quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Liber CXI: Liber Aleph - O Livro da Sabedoria ou da Tolice, de Aleister Crowley

APRESENTAÇÃO

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Liber Aleph é considerado por Crowley como um comentário sobre o Livro da Lei. A princípio, Liber Aleph é uma carta ao Filho Mágicko de Crowley, Frater Achad.

Essa é uma carta resposta a um diário de Frater Achad. Mas quem foi Frater Achad? O Filho Mágicko de Crowley, Frater Achad — Charles Stansfeld Jones — foi a prova viva de que O Livro do Lei emanou de uma Inteligência præter-humana que usou Crowley como um foco para sua influência. Por outro lado, Achad parece também ter sido um exemplo clássico do tipo de insanidade que toma conta de um indivíduo que se vincula a um Juramento Mágicko além do seu Grau.

Frater Achad fez o Juramento de um Mestre do Templo 8°=3� A\A\, ou seja, fez o voto para interpretar tudo o que ocorresse com ele como um trato particular de Deus com sua alma, em Vancouver B.C., em 21 de junho de 1916 E.V..

Quando uma pessoa faz tal voto, o efeito psicológico – como pode ser imaginado — tem conseqüências profundas. O mundo tema uma forma totalmente diferente daquela na qual ele é visto pelo indivíduo comum. Cada incidente torna-se carregado por uma significância particular; todo e qualquer evento casual é vividamente sentido como estando carregado de uma relação pessoal e direta para a pessoa que o experimenta; um padrão cósmico e vasto começa a formular-se na mente de modo que o evento mais trivial aparece carregado com portentosos significados.

A realização do Juramento por parte de Achad foi absolutamente legítima. Qualquer indivíduo tem o direito de fazê-lo. mesmo que ele não seja um membro da Ordem. Mas fazer o Juramento implica o ordálio do Abismo, que é a experiência mais crítica pela qual uma pessoa pode passar. Menos de um mês depois, Crowley recebeu um telegrama de Achad que anunciava — em termos ininteligíveis para Crowley naquele momento que ele havia cruzado o Abismo e tinha renascido na Terceira Ordem da Grande Irmandade Branca (A\A\).

Crowley, obviamente, tinha se dado conta da necessidade de produzir um herdeiro mágicko, e ele interpretou a necessidade literalmente. Por várias semanas que precederam a chegada do telegrama de Achad, ele estava tentando gerar uma criança física em sua Mulher Escarlate, àquela época Jane Foster, conhecida na Ordem como Soror Hilarion. Mas todos os seus esforços não tiveram sucesso. Hilarion, e outra mulher com quem ele estava coabitando para o mesmo fim, não conceberam então ou durante os meses seguintes. Foi com espanto, portanto, que Crowley registrou em seu Diário Mágicko. Em 2l de Agosto de 1916 E. V.:

Uma descoberta espantosa. As Operações para obter uma criança de Hilarion, de 8 de julho de 1916 E.V. em diante – sete ao todo - e uma com Helen Westley, terminaram em 12 de Setembro e 16 de Setembro com três Operações no início e no fim do catamênio. Estas Operações são descritas como particularmente boas.

Em 23 de setembro (1915 E.V.), a Palavra do Equinócio era NEBULÆ [1] : Isto é, a Criança do Universo, como eu a vejo agora. Neste Equinócio (atual), a palavra é SOL-OM-ON, a Criança do adultério de Davi. Agora, O.I.V.V.I.O. [2] nasceu em 21 de Junho (1916 E.V.), exatamente nove meses após o Equinócio de Libra (isto é, o Outono de 1915 E.V.). Como conclusão da Cerimônia do Equinócio, Hilarion me seduziu; e eu me concentrei na Palavra então obtida.

É realmente notável que eu não tenha feito nenhuma Operação para uma Criança após 12-1 6 de Setembro. Estávamos em Vancouver em 19 de Outubro, e eu dois ou três dias mais cedo. É de se notar também que Hilarion era a perfeita Mulher Escarlate como descrito no Livro da Lei. Então, O.I.V.V.I.O. pode ser a Criança vinda de ‘de nenhuma casa esperada’ [3] , uma vez que eu sempre pensei num bebê material, e nunca tentei um filho espiritual, mesmo assim e a criança de minhas entranhas, uma vez que O.I.V.V.I.O. tem Sagitário como Ascendente, e Sagitário está na cúspide de minha Sexta Casa (Virgem, as entranhas), e também porque eu fiz a Operação de IX° para ele sobre o corpo de Hilarion.

Ele pode ser ‘mais poderoso que todos os reis da terra’, porque foi lançado de volta para Malkuth. [4]

Eu despertei com estas idéias em minha cabeça cerca de 3h 40 desta manhã. Note-se, também, os sonhos de 20 e 21 de Setembro: Hilarion como uma mulher Titã sobre a qual eu realizava o IX° completo. Neste sonho eu estava mais do que meio acordado...

A realização de Achad não apenas justificou os métodos que Crowley adotou em seu treinamento de aspirantes na A\A\, ela foi também um cumprimento inequívoco da profecia do Livro da Lei que declara que a própria Besta não entenderia todos os Mistérios que o Livro continha.

Quando Jones se tomou um Neófito da A\A\(em 1913 E.V.), ele adotou o moto de Achad (dha) que significa “UM”, Unidade. Crowley logo se deu conta de que Achad era deveras o “um” que viria após ele, no sentido da sucessão ao Grau de (Mestre do Templo). Ele viera após Crowley e cruzara o Abismo para renascer na Terceira Ordem — A Ordem da Estrela de Prata - S\S\. Achad também descobriu de fato a Chave do Livro da Lei na palavra AL, que significa “Existência”, ou “Deus”, sendo o seu número 3 1.

A palavra Achad (Unidade) soma 13, que é 31 ao inverso. Trinta e um é o número não apenas de AL, mas também de LA, significando do “Não” ou Nuit: também, pelo Tarot, 31 é igual a ShT (o deus Set ou Shaitan). A fórmula LAShTAL, que compreende 3 x 31, se soma a 93, o número sagrado de Thelema, Ágape e Aiwaz, ou Vontade, Amor, e a fórmula mágicka da operação delas ShT, ou Set.

Estas descobertas resultaram na revelação de Achad referente ao número 31, que ele obteve no Solstício de Inverno, em 1917 E.V. e que ele entregou a Crowley em 1919 E.V.. Ele aceitou a Chave e, em conseqüência, o título de Livro da Lei - originalmente Liber Legis – foi mudado para Liber AI vel Legis.

O relato de Frater Achad sobre sua associação com Crowley e sobre sua descoberta da Chave do Livro da Lei estão incorporadas num documento não publicado que ele intitulou Liber XXXI [5] . Ele formaria o apêndice Qabalístico para o relato de Crowley sobre o Livro da Lei que foi publicado — finalmente — muitos anos mais tarde como O Equinócio dos Deuses.

Nesta época [1936 E.V.], entretanto, Achad havia perdido sua posição na A\A\, pelo menos aos olhos de Crowley, por ter falhado em provar sua linha ininterrupta de ascendência do Grau de Probacionista ao de Mestre do Templo. De acordo com Crowley, foi em relação ao Grau de 7°=4� (Adeptus Exemptus) que Achad havia falhado. Ele não havia composto e publicado uma tese sobre o Universo, conforme requerido de um membro deste Grau. Exemplos de tais teses são citados por Crowley em Uma Estrela à Vista: La Clef des Grands Mvstères de Éliphas Lévi, as obras de Swedenborg, von Eckartshausen, Robert Fludd. Paracelsus, Newton, Bolyai, Hinton, Berkeley, Loyola, etc.

Mas, na época da descoberta de Achad, Crowley estava sobremodo contente por pensar que ele havia produzido um Filho e Herdeiro magicamente competente para tomar seu lugar na Grande Irmandade Branca. Além disso, ele considerava a estranha concatenação das circunstâncias como prova conclusiva da Inteligência præter-humana de Aiwaz, seu Sagrado Anjo Guardião. Ele viu nestes eventos a completa justificativa para sua reorganização do sistema original da Aurora Dourada, e a aceitação desta reorganização pelos próprios Chefes Secretos. O Sistema provou-se a si mesmo. Qualquer pessoa de inteligência e capacidade medianas poderia em uma única vida – atingir por estes meios à mais elevada eminência espiritual.

Mas o sucesso de Achad, uma prova surpreendente da origem transcendental do Livro da Lei — terminou em fracasso, e anos mais tarde Crowley escreveu a Frater O.P.V. (Norman Mudd) no sentido de que embora qualquer homem fosse livre para fazer o formidável Juramento de um Mestre do Templo, ele, - o Conselheiro [6] – deveria dissuadir qualquer um de fazê-lo a menos que os Graus anteriores tivessem sido sistematicamente trabalhados. Achad, sem dúvida encorajado pelo rápido progresso incomum que ele havia feito como um Neófito, tinha omitido certas Tarefas ligadas aos Graus posteriores, e isso havia ocasionado drásticas conseqüências.

O Renascer do Egito, que Achad escreveu e publicou em 1923 E.V., contém evidências de sua consecução desequilibrada e, portanto, imperfeita. Ele inverteu a ordem dos Caminhos da Árvore da Vida e colocou a Serpente da Sabedoria de cabeça para baixo! Ele também declarou que um novo Æon, o Æon de Maat (Verdade e Justiça) estava à mão; que o Æon de Hórus havia acabado, apesar de ter apenas começado!

Em 2 de abril de 1948 E.V., menos de um ano após a morte de Crowley, e pouco antes da sua própria, Achad anunciou o princípio da Era de Aquário precisamente 44 anos depois do Equinócio dos Deuses em 1904 E.V., quando Aiwaz anunciou o começo do Æon de Hórus, que deveria durar aproximadamente 2.000 anos. Achad chama a nova Era de Ma-Ion, o Æon da Verdade e da Justiça, e diz que ele profetizara seu princípio num livro intitulado QBL, que ele publicara em 1923 E.V.. Provas aparentes estão por toda a parte, entretanto, de que nenhum Æon da Verdade e da Justiça já tenha surgido.

Mas se Achad falhou pessoalmente em seu renascimento na Terceira Ordem, ele, sem dúvida alguma. descobriu a chave para o Livro da Lei; ele veio realmente após Crowley e ele certamente provou a eficácia do sistema da A\A\conforme reconstruído por Crowley de acordo com as linhas Thelêmicas.

Achad acreditava ter atingido o ápice da realização espiritual, tendo – como ele declarou ultrapassado o Magista (isto é, Crowley) no Caminho para a Coroa (Kether). Ele. então, entrou num período de insanidade temporária, durante o qual ele veio à Inglaterra e juntou-se à Igreja Católica Romana, convencido de que forjando assim uma ligação mágicka com o inimigo ele seria capaz de persuadir esta Igreja a aceitar a Lei de Thelema. Ele, então, voltou a Vancouver, vestido apenas com uma capa de chuva. Ao desembarcar, ele a despiu e começou um ritual de circunambulação pelo centro da cidade para afirmar sua intenção de sobrepujar qualquer restrição; sua ação era um desafiante gesto de libertação do comportamento ortodoxo. Ele foi sumariamente preso e posto na cadeia. Durante seu encarceramento, ele continuou a interpretar cada evento como tendo um significado oracular e divino; as palavras casuais, gestos e mesmo as blasfêmias de seus colegas prisioneiros eram interpretadas desta maneira. Durante este período, ele diz ter completado seu cruzamento do Abismo, tendo cumprido o Juramento de um Mestre do Templo e tendo de fato interpretado cada fenômeno como um trato particular de Deus com sua alma. O Diário com esta consecução de Achad é um documento de grande interesse místico. Parte dele foi publicado em Equinox III(1). [7]

Embora Crowley tivesse aceitado a descoberta por Achad da Chave do Livro da Lei, declarando que ela abria o Palácio do Rei, ele não aceitou a reivindicação de Achad aos Graus de Magus (9°=2�) e Ipsissimus (l0°=l�). Por causa disso, ou assim parece, Achad empenhou-se em arruinar a obra de Crowley, particularmente a obra da O.T.O. na Califórnia, e Crowley expulsou-o desta Ordem. Achad, então, voltou-se contra o gênio de Crowley, o “Anjo” deste, e num escrito intitulado Os ensinamentos do Novo Æon descreve Aiwaz como “a Inteligência Maligna que transmitiu a ele (isto é, a Crowley) O Livro da Lei em 1904 E.V.”. Ele prossegue dizendo que “A Besta pode ser considerada como seu pior inimigo mas Aiwaz é evidentemente o inimigo da humanidade e deveria ser reconhecido como tal, se este novo sistema, calculado deliberadamente para trazer a autodestruição da raça humana, fosse corretamente avaliado.”

O caso de Achad, trágico como deve parecer àqueles que o viam tão promissor e valioso, não pode ser simplesmente descartado, se é que, de fato, ele pode ser de todo descartado. Em 1 925 E.V., Crowley escreveu a Mudd:
Estou tratando Achad como se ele estivesse no meio de um longo ordálio, e assim quase cego, embora em um aspecto 8°=3� (Mestre do Templo). Assim, cuidado para não lhe dar uma cotovelada na esperança de que ele venha a superar isso. Eu acho que ambos, ele e Fuller [8] podem ser salvos por você: é (como sempre) o Ego que cria o Inferno. Nunca se esqueça disso, não há exceções. Assim, se A e B (na A\A\) entram numa querela, a única questão é ‘Qual dos dois tem um Ego abscesso formado de alguma gota de sangue que ele falhou em derramar na Taça de Babalon’?

A última sentença se refere à fórmula suprema do Místico: o absoluto abandono de tudo, até mesmo do Sagrado Anjo Guardião, pois se um único ego-pensamento, uma “gota de sangue”, permanecer “na Taça de Babalon”, a força da consecução entra por si mesma em curto-circuito e acaba em obsessão. O ego cresce em proporções inimagináveis e o aspirante começa a acreditar que como um indivíduo — ele é igual ao Absoluto.

Seria adequado que o leitor pesquisasse Liber XXXI & CLXI.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Fernando Aiwass Ligvori

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