sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

A Elegância do Ouriço

Enquanto fiz uma pausa na leitura de Memórias de uma Gueixa, aproveitei para ler A Elegância do Ouriço, gentilmente oferecido pela Editorial Presença. Confesso que, à primeira vista, este livro, talvez devido ao título, não me cativava, mas revelou-se uma autêntica surpresa. O seu conteúdo é simplesmente genial - por um lado, é diferente das obras que tenho andado a ler; por outro, fez-me (e fará qualquer um) pensar sobre a importância da vida e os pormenores que a rodeiam. O livro faz jus a todas as críticas que lhe têm sido feitas. No entanto, um conselho: evitem lê-lo em locais públicos, porque as emoções vão estar à flor da pele.

Este livro apela aos sentimentos e, como tal, não podia ter escolhido melhor cenário senão Paris, nomeadamente a Rue de Grenelle, nº7. Este é um verdadeiro exemplar da sociedade francesa recheado de moradores ricos, snobes, egoístas e preconceituosos. Nele se destacam duas pessoas: a porteira Renée Michel e a pequena Paloma Josse. A história é contada, simultaneamente, por estas duas vozes que têm, em comum, o facto de não se sentirem enquadradas. A primeira está longe de corresponder aos estereotipos sociais a que se associa a sua função, mas tenta manter, a todo o custo, uma imagem credível. Ao longo da leitura, a sua vida é explorada ao pormenor, levando-nos a reflectir e a criticar a sociedade em que vive(mos). Já a pequena Paloma é a típica criança incompreendida. Aos olhos da família, em particular, e da sociedade, em geral, tudo o que diz não é levado a sério e muitos dos seus pensamentos são postos em causa mercê da tenra idade. Estes dois mundos paralelos, inicialmente separados, encontram-se quando um novo habitante, Kakuro Ozo, chega ao prédio. Em pouco tempo, esta personagem descobre segredos e cria amizades/cumplicidades estranhas graças a uma grande qualidade - ver para além da superfície.

A dinâmica da história é extremamente interessante, porque, ao ser contada na primeira pessoa e a duas vozes, o ritmo torna-se rápido e dá ideia de nos encontrarmos nas mentes de Renée e Paloma. Por isso, é natural que se crie uma forte ligação entre leitor e personagens - sentimos empatia, revolta, amizade, compreensão. As surpresas finais, confesso, deixaram-me estupefacta e foram tão inesperadas que a lágrima surgiu. Parecia tudo tão real.

A complementar a bela história, o autor tem grande facilidade de escrita e, mesmo explorando campos complicados, nunca torna a leitura pesada. Há fluidez, há ritmo, há emoção, há realidade, há História (referência a acontecimentos da nossa actualidade) e há identificação (uma das personagens secundárias é originária de Portugal). Pessoalmente, sugiro que dêem uma oportunidade a este livro. Vale a pena, pois não só é uma excelente forma de desfrutarmos do nosso tempo como também nos ficamos a conhecer.

8/10

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