culpa dele eu ter vindo parar aqui.
Uma voz sussurrou no fundo da minha mente. Dessa vez, achei que podia ser minha consciência. Quem foi o burro? Não foi Octavian.
— Cala a boca — murmurei.
— O quê? — perguntou Nico.
— Nada. Continuem.
— Jason e Piper ficarão em Los Angeles com o pai de Piper durante o ano letivo. Eles levaram o treinador Hedge, Mellie e o pequeno Chuck junto.
— Aham. — Eu não reconheci esses últimos três nomes, então concluí que não deviam ser importantes. — E o sétimo herói... Leo Valdez?
Nico ergueu as sobrancelhas.
— Você se lembra do nome dele?
— Claro! Ele inventou o Valdezinator. Ah, que instrumento musical! Mal tive tempo de dominar as escalas principais antes de Zeus me fritar no Partenon. Se alguém pudesse me ajudar, esse alguém seria Leo Valdez.
A expressão de Nico se contraiu de irritação.
— Ah, o Leo não está aqui. Ele morreu. Depois, voltou à vida. E, se eu voltar a vê-lo, vou matá-lo de novo.
Will deu uma cotovelada nele.
— Não vai, não. — Ele se virou para mim. — Durante a luta com Gaia, Leo e seu dragão de bronze, Festus, desapareceram em uma grande explosão no ar.
Senti um arrepio. Depois de tantos séculos dirigindo a carruagem do Sol, o termo grande explosão no ar não me fazia muito bem.
Tentei me lembrar da última vez que vi Leo Valdez em Delos, quando trocou o Valdezinator por informações.
— Ele estava em busca da cura do médico — lembrei —, o jeito de trazer alguém de volta à vida. Será que aquele tempo todo ele já vinha planejando se sacrificar?
— É — disse Will. — Ele se livrou de Gaia na explosão, mas todos concluímos que também morreu.
— Porque morreu mesmo — acrescentou Nico.
— Aí, alguns dias depois — continuou Will —, um pergaminho chegou voando no acampamento...
— Ele ainda está comigo. — Nico remexeu nos bolsos da jaqueta de couro. — Olho para isso sempre que quero sentir raiva.
Ele pegou um rolo de pergaminho. Assim que o abriu na mesa, um holograma cintilante surgiu na superfície: Leo Valdez, com a mesma cara de travesso de sempre, o cabelo escuro espetado, o sorriso malicioso e a estatura diminuta. (Claro, o holograma só tinha oito centímetros, mas mesmo na vida real Leo não era muito mais imponente.) A calça jeans, a camisa azul e o cinto de ferramentas estavam manchados de óleo lubrificante.
— Oi, pessoal! — Leo abriu os braços. — Peço desculpas por ir embora assim. A má notícia: eu morri. A boa notícia: eu voltei! Tive que salvar Calipso. Estamos bem agora. Vamos levar Festus para... — A imagem tremulou, como uma chama em uma brisa forte, interrompendo a voz de Leo. — Voltamos assim que... — Estática. — Façam tacos quando... — Mais estática. — ¡Vaya con queso! Amo vocês!
A imagem sumiu.
— É tudo o que sabemos — reclamou Nico. — E isso foi em agosto. Não temos ideia do que ele estava planejando, de onde está agora nem se continua bem. Jason e Piper passaram o mês de setembro quase inteiro procurando por ele, até que finalmente Quíron insistiu para que fossem para a escola.
— Bem — falei —, parece que Leo estava planejando fazer tacos. Talvez isso tenha demorado mais do que ele previa. E vaya con queso... Acredito que esteja nos dizendo para escolher o de queijo, o que sempre é um conselho sábio.
Isso não pareceu tranquilizar Nico.
— Não gosto de ficar no escuro — murmurou ele.
Era uma reclamação estranha para um filho de Hades, mas entendi o que ele quis dizer. Eu também estava curioso para saber o destino de Leo Valdez. Antigamente, poderia ter adivinhado o paradeiro dele com a mesma facilidade com que você checa o Facebook, mas na minha atual condição tudo o que eu podia fazer era olhar para o céu e me perguntar quando um semideus travesso com um dragão de bronze e um prato de tacos poderia aparecer.
E, se Calipso estava envolvida... as coisas ficavam mais complicadas. A feiticeira e eu tínhamos uma história conturbada, mas até eu precisava admitir que ela era encantadora. Se havia capturado o coração de Leo, era totalmente possível que ele tivesse feito um desvio de rota. Afinal, Odisseu passou sete anos com ela antes de voltar para casa.
Qualquer que fosse o caso, parecia improvável que Valdez retornasse a tempo de me ajudar.
Minha missão de dominar os acordes do Valdezinator teria que esperar.
Kayla e Austin estavam muito quietos, acompanhando nossa conversa com surpresa e espanto. (Minhas palavras têm esse efeito nas pessoas.)
Kayla chegou perto de mim.
— O que vocês conversaram na Casa Grande? Quíron contou sobre os desaparecimentos...?
— Contou. — Tentei não olhar na direção da floresta. — Nós discutimos a situação.
— E? — Austin espalmou a mão na mesa. — O que está acontecendo?
Eu não queria falar sobre aquilo. Não queria que eles percebessem meu medo. Desejei que minha cabeça parasse de latejar. No Olimpo, esse tipo de dor era bem mais fácil de curar. Hefesto simplesmente abria o crânio da pessoa e extraía o deus ou deusa recém-nascido que estava batucando lá dentro. No mundo real, minhas opções eram bem mais limitadas.
— Preciso de mais tempo para pensar — falei. — Talvez de manhã eu tenha alguns dos meus poderes divinos de volta.
Austin se inclinou para a frente. À luz das tochas, as trancinhas dele pareciam girar como novas hélices de DNA.
— É assim que funciona? Sua força volta com o tempo?
— Eu... eu acho que sim.
Tentei me lembrar dos anos de servidão a Admeto e Laomedonte, mas mal consegui conjurar os nomes e rostos deles. Minha memória cada vez mais falha me apavorava. Fazia cada momento do presente aumentar em tamanho e importância, me recordando que o tempo para os mortais era limitado.
— Tenho que ficar mais forte — concluí. — Preciso.
Kayla apertou minha mão. Os dedos de arqueira eram ásperos e calejados.
— Está tudo bem, Apolo... pai. Vamos ajudar você.
Austin assentiu.
— Kayla tem razão. Estamos nisso juntos. Ela vai atirar em qualquer um que lhe causar problemas. E vamos amaldiçoá-lo tanto que ele só vai conseguir falar em rimas por semanas.
Meus olhos lacrimejaram. Não muito tempo antes (de manhã, por exemplo), a ideia de aqueles jovens semideuses serem capazes de me ajudar teria me parecido ridícula. Mas a gentileza deles me emocionou mais do que o sacrifício de cem touros. Eu não conseguia me lembrar da última vez que alguém se importara tanto comigo a ponto de amaldiçoar meus inimigos para que só falassem em rimas.
— Obrigado — consegui dizer.
Não pude acrescentar meus filhos. Não pareceu certo. Esses semideuses eram meus protetores e minha família, mas, no momento, eu não podia pensar em mim mesmo como pai deles. Um pai devia fazer mais; um pai devia dar para os filhos mais do que recebe. Preciso admitir que essa era uma ideia nova para mim. E isso fez com que eu me sentisse ainda pior.
— Ei... — Will bateu no meu ombro. — Não é tão ruim assim. Pelo menos, com todo mundo em alerta, talvez não tenhamos que fazer a corrida de obstáculos de Harley amanhã.
Kayla murmurou um xingamento em grego antigo. Se eu fosse mesmo um bom pai divino, teria lavado a boca da minha filha com azeite de oliva.
— Eu tinha esquecido — disse ela. — Vão ter que cancelar, não vão?
Franzi a testa.
— Que corrida de obstáculos? Quíron não mencionou nada.
Tive vontade de protestar que meu dia todo foi uma corrida cheia de obstáculos. Eles não podiam estar esperando que eu fizesse as atividades do acampamento também. Antes que eu pudesse dizer isso, um dos sátiros soprou uma trombeta de concha à mesa principal.
Quíron levantou os braços, chamando atenção.
— Campistas! — A voz dele preencheu o pavilhão. Ele conseguia ser bem impressionante quando queria. — Tenho alguns anúncios, inclusive notícias sobre a corrida de três pernas da morte de amanhã!

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