quinta-feira, 31 de julho de 2008

Como são os alunos que não adquiriram hábitos de leitura?

É mais que sabido que muitos dos alunos que chegam ao 5º ano nunca leram um livro até a fim. Será verdade? E os álbuns que folheava no 1º ano do 1º ciclo? E as bds da Disney? É importante, em primeiro lugar, conhecer efectivamente cada aluno, o que implica ter algumas noções acerca do seu percurso e dos seus gostos.
Os alunos sem hábitos de leitura tendem ao aborrecimento fácil, quase imediato. Uns, porque simplesmente não conseguem perceber o nível discursivo do que estão a tentar ler, outros porque não se conseguem concentrar, outros porque acham profundamente desinteressante o tema ou o estilo do livro.
Assim, será ainda mais difícil recomendar livros para alunos que não tenham hábitos de leitura, porque a sua motivação obedece a vários passos, o primeiro dos quais consiste em ultrapassar a barreira de indiferença e por vezes raiva que muitos sentem em relação ao livro.
Mas não devemos confundir alunos sem hábitos de leitura com alunos com dificuldades de aprendizagem, porque não se estabelece uma relação necessária de causa-efeito entre ambos.
Por isso, a ideia de que livros informativos, banda-desenhada, temas como o futebol ou adivinhas servirão os intentos do professor desesperado, parece-me um pouco simplista.
Por exemplo, um dos livros recomendado para estes alunos (que frequentem o 5º ou 6º ano), pelo PNL, integra uma colecção da Replicação e tem o nome de Puzzles Policiais. Parece-me uma boa ideia. Estes livros são desafios misteriosos, que interagem com o leitor, envolvendo-o e despertando-lhe a curiosidade em desvendar o crime. Não têm uma visão nem simplista nem paternalista do jogo. De tal forma que nos poderão prender a atenção a nós, adultos, tanto quanto podem ser lidos por crianças mais novas, desde que leitoras competentes. É uma boa escolha porque é um livro estimulante, transversal, com um conjunto de crimes a resolver, o que permite uma leitura livre, saltando puzzles, escolhendo pelo título, espreitando o resultado. Este livro pode até ser trabalhado em aula: lê-se um episódio em voz alta. Em grupo, so alunos registam o que consideram ser a resolução do crime. Lêem-se as várias propostas e finalmente desvenda-se o mistério.

Já propor um livro como Mais ou menos meio metro (Ana Saldanha e Gémeo Luís), só porque se trata de um texto em verso que segue a forma da adivinha, parece-me totalmente descabido. Este álbum exige atenção ao detalhe da ilustração, da paginação, e à relação entre o discurso visual e textual. A sua sensibilidade vai na direcção oposta à de uma criança que não gosta de livros, não se concentra, e deseja informação rápida, acessível e seleccionada. Os alunos do 2º ciclo não ganharão muito em acompanhar as fases da gestação ou em estudar esquemas rimáticos através deste álbum.
Nenhum livro deve ser vetado a nenhuma criança, mas há livros que não devem ser destinados, em especial, a um determinado público, se a intenção for estimulá-lo para a leitura. Já se o objectivo for de divulgação, no sentido de despertar os alunos para a diversidade de propostas, isso já é outra história...
A principal batalha com alunos sem hábitos de leitura é derrubar um por um os estereótipos que alimentam contra os livros. Depois, o segundo passo é levá-los a ler um livro até ao fim, o que numa primeira fase pode acontecer através da mediação do professor. O terceiro passo será dar-lhes autonomia de escolha, envolvendo-os numa comunidade onde os seus pares lêem, para que a leitura passe a ser normal.

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