sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Da natureza do amor...

Estes dias eu flanava num sebo quando encontrei uma edição do livro UM AMOR SEM PALAVRAS de Marina Colasanti publicado pela Melhoramentos, publicada em 1995, que pertenceu ao menino João Paulo que, na época, cursava a 4 “A”. O livro estava abandonado à procura de uma paixão, de algum amigo, de alguém que deitasse os olhos em seus escritos e o levasse para uma casa nova. Dei sorte. Meu olhar se encantou mais uma vez com as belas palavras de Marina Colasanti. Me apaixonei à primeira vista. Li, reli e ainda me encanto com ele. Aqui em casa não tenho problemas em declarar estas paixões literárias. Ana Paula não sente ciúmes. Se apaixona por eles também. Conversamos sobre os livros, nossos filhos, nossos planos, nossas dificuldades... enfim: conversamos. Mas, será possível o amor sobreviver ao silêncio? Pois esta é a grande questão levantada por Marina neste livro que tem a sombra de uma árvore como personagem principal.
Sua relação apaixonada com a árvore começava nos primeiros raios de sol. Viviam juntas, apesar de origens diferentes. “A semente trazida por vento ou bico de pássaro que havia originado a árvore não era responsável pela sombra. A semente da sombra era o sol”. No seu ofício de sombra, acolhia o gado, insetos, mantinha a terra fresca para as minhocas e dava guarida a um sapo. “Ela era o lençol escuro sobre o qual os camponeses vinham se deitar quando o sol estava alto, e onde comiam seu pão, espalhando as migalhas que as formigas viriam buscar mais tarde”. Num início de primavera nasceu uma desconfiança: a árvore não gostava dela. Senão, porquê tanto silêncio? A partir daí foi deixando seu ofício de lado até decidir abandonar a árvore e procurar outro local para sombrear. Fugiu numa noite “que é quando as sombras ficam invisíveis e se movimentam livremente”. Ganhou nova morada. Após um tempo teve notícias de sua antiga árvore. Um pássaro ali, uma brisa aqui, um grilo acolá... todos contavam como sua antiga morada estava passando sem a sombra. Não estava sendo fácil a vida daquela árvore silenciosa. As notícias fizeram renascer o amor e a vontade de estar ao lado da sua primeira grande amiga. E assim fez. Sem deixar no ar nenhuma palavra, árvore e sombra se reencontraram. “Nada parecia ter mudado. A árvore ondulou seu galhos. E, se olhou para a sombra, o fez apenas como se olhasse sua própria imagem, como se visse sua silhueta refletida num espelho. Nem por isso pesou mais o manto da sombra. (...) Era da natureza da árvore voltar-se mais para o céu do que para a terra. Era da natureza da sombra estar colada no chão e ocupar-se de pequenos seres. Era da natureza de ambas viverem assim lado a lado sem trocar uma palavra. E talvez, fosse da natureza do amor existir mesmo sem palavra alguma”.

Faz quatro dias que minha querida sombra foi dar uma volta rápida por São Paulo. Não, não brigamos. Nem pense nisso. Está lá aprendendo mais sobre o mundo dos livros. Neste período, nenhuma outra sombra ocupou seu lugar. E eu espero ansioso seu breve retorno. Nosso amor não é tão silencioso quanto o dos personagens de Marina Colasanti. Não é essa a nossa natureza. Mas, mesmo quando o silêncio impera, nosso olhar pousa um no do outro como se fosse um beijo. E eu sinto o seu amor. Da mesma forma como sinto um estrondoso amor silencioso por amigos que não vejo há tempos. Mas é um amor que sobrevive ao silêncio. Ainda bem!!!

Quanto àquele pequeno leitor, o João Paulo, já deve estar com uns 20 anos. Espero que lembre da árvore e sua sombra que um dia entraram na sua sala de aula e que fugiram para um sebo em Brasília. Hoje, pertencem ao nosso jardim, onde descansam roedores, leitores, amigos e amores. A obra também mudou de casa. Agora é publicada pela editora Global, e é facilmente encontrada na internet. As ilustrações também são da autora. Deite os olhos e aprecie sua sombra, ouça o barulho das folhas brincando nos galhos. Apaixone-se por Marina Colasanti. Hatuna Matata.

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