quarta-feira, 4 de maio de 2016

Capítulo 11

EU ME SENTI TÃO contente à medida que subia as escadas e andava pelos corredores, com uma sensação de familiaridade e paz ao meu redor que eu suspeitava que tinha muito a ver com o conforto que sentia em estar apenas em minha companhia.
Durou até o momento em que passamos pelas portas do salão de jantar. Mamãe e papai ainda estavam no andar de cima, e vovó voltara para o quarto dela. Osten não estava se sentindo bem esta noite, por isso Kaden fazia companhia para ele, e meu irmão gêmeo ainda estava a um oceano de distância de mim.
Um olhar para a cabeceira da mesa vazia e eu queria me esconder.
— Alteza? — perguntou Erik, e eu me virei para encontrar-me a alguns centímetros de distância de seus olhos preocupados. Havia algo calmante neles, um detalhe do qual eu me lembrava depois da briga na cozinha. Então olhei para dentro eles, e senti como se tivesse sido examinada diretamente pela alma dele. Mesmo agora, com tantas pessoas ao redor, apenas ver o azul cristalino dos seus olhos fez minha tristeza se esvair. — A senhorita está bem? — ele perguntou, e pelo seu tom, ele já tinha me perguntado antes e eu não havia percebido.
— Sim. Poderia, por favor, ir pegar aquelas cadeiras e colocá-las do outro lado da mesa principal? Você, também, Ean? — Eles saíram para fazer o que pedi. — Hale, Fox? Vocês poderiam pegar os talheres?
Movi-me, também, pegando talheres e copos, e fui para a mesa principal. Antes que alguém pudesse escolher um lugar, peguei a cadeira do meu pai para mim. Kile estava de um lado, e Hale, do outro. Fox, Henri, Erik, e Ean se sentaram em frente a nós, e de repente nessa hora, nessa mesa imponente, senti como se estivesse em um jantar íntimo. Só eu e os meus pretendentes.
Os mordomos foram um pouco desorganizados quando começaram a servir, despreparados para o rearranjo de improviso, mas chegando a todos em um bom tempo. E, pegando uma sugestão do nosso encontro, Henri comeu primeiro e os outros o seguiram.
— Então, espero que vocês estejam com tudo pronto para amanhã — eu anunciei. — Erik e Henri nos darão aulas de finlandês pela manhã.
— Sério? — Kile perguntou animadamente.
Erik corou um pouco e assentiu.
— O que está nos planos da aula? — perguntou Fox.
Erik olhou para o teto, como se ainda estivesse decidindo.
— Henri e eu estávamos conversando, e acho que vamos ignorar as coisas habituais de um primeiro dia, como o alfabeto. O mais útil nesta situação são habilidades básicas de conversação. Assim que o tempo revelar mais necessidades, elas estarão no topo da agenda de aula.
— Ótimo! — Hale comentou. — Tenho vontade de aprender mais. Grande ideia, Erik.
Ele balançou a cabeça.
— Foi ideia da nossa futura rainha. O crédito pertence a ela.
— Hey — disse Kile, tomando minha atenção. — Podemos também falar um momento sobre quão espetacular você foi no Jornal Oficial de novo? Sei que você já fez anúncios e outras coisas, mas o gerenciamento de um show inteiro por conta própria não é pouca coisa.
— Além disso — Fox acrescentou — incrível a arrumação desta noite. Para todos, exceto um de nós, esta será a única vez que nos sentaremos na mesa principal do palácio. Inesquecível.
— Concordo — acrescentou Ean.
E embora Henri não acrescentasse muito para a conversa, eu poderia dizer que ele estava satisfeito, também. Mas, é claro, surpreendente seria vê-lo aborrecido. Enquanto Erik o colocava na conversa, ele ergueu a taça.
— Para Eadlyn — disse ele.
Os outros ergueram suas bebidas no ar, fazendo coro ao seu brinde. Eu me peguei piscando os olhos para conter as lágrimas de felicidade e incapaz de dizer uma palavra. Nem mesmo “obrigada”, embora eu pudesse dizer a partir da aparência em seus olhos que eles já houvessem entendido.


Havia uma abundância de coisas boas para o país para se concentrar, mas com uma eliminação em massa no início da semana e a saída de Gunner antes do Jornal Oficial, parecia que eu estava empurrando as pessoas para longe novamente. Pelo menos isso foi o que os jornais disseram. Era como se eles não tivessem ouvido uma única palavra que Ean dissera sobre como eu chegara a essa decisão. Uma transmissão ao vivo inteira foi posta abaixo por um punhado de manchetes.
Surpreendentemente, sob essas histórias estava o belo rosto de Marid estampado ao lado do meu nos jornais, com comentários sobre como ele havia sido deixado de lado agora que eu começara o meu processo de Seleção.
— Me dê isso — Neena insistiu, amassando os papéis e jogando-os na lata de lixo. — Parece que eles estão publicando poucas notícias e muita fofoca hoje em dia.
— Sem dúvida — Lady Brice concordou. — Concentre-se menos no que as pessoas dizem e mais no que você pode fazer.
Acenei com a cabeça, sabendo que ela estava certa. Ela me falava coisas que eu tinha certeza que meu pai falaria se estivesse aqui e, embora nem sempre fossem fáceis, eu me sentia obrigada a ouvir.
— Apenas não estou certa de que eu possa focar no que sou capaz de realizar até começar a ter a opinião pública sob controle. Qualquer coisa que eu propuser, mesmo que seja algo que poderia ser defendido se meus pais tivessem iniciado, provavelmente será recebido com oposição. Eu preciso escolher um marido — falei decididamente. — Sinto-me confiante de que ajudará com a opinião pública, e vamos todos esperar que sim, porque eles não gostam de mim.
— Eadlyn, isso não é...
— É a verdade. Eu sei que sim, Lady Brice. Experimentei por mim mesma. Preciso lembrá-la do desfile?
Ela cruzou os braços.
— Certo, tudo bem. Você não é exatamente popular. E posso ver como encontrar um parceiro pode ter influência. Então é nisso que focaremos em hoje?
— Pelo menos nos próximos cinco minutos. Confio em minha cabeça um pouco mais do que no meu coração para me ajudar. Tenho que conversar sobre isso.
Neena deu de ombros.
— Quem está em primeiro lugar? Kile? O palácio inteiro está torcendo por ele. Ele é tão bonito e inteligente e oh, meu Deus, se a senhorita não o quiser, mande-o para mim.
— Você não tem um namorado?
Ela suspirou.
— Odeio quando você está certa.
Eu ri.
— Eu estaria mentindo se dissesse que não senti uma conexão com ele. Eu até conversei muita coisa com ele... mas continuo travando. Não sei por que, mas não estou pronta para dizer que ele é a minha primeira escolha.
— Ok — Lady Brice concordou. — Quem mais?
— Hale. Ele tem uma grande atitude e prometeu me provar seu valor todos os dias. Ele ainda não falhou. E é fácil tê-lo por perto. Essa é uma das razões pelas quais gosto de Fox, também.
— Fox é mais atraente do que Hale — Neena comentou. — Não estou sendo superficial, mas essas coisas são importantes na opinião pública.
— Entendo isso, mas a beleza é subjetiva. Você sabe que às vezes o que torna uma pessoa atraente é a maneira como ela a faz rir ou como parece poder ler sua mente? Quero pensar sobre isso também.
Neena sorriu.
— Então você escolheria Hale ao invés de Fox?
Balancei a cabeça.
— Não foi isso o que eu quis dizer, exatamente. Apenas estou dizendo que aparência não é tudo. Temos que nos concentrar em outras qualidades.
— Como por exemplo...? — Lady Brice incentivou.
— Gosto de como Henri é infinitamente otimista. Não importa a circunstância, ele é um farol de alegria. E não tenho dúvidas de sua afeição por mim.
Neena revirou os olhos.
— Isso é bom, mas ele não fala inglês. Não há como vocês dois já tiverem tido uma conversa que roçou mais que a superfície.
— Isso é... bem, isso é verdade. Mas ele é muito doce e seria bom para mim. Erik falou que era possível que Henri aprendesse, mas pode demorar um pouco. E ele tem estudado até à meia-noite desde que entrou para a Elite. Já em relação a mim, estou a caminho de uma aula de finlandês agora. Podemos trabalhar a partir de ambas as extremidades, e Erik poderia permanecer aqui por quanto tempo precisássemos para nos ajudar.
Lady Brice sacudiu a cabeça.
— Isso é muito injusto para Erik. Ele tem uma família, um emprego. Ele provavelmente não se inscreveu para ficar preso ao palácio pelos próximos cinco anos. E se ele quiser encontrar alguém para si?
Eu queria dizer-lhe que ela estava errada... mas eu não podia. Erik não sabia quanto tempo a Seleção duraria quando concordou em vir, mas ele certamente não achava que viveria no palácio até que Henri fosse fluente em inglês. E seria indelicado pedir-lhe para fazer exatamente isso.
— Ele ficaria. Eu sei disso — foi tudo o que respondi.
Houve um silêncio depois disso, como se Lady Brice soubesse que eu estava errada e estivesse se decidindo sobre o que me dizer. Em vez disso, ela suspirou.
— Quem sobrou? Ean? — perguntou ela.
— Ean é um pouco mais complicado, mas confie em mim, ele é importante.
Neena apertou os olhos.
— Então... eles todos estão em primeiro lugar?
Suspirei.
— É o que penso. Não tenho certeza se isso significa que escolhi todos bem ou mal.
Lady Brice riu.
— A senhorita escolheu bem. Mesmo. Posso não entender o encanto de Ean ou como você faz as coisas funcionarem com Henri, mas todos eles têm seus méritos. Acho que o que precisamos fazer neste momento é intensificar a formação deles, realmente começar a prepará-los para o trono. Isso ajudará a destacar alguns deles, tenho certeza.
— Formação? Isso soa assustador.
— Eu não quis dizer isso. Estou simplesmente falando q...
As palavras seguintes de Lady Brice foram perdidas porque, sem qualquer aviso, vovó abriu a porta.
— A senhora realmente precisa pedir permissão antes — um guarda avisou-a em um tom abafado.
Ela continuou andando em minha direção.
— Bem, minha menina, é hora de eu ir embora.
— Tão cedo? — perguntei, abraçando-a.
— Eu nunca posso ficar muito tempo. Sua mãe está se recuperando de um ataque cardíaco, e ela ainda tem a audácia de me dar ordens. Sei que ela é a rainha, — ela admitiu, erguendo as mãos para o alto em sinal de rendição — mas eu sou a mãe dela, fato que supera o título “rainha” em alguns pontos.
Eu ri.
— Vou me lembrar disso mais tarde.
— Faça isso — ela concordou, esfregando minha bochecha. — E se não se importa, case-se assim que puder. Não estou ficando mais jovem, e eu gostaria de ver, pelo menos, um bisneto antes que de morrer. — Ela olhou para a minha barriga e sacudiu o dedo. — Não me desaponte.
— Ceeeerto, vovó. Temos que voltar a trabalhar aqui, então vá para casa e certifique-se de ligar quando chegar lá.
— Ligarei, querida. Ligarei.
Fiquei em silêncio, aquecendo-me na loucura que era minha avó.
Neena se inclinou.
— Agora, qual dos seus cinco pretendentes você acha que seria o fabricante de bebê mais ansioso? Devemos colocar este tópico numa lista de verificação?
Mesmo meu olhar mais violento em nada diminuiu sua brincadeira.
— Não se esqueça que posso chamar um pelotão de fuzilamento a qualquer momento.
— A senhorita pode chamar o pelotão de fuzilamento sempre que quiser, mas eu tenho sua avó do meu lado, então não tenho nada com que me preocupar.
Sentei, deixando as brincadeiras de lado.
— Infelizmente, Neena, acho que você está certa.
— Não se sinta mal. Ela é boa no fundo de tudo isso.
— Tentarei me lembrar disso. Então, acabamos por agora? Preciso aprender um pouco de finlandês.


— Desculpem, desculpem, desculpem! — falei, surgindo na biblioteca. Os garotos aplaudiram a minha entrada, e corri até um assento livre em uma mesa com Henri, Hale e Ean. — O dever chamou.
Erik riu, colocando um pequeno maço de papéis na minha frente.
— Está desculpada. Não se preocupe. Não chegamos faz muito tempo. Olhe a primeira página, e Henri irá ajudá-la com as pronúncias enquanto eu verifico como todo mundo está indo. Então, vamos lá.
— Certo.
Peguei o material – uma cópia de notas manuscritas de Erik com imagens desenhadas à mão na margem – e sorri. A primeira tarefa do dia foi aprender a contar até doze, para que pudéssemos dizer o tempo. Encarar esta simples lição me deixou instantaneamente embaraçada. Tudo o que eu conseguia pensar era que parecia não haver vogais suficientes nas palavras, e que as que se preocuparam em aparecer estavam todas nos lugares errados.
— Tudo bem — falei, olhando para a primeira palavra: yksi.
— Yocksey?
Henri riu e sacudiu a cabeça.
— Diz yu-ksi.
— Yuksi?
— Sim! Continua, continua — ele incentivou, e embora eu não pudesse estar em qualquer lugar perto da perfeição, ainda era bom ter o meu próprio líder de torcida pessoal. — Diz kahk-si.
— Kahk-si... kaksi.
— Bom, bom. Agora, é kolme.
— Culmay — tentei.
— Ehhh  — disse ele, ainda tentando ser positivo. — Kohl-may.
Tentei de novo, mas eu podia ver que estava começando errado. Eu estava sendo frustrada pelo número três. Sempre cavalheiro, ele se inclinou, preparando-se para tomar tanto tempo quanto eu precisasse.
— Diz oh. Kohl-may.
— Ooh. Ooh — eu tentei.
Ele levantou a mão e gentilmente colocou os dedos no meu rosto, tentando mudar a forma da minha boca, e me fez cócegas. Abri um sorriso, incapaz de fazer o som a que ele me conduzia.
Mas ele segurou o meu rosto. Depois de um momento, o humor deixou os seus olhos, e reconheci o olhar neles. Eu tinha visto isso antes, na cozinha, quando ele transformou sua camisa em um avental para mim.
Era um olhar tão cativante, que esqueci completamente que havia outras pessoas na sala.
Até que Erik deixou cair um livro sobre a outra mesa.
— Excelente — disse ele, e eu me afastei de Henri o mais rápido que pude, rezando para que ninguém tivesse notado o que quase acabara de acontecer.
— Parece que vocês estão indo bem com os números, então vamos começar a usá-los em frases. Se olharem para o quadro aqui, há um exemplo escrito; mas como tenho certeza que vocês já devem ter percebido, a pronúncia é um pouco complicada.
Os meninos riram, parecendo lutar com os números tanto quanto eu o fizera... e também parecendo demasiado absortos para terem notado o meu quase beijo. Eu me concentrei no quadro, tentando absorver a fonética das palavras à minha frente, em vez de me concentrar no quão perto Henri estava sentado.

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