domingo, 15 de julho de 2007

Guerra e Paz - Leon Tolstói

“Guerra e Paz” é um dos livro da minha vida!
Mais do que um romance, esta obra é um tributo, uma dádiva à humanidade.

Tolstoi efectua uma profunda e vasta análise à sociedade russa, assim como e apoiado em profundos conhecimentos da época em questão, ele realiza também profundas análises e reflexões às medidas e estratégias militares, tanto da parte dos russos como da parte dos franceses, comandados por essa figura mítica que foi Napeolão Bonaparte. Partindo assim dos seus próprios estudos e conhecimentos, Tolstoi formaliza conceitos e teorias sobre os porquês das guerras que opôs os exércitos russo e francês (campanhas de 1807 e 1812) assim como avança com apreciações sobre a invasão francesa e a posterior fuga desorganizada de Napoleão. E Tolstoi assente em teorias e factos palpáveis e credíveis, não se inibe em desmascarar ou desmentir os historiadores da época, chegando a conclusões divergentes e polémicas, pois ele põe em causa heróis a quem chama de falsos heróis e clama por outros personagens que tiveram mais importância e influência no desenrolar da guerra, mas que foram injustamente esquecidos. Faço ideia da celeuma que provocou com estas opiniões.
E ele não abranda.
Começa por enaltecer Napoleão para depois e mais à frente, não tem pejo em chamar-lhe fraco, arrogante e cobarde, justificando-o pela capacidade que mostrou em esmagar qualquer oposição, não tendo contudo engenho de decidir e organizar, vendo-se então obrigado a fugir de Moscovo, deixando atrás de si milhares de soldados entregues a eles próprios e às circunstâncias que levou a grande maioria a encontrar a morte.
Esta é uma obra que deve e merece ser analisada ao pormenor. Uma obra que me levou cerca de três meses de apurada leitura, pois via-me "obrigado"a fazer pausas, às vezes por dias, para conseguir analisar e meditar no que havia lido. São muitas páginas de intensa informação histórica e social. Nas várias opiniões que li antes de avançar para a leitura do livro, alguém afirmava que "este é um livro que só deve ser lido por quem tenha hábitos de leitura". Concordo e digo mais: "e para quem consiga e goste de efectuar análises, pois esta obra ensina-nos muito!".
A profundidade histórica da época, a profundidade psicológica e social dos personagens é tão vasta que se torna difícil conseguir-mos assimilar tudo. Uma obra que é um manancial farto e vasto para uma tese de doutoramento ou mesmo um ensaio (se calhar existe, mas não conheço), pois esta é, sem qualquer sombra de dúvida, uma das melhoras OBRAS DE ARTE da humanidade.
Honestamente tenho dificuldades em exprimir todo o meu fascínio pela obra e conseguir oferecer-vos um pouco desse encantamento, no entanto e não querendo entrar em muitos detalhes do enredo, direi o seguinte:
Três famílias da alta sociedade russa são o suporte do livro: Bezukov; Bolkonski e Rostov. Dessas famílias sobressaem 3, 4 personagens que, na minha opinião, são as traves mestras da obra, são eles que incorporam toda uma sociedade que Tolstoi descreve: Pedro Bezukov (o meu favorito); André Bolkonski (partiu-se me o coração da forma como acabou...); Maria Bolkonski e Nicolau Rostov e, talvez, Natasha Rostov.
Vamos então começando a acompanhar a vida desses personagens e de muitos outros (é fácil começarmos a confundi-los) e é impressionante a opulência, vaidade, narcisismo e mesquinhez que grassa por toda a alta sociedade. Chega a ser irritante a forma despreocupada e vil como essa classe, por exemplo, vê a guerra. Discutem sobre assuntos fúteis e supérfluos, as festas sucedem-se e a hipocrisia é tão grande que há pessoas que têm opinião x num lado e y (totalmente oposta) noutro.
Posteriormente surge a guerra (existem dois períodos distintos de guerra com os franceses) e aí Tolstoi aprofunda as suas análises e críticas. É também notório que ele não era um grande simpatizante dos militares, pois veja-se o que ele, no início de um capítulo, escreve: "A tradição bíblica ensina-nos que a felicidade do primeiro homem antes da queda consistia na ausência de trabalho, isto é, na ociosidade. O gosto da ociosidade manteve-se no homem réprobo, mas a maldição divina continua a pesar sobre ele, não só por ser obrigado a ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto, mas também porque a sua natureza moral o impede de encontrar satisfação na inactividade. Uma voz secreta diz ao homem que ele é culpado de se abandonar à preguiça. E, no entanto, se o homem pudesse achar um estado em que cumpria um dever, embora inactivo, esse estado viria a encontrar uma das condições da sua felicidade primitiva. Esta condição de ociosidade imposta e não censurável é aquela em que vive toda uma classe social, a dos militares. Em tal ociosidade está e estará o principal atractivo do serviço militar". Os militares que me perdoem, mas é simplesmente delicioso!
Após a famosa batalha de Borodino, onde Tolstoi faz uma descrição terrível da batalha, tudo se desenrola de uma forma vertiginosa. Napoleão ocupa uma Moscovo deserta, algo que ele não esperava e em vez de se decidir, resolve esperar. Isso é-lhe fatal...!
Quase a findar, Tolstoi faz uma leve dissertação sobre Napoleão. Considera-o um homem sem convicções, sem passado, sem tradições, sem nome e que nem sequer é francês. Sobe ao poder por uma série de felizes circunstâncias e são essas circunstâncias felizes que o acompanham para todo o lado. Um homem medroso e que se "mete em trabalhos" que não fazem sentido, como é o caso da expedição ao Egipto. Dessas conquistas sobressaem os ideais de glória e grandeza que consistem em praticar todo o tipo de crimes e chacinas que nunca lhe são imputados. Um homem fabricado que quando não fez falta, foi deportado para a ilha de Elba para aí viver rica e despreocupadamente, embora saibamos que ele não acabou por aí..
Obviamente Napoleão foi mais do que Tolstoi afirma. A partir de certa altura, Napoleão torna-se quase uma obsessão para Tolstoi, ele nunca perde uma oportunidade de mostrar o seu desprezo, o seu asco por uma figura que ele acha que ocupa injustamente um lugar de relevo na história europeia, inclusivamente perto do fim da obra. No entanto, também não se inibe em criticar o exército russo, os generais, o povo e o próprio imperador.
Por último, Tolstoi faz uma longa prelecção filosófica sobre o "Que é o poder" e "Qual a força que move os povos", assim como o papel da História e dos historiadores. Embora chegue a conclusões curiosas e interessantes, o certo é que se torna algo cansativo e repetitivo, pois ele alonga-se durante cerca de 40 páginas. No entanto, nada disto invalida a portentosa Qualidade do livro.
Esta opinião embora longa, não demonstra o quanto o livro tem por analisar, porém é algo que deixo à consideração de cada um.

2 comentários: