quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Resta a água da colónia

A alguns rios bastaria o tumulto dos mitos que alimentam para que fosse de sobressalto a sua corrente, agitado o percurso, acidentada a história. Atropelam as nossas memórias as piranhas do Amazonas, as múmias do Nilo, as cheias do Mississípi, as valsas do Danúbio, o Rio Amarelo na orgia da cor, e por aí adiante.
O Congo (que por devaneio nacionalista/tribal já foi Zaire), esse, emerge das grandes matas de África, marco da colonização portuguesa, palco maior dos seculares horrores africanos, mapa de cobiça – sempre, pelos escravos primeiro, os diamantes e o ouro depois, as madeiras exóticas, o cobre, e o cobalto nos nossos dias.
O grande rio que pareceu limitar o continente à brevidade da costa acabaria por tornar-se a veia de comunicação essencial à exploração colonial que, ainda assim, no século XIX, apenas despertou os apetites do rei belga Leopoldo. Os exploradores como Livingstone e Stanley abriram o caminho, a vilanagem não tardaria.
Os nossos dias acordaram um jornalista inglês para a descida do Rio Congo, ele que cobria para o seu órgão todo o continente e que acabou por ali aterrar em serviço. A percepção dessa realidade de um país deixado nos braços de políticos corruptos, na agitação permanente e na inexistência de leis, nas doenças e na incerteza somaram-se a uma velha semente deixada pela mãe do próprio jornalista que ainda jovem, na década de 50 do século XX, por ali tinha viajado – em segurança, paz e conforto invejável.
Tudo somado, o jornalista fez-se aventureiro, leu muito, consultou gente que conheceu em trabalho no próprio Congo, planificou o que pôde com apoio da Internet, conseguiu que o seu jornal lhe desse cobertura. E fez-se ao caminho para o que não tardará a parecer ao leitor mais uma loucura do que uma hipótese séria de cobrir milhares de quilómetros por terra e rio, sem cobertura logística de praticamente nenhum tipo. Bem, na verdade, socorrendo-se do que no terreno ainda funciona: grupos de apoio disto e daquilo, forças da ONU, de ajuda humanitária, missionários ou do que deles resta (ou é possível).
E lá se fez ao terreno de todas as provações, mais numa viagem ao futuro do que ao passado, veja-se o paradoxo, quando o jornalista dá em pensar que afinal, neste país, a faixa etária que mais de perto viveu o desenvolvimento ali levado pelo século XX (sob a forma de colonialismo!) foram os velhos que ainda restam. Os outros, os mais jovens, já não têm memória das estradas e ferrovias que há muitas décadas passaram porventura pelas suas aldeias. É que ele vai encontrar carris, por exemplo, ao longo de uma vereda deixada pela selva e que percorre… numa motocicleta de pequena cilindrada.
Conta-lhe um grego de família emigrada, numa etapa da viagem em Kisangani: “Nasci aqui, no Congo. Quando os meus pais me levaram de regresso à Grécia, em criança, lá era mais atrasado do que aqui. E eu ansiava por voltar ao Congo, porque era mais desenvolvido do que a Grécia. Consegue imaginar?”.
Chegados aqui justificar-se-ia um suspiro de saudade… das colónias, não? Mas os antigos colonialistas não deixaram o chão que deu uvas. Hoje “crescem” ali as mesmas e outras matérias-primas que justificam todos os investimentos e corrupções. Eles continuam por lá, alguém compra os minérios, faz funcionar as linhas (não ferroviárias, que essas enferrujaram…) mais ou menos clandestinas de transporte, paga aos cleptómanos sanguinários de hoje como já subornou e alimentou os de ontem – os de sempre, aqui como em qualquer outro lugar.
É assim que um pouco desse país vai descendo todos os dias em direcção ao oceano que dissimula o sangue de todas as chacinas, ao Ocidente que tem a consciência suficientemente infinita para viver em paz no clamor de tantas mortes, aos consumidores que querem lá saber…
E por isso o ciclo se repete nos sucessivos golpes de Estado, em manobras infindáveis justificadas por jazidas que emergem nas bolsas internacionais, em discursos bem intencionados de políticos que não leram, não viram, não sabem. Nem querem saber que este mundo é tão estranho, tão diferente, que aqui “no Alto Congo, onde há cem anos um caçador belga podia comprar bilhetes de ferribote, em 2004 é tão impossível comprar uma Coca-Cola como ir à Lua”.
Até a Coca-Cola? Pois, esta gente alimenta-se de mandioca e bananas, bebe água do rio mal fervida quando é possível, come pequenos peixes que aparentemente é o que consegue apanhar. Pelos vistos, quando nos anos 60 o governo foi entregue às gentes de Mobutu, a que se seguiram outros iguais, e depois outros não menos piores, ninguém se lembrou das canas de pesca do aforismo chinês (ou do livrinho vermelho de Mao…). E, lembre-se, não é por a China estar ausente: uma boa parte do cobalto que hoje se escoa pelas frinchas da corrupção vai ser embarcada em Durban com destino à indústria que agrava a quota de carbono devida por Pequim.
Aqui chegados, alto lá que se calhar estamos a afundar-nos em demagogia. Claro que os povos africanos têm a sua quota de responsabilidade e Butcher não ilude a questão. “A crueldade e a ganância dos ditadores africanos devem ser criticadas, mas também é verdade que os povos africanos não foram capazes de trabalhar em conjunto para controlar os excessos dos ditadores. O poder do povo em África bate um infeliz recorde”, assinala.
O poder do povo ficou reduzido às águas da colónia que foi belga, e que hoje é apenas de um rio que se chama Congo. Vermelho, de sangue, diz Tim.
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Tim Butcher
Rio de Sangue
Bertrand Editora, 18€

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