domingo, 29 de julho de 2007

Hamlet - William Shakespeare

Hamlet é, porventura, a melhor obra de William Shakespeare. Pelo menos é aquela onde o autor elabora as suas mais minuciosas análises aos sentimentos humanos, medindo sensações e jogando com sentimentos de uma forma arrepiante. Sentimentos como o amor, a traição, o ódio, o ciúme, a ambição, o medo e a avareza, são transportados e lançados para dentro dos personagens, dando-lhes vida e personalidade.
Mas quando é que esta peça surge?
A primeira edição de Hamlet surge em 1604, no entanto existem muitas dúvidas sobre a real data em que Shakespeare criou esta peça. E porquê? Porque e embora a obra tenha sido editada em 1604, sabe-se que em 1596 era representada nos teatros de Londres uma peça com o nome de Hamlet. Antes, em 1594, encontra-se um Hamlet representado em Newington-Butts. E antes, em 1589, numa epístola que serve de prefácio ao “Menaphon” de Greene, existe uma alusão a Hamlet. Será que Shakespeare escreveu a peça antes de 1589? Muitos investigadores pensam que sim e por duas fortes razões: a primeira razão está presente no próprio texto onde Shakespeare faz alusão a factos que sucederam em 1584 e também porque nesse ano o escritor deu o nome de Hamlet a um dos seus filhos.
Embora pareça que nada tem a ver com a obra, penso que é importante saber a data da concepção da obra, ou, pelo menos, a data aproximada e simplesmente porque é fundamental para conseguirmos efectuar uma correcta análise do texto e entendermos a vastidão da obra.
Posto isto.
Como em praticamente todas as suas obras, Shakespeare não inventou a história. A mesma tem bases históricas muito antigas, confundindo-se factos reais com lendários.
Pensa-se que Hamlet (ou Ameth) tenha vivido dois séculos antes de Cristo. Era filho de Horwendilo, rei da Jutlândia. No entanto não existe consenso em relação ao seu nascimento, pois há quem defenda que ele viveu 500 anos antes de Cristo, na Selândia, onde ainda hoje se mostra o seu túmulo, no parque do Castelo de Marienlust, perto de Elsenor. Mas o certo é que a lenda de Hamlet, amplificada pelos imaginativos e sombrios bardos do norte da Europa, é vista como mais uma fábula do que propriamente um facto verídico, embora muitos historiadores aceitem que existe realmente um fundo de verdade na lenda. Mas o certo é que Shakespeare tomou, de alguma maneira, conhecimento desta lenda e retirou dela todos os materiais para escrever o seu drama.
O enredo de Hamlet respeita os factos da lenda e, como em praticamente todas as obras do Mestre, é muito simples. Um rei que é assassinado pelo irmão que, depois de se apoderar do trono, desposa a cunhada. O filho do rei assassinado, sabe de todo o trama pelo fantasma do próprio pai que lhe pede que cumpra uma missão e é aí que o drama se inicia.
É notável a forma como Shakespeare dirige o drama, a forma como ele expõe os afectos, as sensações e os sentimentos. A construção da obra está genial, Shakespeare consegue humanizar as personagens, dar-lhe a alma e uma forma comovente (leiam a obra ao som de Mozart ou Beethoven, é de arrepiar).
Cheia de superstições, medos, lendas e história lúgubres. A intensidade é espantosa, todo o cenário que o dramaturgo nos apresenta é sombrio, fantasmagórico, arrepiante. A descrição do cemitério é feita de uma forma decadente... “um terreno argiloso, perto da igreja e das habitações humanas, onde nem os fetos conseguem vegetar...”, Shakespeare injecta-nos medo.
O personagem de Hamlet é virtuoso, esplendidamente assombroso. É cativante, genialmente louco e loucamente genial. Um verdadeiro prodígio que nos arremessa pensamentos, dúvidas, certezas e inquietações de uma forma ora dramática, ora cómica e alegre, causando-nos admiração e respeito pela sua mestria oratória. Um personagem cheio de carisma que nos aparta da realidade e nos convoca para um mundo onde as palavras dançam. Pensamentos profundos inquietam Hamlet, perturbando-o, ora dando, ora retirando fundamentos que deseja possuir mas que vão contra o seu espírito. Um homem em luta consigo próprio, sistematicamente pesando nos pratos da balança os prós e contras, num combate lúcido de como e quando executar (a vingança). Arrebatador, assombroso.
A encantadora Ofélia... Oh Ofélia!
Que sensível, virtuosa e poetisa sóis! Ternos são os teus olhos, doce a tua pele, belo o teu ser. Doces cantos vos dediquei e acabastes por me deixar. Oh Ofélia, quais suspiros arrancam minha alma às garras de possessas águias que desmantelam o meu corpo... Oh Ofélia! Que companhia, dama, desejou aquele Rei que habita nas negras águas...
De todas as peças que li de Shakespeare, esta é aquela que mais me toca, a mais melancólica, aquela que mais me enriqueceu. Em Hamlet descobri um ser virtuoso, incapaz de fingir sentimentos, um ser que, atormentado por dúvidas, transpõe-nas com um carácter grandiloquente. Para mim, uma obra que é um símbolo da arte literária e teatral.
Historicamente existem algumas inverdades no texto, ex: na Dinamarca do tempo de Hamlet a religião era pagã, enquanto que na obra de Shakespeare todos estão convertidos ao catolicismo, mas que importa? Perante tal mimo literário tudo se perdoa em face do portento artístico que Shakespeare nos legou, do prazer que sentimos quando penetramos na obra, ao contemplarmos a genial falsa loucura deste príncipe encantador.
Ser ou não ser – eis a questão. Deve uma alma nobre sofrer os golpes da adversidade, ou lutar contra eles? Morrer... dormir... – mais nada. Este sono faz cessar os sofrimentos do coração, as mil amarguras que a natureza legou à nossa carne. Eis o que devemos ambicionar com ardor. Morrer... dormir... dormir. Sonhos talvez... eis o dilema. Que sonhos teremos no sono da morte, depois duma existência tumultuosa?... é isto que nos obriga a meditar, que torna prolongada a vida do infeliz...”

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