quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Evangelho e Família, de Adenáuer Novaes

TRECHO:
O Evangelho como roteiro para a família

Por detrás das palavras escritas pelos evangelistas a respeito
do que Jesus disse, existem preciosas lições de sabedoria
que, quando contextualizadas, oferecem roteiros para a compreensão
dos mais diversos problemas familiares. Para alcançarmos
um significado mais profundo, além das palavras, é preciso abrir
o coração para o sentimento do amor e a mente para a sabedoria
espiritual.
A utilização do Evangelho, como ferramenta para o trato
social, não exclui sua aplicação ao mundo íntimo de cada um,
sobretudo quando na vivência das relações familiares. Nelas o
espírito se desenvolve e retoma seus processos psíquicos deixados
em aberto nas encarnações precedentes.
O Evangelho ou Boa Nova é um guia precioso que pode
nos fazer entender melhor, do ponto de vista psicológico, os mais
complexos problemas envolvendo o relacionamento familiar. Jesus
falou para pessoas que viviam num contexto familiar, portanto
suas palavras não se dirigiam apenas a eles, mas também à família
da qual faziam parte.
Jesus trouxe idéias que podem nos levar ao entendimento
de que a vida em família é um sistema possível, no qual a convivên
cia e o auxílio mútuo podem proporcionar a felicidade ao grupo de
espíritos que dela fazem parte. Suas idéias penetram o Espírito fazendo
com que este olhe para si mesmo, mostrando-lhe que a Vida
é mais do que o corpo e do que sua exclusiva felicidade.
Não estamos mais no tempo em que uma única pessoa é
responsável pelos destinos de uma família. Todos agora são convidados
a assumir os rumos que o grupo familiar vai seguir. Pais,
filhos e agregados são co-responsáveis pelo futuro da família. A
partir da adolescência o espírito assume sua encarnação, saindo
da condição de criança que precisa de cuidados para a de adulto
que já colabora e participa das decisões coletivas.
O espírito cada vez mais precocemente assume seus processos
cármicos que influenciarão o próprio destino. Por esse
motivo, a família se torna mais cedo o palco onde todos são convocados
a colaborar uns com os outros, no qual se misturam desejos
e expectativas com as provas que a Vida propõe a cada um.
O Evangelho em família deve ser passado principalmente
pelo exemplo. Quando verbalizado deve mostrar-se como lições
imortais de amor e luz, proferidas com suavidade e sem manipulações
moralistas. Que adianta proferir palavras para convencer
alguém de uma moral que ainda não se pratica?
O Evangelho não pode ser transformado numa camisa de
força para as gerações que estão reencarnando. Deve ser passado
principalmente pelo comportamento, pois as palavras passam
e as atitudes se impregnam em quem as vê.
Não se deve obrigar alguém a aceitar uma idéia. Muito
embora se deva tentar passá-la, é preciso respeitar os limites de
cada um e seu momento evolutivo. A luz do Evangelho pode cegar
aqueles que não estão acostumados à claridade, por isso é
preciso ter paciência para que eles se acostumem. É preciso
mostrá-la em doses adequadas para que sua divina claridade não
prejudique sua absorção.
As palavras de Jesus foram utilizadas para diversos fins.
Uns fizeram delas bandeira para dominar e matar. Outros, como
fio condutor do espírito para os caminhos do amor. Os exemplos
são muitos de parte a parte. Temos que nos conscientizar do uso
que delas fazemos para que os espíritos que conosco convivem
não morram pelo nosso dogmatismo. A tolerância e a paciência,
além do desejo sincero de auxiliar o outro, são instrumentos mais
eficazes do que palavras, por mais verdadeiras que sejam.
Cada um traz seus processos cármicos a serem resolvidos.
Eles são intransferíveis. O Evangelho, se bem vivido, torna-se poderoso
instrumento para que a encarnação seja um abençoado
momento de equilíbrio e aprendizado. Os ensinamentos nele contidos
podem ser encontrados em outras religiões, pois o amor e a
sabedoria não são privilégios dos cristãos e sim patrimônio de Deus.
A família é o núcleo básico da sociedade e sua expressão
mais simples. Cada ser humano no convívio familiar deve aprender
e vivenciar experiências que serão úteis em sua vida social.
Deve buscar ser na sociedade o que é em família e vice-versa.
Ausentar-se dela, sob pretexto de que é diferente dos demais
com quem convive, é fugir do próprio destino e da oportunidade
de crescer espiritualmente.
A convite da inspiração amorosa decidi por fazer um livro
diferente. Neste trabalho trouxe alguns casos verídicos envolvendo
conflitos familiares com que tive contato ao longo de mais de
vinte cinco anos de atendimento ao público. Analiso cada caso à
luz do Evangelho, da Psicologia Analítica e do Espiritismo, trazendo
uma mensagem ao final de cada capítulo.
Evitei trazer idéias que se encontram no imaginário coletivo,
optando por grafar histórias do cotidiano da vida real como
ela é e com personagens que nem sempre encontramos nos livros.
São histórias simples com pessoas também simples que
podem ser encontradas na própria família da qual fazemos parte
como também em nossos vizinhos. Não pertencem às galerias de
famosos nem são conhecidos do grande público. São pessoas
como eu e você e que estão em busca da felicidade.
Não tenho a pretensão de esgotar o assunto nem tampouco
de me aprofundar demasiadamente, mas oferecer àqueles que se
encontram sob a proteção da família subsídios no Evangelho para
que possam guiar-se diante dos desafios e não venham a soçobrar
sem suas claridades.
Interessei-me por reunir algumas palavras do Cristo num
pequeno estudo sobre a família por considerar que é na família
que sua mensagem deva ter importante aplicabilidade. A vida em
sociedade é uma parte da vida do espírito. A outra se dá na família.
Na sociedade ele vive o mundo da persona1 , o mundo cheio
de máscaras. Em família ele se revela o mais próximo possível de
sua realidade existencial.
Decidi por trazer aspectos específicos da mensagem do
Cristo que pudessem atender ao mundo interior do ser humano,
fugindo das interpretações generalistas ou exclusivamente ortodoxas.
Neste modesto trabalho procuro levar o leitor a entender
que em algumas palavras atribuídas ao Cristo se pode encontrar
lições preciosas que o conduzirão à solução dos mais diversos
conflitos vividos em família.

1 A persona é uma espécie de personalidade auxiliar que nos permite a comunicação
com o mundo de forma adequada.

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