domingo, 18 de outubro de 2009

Não Sei Nada Sobre o Amor - Júlia Pinheiro


Editora: Esfera dos Livros
Edição: Abril 2009

Júlia Pinheiro estreou-se na televisão aos 19 anos (1981) tendo, a partir daí, feito uma carreira de sucesso sendo, hoje em dia, uma das figuras televisivas mais conhecidas da praça portuguesa.

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, publica em Abril de 2009 o seu primeiro e único livro “Não Sei Nada Sobre o Amor”, que depressa se instala nos top´s das principais cadeias distribuidoras. Esse facto é surpreendente para alguém que escreve o seu primeiro título, contudo, podemos encontrar uma explicação se atentarmos à figura pública. Porém constatei que o livro tem imensa qualidade assim como prevejo, se mantiver o estilo, sucessos futuros.

São Pedro da Ribeira, 1930, Maria da Glória, jovem inocente de 16 anos, trabalha com o pai na taverna deste. Passa o dia a servir copos e a sentir os olhares gulosos daqueles homens acabados que por ali passam.

Uma aldeia perdida de um Portugal em sobressalto, onde intensas tradições seculares exigiam a submissão das mulheres e onde o destino era, obrigatoriamente, feito de casamento e de filhos. “Na geração de Maria da Glória, o amor era um infortúnio. Não servia para nada e só trazia aborrecimentos. Com o amor não se comprava terra nem se aumentava o rebanho.”

Maria da Glória é a rapariga mais bonita da aldeia, facto que desperta o interesse de António Mendonça, primogénito da família Mendonça, a mais rica e influente da aldeia. Este, ciente da sua importância como “bom partido”, consegue com que Maria da Glória se encontre com ele junto ao ribeiro. Inocente e um pouco ingénua, Maria da Glória, obviamente ás escondidas do pai, vai ter com ele e, no meio das silvas, é violada.

Dessa violação nasce um argumento que nos leva ao ano 2000, visitando 70 anos da sociedade portuguesa e do papel das mulheres nessa sociedade.

A escrita de Júlia Pinheiro é simples, objectiva e excepcionalmente visual e sentimental. Sentimental no aspecto em que consegue transmitir os vários estados de alma das várias personagens que pululam na história, sobretudo das quatro mulheres que formas as principais personagens.

Nestas quatro mulheres, Júlia Pinheiro, de uma forma magistral, tocante e simultaneamente objectiva, traça-nos um quadro Histórico do país, conseguindo, e isso na minha opinião é uma das grandes mais valias do livro, contrapor e demonstrar as várias mentalidades que cada geração possui, traçando também, com isso, uma linha evolutiva das mesmas. Coexistente e servindo também para explicar essa evolução, flui diante dos nossos olhos a mentalidade de Portugal dos anos 30, o surgimento do Estado Novo, o pós 25 Abril a um Portugal vivendo os excessos de uma democracia mal implantada até um Portugal totalmente democratizado.

Todos esses cenários, embora sejam relevantes, são colocados em pano de fundo, porque aqui o principal tema é o papel das mulheres numa sociedade altamente patriarcal que vai evoluindo para os dias de hoje.

Na minha perspectiva esse é o principal tema do livro. Sob a vida de quatro mulheres que abrangem quatro gerações, é aqui abordada a sociedade portuguesa e a forma como ela foi evoluindo.

Longe de ser um romance “cor-de-rosa” ou de “cordel” como muitos quiseram fazer crer, considero que Júlia Pinheiro teria construído um livro portentoso se tivesse sabido ou querido aprofundar os Acontecimentos Históricos que se dão nesses 70 anos interligando-os com a história dessas quatro mulheres. Esses acontecimentos são apenas aflorados no sentido de percebermos o impacto que os mesmos tiveram na vida dessas mulheres. A meu ver e embora entenda o objectivo da obra, penso que teria tudo a ganhar se tivesse investido mais na vertente Histórica.

Talvez pela formação académica, não só a estrutura do livro, como também a própria linguagem, achei o estilo de Júlia Pinheiro algo semelhante ao de José Rodrigues dos Santos. Pelo menos revivi nesta obra sentimentos que apenas consigo viver nas obras de Rodrigues dos Santos, a alegria de reencontrar todos os dias aqueles amigos íntimos, a ânsia de ler sobre o destino dos mesmos e a tristeza de os ver partir quando a obra acaba.

Uma grata surpresa e um especial agradecimento a quem mo levou a ler.

Classificação: 5

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