sábado, 27 de junho de 2009

Fotobiografias do Século XX - Fernando Pessoa - Richard Zenith e Joaquim Vieira

Título: Fotobiografias do Século XX - Fernando Pessoa Autor: Joaquim Vieira e Richard Zenith

Editora: Círculo de L
eitores

P.V.P.€ 35,00



A minha opinião

“Diz-se, por vezes que os quatro maiores poetas portugueses do século XX são Fernando Pessoa” assim começa a fotobiografia do, tal como Richard Zenith diz, o melhor poeta português.

Eu até ia mais longe e, tal como disse num post anterior, não apenas do século XX, mas de todos os tempos. Conheci Pessoa não muito cedo, apenas comecei a ler alguns poemas dele na adolescência, com mais ou menos 14 anos. Mas cada vez que leio o poeta e seus heterónimos surpreendo-me sempre e descubro coisas que não tinha visto anterior
mente.

Antes de começar a ler esta fotobiografia já tinha começado a ler uma biografia do autor, “Fernando Pessoa - Vida , Personalidade e Génio de António Quadros. Ainda não terminei o livro anterior, mas a leitura da fotobiografia foi deveras aliciante. Muito bem documenta
da e ilustrada, é um excelente trabalho que recomendo para os fãs do poeta ou até para aqueles que gostariam de conhecer um pouco mais sobre Pessoa.

Não podia deixar de postar algumas das passagens da sua vida que mais me agradaram ler neste livro, apesar de já serem do conhecimento geral.



Fernando Pessoa nasceu a 13 de Junho de 1888, em Lisboa. O dia do seu nascimento ocorreu numa quarta-feira, pelas 15h30.

“No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto.”
Do poema Aniversário, escrito em 13 de Junho de 1930. Filho de um casal que se dava bastante bem, cedo perdeu o pai (com cinco anos), o que fez com que o pequeno Pessoa e a sua família tivessem que abandonar a casa onde até ali viveu, situada no Largo de S. Carlos. Fernando Pessoa sempre recordaria o local com uma certa nostalgia e eternizá-lo-ia com o poema “Ó sino da minha aldeia”. O sino seria o da Igreja dos Mártires, no Chiado, a “aldeia”, o largo onde nascera, designado assim pela sua pacatez na altura.

Um ano após a morte do seu marido, a mãe de Pessoa casa-se novamente e parte para Durban com o pequeno Fernando. Em Durban, Pessoa não fez grandes amigos e tinha nos irmãos mais novos, Henriqueta e Luís, os seus cúmplices de brincadeiras. A irmã relembra: “éramos as personagens de uma história continuamente inventada por ele”. Segundo Zenith esta era “uma espécie de heteronímia às avessas, portanto, com pessoas reais transfiguradas em personagens fictícias”. Apesar de ter sido um a
luno bem sucedido em Durban, Pessoa sonhava em regressar ao seu país e é aí que ingressa no Curso de Letras. No entanto, pouco mais de um ano, fica desiludido com a mentalidade demasiado convencional dos seus colegas e começa a demonstrar o desejo de ir para Inglaterra, caso conseguisse arranjar dinheiro. “Apesar de ler e escrever bem em português, Pessoa continuou a fazer poemas e contos em inglês, por causa da falta de modelos, por falta de leitura da sua língua materna. É preciso compreender que pessoa aprendia a fazer literatura por imitação. Imitara Dickens, Carlyle, Pope, Shakespeare e Shelley na adolescência, e mais tarde imitaria Cesário Verde”, continua Zenith.



Heterónimos

“Reduzido a um par de óculos, um chapéu, um bigode e uma gabardina, o corpo praticamente desapareceu. É como se Pessoa fosse, não um homem sem qualidade, mas um conjunto de qualidades sem homem”, diz Zenith.

O termo heterónimo aplica-se apenas aos três poetas que surgiram em 1914: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. A eles, Pessoa fez biografias, atitudes e estilos completamente diferentes. C. R. Anon e Alexander Search, segundo Zenith, podem ser denominados de pré-heterónimos. “Enquanto que os heterónimos representavam o que Pessoa não era, os dois alter-egos anglófonos representavam o que o jovem poeta assumidamente era quando surgiram. Para que finalidade? Para permitir que o autor falasse de sim sem falar de si”, diz.

Em 1915, Fernando P
essoa e demais companheiros de tertúlia, decidem criar a revista Orpheu, que saiu em fins de Março de 1915. Ao contrário do esperado, e apesar de largamente noticiada na imprensa, Orpheu foi alvo de troça de muitos: “Maluqueira literária”, “Os poetas do Orpheu e os alienistas” e “Orpheu nos infernos”, foram alguns dos títulos de artigos que saíram em vários jornais. “Os poetas eram apontados na rua e toda a gente falava do Orpheu. Deste modo, a revista comprada para ler ou para escarnecer, esgotou a sua tiragem de 450 exemplares. O segundo número saiu 3 meses depois, com uma tiragem de 600 exemplares e também esgotou”, relata Zenith. No número dois do Orpheu, mais de um terço da revista era preenchido por obras de Pessoa, muitas delas assinadas por Álvaro de Campos, o primeiro dos três heterónimos a ser revelado publicamente. As pequenas tensões existentes no grupo e o escândalo que alguns textos de Campos suscitaram na opinião pública, além das dificuldades económicas, fizeram com que o terceiro número nunca chegasse a ser publicado. O suicídio de Mário de Sá-Carneiro, em 1916, viria a unir novamente os companheiros, que começaram a publicar várias revistas sobre literatura: Exílio, Centauro e Portugal Futurista foram alguns dos títulos que apareceram.

Mas era nos cafés lisboetas que os amigos se juntavam para falar sobretudo sobre arte e literatura. Dos muitos cafés frequentados por Pessoa, apenas dois sobreviveram até aos nossos dias: A Brasileira do
Chiado, fundado em 1905, e o Martinho da Arcada, em 1782.

Apesar de ter «nascido» a 16 de Abril de 1889, Alberto Caeiro apenas «apareceu» a Pessoa a 8 de Março de 1914, surgindo a história do «dia triunfal» dado que Caeiro, escreveu, de um jacto e «numa espécie de êxtase», mais de 30 poemas de “O Guardador de Rebanhos”. Richard Zenith refere que o nome Caeiro poderá ter surgido como uma homenagem ao melhor amigo de Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. “O nome Caeiro é Carneiro sem carne, dado a um pasto cujas ovelhas foram espiritualizadas em pensamentos. Sá-Carneiro suicidou-se poucas semanas antes de completar 26 anos e Alberto Caeiro, segundo a sua «biografia» também morreu jovem, com 26 anos, de tuberculose”.

Álvaro de Campos nasceu em Tavira em 1890, estudou engenharia naval em Glasgow, viaj
ou pelo oriente, viveu alguns anos em Inglaterra até que se fixou em Lisboa. “Enquanto os seus colegas heteronímicos viveram uma existência secreta durante mais de uma década, só sendo publicamente revelados em 1924 (Reis) e 1925 (Caeiro), Álvaro de Campos teve uma projecção mediática quase imediata”, diz Zenith.

Ricardo Reis, médico e neoclassicista, nasceu em 1887 no Porto e era monárquico. Por isso mesmo teve de se exilar no Brasil, onde terá vivido o resto dos seus dias. Sobre a sua mudança Pessoa disse: “é uma morte parcial; morre qualquer coisa em nós” e “e assim mudar para melhor, porque mudar é mau, é sempre mudar para pior”.

Definido por Pessoa como um semi-heterónimo surge Bernardo Soares, guarda-livros, cujo lugar de trabalho correspondia ao mesmo local para onde o poeta redigia cartas nos anos 20 e 30. Sobre a sua personalidade disse: «não diferente da minha, mas uma simples mutilação d
ela». Sobre as críticas feitas aos seus heterónimos Pessoa desabafou: «E contudo – penso-o com tristeza – pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. Pensar, meu querido Casais Monteiro, que todos estes têm de ser, na prática da publicação, preteridos pelo Fernando Pessoa, impuro e simples!»



Família e Ofélia Queirós

Pessoa não era um homem muito chegado à família. Quando as tias
mais chegadas faleceram, o poeta passou a viver sozinho mudando constantemente de residência, sempre localizada entre os bairros da Estefânia e dos Anjos. Contudo, Pessoa chegou a queixar-se de dificuldades económicas e de não ter ninguém a quem recorrer, embora a miséria nunca lhe tivesse batido à porta. A culpa de nunca ter dinheiro era o tempo que Pessoa queria dedicar à escrita, o que fazia com que recusa-se trabalhos a tempo inteiro. Foi num desses trabalhos que Pessoa conheceu Ofélia Queirós. Em Novembro de 1919, quando Ofélia respondia a um anúncio (e seria admitida) na empresa para a qual trabalhava o poeta trabalhava, começou uma troca de olhares entre os dois, que resultaria em namoro. Pessoa declarou o seu amor citando Hamlet, mas mudava constantemente de humores: tanto era afectivo, como indiferente, pelo que Ofélia lhe pediu uma declaração por escrito sobre as suas intenções. É nessa altura que começa a troca de correspondência entre os dois. Foi nas palavras de Ofélia “um namoro simples”, porque Pessoa nunca quis conhecer a família dela nem nunca a apresentou à sua. Mas guardou todas as suas cartas e mesmo os bilhetinhos mais insignificantes.



Morte

No início de 1933, com 44 anos, Pessoa parecia mais velho que a sua real idade. Para o seu envelhecimento precoce poderá ter contribuído os grandes momentos de solidão. Bebia e fumava muito. Por isso mesmo, era acometido por crises hepáticas ou pancreáticas. Em Setembro de 1935 uma crise mais forte abateu-o e a 19 de Novembro escreveu o seu último poema em português. Oito dias depois, 27 de Novembro, sofreu mais uma crise, precisamente no dia em que se comemorava o aniversário da sua irmã. Estranhando o facto de Pessoa não comparecer ao event
o, o cunhado foi procurá-lo no dia seguinte. Pessoa parecia ter melhorado um pouco, mas a 29 de Novembro ficou internado no Hospital de São Luís dos Franceses, no Bairro Alto. Nesse dia escreve as suas últimas palavras “I know not what tomorrow will bring” (não sei o que trará o amanhã) com mão segura e letra firme, dotando a frase e sublinhando a data duas vezes. “O amanhã trouxe-lhe a morte, talvez devido a uma pancreatite aguda, entre as 20 e as 21 horas”. A 2 de Dezembro foi enterrado no Cemitério dos Prazeres. “Como legado à humanidade deixara na Rua Coelho da Rocha, n.º 16, uma despretensiosa arca de madeira que continha milhares de originais dactilografados ou manuscritos em cadernos, agendas, papel de escritório onde trabalhara, papel de cafés que frequentava, folhas volantes, facturas ou impressos, envelopes e pedaços de papel rasgado –na sua grande maioria inéditos”, diz Zenith. A notícia da sua morte, porém, apenas sairia nos jornais três dias depois. Tendo morrido no fim de sábado, 30 de Novembro e não se publicando jornais no domingo à tarde nem na manhã de segunda-feira, por ter sido feriado na véspera, a ocorrência da morte de pessoa só foi anunciada após o funeral que reuniu 50 pessoas. O Diário de Notícias publicaria, na 1.ª página, uma notícia intitulada: “Morreu Fernando Pessoa, grande poeta de Portugal”, e outros jornais deram também notícias da sua morte em páginas interiores. Após analisados todos os documentos da arca que Pessoa deixara é que o poeta viria a ser conhecido totalmente, corria o ano de 1990. “Viemos a saber que, ao longo da vida e desde a infância, Pessoa inventara não 3, nem 10, nem 30 personagens-escritores, mas mais de 70”, diz Zenith. “É uma drama em gente, em vez de em actos”, explicou Pessoa num texto publicado em 1928. “No jazigo da sua avó Dionísia, no cemitério ocidental de Lisboa, o Grande Poeta esperava por nascer. Aguardava não só que as suas obras fossem devidamente publicadas, mas também que o tempo passasse, trazendo a próxima geração de leitores, mais susceptível de apreender o seu génio – que nunca poderia ser plenamente apreciado pelos seus coetâneos, segundo as teorias sobre a imortalidade”, continua o autor da fotobiografia. O centenário de Pessoa foi celebrado por uma profusão de iniciativas em Portugal e além-fronteiras, mas a coroa da glória do rei-poeta foi a trasladação dos seus restos mortais para o Mosteiro dos Jerónimos. «Cada vez mais perto do mito, cada vez menos perto de mim» - Álvaro de Campos vaticinava o futuro. Hoje a poesia e prosa de Pessoa é publicada em todos os continentes e em cerca de 40 línguas.

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