terça-feira, 31 de julho de 2007

O Livro dos Sábios, de Eliphas Levi

Publicar o "LIVRO DOS SÁBIOS", expressa grande reverência ao Mestre que, pelo ano de 1850,
começou a era da ampla e conhecida divulgação dos mistérios iniciáticos reais, os quais não haviam
sido jamais publicados na Europa de forma tão clara, metódica e completa; tanto assim que, Papus,
proclama com respeito e júbilo, sua admiração por Eliphas Levi, quem depois de ter verificado toda a
tradição oriental, judaico-cabalística e cristã, põe de manifesto em suas obras, a identidade absoluta
dos ensinamentos tradicionais, demonstra a realidade da realização mágica e deixa na mais absoluta
evidência o funcionamento das leis do mundo e da relação de todos os seres: naturais, humanos e
celestes, dando até o detalhe das conseqüências morais, sociais e teológicas que resultam de tão
admirável explanação.
As obras de Eliphas Levi causaram, não somente um movimento de interesse nos estudos da
verdade esotérica, se não que, até os Rosa-cruzes da Inglaterra, aos quais Eliphas Levi estava
afiliado, "protestaram", por achar que ele havia sido demasiado claro nas suas revelações. O que o
público não soube então e que, ainda hoje, poucos sabem, é que Eliphas Levi iniciava assim a ação
que, alguns lustros depois, Papus comentaria com as seguintes palavras: "Sempre pode-se dizer tudo,
porque somente compreenderá quem deve compreender". O "Livro dos Sábios", verdadeira Síntese
de toda a realização de Eliphas Levi, é precisamente isso:
"Um Verbo Humano claro, preciso como um teorema, honesto como uma lei natural em ação, belo
como uma elegia expontânea, vibrante como um hino de amor ao Criador e as suas múltiplas
manifestações. Um Verbo Humano que chega a unir-se em tal forma ao Verbo Manifesto que reflete a
sua Verdade, com Sua modéstia e Sua beleza." Discípulos reverentes de Eliphas Levi e de Papus,
hoje, não poderíamos deixar de por em primeiro plano e de publicar em primeiro plano a obra do
Mestre que, podendo ter sido um Príncipe da Igreja Romana preferiu ser o modesto, quase miserável
dono de uma banca de verduras, com cuja ocupação sintetizava a dupla condição de humildade e
sacrifício, e de ocultar com anteface simbólica, sob o "homem" esquecido por todos, o SER luminoso
colocado à serviço da Verdade; o Hierofante Secreto, cuja ação perdura, multiplicando-se no silêncio,
como a Pedra Filosofal. Colocamos à disposição dos Homens de Desejo esta jóia do saber e da
devoção.
Sociedade das Ciências Antigas

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segunda-feira, 30 de julho de 2007

A Grande Síntese — Síntese e solução dos problemas da ciência e do espírito, de Pietro Ubaldi

Ao publicar esta edição de A GRANDE SÍNTESE, cumpre à Editora apresentar ao público o mais famoso livro do
eminente Prof. Pietro Ubaldi, indubitavelmente o maior pensador intuitivo de nosso tempo. Muito embora a portentosa obra valha
por si mesma, pelo seu profundo conteúdo científico, social e filosófico, não é demais conhecer opiniões de alguns renomados
cientistas, filósofos, jornalistas e escritores espiritualistas. Esta tradução é da quarta edição italiana, 1948, quando o Autor já havia
escrito outros livros, por isto estão citados no fim deste volume. Os pronunciamentos que seguem foram externados a partir da
primeira edição da obra, em 1937.
A GRANDE SÍNTESE, no seu aspecto interior e profundo, é uma revelação. Num mundo em que todo ser é constrangido
por uma lei feroz a reclamar da carne do seu semelhante seu próprio alimento, esta é uma Voz que tem um timbre diferente.
É uma revelação, atingida conscientemente, através de métodos precisos de que apresentei a técnica. Sua vestimenta científica é
exterior e cobre, realmente, uma substância evangélica que une a síntese ao desenvolvimento gradual, na Terra, do pensamento
de Cristo, que é uma contínua emanação.
Pietro Ubaldi — As Noúres
A GRANDE SÍNTESE oferece solução plausível a todos os problemas do universo — desde a estrutura do átomo e a
composição química da vida, até os métodos de ascensão mística; desde a Relatividade e a gênese do Cosmos, até as mais novas
questões religiosas e sociais e os mistérios da psique humana (...). A nota chave do livro é a ascensão espiritual.
Isabel Emerson — Escritora e Jornalista da Revista Light, de Londres, Inglaterra.
A GRANDE SÍNTESE encaminha a ciência para sua espiritualização, a fim de facultar ao homem uma concepção de
Deus, escoimada de antropomorfismos e o capacita para lhe escutar a voz que perenemente ecoa nos ensinamentos Daquele que
será por todo o sempre — Caminho, Verdade e Vida.
Guillon Ribeiro — Jornalista, escritor e primeiro tradutor de
A GRANDE SÍNTESE.
É Admirável a força da linguagem e a vastidão dos assuntos tratados em A GRANDE SÍNTESE.
Albert Einstein — o gênio da física e Autor da Teoria da Relatividade.
A doutrina desenvolvida em A GRANDE SÍNTESE não é somente uma síntese do atual conhecimento humano, reduzido
em face dos problemas substanciais, mas constitui uma síntese da fenomenologia universal, isto é, a coordenação num organismo
único dos fenômenos existentes que o concebível humano pode apreender e ainda além.
Gino Trespioli — Escritor e fundador da Biosofia na Itália.
A GRANDE SÍNTESE: trata-se, realmente, de uma grande síntese de todo o saber humano, considerado do ponto de
vista positivamente transcendental, em que se estudam todos os ramos do saber, sendo esclarecidos e resolvidos numerosos problemas
até hoje insolúveis, com o acréscimo de novas orientações científicas, além de considerações filosóficas, religiosas,
morais e sociais, a tal ponto elevadas que induzem a reverente assombro.
Ernesto Bozzano — Médico, Cientista, Filósofo e Escritor italiano.
Para quem conhece, como o Autor, pouco ou nada de química, A GRANDE SÍNTESE é verdadeiramente surpreendente,
porque os conceitos nela emitidos são realmente científicos e, portanto, de um profundo conhecedor de química.
Prof. Stoppoloni — Titular de Anatomia Descritiva, Histologia e Embriologia, da Universidade de Camerino, Itália.
Ao finalizar a leitura de A GRANDE SÍNTESE, temos a impressão de haver lido, ressurgido no século XX, um dos
grandes profetas bíblicos. Igualá-la é difícil; superá-la, impossível; negá-la, absurdo; discuti-la, loucura. Mas aceitá-la e senti-la
é prova de que, em nós, há uma centelha da divindade. Merece, realmente, ser encadernada no mesmo volume que o Novo
Testamento, como coroamento das obras dos grandes e primeiros apóstolos. A força e a segurança fazem desta Grande Síntese
uma continuação natural das Epístolas e do Apocalipse, nada ficando a dever a elas.
Carlos Torres Pastorino — Escritor e Titular de Latim e Grego
da Universidade Federal de Brasília.
A GRANDE SÍNTESE é um sistema de filosofia científica e tem, também, um conteúdo ético. É uma obra benéfica em
larga escala, equaciona e resolve a tarefa de iluminar as consciências num momento histórico decisivo de grande
amadurecimento em todos os campos. Tem, pois, um alcance também social e se insere como força viva na renovação espiritual
para a qual o mundo se prepara laboriosamente. Quem ler esta obra, nessa profundidade, ouvirá ecoar aí as grandes correntes
de pensamento, as titânicas forças cósmicas do imponderável que circunda o mundo.
L.F. — Escritor e Jornalista da revista La Ricerca Psichica,
de Milão, Itália.
Todos nós temos o vago sonho de encontrar um LIVRO que nos seja como uma casa definitiva - a casa de sonho que
procuramos. Um livro no qual moremos, ou passamos a morar. (...) Pois creio que encontrei o MEU LIVRO. Ele chama-se A
GRANDE SÍNTESE de Pietro Ubaldi. Temos de lê-lo e relê-lo. Lendo-o estou a vagar no alto mar deste livro — tonto, deslumbrado,
maravilhado!
Monteiro Lobato — Jornalista e Escritor brasileiro, consagra-do até no exterior, pelo conteúdo e simplicidade de seus
livros.
Debalde vínhamos peregrinando através dos livros em busca de uma concepção do mundo que nos satisfizesse, pela universalidade
de seus fundamentos, a natural ansiedade de síntese e unificação do conhecimento. Movido por esse desejo,
perlustramos os grandes monumentos da sabedoria de todos os tempos, desde as velhas doutrinas consubstanciadas na metafísica
chinesa do Y-King até as modernas aquisições do relativismo einsteiniano. Examinamos o hinduísmo, nas expressões luminosas
de seus mais eminentes mestres; estudamos o idealismo de Platão, o peripatetismo de Aristóteles, o racionalismo de Descartes, o
criticismo de Kant, o panteísmo de Spinosa, o monadismo de Leibniz, o ocasionalismo de Malebranche, o epifenomenismo de
Hume, o voluntarismo de Schopenhauer, o solipsismo de Bekerley, o transformismo de Darwin, o evolucionismo de Spencer, o
positivismo de Comte, o pragmatismo de James, o monismo de Haeckel, o intuicionismo de Bergson, o panpsiquismo de Farias
Brito, para, ao fim, sentirmo-nos tão vazios como dantes. (...) Acabávamos de ler Carrel, quando surgiu nas livrarias a versão
brasileira de A GRANDE SÍNTESE. Atraído pelo título, percorremos-lhe o índice e, imediatamente, sentimo-nos assaltados do
desejo de lê-la. (...) Sem embargo de seu caráter estritamente lógico e rigorosamente científico, A GRANDE SÍNTESE não é uma
obra resultante de lucubrações intelectuais, nem de dados experimentais. É uma revelação surpreendente, de origem
supranormal, por isso que foi dada ao mundo exclusivamente pelas vias da intuição. Serviu-lhe de instrumento, no processo de
sua elaboração, o iluminado místico da Úmbria, Prof. Pietro Ubaldi.
Rubens C. Romanelli — Escritor, doutor em Letras e Titular da Cadeira de Língua Latina da Faculdade de Filosofia da
Universidade Federal de Minas Gerais.
A GRANDE SÍNTESE é a semente do carvalho para o abrigo do futuro. É o divino trigo lançado com “imensa
antecipação” no campo do mundo, oferecendo à humanidade o alimento conceptual dos mais nobres e elevados princípios. É uma
visão sublime de sabedoria e de amor, excelsa sinfonia dos séculos futuros. Bênção para a humanidade de hoje e código para a
humanidade de amanhã.
Clóvis Tavares — Escritor e Titular de Direito Internacional
Público da Faculdade de Direito de Campos.
A GRANDE SÍNTESE — Obra Monumental de revelação, de ensinamento insuspeito, profundamente científico e
eminentemente moral. De sua inesgotável sabedoria transluz a pureza de uma elevação que assombra, aguça e incita a alcançála,
impele a ascender .
F. Villa — Escritor e Jornalista da Revista Constância, de Buenos Aires, Argentina.
Finalmente, torna-se imprescindível publicar a transcendente opinião de Emmanuel, através da psicografia elevada de
Francisco Cândido Xavier:
Quando todos os valores da civilização do Ocidente desfalecem numa decadência dolorosa, é justo que saudemos uma
luz como esta, que se desprende da grande voz silenciosa de A GRANDE SÍNTESE.
A palavra de Cristo projeta nesta hora Suas irradiações energéticas e suaves, movimentando todo um exército poderoso
de mensageiros Seus, dentro da oficina da evolução universal.
Aqui, fala a Sua Voz divina e doce, austera e compassiva. No aparelhamento destas teses, que muitas vezes transcendem
o idealismo contemporâneo, há o reflexo soberano da sua magnanimidade, da sua misericórdia e da sua sabedoria. Todos os departamentos
da atividade humana são lembrados na sua exposição de inconcebível maravilha!
A GRANDE SÍNTESE é o Evangelho da Ciência, renovando todas as capacidades da religião e da filosofia, reunindoas
à revelação espiritual e restaurando o messianismo do Cristo, em todos os institutos da evolução terrestre.
Curvemo-nos diante da misericórdia do Mestre e agradeçamos de coração genuflexo a sua bondade. Acerquemo-nos
deste altar da esperança e da sabedoria, onde a ciência e a fé se irmanam para Deus.

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Livros do Plano - Trava-Línguas

recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 1º ano do 1º ciclo (leitura orientada em sala de aula)


Luísa Costa Gomes recuperou da herança tradicional vários trava (ou destrava) línguas e coligiu-os em livro. Não é por acaso que os adultos sorriem ao folhearem o volume. As memórias das palavras difíceis e da repetição de sons reportam-nos para os momentos em que aprendíamos de cor expressões, lengalengas e pequenas narrativas, como se conquistássemos o mais imbatível de todos os fortes.
O desafio está agora disponível para ser lançado a novas gerações. O livro (recomendado para o 1º ano do 1º ciclo, para leitura orientada na sala de aula) apresenta uma diversidade representativa dos vários processos de trabalho com a língua, desde a exploração da fonética até ao limite da apreensão global da palavra.
A base dos trava línguas assenta no jogo de semelhança que confunde e dificulta a leitura. Gera-se um atrito na normalidade e, em consequência, o discurso perde a sua primazia comunicacional para ser desmanchado, explorado, palavra a palavra, grafema a grafema, fonema a fonema.
Num todo escolhe-se um elemento. Será sobre si que incidirá a alteração. Numa sequência escrevem-se palavras que comecem pela mesma letra. A cada nova frase toda a estrutura se mantém, acrescentando-se nova palavra que respeite a regra e que seja coerente com o sentido da frase (O rato e o rei). Neste caso, o desafio tem a ver com a coerência interna da frase e a aliteração em r não dificulta por demais a leitura. Já a semelhança silábica entre tristes e tigres (que aqui aparece com uma variação) obriga a uma leitura quase soletrada, bem como joga com homonímia (tragam do verbo trazer e tragam do verbo tragar). Acrescentar sílabas a uma palavra que se repete como um refrão obriga a ouvir e contar as sílabas ao mesmo tempo que se pronuncia, como acontece com pipapapígrafo. Para além destes três exemplos, outros treze se encontram entre ritmos declamativos e declarativos.
A apresentação gráfica acompanha a intenção dos trava-línguas, destacando palavras ou conferindo uma gradação de tamanho às frases. A ilustração desvenda personagens, e tem aqui um papel apaziguador e sóbrio, em comparação com a euforia de sons. Este é um daqueles livros cujo potencial é inesgotável, por isso não o devemos esgotar sem dele se retirar o prazer devido.

domingo, 29 de julho de 2007

O Matrimônio do Céu e do Inferno + O Livro de Thel, de William Blake

Quando William Blake (1757-1827) morreu, a opinião geral era de que ele, embora brilhante, fosse louco. O veredito de Wordsworth era: “não há dúvidas de que esse pobre homem era louco, mas há algo na loucura dele que me interessa mais que a sanidade de Lord Byron e Sir Walter Scott”. Essa mesma opinião era compartilhada por Ruskin, que achou seu estilo “doente e selvagem”, mas sua mente “brilhante e arguta”.
Na presente edição a Iluminuras escolheu duas obras-primas do “Visionário Apocalíptico”: O Matrimônio do Céu e do Inferno e O Livro de Thel.
O Matrimônio do Céu e do Inferno consiste numa seqüência de aforismos paradoxais, nos quais Blake estuda a moralidade convencional, proclamando que o homem não se reduz à dualidade alma=bem e corpo=mal, mas que o “homem não tem um corpo distinto da sua alma... energia é a substância vital e vem do corpo...”.
Blake relembra Milton afirmando que este era “... um verdadeiro poeta alinhado com o demônio, sem o saber...”. Ainda no Matrimônio, Blake passa por uma série de encontros com anjos e profetas e termina com uma evocação do Anjo tornado Demônio “... que é seu amigo particular; nós muitas vezes lemos a Bíblia em seu sentido infernal e diabólico...”.
O Livro de Thel apresenta a jovem Thel lamentando a transitoriedade e a mutabilidade às margens do rio de Adona; respondem-lhe o lírio, a nuvem, o verme e a terra que lhe asseguram que quem ama o humilde aprecia mesmo o mais desprezível. Esta sabedoria relativamente convencional é desafiada no momento em que Thel visita a casa de Clay, vê os leitos dos mortos e ouve “uma voz de tristeza” sussurrar um protesto caracteristicamente blanqueano contra a hipocrisia e a repressão.

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Crime e Castigo - Fedor Dostoievsky

Fiodor Dostoievski é considerado, e justamente, como um dos grandes escritores russos e um dos maiores escritores universais de todos os tempos. Nascido em Moscovo em 1821, Dostoievski teve uma infância algo triste, caracterizada pela profunda austeridade do seu pai, austeridade essa que se estendia igualmente ao seu irmão mais velho e à sua mãe, que viria a falecer quando ele contava apenas 10 anos.
Na juventude, frequentou a Escola de Engenharia Militar de São Petersburgo. De onde saí em 1843, vindo pouco tempo depois a abandonar a carreira militar para ingressar no mundo das letras. Crê-se que esse entusiasmo pela letras deriva de uma visita de Balzac a São Petersburgo, visita essa que o leva a traduzir “Eugenia Grandet” do célebre escritor francês.
Já como escritor, envolve-se num movimento de líricos, de artistas, que nas suas reuniões são conhecidos por terem opiniões contra o sistema político e em 1849, é preso e acusado de conspiração contra o czar, sendo então condenado a ser fuzilado. Porém, no dia marcado para o fuzilamento e quando já estava perfilado diante do pelotão, veio a informação que o czar havia comutado a pena de fuzilamento para 4 anos de trabalhos forçados na Sibéria. Tal episódeo tem um papel fulcral na via de Dostoievski e repercute-se em toda a sua obra, 4 anos em contacto com outros criminosos foram essenciais para a escrita de “Crime e Castigo”.
Vida difícil, marcada pelo sofrimento moral e físico (tinha constante ataques epilépticos) e pelas dívidas ao jogo que o deixa frequentemente na penúria, publica em 1866 a obra “Crime e Castigo”, livro esse que depois desta pequena mas importante introdução, me proponho a opinar.
É assim que marcado por um estado de angústia e amargura, Dostoievski tem todo um clima ideal para escrever o romance que o levaria à galeria dos imortais, aquele livro onde Dostoievski demonstra que atingiu o total amadurecimento.
Como já referi, os 4 anos passados na Sibéria na companhia de tantos criminosos, familiarizaram-no com o sentimento de culpa, pois ali foi possível conviver com homens que lhe mostraram o crime nas suas diversas facetas. Homens tidos na sociedade como monstros, mas que são capazes de revelar sentimentos humanos. Homens que se transformaram em criminosos devido à injustiça social, mas capazes de mostrarem remorsos que lhes dilaceram a alma, homens que devido à vicissitudes da vida acabam por se considerarem inocentes. Esses factos perturbou Dostoievski.
Assim e em “Crime e Castigo”, Dostoievski apresenta-nos a personagem principal Raskolnikov, que é apenas um estudante com um futuro brilhante. No entanto, a sua difícil situação financeira, assim como a situação da sua mãe e irmã, faz com que Raskolnikov se vá isolando do mundo, deixando logo antever grandes fragilidades psicológicas misturadas com um crescente estado nervoso.
Resolve então penhorar alguns objectos junto de uma velha que, aproveitando-se da precária situação de Raskolnikov, oferece-lhe sempre menos dinheiro do que aquele que era justo. Face a essa injustiça, Raskolnikov vê nascer um ódio pela velha agiota, planeando então assassiná-la. De notar que Raskolnikov vê na velha a face da injustiça social que assalta a Rússia. Dostoievski é brilhante na forma como descreve toda a situação do assassinato. Desde o momento que sai de casa, as dúvidas, as hesitações, a angústia de Raskolnikov, os seus pensamentos que acompanhamos quase como sendo uma segunda consciência de Raskolnikov: “como tudo é repugnante”, “isto é uma loucura, um absurdo”, “serei eu capaz de tamanha infâmia?”, “isto é ignóbil, nojento!”... no entanto, assassina-a de um modo grotesco, sádico e cruel, rouba nervosamente alguns valores e, sem que Raskolnikov o prevê-se , nessa altura entra em casa a irmã da velha que, ao ver a usurária morta, fica em estado de choque, completamente petrificada de terror. Raskolnikov não pensa e mata-a, sem piedade e de uma forma macabra. Duas mortes atrozes que vão agora atormentar o nosso personagem.
Depois de quase ser apanhado em flagrante (Dostoievski faz essa descrição de um modo excitante), consegue fugir sem ser visto e voltar ao seu quarto onde se inicia a sua luta consigo próprio, uma luta psicológica que o irá levar a um estado latente de loucura.
Nesta obra, Dostoievski realiza algumas análises á sociedade do seu tempo. A miséria humana da família Marmaledov (a forma como o pai dessa família sucumbe é atroz, mas aconteciam inúmeros casos na altura) caracteriza a injustiça social. Injustiça essa também explorada na personagem de Svidrigailov, homem sem escrúpulos, chantagista. Dúnia que está pronta a sacrificar a sua vida para o bem estar da família. No entanto, a sua maior análise vai inteirinha para a luta psicológica de um homem que mata mas que não sente remorsos pelo que faz, sente sim a dúvida moral do seu acto, o seu desespero em encontrar um subterfúgio que lhe atenue essa dúvida que lhe dilacera a alma, que o tortura, que o castiga.
Dostoievski descreve todo um processo psíquico do sentimento de culpa. Raskolnikov pensa que a velha é um mal no mundo, que esse mundo apenas tem a ganhar com a sua morte. Como tal, ele tem o direito de impor a sua própria moral, no entanto ele é consumido pela tortura interior. A sua tortura constitui um esforço desesperado para, através do raciocínio lógico, encontrar uma explicação para os crimes, uma explicação que amaine a sua consciência. Será que matar a velha foi um erro? Se ele não se arrepende, então não pode ser culpado por algo que foi merecido. Ele agiu como devia, logo, o seu suplício não tem razão de existir... Mas será que ele tem realmente esse direito, será ele um Deus?... é neste conflito interior que o tortura, que a figura de uma jovem prostituta, marcada igualmente pelo sofrimento, lhe vai falar à sua consciência. Sublime ironia de Dostoievski, numa autêntica batalha entre o bem e o mal.
Uma obra genial!

"chamam-me psicólogo, mas não é verdade. Sou apenas um realista no mais alto sentido, ou seja, retracto todas as profundezas da alma humana.” - Fiodor Dostoievski

Nossa Senhora de Paris - Vítor Hugo

Victor Hugo é, ainda hoje, um dos escritores mais considerados em todo o mundo. Poeta, romancista e político, Victor Hugo foi uma das figuras públicas de maior relevância na França do séc. XIX e, como escritor, autor de um dos grandes clássicos de todos tempos e um dos melhores livros que já li: “Os Miseráveis”.
Victor Hugo foi autor de várias obras de cariz histórico, sempre crítico sobre a sua França e sobre a forma como a dirigiam, principalmente após a Revolução, visto que sempre se assumiu como um monárquico convicto.
Publicado em 1832, “Nossa Senhora de Paris” narra a história de uma cigana que fascina todos os homens de Paris pela sua beleza, um sineiro corcunda, um padre que corrompe a sua própria alma por amor à jovem cigana, e um jovem oficial que é o espelho do comportamento da alta sociedade da altura.
E este livro, na minha óptica, e precisamente a narração do comportamento de um conjunto de classes da Paris do séc. XIX, sobretudo a forma fácil como se castigava pessoas, inocentes ou não, a forma como o povo clamava por sangue, a forma como a guilhotina era vista e falada de uma forma tão displicente (era uma festa popular quando havia execuções). E digo isto porque a história é simplória, pequena e com algumas falhas, não históricas, mas falhas circunstanciais, ou seja, existem pedaços na história que Victor Hugo nem se dá ao trabalho de explicar. Pareceu-me também que o livro tem por objectivo, ou se quiserem o autor elaborou o livro também com outro objectivo que é, talvez, o principal tema: a Catedral de Nossa Senhora de Paris ou, se preferirem, a Catedral de Notre-Dame.
O escritor tem a preocupação de ao longo de todo o livro, efectuar uma descrição pormenorizada da Catedral, contar a sua História, criticar as mudanças operadas na Catedral e na própria cidade e é engraçado que essas críticas são feitas a construções ou estilos que hoje em dia, passados cerca de 200 anos, são motivo de reverência e referência. Penso mesmo até que Victor Hugo pretendia escrever simplesmente sobre a Catedral, no entanto e se o fizesse, ele sabia que a mensagem não passaria, correria mesmo o risco do seu livro ser politizado e, idolatrado como ele era, apenas um romance lhe permitiria escrever, descrever e criticar não só esse espaço histórico, assim como a própria comunidade.
A história em si e para quem não sabe, é hoje conhecida pelo “corcunda de Notre-Dame”, nunca me cativou. Achei-a fraquinha, algo desmembrada, chegando a ser algo incoerente.
Entretém, dá-nos conhecimentos interessantes sobre a Catedral e sobre uma Paris já desaparecida, mas não chega para poder considerar esta obra como um Grande Livro.

Macbeth - William Shakespeare

Macbeth apenas foi editado pela primeira vez em 1623, 7 anos após a morte de Shakespeare. Desconhece-se a data em que foi escrita (pensa-se que tenha sido numa data posterior a 1606 devido à narração, na obra, de alguns factos ocorridos nessa altura) e do porquê de ele não a ter tornado conhecida, mas sabe-se que esta foi uma peça que não teve revisões por parte do autor, dadas as anomalias que o texto incerra.
A história que Shakespeare narra é parcialmente real. O poeta imaginou os diálogos e as situações, mas os acontecimentos descritos sucederam-se na realidade. Macbeth era o senhor de Glamis e primo do rei Duncan por altura de 1030. Cronistas da época descrevem o contraste entre Duncan e Macbeth. Enquanto Duncan era um homem pacífico e calmo, Macbeth era violento e cruel. Macbeth era um dos generais do exército de Duncan e a sua fama era tão grande que as forças inimigas tremiam só de ouvir o seu nome. No entanto, Macbeth era muito ambicioso e sabia que se o rei morresse, ele seria o seu natural sucessor e, numa ida de Duncan ao Castelo de Macbeth (era normal na época o rei efectuar uma visita anual aos seus condados, ficando hospedado nos palácios dos seus nobres), Macbeth, protegido pela neblina da noite, assassina o seu primo, apoderando-se assim da coroa escocesa. Esse assassinato, que relembro aconteceu na realidade, pensa-se ter ocorrido no Castelo de Glamis, situado a cinco milhas de Farfair. Curioso verificar que, hoje em dia, este castelo é extremamente famoso por outros factos que apaixonam os amantes do sobrenatural. É que o castelo de Glamis é um dos castelos assombrados mais famosos do mundo... No entanto, não existe a certeza de realmente foi nesse castelo que ocorreu o homicídio, pois uma outra história afirma ter o local, onde Duncan foi morto, sido devastado pelo seu filho Malcolm, sendo actualmente uma das muitas ruínas que abundam na Escócia. Mas estes foram os factos reais. Shakespeare pegou nesta história e deu-lhe magia e imortalidade. Nesta peça, Shakespeare apresenta-nos um personagem que é, na minha opinião, o seu personagem mais violento e controverso. Macbeth revela-se um homem violento, falso, cruel, extremamente supersticioso, vaidoso e narcisista, ou seja, Shakespeare parece aqui tentar efectuar a sua mais intrincada, elaborada e minuciosa análise psicológica de sempre. Macbeth representa quase todas as facetas que um Homem poderá possuir. Em cenários negros e lúgubres, Macbeth surge-nos como um grande senhor feudal, importante chefe do clã, com uma impressionante força e coragem, mas e ao mesmo tempo, com dúvidas que lhe dilaceram a alma, deixando antever um homem cobarde e medroso, inundado por terrores que raiam o limiar da loucura. Ou seja, um claro contra-senso que nos obriga a questionar? Aonde Shakespeare quis chegar, ou o que ele pretendia? Os remorsos de Macbeth são algo que flutuam durante a peça. Todas as cenas em que este sentimento se revela, são extremamente intensas e dramáticas. Shakespeare no entanto surpreende, porque debaixo desse homem vil, consegue criar um outro que demonstra sentimentos humanos muito fraternais. Um homem que na loucura da sua ambição, ganha características que são opostas ao seu verdadeiro (aparente) ser. Embora não seja a minha peça favorita, dada a sua violência e intensidade psicológica, Macbeth é notável pela forma como o trama é construído, pelos cenários recriados e pelos sublimes jogos de palavras entre os personagens. Uma obra grandiosa em que a psique humana é analisas sob diversos aspectos e é devido a essas múltiplas análises que, na minha opinião, mora o busílis da questão anteriormente colocada: Que pretendia Shakespeare com esta peça? Na minha opinião, esta foi a peça que Shakespeare sonhou tornar como a sua obra prima, a obra que pretendeu tornar única, atingir a perfeição. No entanto, penso que o Mestre ou não teve tempo ou não conseguiu fazê-lo. A obra está muito bem conseguida mas nota-se falhas, principalmente na história, na acção. A forma como constrói o personagem é quase perfeito, digo quase porque existem facetas que não fazem sentido, a forma oposta como ele cria dois personagens em apenas um, os jogos que ele cria, acaba por construir uma teia que fica por destruir. Por isso é que, e atenção que é apenas a minha opinião, Shakespeare nunca tornou conhecida esta peça, ele buscava a perfeição e, com Macbeth esteva a um passo de a conseguir. Estarei errado? É possível. Não sou nenhum entendido em Shakespeare, apenas gosto de efectuar análises do que leio, quando vale a pena claro! Na peça, saliento também as inúmeras alusões a factos históricos, alguns deles de grande importância para a monarquia inglesa e escocesa. Shakespeare demonstra que estava atento à sua época e que era um investigador minucioso que nada deixava ao acaso, abrilhantando o seu texto com lendas, superstições e folclore popular. Goste-se ou não, quando mais leio Shakespeare, mais me convenço que o homem era um génio. Ele não se limitou a escrever peças de teatro baseadas em lendas ou Histórias reais, ele foi mais longe. Assente numa escrita melodiosa e numa estrutura textual harmoniosa, Shakespeare efectuou profundas análises à sua sociedade e principalmente aos comportamentos, perfis psicológicos e morais das gentes, deixando-nos um legado valorosíssimo e de uma riqueza tal, que poucos têm sabido dar o seu real valor.

Hamlet - William Shakespeare

Hamlet é, porventura, a melhor obra de William Shakespeare. Pelo menos é aquela onde o autor elabora as suas mais minuciosas análises aos sentimentos humanos, medindo sensações e jogando com sentimentos de uma forma arrepiante. Sentimentos como o amor, a traição, o ódio, o ciúme, a ambição, o medo e a avareza, são transportados e lançados para dentro dos personagens, dando-lhes vida e personalidade.
Mas quando é que esta peça surge?
A primeira edição de Hamlet surge em 1604, no entanto existem muitas dúvidas sobre a real data em que Shakespeare criou esta peça. E porquê? Porque e embora a obra tenha sido editada em 1604, sabe-se que em 1596 era representada nos teatros de Londres uma peça com o nome de Hamlet. Antes, em 1594, encontra-se um Hamlet representado em Newington-Butts. E antes, em 1589, numa epístola que serve de prefácio ao “Menaphon” de Greene, existe uma alusão a Hamlet. Será que Shakespeare escreveu a peça antes de 1589? Muitos investigadores pensam que sim e por duas fortes razões: a primeira razão está presente no próprio texto onde Shakespeare faz alusão a factos que sucederam em 1584 e também porque nesse ano o escritor deu o nome de Hamlet a um dos seus filhos.
Embora pareça que nada tem a ver com a obra, penso que é importante saber a data da concepção da obra, ou, pelo menos, a data aproximada e simplesmente porque é fundamental para conseguirmos efectuar uma correcta análise do texto e entendermos a vastidão da obra.
Posto isto.
Como em praticamente todas as suas obras, Shakespeare não inventou a história. A mesma tem bases históricas muito antigas, confundindo-se factos reais com lendários.
Pensa-se que Hamlet (ou Ameth) tenha vivido dois séculos antes de Cristo. Era filho de Horwendilo, rei da Jutlândia. No entanto não existe consenso em relação ao seu nascimento, pois há quem defenda que ele viveu 500 anos antes de Cristo, na Selândia, onde ainda hoje se mostra o seu túmulo, no parque do Castelo de Marienlust, perto de Elsenor. Mas o certo é que a lenda de Hamlet, amplificada pelos imaginativos e sombrios bardos do norte da Europa, é vista como mais uma fábula do que propriamente um facto verídico, embora muitos historiadores aceitem que existe realmente um fundo de verdade na lenda. Mas o certo é que Shakespeare tomou, de alguma maneira, conhecimento desta lenda e retirou dela todos os materiais para escrever o seu drama.
O enredo de Hamlet respeita os factos da lenda e, como em praticamente todas as obras do Mestre, é muito simples. Um rei que é assassinado pelo irmão que, depois de se apoderar do trono, desposa a cunhada. O filho do rei assassinado, sabe de todo o trama pelo fantasma do próprio pai que lhe pede que cumpra uma missão e é aí que o drama se inicia.
É notável a forma como Shakespeare dirige o drama, a forma como ele expõe os afectos, as sensações e os sentimentos. A construção da obra está genial, Shakespeare consegue humanizar as personagens, dar-lhe a alma e uma forma comovente (leiam a obra ao som de Mozart ou Beethoven, é de arrepiar).
Cheia de superstições, medos, lendas e história lúgubres. A intensidade é espantosa, todo o cenário que o dramaturgo nos apresenta é sombrio, fantasmagórico, arrepiante. A descrição do cemitério é feita de uma forma decadente... “um terreno argiloso, perto da igreja e das habitações humanas, onde nem os fetos conseguem vegetar...”, Shakespeare injecta-nos medo.
O personagem de Hamlet é virtuoso, esplendidamente assombroso. É cativante, genialmente louco e loucamente genial. Um verdadeiro prodígio que nos arremessa pensamentos, dúvidas, certezas e inquietações de uma forma ora dramática, ora cómica e alegre, causando-nos admiração e respeito pela sua mestria oratória. Um personagem cheio de carisma que nos aparta da realidade e nos convoca para um mundo onde as palavras dançam. Pensamentos profundos inquietam Hamlet, perturbando-o, ora dando, ora retirando fundamentos que deseja possuir mas que vão contra o seu espírito. Um homem em luta consigo próprio, sistematicamente pesando nos pratos da balança os prós e contras, num combate lúcido de como e quando executar (a vingança). Arrebatador, assombroso.
A encantadora Ofélia... Oh Ofélia!
Que sensível, virtuosa e poetisa sóis! Ternos são os teus olhos, doce a tua pele, belo o teu ser. Doces cantos vos dediquei e acabastes por me deixar. Oh Ofélia, quais suspiros arrancam minha alma às garras de possessas águias que desmantelam o meu corpo... Oh Ofélia! Que companhia, dama, desejou aquele Rei que habita nas negras águas...
De todas as peças que li de Shakespeare, esta é aquela que mais me toca, a mais melancólica, aquela que mais me enriqueceu. Em Hamlet descobri um ser virtuoso, incapaz de fingir sentimentos, um ser que, atormentado por dúvidas, transpõe-nas com um carácter grandiloquente. Para mim, uma obra que é um símbolo da arte literária e teatral.
Historicamente existem algumas inverdades no texto, ex: na Dinamarca do tempo de Hamlet a religião era pagã, enquanto que na obra de Shakespeare todos estão convertidos ao catolicismo, mas que importa? Perante tal mimo literário tudo se perdoa em face do portento artístico que Shakespeare nos legou, do prazer que sentimos quando penetramos na obra, ao contemplarmos a genial falsa loucura deste príncipe encantador.
Ser ou não ser – eis a questão. Deve uma alma nobre sofrer os golpes da adversidade, ou lutar contra eles? Morrer... dormir... – mais nada. Este sono faz cessar os sofrimentos do coração, as mil amarguras que a natureza legou à nossa carne. Eis o que devemos ambicionar com ardor. Morrer... dormir... dormir. Sonhos talvez... eis o dilema. Que sonhos teremos no sono da morte, depois duma existência tumultuosa?... é isto que nos obriga a meditar, que torna prolongada a vida do infeliz...”

Romeu e Julieta - William Shakespeare

Pensa-se que William Shakespeare escreveu, ou pelo menos iniciou a escrita desta obra em 1591, no entanto a 1ª edição do drama apenas surgiu em 1597, o que denota um extremo cuidado do Mestre com a composição da mesma.
Porém, a história dos amores entre Romeu e Julieta era já muito popular no tempo de Shakespeare. Mesmo antes de o dramaturgo a ter escrito, já ela era conhecida pelo público, logo e ao contrário do que muitos pensam, não foi Shakespeare o verdadeiro autor do trama, este apenas a agarrou para lhe dar uma dimensão fantástica e levá-la à galeria das obras imortais.
Oficialmente a história, ou pelo menos a sua base, teve início em 1535, quando um fidalgo veneziano cria uma pequena narração intitulada: “Julieta, história novamente encontrada de dois amantes nobres...”, no entanto já em 1476 havia surgido uma outra história de um contista italiano, Masucio de Salerno, em que narra acontecimentos muito semelhantes aos de Romeu e Julieta.
Mas o que interessa nesta opinião não é afirmar que não foi Shakespeare o criador deste drama, o que interessa e o que é importante sublinhar e ressalvar, é que foi William Shakespeare, com o seu génio, que lhe deu a alma, a emoção, a paixão, o carácter e o poder dos personagens, criando uma história, um romance intemporal que coloca Romeu e Julieta na base da mais linda história de amor de todos os tempos.
Nesta tragédia, dominada por duas família que se odeiam mortalmente e em que os filhos únicos dos chefes dessas famílias estão destinadas a odiar-se um ao outro, no entanto acabam por se apaixonar um pelo outro e dessa paixão nasce um sentimento tão forte, tão violento, que para sempre ficará nos anais da História.
É difícil afirmar o que mais me maravilhou. Se o perfeito jogo de diálogos poéticos, se o simples mas perfeito trama, se a maravilhosa personalidade dos personagens (a Ama está sublime) ou se o modo rebuscado, romanceado e exagerado como os diálogos estão construídos.
É impossível não nos sentirmos comovidos com as situações, com o imenso e platónico amor que sentem dois seres separados pelo muro do ódio familiar, destinados por isso, a viverem fugidos ou a unirem-se pela morte, pois este é talvez o único caso onde a morte tem o condão de unir e não separar.
Um Romeu sonhador, sensível, de pensamentos nobres. Em contrapartida, uma Julieta apaixonada. Impulsiva, ousada que, dadas as condicionantes da época, fazem deste drama algo de genial, pois a forma como ele se desenvolve, a forma como as personagens que com ele interagem está, simplesmente genial.
Queria também deixar aqui uma nota sobre a edição que li, edição do Jornal de Notícias e traduzida pelo Dr. Domingos Ramos. Segundo o tradutor, esta é a primeira tradução para o português da 1ª edição, da edição original de 1597. As diversas traduções têm seguido a edição de Steevens e Malone do Séc. XIX a qual não prima pela exactidão, ou seguem a de 1599 de Thomas Creede e que serviu de modelo às edições de 1609 e 1623. Portanto é importante realçar o valor desta edição.
Por fim pretendia abordar a questão da veracidade da real existência de Romeu e Julieta e das suas famílias.
Sempre ouvi dizer que Romeu e Julieta haviam existido na realidade, apontando-se a sua existência durante o séc. XIV. No entanto e nesta edição tudo isto é desmentido com base em estudos históricos.
Realmente existe em Verona um túmulo que é atribuído a Julieta, porém este túmulo compõe-se duma simples pedra mármore, sem inscrições, sem data, ornatos nem emblemas. As famílias Montecchio e Capuleto parecem de facto ter existido, mas e enquanto dos Montecchio sabe-se que eram de Veronaa, dos Capuletos nem se tem a certeza da sua existência, pensando-se sem que este era o nome dado aos chapéus que usavam os membros do partido gibelino e, mesmo assim, apenas existem registos do nome Capuleto em Cremona, nunca em Verona. Assim, a história de Romeu e Julieta foi elevada a lenda pelos próprios veroneses, podendo ser considerada, com toda a certeza como muito duvidosa.

Dom Quixote - Miguel de Cervantes

Publicado em todos os países do mundo este é, a seguir à Bíblia, o livro mais lido e traduzido do mundo.
D. Quixote é, inquestionavelmente, um dos monstros sagrados da literatura universal. Considerado em 2002 por cem escritores de 54 países como “O melhor livro de sempre”, D. Quixote é a Grande Obra de Miguel Cervantes, poeta e dramaturgo espanhol, que já na parte final da sua atribulada vida, elabora esta obra que ele próprio sente que irá ser especial, que o levará à galeria dos imortais.
Dividida em duas partes, a primeira escrita em 1605 e a segunda publicada em 1615 (um ano antes da sua morte), segunda parte essa que o autor, aparentemente, não tinha intenção de publicar, apenas o fazendo devido a uma recente edição falsa que continuava as aventuras de D.Quixote, então Cervantes faz publicar a real continuação da obra com um sentido único... Leiam e vão perceber que intenção foi essa.
Mas o que faz esta obra cheia de erros e gralhas, algumas graves e inclusive algumas detectadas pelo próprio Cervantes, ser considerada a Grande Obra, a Grande Referência literária? O tom mordaz e irónico que ele empregou? O modo como o autor retracta a sociedade, pondo os vícios da maior nação europeia do séc. XVII? A eterna luta entre o bem e o mal, personificado nos ataques de loucura e lucidez? Honestamente não consigo responder a tal questão, sei apenas que o livro tem realmente algumas falhas, é enfadonho em alguns capítulos, não é melhor que algumas das Grandes Obras literárias da Humanidade (Lusíadas, Odisseia, Em busca do tempo perdido), mas o facto é que ele exala magia, deslumbra pela beleza dos diálogos e das personagens, das análises a um modo de viver e de pensar.
Mas quem era (foi) D. Quixote?
D. Quixote é um fidalgo que, dono de uma vasta fortuna, a vai desbaratar ao acumular dívidas atrás de dívidas e na compra incessante de livros de cavalaria. É na literatura que ele consegue realizar as suas fantasias e encontrar as soluções para os seus problemas, até chegar ao ponto de confundir a realidade com a ficção, criando assim uma realidade só sua, uma espécie de dimensão paralela, um mundo ilusória, onde se vê e age como um cavaleiro andante em busca de aventuras.
Assim e já com uma idade avançada, convence um criado da família a ser seu escudeiro (Sancho Pança) que, levado pela loucura e pelas promessas de riquezas do amo, decide abandonar a mulher e os filhos e partir com o seu amo.
E é precisamente nas loucas aventuras e desventuras de D. Quixote e Sancho Pança que Cervantes nos delicia com as suas irónicas análises à sua sociedade. Por exemplo, no célebre episódio dos moinhos de vento, onde D. Quixote carrega contra os moinhos, pensando tratar-se de gigantes, podemos observar o comportamento de Sancho quando confrontado com algo fora dos padrões normais. Para além disso, D. Quixote quando vê que se engana, procura sempre arranjar desculpas para os factos, empregando a responsabilidade nos seus inimigos imaginários que, usando de magia, lhe toldam a vista...
Outro exemplo mordaz, dá-se no episódio onde D. Quixote toma dois rebanhos de ovelhas por dois perigoso e violentos exércitos inimigos. Cervantes é impiedoso na crítica à ganância do e pelo poder, à atitude xenófoba e de desprezo demonstrada pelo povo face aos mais fracos, á falta de humildade e de honorabilidade daqueles que apenas bajulam quem tem dinheiro e poder... tão actual, não acham?
Mas será que D. Quixote é simplesmente um louco?
Não! D. Quixote, como antes escrevi, cria um mundo ilusório onde a loucura surge a espaços e apenas quando confrontado com a cavalaria andante. D. Quixote é um sábio, um filósofo e um poeta magnífico, pois são inúmeros os poemas que banham o livro, dando-lhe uma extraordinária dimensão artística.
O mundo achincalha-o, humilha-o sempre que pode, mas D. Quixote revela-se um ser humano bom que, assente em sólidos valores românticos da cavalaria, tenta proteger os mais fracos, os pobres e os oprimidos, sempre com a sua donzela na mente e é em prol dela que luta.
Toda uma narrativa sublime que nos proporciona momentos de deleite literário. Diálogos cheios de metáforas que são construídos com um sentido claro, numa verdadeira alegoria ao Tempo de Cervantes.
Saliento também as novelas que o autor vai intercalando na primeira parte com a aventuras de D. Quixote. Pessoalmente apreciei imenso essas pequenas novelas, onde está bem patente o modo de vida que se levava naquele tempo e, pensar que essas novelas tenham sido histórias biográficas do próprio Cervantes é como ler uma Biografia de Cervantes escrita por ele próprio. Curioso!
Resumindo: Uma obra indispensável em qualquer biblioteca e de leitura obrigatória para qualquer pessoa que aprecie a boa literatura. Uma narrativa a roçar a perfeição artística apenas ao alcance de um grande génio que foi Cervantes.
Analisando mais profundamente a obra, descobre-se falhas graves, principalmente no campo da narração de acontecimentos onde Cervantes, por vezes, se esquece do que escreveu no capítulo anterior.
Nota final para a excelente tradução da edição que li (Jornal de Notícias) dos viscondes de Castilho e de Azevedo, simplesmente sensacional.
- “E a vós, alma de cântaro, quem vos encasquetou na cabeça que sois cavaleiro andante e que venceis gigantes e prendeis malandrinos? Voltai para vossa casa e educai vossos filhos, se os tendes, tratai da vossa fazenda, e deixai-vos de andar vagando pelo mundo, a papar moscas e fazendo rir todos os que vos conhecem e vos não conhecem. Onde é que vistes que houvesse ou haja cavaleiros andantes? Onde é que há gigantes em Espanha ou malandrinos na Mancha? E Dulcinéias encantadas, e toda a caterva de necesades que de vós se conta?
- Ouviu D. Quixote, muito atento... pôs-se em pé, e disse...

Vinhas da Ira (As) - John Steinbeck

No dia 24 de Outubro de 1929 dá-se um crash na Bolsa de Valores de Nova Iorque, esse dia ficará conhecido por Sexta-feira Negra. Seria o início da Grande Depressão que devastou a sociedade americana e teve também repercussões violentas por todo o mundo. As primeiras vítimas dessa depressão, são os proprietários rurais que viram as suas exportações diminuírem até à quebra total. Na impossibilidade de rentabilizarem os campos, esses proprietários viram-se também na impossibilidade de liquidarem as dívidas que haviam contraído no período de euforia, vendo então os campos serem hipotecados pelos bancos. Com as terras confiscadas e sem meios de sobrevivência, esses proprietários não tiveram remédio que abandonar essas terras e partir em busca de um presente e um de futuro melhor.
Essa crise no campo reflectiu-se nas cidades e depressa o desemprego começou a subir, pois milhares de empresas foram à falência. De realçar que em 1933 havia 14 milhões de desempregados nos E.U.A..
E é precisamente a Grande Depressão o principal tema desta obra.
Obra perturbante, narra a epopeia da família Joad, uma família rural americana que vê as suas terras confiscadas pelo banco devido ao incumprimento do pagamento da dívida. Assim e possuindo apenas um velho camião, iniciam uma viagem apenas de ida com destino à Califórnia em busca de trabalho.
Curioso verificar que muitos críticos literários encontram semelhanças entre a epopeia dos Joad e o Êxodo bíblico. Desconheço se Steinbeck o fez propositadamente, mas o certo é que as semelhanças existem, pelo menos no objectivo final: A terra prometida.
Nessa odisseia, lado a lado com outras milhares de famílias que procuram alcançar os mesmos objectivos, Steinbeck efectua uma análise profunda a essa sociedade, quer na componente psicológica das personagens (povo), quer na componente política.
Em todo o livro existe uma clara intenção e preocupação pelo detalhe, sobretudo no que respeita às relações humanas e é aí que o romance ganha a sua verdadeira dimensão. Basta ver que perdem a terra que lhes dava o sustento, são escorraçados e mesmo assim nunca desistem. Por muitas contrariedades que surjam, e pelo menos dois membros da família morrem e são enterrados no caminho, esta família nunca vira a cara à luta e está sempre na disposição de lutar, na disposição de contrariar os abusos e as humilhações que constantemente lhes infligem.
É extraordinário a forma como Steinbeck aborda o problema. A força dessa família e de tantas outras na mesma situação sobressai, sentimos essa força e conseguimos compreender o sofrimento dessas almas, no entanto, ainda existe espaço para a amizade, para a solidariedade, a ideia de comunidade está sempre presente, essa força interior que simboliza um ideal de nação.
Uma obra muito importante no panorama literário, que deve ser lida com muita calma, sendo certo que o leitor deve possuir alguns conhecimentos da história dos Estados Unidos dessa época, considero mesmo a obra de leitura não muito acessível, pois é efectivamente um romance cheio de símbolos políticos onde Steinbeck tinha efectivamente segundas intenções quando o escreveu.
"Nos olhos dos esfaimados cresce a ira. Na alma do povo, as Vinhas da Ira crescem e espraiam-se pesadamente, pesadamente amadurecendo para a vindima."

Cem Anos de Solidão - Gabriel Garcia Marquez

Todos nós temos aqueles livros que consideramos especiais. Uns pela construção narrativa, outros pela história, outros ainda pela mensagem que nos transmitem ou pelo que ensinam, mensagens e ensinamentos esses que podem alterar toda uma filosofia de vida, um modo de pensar, uma forma de olhar o mundo que nos rodeia ou outra percepção da História.
Como toda a gente, tenho eu também na memória algumas obras que tiveram o condão de me proporcionarem algumas das sensações/percepções acima mencionadas. Obras que recomendo sempre que posso, tentando contudo explicar esse fascínio ou, pelo menos, onde e porquê considero essa obra especial.
Posto isto, apenas espero que no fim desta opinião tenham compaixão de mim e não me crucifiquem, pois muitos irão certamente dizer "cobras" e "lagartos" desta opinião e especialmente da pontuação que atribuo.
A legião de fãs do "Cem anos de solidão" são mais do que as mães. Há 2, 3 anos li este famoso livro e sinceramente não gostei. No entanto algo ficou a moer cá dentro. Fiquei deveras incomodado comigo mesmo pelo facto de tanta gente adorar este livro e eu não ter gostado, assim, resolvi relê-lo esperando vir a entender a beleza e magia que tantos apregoam.
A história em si é extremamente confusa e surrealista. Entrar no mundo de Macondo é difícil dada a imensa irrealidade de tudo o que a rodeia.
Uma vila no meio de nada é cenário para a história de uma família que se confunde com a origem da própria vila. Numa aura mágica, num tempo indefinido e, ao mesmo tempo longínquo, Macondo está praticamente fechada ao exterior, sendo apenas um grupo de ciganos que faz uma pequena e frágil ligação a esse mundo exterior. É neste pedaço de terra, quase uma terra de ninguém, onde vive a família Buendía, figura central da história. Uma estranha família que tem o faculdade de gerar pessoas com algum dom estranho e todos eles com um caminho tortuoso pela frente, caminho esse que tem um ponto em comum: a solidão.
Nesse família existe uma estranha e curiosa particularidade que é, talvez, a imagem de marca do romance: todos têm os nomes iguais, ou seja, os netos herdam os nomes dos avôs/avós, existindo assim um cruzamento confuso de personagens onde facilmente perdemos a noção de quem é quem.
Curioso também verificar que Garcia Marquez menciona várias vezes personagens que já faleceram, parecendo-nos assim que todos eles são imortais (penso até que é propositado), e que todos eles têm um pedaço de um outro e um pedaço de todos.
Como elo familiar em quase toda a história, surge a matriarca (Úrsula) que vê nascer e morrer praticamente todas as gerações.
É uma história que combina diversos elementos: os problemas sociais e políticos, o progresso inexorável, a vida quotidiana, a história de um povo, a morte, o amor, o sobrenatural, o humor e o incesto. Nessa combinação, é realmente um livro espantoso, porque consegue associar todos estes elementos de uma forma magistral, mas e ao colocar a realidade numa categoria onírica, num mundo absurdo onde a lógica é propositadamente deixada de parte, fez com que não conseguisse apreciar a obra e nem compreende-la na sua natureza, ou seja, não compreendo o porquê de esta ser considerada uma obra-prima da literatura.
De todo o romance, gostei essencialmente da parte final onde Marquez demonstra o seu jeito para a escrita, mas o resto do livro foi-me penoso ler, dadas as inúmeras vezes que me perdi no vasto rol de personagens e no vasto rol de acontecimentos absurdos, embora admita que a personagem de Melquiades é um perfume que Marquez nos oferece de princípio ao fim.
Resumindo e concluindo: Um romance que não me agradou e nem me proporcionou momentos de lazer. Um mundo surrealista, onde o passado se mistura com o presente de uma forma quimérica, parecendo que estamos numa outra dimensão. Uma imensa galeria de personagens com nomes idênticos que aumentam ainda mais a confusão e onde a trajectória do destino se repete geração após geração. De notar também, confesso, não ser este o género literário predilecto.

sábado, 28 de julho de 2007

S. Cipriano / São Cipriano - O Legítimo Capa Preta, de Urbain Laplace

TRECHO:
ORAÇÃO DA CABRA PRETA MILAGROSA
Cabra Preta milagrosa, que pelo monte subiu, trazei-me Fulano, que de minha mão
sumiu. Fulano, assim como o galo canta, o burro rincha, o sino toca e a cabra berra,
assim tu hás de andar atrás de mim.
Assim como Caifás, Satanás, Ferrabrás e o Maioral do Inferno, que fazem todos
dominar, fazei Fulano se dominar, para me trazer cordeiro, preso debaixo do meu pé
esquerdo.
Fulano, dinheiro na tina e na minha mão não há de faltar; com sede, tu, nem eu, não
haveremos de acabar; de tiro e faca, nem tu, nem eu, não há de nos pegar; meus
inimigos não hão de me enxergar.
A luta vencerei, com os poderes da Cabra Preta milagrosa. Fulano, com dois eu te
vejo, com três eu te prendo, com Caifás, Satanás, Ferrabrás.
(REZE-SE ESTA ORAÇÃO COM UMA VELA ACESA E UMA FACA DE
PONTA)

I Ching - O livro das mutações

O I Ching pode ser descrito como um poço de água pura e cristalina. Um poço que está sempre lá, no meio do campo e disponível para todos. Por gerações que vêem e vão, e os modos de vida em constante mudança, o poço nunca muda e sua água nunca seca. Como você pode alcançar a água e satisfazer sua sede de conhecimento? Para isto , você precisa compreender a própria estrutura antiga do poço e como usá-la. E assim você é convidado a beber da água do poço.
O I Ching é um livro extraordinário, repleto de beleza e sabedoria. É o oráculo mais antigo do mundo onde seus primeiros esboços começaram a ser escritos há mais de 3.000 anos atrás, mas muito dele deriva principalmente de tradições antigas transmitidas de forma oral. Através dos milênios, as pessoas que consultavam o I Ching acrescentaram observações e comentários explicando os padrões de significados que elas próprias descobriram. Portanto o I Ching que usamos hoje vem de incontáveis gerações de observação e sabedoria.


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- Traduzido pelo poeta Odair Creazzo Jr.
- Introdução, resumo e interpretação

Ensinamentos de Sai Baba

Há muitos campos do conhecimento, mas há apenas um conhecimento supremo. Este conhecimento supremo é o autoconhecimento, o conhecimento do ser imortal. É o conhecimento de sua realidade imutável, seu verdadeiro ser - aquele que jamais nasceu e o qual jamais morrerá. Há muitos outros tipos de conhecimento. Há os diferentes campos da arte, ciências, comércio e educação. Mas tais conhecimentos irão ajudá-lo apenas a atingir os objetivos transitórios do mundo, e também prazeres mundanos. Para realizar a eterna bem-aventurança, que é a sua própria natureza, você deve possuir o autoconhecimento. Este é o único conhecimento que irá habilitá-lo a perceber a paz interior e a alegria sem fim que é a sua própria realidade, sua verdadeira identidade. Ao brilhar com o autoconhecimento, você se torna o próprio amor. Você se torna puro e completamente sem ego. Assim, você estará sempre em perfeita harmonia com toda a existência.

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sexta-feira, 27 de julho de 2007

Arte da Leitura... na Quinta do Conde - balanço

A experiência no pólo da Quinta do Conde permitiu-me tomar contacto com uma realidade muito especial: o Concelho de Sesimbra tem muitas mães não trabalhadoras que acompanham os filhos nas suas diversas actividades e por isso estão em alerta constante relativamente a novas informações que as ajudem na sua tarefa pedagógica.
Por isso foi possível a realização desta acção durante a semana. Estiveram presentes sete adultas na 1ª sessão (quatro mães, uma avó e duas primas). Hoje faltou apenas uma participante, pelo que contei com seis adultas, cinco crianças entre os quatro e os seis anos, e uma de dois. A média de idades das crianças era bastante baixa, já que nenhuma delas sabia ler. A sessão dedicada aos adultos foi produtiva, especialmente porque as participantes expressaram claramente que procuravam adquirir novas estratégias para trabalharem o livro.
Hoje, tentei apresentar uma oferta diversificada de livros para as crianças. Em conjunto com as adultas, exploraram-nos e produziram juízos a seu respeito. As adultas tentaram centrar os pequenos nos exercícios, apesar das dificuldades que todas começámos a sentir no segundo terço da sessão. No entanto, as crianças responderam muito bem às estratégias de previsão e mostraram muito à vontade na relação com o livro e as estruturas narrativas. Para isso contribui certamente o facto de todas serem frequentadoras assíduas da biblioteca, participando nas horas do conto e nos ateliers que a Biblioteca desenvolve semanalmente.
Será interessante analisarmos o desenvolvimento destas crianças e o evoluir da sua relação com o livro. É muito possível que a equipa da biblioteca esteja a formar uma geração leitora, que associa a leitura a um ambiente muito afectivo, de encontro e partilha, não só com as téncicas da biblioteca (que são muito queridas por todas), mas também com as mães e com as amigas que as acompanham.
É por isso fundamental continuar este trabalho ao longo do seu crescimento. Essa é uma das preocupações das mães, que temem um afastamento das suas filhas a partir do ingresso no primeiro ciclo. Cabe a toda a comunidade fazer um esforço no sentido de prolongar esta experiência ao longo do tempo, para que permaneça sempre no coração de todas, como elemento congregador de memórias e identidade.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

A Chave Dos Grandes Mistérios, de Eliphas Levi

Os espíritos humanos têm a vertigem do mistério. O mistério é o abismo que atrai, sem cessar, nossa curiosidade inquieta por suas formidáveis profundezas.
O maior mistério do infinito é a existência de Aquele para quem e somente para Ele - tudo é sem mistério.
Compreendendo o infinito, que é essencialmente incompreensível, ele próprio é o mistério infinito e externamente insondável, ou seja, ele é, ao que tudo indica, esse absurdo por excelência, em que acreditava Tertuliano.
Necessariamente absurdo, uma vez que a razão deve renunciar para sempre a atingi-lo; necessariamente crível, uma vez que a ciência e a razão, longe de demonstrar que ele não é, são fatalmente levadas a deixar acreditar que ele é, e elas próprias a adorá-lo de olhos fechados.
É que esse absurdo é a fonte infinita da razão, a luz brota eternamente das trevas eternas, a ciência, essa Babel do espírito, pode torcer e sobrepor suas espirais subindo sempre; ela poderá fazer oscilar a Terra, nunca tocará o céu.
Deus é o que aprenderemos eternamente a conhecer. É, por conseguinte, o que nunca saberemos.
O domínio do mistério é um campo aberto às conquistas da inteligência. Pode-se andar nele com audácia, nunca se reduzirá sua extensão, mudar-se-á somente de horizontes. Todo saber é o sonho do impossível, mas ai de quem não ousa aprender tudo e não sabe que, para saber alguma coisa, é preciso resignar-se-a estudar sempre!
Dizem que para bem aprender é preciso esquecer várias vezes. O mundo seguiu esse método. Tudo o que se questiona em nossos dias havia sido resolvido pelos antigos; anteriores a nossos anais, suas soluções escritas em hieróglifos não tinham mais sentido para nós; um homem reencontrou sua chave, abriu as necrópoles da ciência antiga e deu a seu século todo um mundo de teoremas esquecidos, de sínteses simples e sublimes como a natureza, irradiando sempre unidade e multiplicando-se como números, com proporções tão exatas quanto o conhecimento demonstra e revela o desconhecido. Compreender essa ciência é ver Deus. O autor deste livro, ao terminar sua obra, acreditará tê-lo demonstrado.
Depois, quando tiverdes visto Deus, o hierofante vos dirá: Virai-vos e, na sombra que projetais na presença desse sol das inteligências, ele fará aparecer o Diabo, o fantasma negro que vedes quando não olhais para Deus e quando acreditais ter preenchido o céu com vossa sombra, porque os vapores da terra parecem tê-la feito crescer ao subir.
Pôr de acordo, na ordem religiosa, a ciência com a revelação e a razão com a fé, demonstrar em filosofia os princípios absolutos que conciliam todas as antinomias, revelar enfim o equilíbrio universal das forças naturais, tal é a tripla finalidade desta obra, que será, por conseguinte, dividida em três partes.
Mostraremos a verdadeira religião com caracteres tais que ninguém, crente ou não, poderá desconhecê-la, será o absoluto em matéria de religião. Estabeleceremos, em filosofia, os caracteres imutáveis dessa verdade, que é, em ciência, realidade, em julgamento, razão e, em moral, justiça. Enfim, faremos conhecer estas leis da natureza cujo equilíbrio é o sustento e mostraremos o quanto são vãs as fantasias de nossa imaginação diante das realidades fecundas do movimento e da vida. Convidaremos também os grandes poetas do futuro para refazerem a divina comédia, não mais de acordo com os sonhos do homem, mas segundo as matemáticas de Deus.
Mistério dos outros mundos, forças ocultas, revelações estranhas, doenças misteriosas, faculdades excepcionais, espíritos, aparições, paradoxos mágicos, arcanos herméticos, diremos tudo e explicaremos tudo. Quem pois nos deu esse poder? Não tememos revelá-lo a nossos leitores.
Existe um alfabeto oculto e sagrado que os hebreus atribuem a Henoch, os egípcios a Tot ou a Mercúrio Trismegisto, os gregos a Cadmo e a Palamédio. Esse alfabeto, conhecido pelos pitagóricos, compõe-se de idéias absolutas ligadas a signos e a números e realiza, por suas combinações, as matemáticas do pensamento. Salomão havia representado esse alfabeto por setenta e dois nomes escritos em trinta e seis talismãs e é o que os iniciados do Oriente denominam ainda de as pequenas chaves ou clavículas de Salomão. Essas chaves são descritas e seu uso é explicado num livro cujo dogma tradicional remonta ao patriarca Abraão, é o Sepher Yétsirah, e, com a inteligência do Sepher Yétsirah, penetra-se o sentido oculto do Zohar, o grande livro dogmático da Cabala dos hebreus. As clavículas de Salomão, esquecidas com o tempo e que se dizia estarem perdidas, nós as encontramos, e abrimos sem dificuldade todas as portas dos antigos santuários, onde a verdade absoluta parecia dormir, sempre jovem e sempre bela, como aquela princesa de um conto infantil que espera durante um século de sono o esposo que deve despertá-la.
Depois de nosso livro, ainda haverá mistérios, mas mais alto e mais longe nas profundezas infinitas. Esta publicação é uma luz ou uma loucura, uma mistificação ou um monumento. Lede, refleti e julgai.


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quarta-feira, 25 de julho de 2007

Sai Baba Gita - Discursos de Bhagavan Sri Sathya Sai Baba

Prefácio à Edição Americana

Eu gostaria de tecer a você, caro leitor, o cenário em que surgiu este livro. Em agosto e setembro de 1984, havia extensivos distúrbios no sul da Índia. Havia tiros não muito longe do ashram de Sai Baba e os portões do ashram estavam trancados. Soldados armados patrulhavam o lado de fora e escoltavam os estudantes da faculdade ao ashram para as reuniões da noite. Por 34 dias, durante o período mais tenso, Sai Baba falou sobre a Gita aos estudantes em discursos diários. Ele falou em Telugu, sua língua nativa. Estas palestras formam os capítulos deste livro.
Eu estava vivendo no ashram de Baba naquela época e lecionando em sua universidade. Com a permissão de Baba, eu usei estes poderosos ensinamentos da Gita através dos anos como base para as minhas palestras programadas aos visitantes que vinham ao ashram de todas as partes do mundo. Tem sido minha boa sorte trabalhar com este material, agora, por quase 9 anos. Cada momento empregado neste trouxe nova luz e profunda compreensão e, como aconteceu a muitos outros, estes ensinamentos transformaram inalteravelmente minha vida.
Cinco anos atrás, das edições traduzidas dos discursos de Baba, eu tive a chance de publicar este Gita na Índia. Doze mil cópias em inglês foram imprimidas e distribuídas e traduções foram publicadas em algumas línguas européias e asiáticas. O manuscrito original foi apresentado a Sai Baba no palco do auditório durante as celebrações do natal de 1987 e, graciosamente, Ele abençoou e assinou a página de título. Aquele trabalho continha frases extensas em sânscrito e referências aos tradicionais temas da Índia, familiares aos devotos indianos.
Nos anos posteriores, a edição indiana em inglês não foi mais editada. Com a intenção de fazer estes ensinamentos amplamente disponíveis sem a necessidade do leitor possuir uma ampla base em sânscrito, ou filosofia indiana, ou conhecimento prévio das personagens e das histórias que fazem parte das palestras de Baba; este livro foi preparado na edição atual. Aqui, a maioria de termos em sânscrito foi suprimida, sendo incorporados em seus equivalentes em inglês no corpo do texto. Também, os capítulos foram editados com liberdade para esclarecer todas as passagens difíceis ou referências obscuras, e para converter as palavras faladas em texto de leitura fácil. Cada capítulo foi organizado para ser independente; assim, você pode ler qualquer capítulo cujo assunto lhe interesse particularmente, sem, antes, ter que estudar todos os capítulos precedentes do livro.
Editando o texto, meu foco principal foi transmitir com clareza os ensinamentos de Baba ao leitor ocidental, ao invés de tradução literal. Eu reconheço a séria responsabilidade de editar as palavras do avatar e incitei especialistas a estudarem as fitas dos discursos de Baba sobre a Gita em Telugu.

Al Drucker,
Crestone, Colorado, Outubro 1993


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Evangelhos Apócrifos

Como já vimos no artigo "Qual a importância dos apócrifos?", existem alguns livros escritos antes ou pouco depois de Cristo que tinham como intenção figurar como Escritura Sagrada. Mas, pelo Magistério da Igreja e assistência do Espírito Santo, esses livros espúrios foram definitivamente afastados, restando apenas o cânon bíblico que guardamos até hoje. Por esse motivo, muitos desapareceram, outros sobreviveram em uma ou outra comunidade antiga, ou, ainda, em traduções, fragmentos ou citações.
A seguir, apresentamos uma lista exaustiva de livros apócrifos do Antigo e do Novo Testamento que, embora longa, provavelmente não esgota todos os livros escritos ou existentes, porém, bem demonstra a quantidade de livros escritos com a intenção de "completar" a Bíblia.
Incluímos também, ao final, os manuscritos encontrados em Qumran, nas grutas do Mar Morto, que foram escritos ou preservados por uma comunidade que vivia nesse deserto separada dos grupos religiosos da Palestina do tempo de Jesus (Saduceus, Fariseus, Samaritanos, etc.). Esse grupo, denominado Essênio, como podemos ver, considerava o Antigo Testamento como Escritura Sagrada (inclusive os deuterocanônicos), mas tinha como característica própria seguir ainda outros "livros sagrados".
Portanto, temos como apócrifos as seguintes obras:

ANTIGO TESTAMENTO

1. Apocalipse de Adão
2. Apocalipse de Baruc
3. Apocalipse de Moisés
4. Apocalipse de Sidrac
5. As Três Estelas de Seth
6. Ascensão de Isaías
7. Assunção de Moisés
8. Caverna dos Tesouros
9. Epístola de Aristéas
10. Livro dos Jubileus
11. Martírio de Isaías
12. Oráculos Sibilinos
13. Prece de Manassés
14. Primeiro Livro de Adão e Eva
15. Primeiro Livro de Enoque
16. Primeiro Livro de Esdras
17. Quarto Livro dos Macabeus
18. Revelação de Esdras
19. Salmo 151
20. Salmos de Salomão (ou Odes de Salomão)
21. Segundo Livro de Adão e Eva
22. Segundo Livro de Enoque (ou Livro dos Segredos de Enoque)
23. Segundo Livro de Esdras (ou Quarto Livro de Esdras)
24. Segundo Tratado do Grande Seth
25. Terceiro Livro dos Macabeus
26. Testamento de Abraão
27. Testamento dos Doze Patriarcas
28. Vida de Adão e Eva

NOVO TESTAMENTO

1. A Hipostase dos Arcontes
2. (Ágrafos Extra-Evangelhos)
3. (Ágrafos de Origens Diversas)
4. Apocalipse da Virgem
5. Apocalipse de João o Teólogo
6. Apocalipse de Paulo
7. Apocalipse de Pedro
8. Apocalipse de Tomé
9. Atos de André
10. Atos de André e Mateus
11. Atos de Barnabé
12. Atos de Filipe
13. Atos de João
14. Atos de João o Teólogo
15. Atos de Paulo
16. Atos de Paulo e Tecla
17. Atos de Pedro
18. Atos de Pedro e André
19. Atos de Pedro e Paulo
20. Atos de Pedro e os Doze Apóstolos
21. Atos de Tadeu
22. Atos de Tomé
23. Consumação de Tomé
24. Correspondência entre Paulo e Sêneca
25. Declaração de José de Arimatéia
26. Descida de Cristo ao Inferno
27. Discurso de Domingo
28. Ditos de Jesus ao rei Abgaro
29. Ensinamentos de Silvano
30. Ensinamentos do Apóstolo [T]adeu
31. Ensinamentos dos Apóstolos
32. Epístola aos Laodicenses
33. Epístola de Herodes a Pôncio Pilatos
34. Epístola de Jesus ao rei Abgaro (2 versões)
35. Epístola de Pedro a Filipe
36. Epístola de Pôncio Pilatos a Herodes
37. Epístola de Pôncio Pilatos ao Imperador
38. Epístola de Tibério a Pôncio Pilatos
39. Epístola do rei Abgaro a Jesus
40. Epístola dos Apóstolos
41. Eugnostos, o Bem-Aventurado
42. Evangelho Apócrifo de João
43. Evangelho Apócrifo de Tiago
44. Evangelho Árabe de Infância
45. Evangelho Armênio de Infância (fragmentos)
46. Evangelho da Verdade
47. Evangelho de Bartolomeu
48. Evangelho de Filipe
49. Evangelho de Marcião
50. Evangelho de Maria Madalena (ou Evangelho de Maria de Betânia)
51. Evangelho de Matias (ou Tradições de Matias)
52. Evangelho de Nicodemos (ou Atos de Pilatos)
53. Evangelho de Pedro
54. Evangelho de Tome o Dídimo
55. Evangelho do Pseudo-Mateus
56. Evangelho do Pseudo-Tomé
57. Evangelho dos Ebionitas (ou Evangelho dos Doze Apóstolos)
58. Evangelho dos Egípcios
59. Evangelho dos Hebreus
60. Evangelho Secreto de Marcos
61. Exegese sobre a Alma
62. Exposições Valentinianas
63. (Fragmentos Evangélicos Conservados em Papiros)
64. (Fragmentos Evangélicos de Textos Coptas)
65. História de José o Carpinteiro
66. Infância do Salvador
67. Julgamento de Pôncio Pilatos
68. Livro de João o Teólogo sobre a Assunção da Virgem Maria
69. Martírio de André
70. Martírio de Bartolomeu
71. Martírio de Mateus
72. Morte de Pôncio Pilatos
73. Natividade de Maria
74. O Pensamento de Norea
75. O Testemunho da Verdade
76. O Trovão, Mente Perfeita
77. Passagem da Bem-Aventurada Virgem Maria
78. "Pistris Sophia" (fragmentos)
79. Prece de Ação de Graças
80. Prece do Apóstolo Paulo
81. Primeiro Apocalipse de Tiago
82. Proto-Evangelho de Tiago
83. Retrato de Jesus
84. Retrato do Salvador
85. Revelação de Estevão
86. Revelação de Paulo
87. Revelação de Pedro
88. Sabedoria de Jesus Cristo
89. Segundo Apocalipse de Tiago
90. Sentença de Pôncio Pilatos contra Jesus
91. Sobre a Origem do Mundo
92. Testemunho sobre o Oitavo e o Nono
93. Tratado sobre a Ressurreição
94. Vingança do Salvador
95. Visão de Paulo

ESCRITOS DE QUMRAN

1. A Nova Jerusalém (5Q15)
2. A Sedutora (4Q184)
3. Antologia Messiânica (4Q175)
4. Bênção de Jacó (4QPBl)
5. Bênçãos (1QSb)
6. Cânticos do Sábio (4Q510-4Q511)
7. Cânticos para o Holocausto do Sábado (4Q400-4Q407/11Q5-11Q6)
8. Comentários sobre a Lei (4Q159/4Q513-4Q514)
9. Comentários sobre Habacuc (1QpHab)
10. Comentários sobre Isaías (4Q161-4Q164)
11. Comentários sobre Miquéias (1Q14)
12. Comentários sobre Naum (4Q169)
13. Comentários sobre Oséias (4Q166-4Q167)
14. Comentários sobre Salmos (4Q171/4Q173)
15. Consolações (4Q176)
16. Eras da Criação (4Q180)
17. Escritos do Pseudo-Daniel (4QpsDan/4Q246)
18. Exortação para Busca da Sabedoria (4Q185)
19. Gênese Apócrifo (1QapGen)
20. Hinos de Ação de Graças (1QH)
21. Horóscopos (4Q186/4QMessAr)
22. Lamentações (4Q179/4Q501)
23. Maldições de Satanás e seus Partidários (4Q286-4Q287/4Q280-4Q282)
24. Melquisedec, o Príncipe Celeste (11QMelq)
25. O Triunfo da Retidão (1Q27)
26. Oração Litúrgica (1Q34/1Q34bis)
27. Orações Diárias (4Q503)
28. Orações para as Festividades (4Q507-4Q509)
29. Os Iníqüos e os Santos (4Q181)
30. Os Últimos Dias (4Q174)
31. Palavras das Luzes Celestes (4Q504)
32. Palavras de Moisés (1Q22)
33. Pergaminho de Cobre (3Q15)
34. Pergaminho do Templo (11QT)
35. Prece de Nabonidus (4QprNab)
36. Preceito da Guerra (1QM/4QM)
37. Preceito de Damasco (CD)
38. Preceito do Messianismo (1QSa)
39. Regra da Comunidade (1QS)
40. Rito de Purificação (4Q512)
41. Salmos Apócrifos (11QPsa)
42. Samuel Apócrifo (4Q160)
43. Testamento de Amran (4QAm)

OUTROS ESCRITOS

1. História do Sábio Ahicar
2. Livro do Pseudo-Filon

Relembramos que esses livros não possuem qualquer valor doutrinário, podendo, no máximo, esclarecer alguns aspectos históricos da época em que foram escritos ou refletir as idéias defendidas pelos grupos heréticos que os usavam.


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4 Evangelhos Apócrifos
5 Evangelhos Apócrifos
O Evangelho de Judas
Evangelhos do Mar Morto: Pseudo-Epígrafo de Gênesis - Livro de Melquisedeque (Livro Apócrifo do Gênesis)
A História De José, O Carpinteiro (narrada por Jesus a seus apóstolos)
A Sophia De Jesus
Epístola de Barnabé
Evangelho de Bartolomeu
Epístola aos Laodicenses
Ciclo de Pilatos
Agrapha Extra-Evangelho
Proto-Evangelho de Tiago - A Infância de Cristo Segundo Tiago: A Natividade de Maria
Epístola a Diogneto
Cartas do senhor - Carta do Rei Abgaro a Jesus, levada a Jerusalém por Hannan
Declaração de José de Arimatéia
São João Evangelista, O Teólogo A Passagem Da Santa Mãe De Deus
O Evangelho de Nicodemus / O Evangelho de Nicodemos
Evangelho Gnóstico De João
A Infância De Cristo Segundo Tomé
O Primeiro Livro De Adão E Eva
O Livro De Enoque
O Evangelho De Filipe
O Evangelho De Pedro / A Infância De Cristo Segundo Pedro
Atos apócrifos de Tecla
Primeira Carta De São Clemente Aos Coríntios
Segunda Carta de São Clemente aos Coríntios
O Evangelho De Maria Madalena
Apocalipse Das Semanas De Enoch
Oração De Manassés / Prece de Manassés
O Livro de Jó
Manuscrito De Abraão
O Pastor, de Hermas
A outra Maria segundo os evangelhos apócrifos

A arte da leitura de pais para filhos em Sesimbra

Amanhã e sexta feira, entre as 9h30 e as 12h30, estarei no pólo da Quinta do Conde, da Biblioteca Municipal de Sesimbra, com a acção A arte da Leitura de Pais para Filhos. Estive por isso a rever os materiais e a organizar as sessões. E, como geralmente me acontece, fui impelida a alterar e acrescentar actividades. Mesmo com o Experiências, acabo por alterar a ordem dos exercícios, mudar alguns livros... De uma certa forma, cada atelier recupera o mistério para mim, a cada mudança. A minha preocupação essencial relativamente a esta acção tinha a ver com a segunda sessão, destinada a pais e filhos. Queria proporcionar mais experiências de partilha em torno dos livros e hoje, finalmente, lembrei-me de dois exercícios muito simples e que talvez resultem em diálogos a par. Não queria entrar pelo universo da leitura expressiva porque não é uma área em que me sinta completamente à vontade, e para além disso existem outros grupos que lêem e dramatizam muito bem, levando o seu público ao auge do entusiasmo. Aquilo a que me proponho é bem diferente. Durante aquelas horas, pais e filhos são equipas que partilham uma experiência afectiva e, para isso, produzem juízos de valor que resultam de troca de impressões e manifestações de gosto. O grande objectivo final é que pais e filhos descubram preferências e comportamentos que desconheciam um no outro. Não creio que o meu papel, enquanto mediadora, seja o de me colocar no papel dos pais e exemplificá-lo. Por isso, na 1ª sessão, tento dar-lhes ferramentas e actividades que podem explorar com os filhos com as regras próprias que cada relação particular envolve. O meu papel de mediadora é diferente do deles; é sociabilizante e, nesse sentido, devo servir para promover outros encontros, que sem mim (mediadora externa à família) não teriam lugar.
Vamos ver como corre...

segunda-feira, 23 de julho de 2007

A Noite Negra, de Christian Bernard / Christian Bernhard

No âmbito deste artigo desejo falar de um assunto que é parte de todas as tradições .
Refere-se a um dos períodos que todo místico é compelido a vivenciar na senda da Luz .
Trata-se da Noite Negra . Não houve um só Avatar , Messias ou Profeta que, de uma forma ou outra , não tenha evocado esse período de grande confusão que todo buscador, num dado momento de sua busca, deve enfrentar e, se possível, superar.

Estou certo em dizer " se possível ", pois pode acontecer que a Noite Negra nos afaste definitivamente da Luz , pelo menos durante uma encarnação.


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Ensaio sobre a Lucidez - José Saramago

José Saramago, aquando do anúncio deste novo título afirmou ser este um livro capaz de provocar um escândalo dos diabos e que teria o condão de provocar mais celeuma que o "Evangelho Segundo J.C." e mais, que se o livro não provocasse um abanão na opinião pública, significaria que os portugueses estariam a dormir. O que ele decerto se esqueceu é que grande parte dos portugueses não têm qualquer hábito de leitura nem querem saber nada de política, logo e por muito que ele escreva, há muita gente que nem sabe quem é José Saramago (claro que exagero...).

Muito honestamente, penso que a pedrada lançada não tem o poder de fazer qualquer mossa. E afirmo isso porque e após ter efectuado uma análise à obra no seu conjunto, acho que as críticas irónicas lançadas pelo escritor aos podres do nosso sistemas política e social não me surpreenderam em nada, ou seja, quem estiver minimamente atento à nossa realidade da nossa sociedade em todas as suas vertentes, não precisa que venha nenhum Saramago, qual iluminado apontar o dedo, e quem se estiver a borrifar por essa realidade, também não se estará ralando por perceber aonde o escritor quer chegar com as metáforas que vai criando.

A obra em si está longe de ser o melhor de Saramago. Claro que o estilo está lá, inclusive penso até que este é dos mais irónicos e mordaz trabalhos do escritor, mas e na minha opinião, ele comete um pecado que me surpreendeu. Ele simplesmente utiliza a mesma fórmula que utilizou em "Ensaio sobre a Cegueira", aliás, existem tantos pontos em comum que este quase que acaba por ser um género de continuação do anterior, pelo que e quem quiser ler este livro, é quase obrigatório ler o outro.

Quanto à história, Saramago situa-nos numa cidade qualquer (diz ele, mas as semelhanças com Lisboa são mais que muitas) em dia de eleições autárquicas. O meio político é composto apenas por três partidos: o da Direita, que está no poder, o do Centro e o da Esquerda (são em tudo semelhantes ao PSD, PS e PCP), e logo aí é notório que algo de anómalo se passa, pois apenas às 16:00 em ponto as pessoas começam a afluir às urnas. No final do dia, sabe-se o resultado e, para grande espanto do país, 75% dos votos são em branco. Assim e como prevê a constituição, as eleições são repetidas 8 dias depois. Desta vez, debalde, 83% dos votos anunciam brancura total, isto é, apenas uma repetição e confirmação dos resultados anteriores.

A partir daí assistimos ao desconcerto do governo e do próprio presidente da Republica que chega a culpar o povo pelo estado calamitoso em que se encontra o país e que, coitados dos políticos, que sempre foram tão fiéis e que jamais mereceram isto... Mas o governo, através do Primeiro Ministro, anuncia uma investigação profunda às causas ou aos causadores desta anormalidade e posteriormente, como tudo sai furado, acabam por debandar, em alegre caravana, a cidade. Aí verifica-se uma manifestação de satisfação do povo ao ver o governo fugir e é engraçado a forma como Saramago brinca com o acontecimento. Curioso também quando e durante a investigação, todos aqueles que são questionado sem votaram em branco, afirmarem negativamente. Faz lembrar as pouquíssimas pessoas que admitem ter votado PSD nas últimas eleições...

Adiante.

Mas e sem querer entrar mais profundamente na história, posso dizer que temos um Ministro da Defesa altamente radical, mesmo a roçar o fascismo (Paulo Portas escarrago); um Ministro do Interior que faz o que o Primeiro Ministro não quer; um Presidente da República que gosta de atirar uns bitaites mas que anda a reboque do Primeiro Ministro; um estado de sítio que suspende os direitos dos cidadãos mas como também ninguém tem o saudável direito de exigir o regular cumprimento dos direitos que a constituição lhes outorga, nem reparam que foram suspensos; numa cidade que se transforma numa prisão onde ninguém pode sair.

Depois e numa reunião de Ministros, alguém se lembra de comparar esta epidemia à epidemia ocorrida 4 anos antes e é aqui que a colagem com o "Ensaio sobre a Cegueira" acontece. O voto em branco pode ser uma manifestação de lucidez, um contraponto com a cegueira que grassa por todo o lado? Saramago revela assim a sua mensagem: "Atenção, tudo está mal, a nossa democracia está viciada, o voto em branco é uma arma democrática que possuímos para impedir os políticos de continuarem a brincar connosco...". Terá esta mensagem efeitos práticos?

Partindo de uma denúncia, entram na acção as personagens do "Ensaio sobre a Cegueira" e é o próprio governo que tenta fazer da mulher do médico o bode expiatório desta epidemia, o líder dos brancosos, a chefe desse grupo de terroristas que põem em causa o sistema democrático. Essa tentativa de criar um bode expiatório, parece-me uma indirecta ao facto de quem está no poder (independentemente do partido), procurar culpabilizar sempre os antecedentes de tudo o que corre mal.

O final é em beleza. Assiste-se à tentativa de assassinar os opositores e é claramente uma abordagem às variadas tentativas de acabar com os adversários políticos... (não quero entrar em mais pormenores.) Perdoem-me se contei demais!

Em suma e embora sejam possíveis várias ilações, penso que Saramago não descobriu a pólvora. Se o objectivo dele era alertar consciências face ao estado deplorável do nosso sistema democrático, penso que não vai muito longe. Há muito que as pessoas se divorciaram da política e dos políticos, há muito que esses são vistos como oportunistas, mentirosos e charlatães, há muito que os mesmos "baixam as calças" nas campanhas eleitorais para depois nos tratarem com desprezo e também, porque em o "Ensaio sobre a Cegueira" Saramago é mais corrosivo na forma como critica a sociedade em geral.

Depois de ter acabado o livro, fiquei com uma sensação de desconforto e porque senti-me um pouco desprezado pelo próprio Saramago e afirmo-o porque ele cai no erro de agir de acordo com o que critica, ou seja, ele joga connosco e depois larga-nos desemparados... note-se que ele cria alguns cenários muito interessantes e que depois não explora, pura e simplesmente deixa-os cair sem se preocupar em explicá-los, se quiserem, ele tece uma teia sendo depois incapaz de se disvencilhar dela. Fica assim no ar algumas questões que ele cria e que depois não responde.

Gostei muito do final e da forma como dois cegos perguntam um ao outro se ouviu alguma coisa (não é nada comigo, estou aqui para ver a bola, percebem?). Esta é a minha análise, como disse anteriormente, este livro tem a faculdade de se poder tirar várias ilações e aceito, acredito e é natural que muitos as tenham e que discordem comigo, no entanto, estava à espera de mais e melhor e, depois de tantas entrevistas, não escondo que fiquei decepcionado.

Crime do Padre Amaro (O) - Eça de Queirós

Como afirmou Miguel Torga: "Grande Eça! Arrancar desta terra um tal romance, parece ser obra de Deus!", eu assino por baixo, embora, na minha opinião, esta não seja a obra-prima do mestre.
"O crime do Padre Amaro", segundo o próprio Eça, começa a ser concebido em 1870 quando ele é nomeado administrador do Concelho de Leiria. Enviado para aqueles ermos, Eça sente-se infeliz e deslocado no meio de tanta beata e mal dizer. Aos poucos e devido à sua distinta posição assim como devido ao seu excelente poder de observação, começa a tomar conhecimento da vida privada de algumas pessoas e o que sabe apenas o inspira para o romance-bomba que está prestes a conceber.
Este era o seu romance predilecto e aquele onde Eça mais trabalhou em posteriores revisões. Inicialmente inscrito no seu projecto "cenas da vida portuguesa", este livro será aquele onde ele atinge o apogeu da ironia, efectuando não só uma crítica a uma gente de uma cidade específica, como também à própria sociedade portuguesa e ao compadrio entre a igreja e o poder. Assim como é curioso verificar a expressão do seu ideal anarquista (a destruição do poder vigente) que, dizia ele, serviria para instituir o estado socialista. De notar que foi um romance muito criticado na época e posteriormente proibido a sua circulação no regime salazarista.
Amaro Vieira é um padre que chega a Leiria para ocupar o lugar em aberto de pároco, sabemos entretanto que ele nunca teve qualquer vocação e que é por influências politicas que ele consegue o lugar.
Através da ajuda do cónego Dias (macaco velho que havia sido mestre de Amaro no seminário), ele consegue arranjar um quartinho patusco e baratucho numa casa de uma pessoa "amiga". Acontece que a dona dessa casa, a senhora Joaneira, tem uma linda e prendada filha, ser angelical e virginal que é alvo de desejos ardentes de tudo o que é homem, no entanto como a menina é muito pura e pudica, mantém-se no seu cantinho e não dá trela a ninguém.
O ciclo amoroso está lançado com a estadia do "raio" do padre. Olhares libidinosos entre Amélia (a pura menina) e Amaro é o começo de uma paixão proibida, onde encontros muito quentes acabam na cama (alcova) do padre (lá se vai a pureza).
Mas Eça não se fica por aqui e lança nova carga.
Amaro apanha o cónego Dias com a boca na botija (literalmente) descobrindo-o em ardentes jogos sexuais com a Srª. D. Joaneira (outra alcova) e chega-se a uma brilhante conclusão: "São todos do mesmo barro. Um anda com a mãe e o outro conforta a filha!". Elucidativo da ironia e da mordacidade de Eça de Queiroz.
É neste ambiente de saudável putaria (perdoem-me o termo), com outro pormenores à mistura, uns quentes e outros não tanto, pois nem só de quentura vive o romance e Eça também tinha que descansar, mas e como ia dizendo, que... oh deuses, não é que Amélia, esse ser virginal e doce calha engravidar? Quem brinca com o fogo... será possível tamanho descuido ou será que pensavam serem as reencarnações de José e Maria que só com a ajuda do espírito santo conseguiram lá chegar?
Começa então o pesadelo de Amaro e surge a verdadeira face desse homem ou deverei dizer, dessa besta que chega a rezar a Deus para que Amélia e o bebé morram... bem feito era que Deus fosse surdo!
E mais não digo sobre a história porque daí a bocado tiro o interesse da mesma a quem a quiser ler.
Apenas chamo a atenção para a forma magistral como finda o romance, onde o conde de Ribamar proclama a tranquilidade, superioridade e virtuosidade de Portugal diante dos tumultuosos acontecimentos que ocorriam em Paris. È a facada final de Eça.
Um romance considerado por muitos críticos como o melhor de Eça de Queiroz dada a natureza real que o escritor emprega na narrativa, sabendo-se que efectivamente Eça baseou-se em pessoas reais para criar as suas personagens.
Para mim foi um romance que me deu um imenso prazer ler por ser espantosamente irónico e mordaz, ainda mais por ter tido a coragem de ter enfrentado e confrontado a igreja e o seu imenso poder, assim como as suas relações um pouco... digamos, duvidosas...
Sem dúvidas um dos grandes romances da nossa literatura, porém, está longe da beleza e do fulgor dos "Maias".