sábado, 6 de outubro de 2007

Olhai os Lírios do Campo - Érico Veríssimo

À Tolerância e à Amizade.
"Olhai os Lírios do Campo" era um dos clássicos que há muito estava na minha agenda, no entanto era um "daqueles" que vai ficando sempre no lote das segundas opções, mas, certo dia em que analisava qual o seguinte livro a ler, uma vozinha interior, qual bruma que avança suave, afagando-nos a alma, segredou-me o nome desta obra e acreditem que depois de a ter lido, considero-a como uma das melhores revelações da minha vida no campo literário e humano.
Escrito entre 1936 e 1938 por Érico Veríssimo, escritor que tinha uma imensa paixão por Portugal, o romance divide-se claramente em duas partes:
Na Primeira Parte, construída essencialmente por flashbacks, Eugénio Fontes, o personagem central, recebe uma chamada do hospital comunicando-lhe o mau estado de saúde da sua amiga Olívia. Dirige-se então ao hospital que dista 3 horas de distância e é nesse período que recorda a sua triste e amarga infância. Uma infância marcada pela humilhação da sua condição social, pela vergonha que tem da sua família, a figura do seu pai que tem um comportamento subserviente com os outros e que tanto irrita Eugénio, pela miséria, por um sentimento de ódio contra tudo aquilo e o desejo obsessivo de pertencer à classe alta. No entanto é devido ao enorme sacrifício dos seus pais, sacrifício esse que irá arruinar o futuro do irmão, que Eugénio consegue estudar e entrar na faculdade de medicina, e é aí, na noite da sua formatura, que se relaciona mais intimamente com Olívia, sua colega de faculdade que, tal como ele, vem de famílias humildes.
Nesta parte, Veríssimo personifica claramente o sentimento de vergonha, humilhação e desejo de subir na vida a qualquer custo. Na minha óptica e tendo em conta a sociedade brasileira da década de 30, Veríssimo faz uma crítica feroz e corrosiva a essa sociedade fútil, vazia, ridícula, desumana e hipócrita. Isso é claro no comportamento de Eugénio e o facto de ele se "vender" para subir na vida e para pertencer a essa tal classe alta, mais consolida essa interpretação.
Na Segunda Parte, passada no presente e depois de ter sabido notícias de Olívia, surge nova metamorfose emocional em Eugénio. A primeira metamorfose pode-se considerar o facto de ele sendo pobre, tendo raízes modestas, tenta a todo o custo fazer-se rico e fino. Agora, nova metamorfose mas em sentido inverso, regressando novamente às suas raízes. Eugénio, que no presente é rico, casado com uma mulher que não ama (casou por interesse e admiti-o desde o princípio) e tendo uma amante ainda mais fútil que a sua mulher, finalmente dá "ouvidos" à sua consciência e, assente no amor ao próximo, amor à vida e às coisas simples, consegue ver que a riqueza não lhe dá felicidade, que só com as coisas simples ele consegue ser ele próprio.
Eugénio acaba por ter uma filha de Olívia (que só consegue adormecer com a sua mãozinha na orelha do pai, por isso a título da presente opinião) e nesse acontecimento, Eugénio vê a "luz" que lhe alumia o caminho da felicidade. Finalmente os seus receios desaparecem, os complexos que tinha desde pequeno são vencidos e encontra o amor e a paz na sua filhinha e na natureza que o rodeia.
É um romance que foca a solidão humana mas é também um romance profundamente enternecedor, deliciosamente belo e magnificamente terno. A mensagem de Érico Veríssimo é simples mas poderosa e marcante: O apelo à solidariedade, à criação de um mundo melhor que depende de nós próprios, à tolerância com o próximo, à descoberta de prazeres simples que nos rodeiam diariamente, ao riso das crianças, ao som da natureza, à própria vida.
A personagem de Ana Maria, a filha de Eugénio, comoveu-me profundamente. Veríssimo soube personalizar naquela criança a inocência de todas as crianças e é arrepiante quando Eugénio tem que responder a determinadas questões da filha que, com aquela vozinha infantil, o questiona sobre um trágico acontecimento. Acreditem, dói imaginar aquele cenário.
Gostei muito da personagem de Olívia, talvez a personagem com o carácter mais forte em toda a obra. De uma grandeza moral e humana ímpar, ela incorpora o próprio escritor e é ela o verdadeiro contraponto do romance.
Enfim, sinto que já contei demais, mas acreditem que este é um dos melhores e mais intensos livros que li até à data, um livro que me lavou a alma, que me fez sorrir para logo a seguir comover-me profundamente.
"Saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu. Há na terra um grande trabalho a realizar. É a tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência, mas sim com as do amor e da persuasão. Quando falo em conquista, quero dizer conquista de uma situação digna para todas as criaturas humanas, a conquista da paz digna, através do espírito de cooperação. Através do AMOR..."
Esta citação simboliza a essência do romance. É magnífico!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Postar um comentário