quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Leituras... alheias

A Débora recomenda a colecção Os Mumins, que ao que parece está esgotada em Portugal, mas fez furor nos anos 70. Para além dela, também o Pedro nos falou desses livros. Estou muito curiosa, embora não saiba se os vou conseguir encontrar por cá.
De qualquer forma, fica o relato entusiasmado da Débora, no seu tue-tue. Percorrendo o blog, mais confiamos no seu juízo de leitora...
A foto foi 'roubada' à Débora do post Mumins, de 7 de Novembro.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Livros online - Duas sugestões

Aqui ficam duas sugestões de sites onde se podem ler livros infanto-juvenis de forma gratuita.

No primeiro caso, www.childrenslibrary.org, é possível consultar diversas obras, em diferentes línguas, encontrando-se até dois livros em português. A pesquisa pode ser feita por autor, por tema, por livro premiado ou por idioma.


No www.childrensbookonline.org, entramos no site do Rosetta Project que construiu online uma biblioteca, em permanente actualização, de livros antigos disponíveis para leitura. Destaque-se a particularidade de, em algumas obras, ser possível traduzir o conteúdo das páginas, originalmente em inglês, para português.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Núvem alta

A prof. Manuela Caeiro, da EB 2/3 Comandante Conceição e Silva, foi uma das professoras presentes e assíduas na formação em Promoção da Leitura que dei na Biblioteca Municipal de Almada.
Recebi ontem um email dela, e fiquei muito contente. Para além de um entusiasmo contagiante e uma curiosidade invejável, a Manuela tem um espírito profundamente interventivo o que nos possibilitou discutir mais assuntos e propostas relacionadas com a ideologia de cada professor, nomeadamente no que respeita ao que deve e não deve ser lido pelos alunos; o que é literatura de qualidade.
Ontem, no email, apresentou-me o blog que criou para os textos produzidos pela sua turma do 5º 7ª. Chama-se nuvem alta e nasceu no início de Novembro. Assim que souber mais detalhes, darei conta deles aqui.
Por agora, fica o incentivo para os professores de língua portuguesa, que muitas vezes não sabem como diversificar os exercícios de escrita. O mais importante na motivação dos alunos para a produção do escrito é reconhecerem-lhe uma finalidade. A Manuela está consciente disso e partilhou-o na acção. Esta foi uma das formas que encontrou para que os alunos pudessem considerar válido ao seu esforço.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Experiências em Santa Maria da Feira


A turma do 6º ano da EB 2/3 da Corga do Lobão chegou de manhã, às 10h, preparada para passar o dia na Biblioteca Municipal. Com os alunos vinham duas professoras, a de português e a de história. Com eles, traziam o seu almoço e muita curiosidade. A turma era bastante boa, com muitos alunos a lerem fluentemente, percebendo sem dificuldades os enunciados que lhes apresentávamos. De todos os exercícios, o mais difícil foi o Corta e Cola, pelas palavras que tínhamos seleccionado para integrarem o poema que os vários grupos iam criar. Mas todos acabaram por ordenar as rimas numa construção ora mais narrativa ora mais poética, de acordo com o ritmo e a criatividade de cada um.
Realizámos todas as actividades previstas, inclusivamente duas de poesia, bem como o exercício das metades dos contos, o de escrita criativa e o de motivação para a leitura recreativa a partir de um grupo de livros. Finalmente, para além das duas sessões que tinham tido connosco, o grupo pediu ainda para visitar a biblioteca. Graças à infinita disponibilidade das professoras e da colaboração da equipa de animação, foi possível que todos conhecessem os diversos espaços do edifício.
O destaque vai para a dedicação das professoras, nomeadamente da professora de português, que, vencendo todos os impedimentos, conseguiu levar aquela turma à Biblioteca durante um dia, almoçou com os alunos na sala, jogou com eles no período do almoço, tirou notas sobre os exercícios, ajudou-nos incansavelmente esclarecendo dúvidas dos alunos, e no final, ainda a pudemos ver, através das vidraças do bar, a organizar o grupo para todos juntos tirarem uma fotografia à porta principal, que guardaria na memória aquele dia especial.
A dedicação e o prazer que estas professoras transmitiram são o principal trunfo de motivação para a aprendizagem e para a curiosidade. Parabéns!

domingo, 26 de novembro de 2006

Mário Cesariny (1923-2006)

foto de Fernando Lemos
cantiga de amigo e de amado

ca morreu o meu amigo
o que surealista migo
na escurana da manhã,
ca morreu o meu amigo
por todolo bem que fez consigo
vou pôr outro Dolviran

ca morreu o meu amado,
o que se fazia no prado
sobre las terras da louçã,
ca morreu o meu amado,
pelo sabor que me ha cobrado
vou pôr outro Dolviran

ca morreu trigoso e gentil
e não mais irá a fossado
nem de seu elmo constelado
terá nome Alexandre O'Neil
ca morreu má hora e mau grado,
em as ondas do mar quebrado
vou pôr outro Deprimil

e s'dormiu, o de corpo delgado,
sob'lo pano mais fraguado
que todolos que possam estar,
nessa côrte que não tem lado,
em o quarto mais retirado
o seu sopro quero catar

e se lá secam as delgadas
e as aljavas deslustradas
que gostosa eu lavava aqui,
não mais serei destas estradas
e destas terras desterradas
irei pôr o Dolviran i.

in Pena Capital, Assírio e Alvim, 2004
(1ª ed. 1957, Contraponto)

Banda Desenhada na Biblioteca de Santa Maria da Feira


Na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, podemos encontrar na sala de leitura de adultos uma pequena secção dedicada à Banda Desenhada. Apesar de não ser conhecedora ou leitora de BD, agrada-me ver que houve o cuidado, na organização e catalogação do fundo, de distinguir a Banda Desenhada infantil e juvenil da Banda Desenhada para adultos, tal como acontece com a narrativa, a poesia ou o teatro.
Infelizmente, na maioria das Bibliotecas, também porque o fundo de BD é normalmente muito limitado, resumindo-se à tradicional franco-belga (Tintin e Asterix), este 'género' está consignado ao espaço infanto-juvenil, contribuindo para perpectuar a falácia de que a BD nasceu para crianças e a elas se destina em primeiro lugar.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Experiências com Letras em Tábua

Aqui ficam os livros imaginários de alguns alunos das duas turmas do 6.º ano com quem trabalhámos em Tábua:


O meu livro chama-se Golo.
Sabe a morangos e a maçã e quando lhe toco sinto que vou lê-lo e vejo como ele é grande.
O meu livro é misterioso e assustador. Cheira a rosas e é perfumado. Ouço o meu livro a falar comigo e quando o abro ele grita gooolo. Quando o fecho ele ri-se para mim.


O meu livro chama-se Sol e é fofinho e macio.
O meu Sol sabe a pêssego e manga. Quando o abro cheira a pêssego e quando o fecho cheira a manga.
O meu livro parece-se um Gato fofo e macio e um Sol de luz brilhante muito luminosa.
Quando toco no Sol faz-me lembrar a praia como no Verão, e o Gato faz-me lembrar o Inverno e o quentinho da lareira.
Ouço o Gato a falar comigo quando estou triste e o Sol a rir para me animar na manhã fria de Inverno.


O meu livro chama-se «Surfar».
Sabe a morango e abacaxi, mas cheira a rosas e Outono. Ouço o meu livro contar-me as suas histórias e andar sempre ao meu lado para todos os lugares. Ao tocar no livro sinto magia e inspiração pelo que cai acontecer a seguir, pois ele parece um mar de letras e uma mochila para as letras.

O meu livro chama-se «A Amizade».
Sabe a rebuçado no Inverno e na Primavera sabe a morangos. Quando levo o livro para a praia cheira a água do mar e quando o levo para o jardim cheira a rosas.
Ouço o meu livro a chamar por mim quando não o estou a ler; quando estou a ler ele sorri.
Quando toco no meu livro dá-me vontade de o ler e fico alegre. O meu livro parece um ser humano e dá muita alegria.

Leituras encenadas na Biblioteca Municipal de Sines

No próximo dia 26 de Novembro, pelas 22 Horas tem lugar na Cafetaria da Biblioteca Municipal de Sines um conjunto de Leituras Encenadas a partir das Canções Heróicas de Fernando Lopes-Graça. Neste espectáculo, da responsabilidade do Grupo de Teatro Estúdio Fontenova de Setúbal, poderemos ouvir os temas que Lopes-Graça compôs a partir de poemas de autores portugueses como Carlos de Oliveira, João José Cochofel, José Gomes Ferreira, Armindo Rodrigues, Arquimedes da Silva Santos, Edmundo Bettencourt, Joaquim Namorado, Mário Dionísio, entre outros.
Esta iniciativa está incluída no mês que a Biblioteca Municipal de Sines dedica ao compositor no ano em que se comemora o centenário do seu nascimento.
A opção por programas mensais, subordinados a um único tema, reflecte, de acordo com a bibliotecária Carla Chainho, a preocupação com a criação de um espaço multidisciplinar com a presença de diversas linguagens artísticas. Desta forma, será possível fazer da Biblioteca e do Centro de Artes de Sines um ponto de encontro para diversos públicos e diferentes tendências.
É essa a sua premissa.

domingo, 19 de novembro de 2006

Experiências em itinerância

Estamos de partida para Tábua, onde vamos realizar o atelier Experiências com Letras. Terça-feira estaremos em Santa Maria da Feira. No regresso, mais apontamentos, mais curiosidades, e esperamos que mais leitores.

A arte da leitura de pais para filhos - parte II

Ontem foi a sessão conjunta, com as mães e os seus rebentos, em Sines. Foi muito divertido. O ambiente era bastante informal, com direito a bolachinhas e um maravilhoso bolo feito pela mãe Eugénia. O facto de adultos e crianças se conhecerem e serem amigos ajudou a que os jogos tivessem outra dinâmica e que a expectativa fosse maior.
As mães deveriam adivinhar qual o livro escolhido por cada filho, de entre um grupo vasto, que se encontrava em cima da mesa; o mesmo acontecendo depois com os filhos. Com maior ou menor dificuldade, todos acertaram, colocando questões e pedindo pistas. Este exercício permitia-lhes explorar as informações paratextuais e as ilustrações, bem como imaginar o assunto ou género da narrativo.
Foi a nossa primeira experiência com esta acção. Ficámos satisfeitos com o interesse e o entusiasmo das mães, que conseguiram até convencer os seus filhos mais velhos, com 11 e 13 anos, a participar. Claro, todos são leitores.
No entanto constatámos que a diferença de idades das crianças deve ser menor, para que as actividades sejam mais específicas. Ou então os grupos terão de ser sempre pequenos, com um total de 10 a 12 participantes, no total.
No final, para além do diploma, cada um levou para casa o seu BI de leitor, onde poderá passar a registar as suas leituras, quer aquelas de que gosta como aquelas que abandona. E poderá igualmente dar uma espreitadela aos BIs da restante família e amigos.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

O prazer de requisitar livros...

Fica o link para o post da Sara: um breve apontamento sobre a possibilidade de requisitar livros na Bedeteca. E o enorme prazer que ela sente.

http://becodasimagens.blogspot.com/2006/11/requisies-linha-vermelha-escadas.html

Experiências em Tondela

Estivemos em Tondela na passada quarta-feira com o atelier Experiências com Letras, para o 2º ciclo. Em quatro sessões, estiveram na biblioteca oito turmas, num total de 130 alunos.
A bibliotecária Luísa Melo teve a preocupação de proporcionar esta acção ao maior número possível de crianças, aproveitando a nossa ida, através da Carteira de Itinerâncias do IPLB. As sessões correram bem mas pudemos constatar diversos problemas ao nível da aquisição das competências de leitura. Muitos dos alunos de 5º e 6º ano ainda não conseguem ler com fluência, soletrando e seguindo com o dedo as palavras na frase.
Esta situação, que se passa por todo o país, e também nas grandes cidades, como me confirmaram as professoras da EB 2/3 D. António da Costa, em Almada, é muito grave. Não é da responsabilidade dos professores do 1º ciclo, pelo que me tem sido possível observar. É da responsabilidade do sistema de avaliação: os alunos apenas podem ficar retidos no final de cada ciclo, o que significa que em muitos casos vão progredindo sem consolidar competências próprias de cada nível. Um ano pode ser crucial, e seria melhor que as crianças ficassem retidas na altura certa, e não um ou dois anos depois de começarem a denotar dificuldades estruturantes que nunca serão efectivamente colmatadas, mas sempre remendadas.
Para além de inviabilizar que os alunos tenham o seu próprio ritmo, este sistema desmotiva aqueles que têm dificuldades, porque nunca as superam, da mesma forma que desmotiva aqueles que as não sentem mas não progridem tanto como poderiam, porque o professor tem de baixar o nível de exigência para tentar equilibrar o grupo. Se estes sintomas se sentiram sempre, durante o ano lectivo, o que dizer agora, que o período de progressão obrigatória se estende a quatro, dois ou três anos.
No espaço da biblioteca, o trabalho em grupo visa anular as diferenças, porque tentamos incutir nos alunos o espírito do jogo e do juízo crítico, e nunca o do teste. Mas, no diálogo personalizado com os alunos, quando surgiam dúvidas, ou davamos pistas, percebiamos as dificuldades.
Houve, claro, aspectos positivos. Alguns alunos ficaram claramente motivados para a leitura de um ou outro livro que lhes apresentámos. Houve quem quisesse requisitar imediatamente o primeiro livro de As crónicas de Spiderwick, houve igualmente quem anotasse os dados bibliográficos de Ynari, a menina das cinco tranças, O meu primeiro livro de poesia, ou Rosa, minha irmã Rosa, para depois os adquirir.
A Biblioteca Municipal tem um bom fundo infantil e juvenil, e o público que frequenta aquela sala está a aumentar. Mas é importante que os livros cheguem às crianças e aos jovens das freguesias rurais, é importante sensibilizar os professores para a dinamização das bibliotecas escolares, é importante criar teias de comunicação e interajuda entre os vários mediadores. Luísa Melo está de acordo.

Maratona de Leitura na Culturgest

Um bocadinho em cima da hora, deixamos uma recomendação: A Maratona de Leitura da Culturgest, amanhã, a partir da 15h e até às 19h30, no seu edifício, em Lisboa. A entrada é livre.
Eis uma possibilidade de assistir e participar numa experiência de sociabilização da leitura, num ambiente em que ler se pressupõe natural e igual entre todos os que têm desejo.
«O tema deste ano da Maratona de Leitura é o fantástico. O que permite, mais uma vez, uma escolha muito diversificada de textos bem sedutores.
A fórmula é já conhecida pelas pessoas que nos têm visitado ao longo dos anos. Durante uma tarde de sábado, em Novembro, quando os dias já são mais curtos e o Inverno se aproxima, em diversos espaços da Culturgest vários convidados nossos lêem em voz alta para quem os quiser ouvir.
António Mega Ferreira, Clara Pinto Correia, Vítor Nobre e Ricardo Carriço são alguns dos nossos leitores convidados – os autores escolhidos são tão diversos como Robert L. Stevenson, Flannery O’Connor, Saint-Exupéry, Gabriel Garcia Marquez e Mário de Sá Carneiro.
O ano passado havia um espaço onde ia ter quem, embora não tivesse sido convidado, podia também ler. Várias pessoas apareceram e leram. E ouvintes e leitores conversavam sobre o que liam ou ouviam. Este ano vamos manter esse cantinho. Se gosta de ler para os outros, traga um ou dois livros, e venha ter connosco. Vai de certeza ter quem a/o queira escutar.
Continuaremos a ter dois espaços dedicados às crianças. Um, onde poderão ouvir ler histórias mais próprias da sua idade; outro onde terão um programa de ateliers durante toda a tarde e onde pode deixar os seus filhos se quiser ir ouvir sossegado as leituras.Uma tarde a ler e a ouvir ler. É esse o nosso convite.»

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Identificar lógica narrativa

Para as crianças não é fácil perceber a ordem narrativa de um texto. Até muito tarde, os professores queixam-se de que os alunos não conseguem dividir o texto em partes, distinguir o início do desenvolvimento e da conclusão.
Em Sines, a questão foi levantada pela Solina, quando explicava que recorria à expressão 'Vitória, vitória! Acabou-se a história!' para que a filha percebesse que a narrativa tinha chegado ao fim. Efectivamente, seja porque as crianças têm picos de concentração mais curtos, seja porque a estratégia causal da acção não é evidente, seja porque para si a história não tem de acabar naquele momento, há uma dificuldade da parte dos mais pequenos em aceitar um desfecho.
Por alguma razão, quando contamos histórias, somos tantas vezes inquiridos com um 'e depois?' que nos deixa numa posição delicada: o que vamos inventar a seguir?, quando é que podemos parar?.
Porque não reconhece a criança que o fim, a conclusão, é quando termina a acção principal, quando se resolve o enigma ou o problema deixa de existir? Muito provavelmente porque a sua capacidade ou interesse pelo texto não lhes permite abstrairem-se e analisarem literariamente o mesmo. Como fazemos com as personagens de uma série, também as crianças seguem mais atentamente um aspecto, que pode não se fechar no final da história.
Então, podemos começar ao contrário, perguntando à criança que final gostava que a história dela tivesse: casamento, salvamento, regresso a casa, a hora de dormir; acordar de um sonho...
A partir do diálogo de previsão que faz com a criança, o adulto lê ou conta então uma história cujo final seja aquele que a criança escolheu, de forma a que esta mais facilmente o reconheça. Mesmo que não resulte na primeira tentativa, ou que resulte apenas parcialmente, este exercício permite que a criança fique mais atenta à progressão da história para comprovar o seu final. Igualmente, o jogo torna o acto de leitura menos repetitivo, logo mais apelativo.

Sessão para pais em Sines

A 1ª sessão da acção A Arte da Leitura de Pais para Filhos correu bem. Estavam poucas mães, das quais três são professoras do 1º ciclo. Cumprimos a nossa planificação, que constava de um diálogo inicial acerca da condição de leitora de cada uma delas, as suas memórias de infância e a sua relação com o objecto livro. Em seguida centrámos a nossa atenção na sua função de mediadoras e nas características específicas dos seus filhos, de acordo com as idades, os gostos, os comportamentos. Finalmente apresentámos algumas estratégias de acompanhamento da leitura antes, durante e depois da aquisição da competência da leitura, sugerindo alguns livros.
A conversa desenrolou-se com muita familiaridade, porque o grupo era bastante participativo e interessado.
O número reduzido de participantes deveu-se a alguns factores exteriores, como nos explicou a bibliotecária, mas todos estamos conscientes de que são sempre poucos os que se interessam por estas questões. Infelizmente, não tivemos um único pai a participar, o que é igualmente sintomático de uma divisão de tarefas no acompanhamento e educação dos filhos, erradamente.
Mas a única forma de combater esta indiferença é repetindo as acções, falando delas, e motivando aqueles que já participaram a colaborar na sua divulgação. Tal como acontece com as Comunidade de Leitores, as Apresentações de Livros ou os debates ou Cafés-Concerto, a melhor publicidade é a opinião positiva daqueles em quem confiamos.
A dinamização da Biblioteca de Sines nestes moldes ainda é recente, por isso é muito bom sinal a relação privilegiada que tem com as professoras do 1º ciclo. Através delas mais facilmente chegará à Associação de Pais, aos pais e às crianças.

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

A Arte da Leitura de Pais para Filhos


Que estratégias para promover a leitura entre pais e filhos?
Que dificuldades encontram os pais quando tentam motivar os filhos para ler?
Como podem os pais escolher livros para os filhos?
Tentaremos encontrar respostas para estas questões na acção de sensibilização que hoje realizamos com um grupo de pais na Biblioteca Municipal de Sines.
No próximo fim de semana, no Sábado, desafiamos os mesmos pais, acompanhados pelos filhos, a descobrirem em conjunto o seu perfil de leitor. Pela escolha.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Utilidade didáctica da Odisseia para a leitura de Ulisses

Um dos livros recomendados para o 6º ano, como obra de leitura integral é Ulisses de Maria Alberta Menéres. Será uma das propostas que reúne maior sucesso entre os alunos, que normalmente aderem bem às aventuras fantásticas do herói, destacando-se o episódio do Ciclope, a feiticeira Circe, a descida ao Hades, e o canto das sereias. A mitologia clássica atrai bastante o público juvenil, e muitas vezes os professores recorrem a este tema quer para promoverem trabalhos de pesquisa quer para estimularem a leitura da obra.
Ora, depois do filme Tróia (diga-se em boa da verdade, numa adaptação muito pobre da Iliada), percebemos quando falamos com o público mais jovem que naturalmente se interessam por esta trama (principalmente os rapazes). O conhecimento da Odisseia poderá contribuir para diversificar estratégias na abordagem a Ulisses.
a) Uma das possibilidades é treinar a compreensão da lógica dos acontecimentos: criar um gráfico com a ordem dos acontecimentos na obra Alberta Menéres. Depois, tentar em grupos que os alunos recontem a história de Ulisses com outra ordem, mas respeitando a lógica temporal original. Seria uma estratégia prática para que os alunos percebessem que a narrativa não tem de seguir uma linearidade sequencial. Este exercício poderia ser feito oralmente, ou ligando os episódios com um novo excerto escrito pelos alunos.
b) Outra hipótese, com base na lógica dos acontecimentos, é comparar a ordem das acções em Ulisses e na Odisseia, apresentada pela professora, e imaginar que recursos usou Homero para manter a lógica numa narrativa que, para além do início em media res, tem analepses e prolepses.
c) Já no âmbito da caracterização das personagens, a professora poderia fazer um exercício oral de previsão acerca de Telémaco (como seria o filho de Ulisses, parecido com o pai?, como se sentiria ele com a ausência do pai?; e em relação à mãe, qual era o seu comportamento?...). A partir daqui a professora poderia tentar fazer uma leitura de alguns excertos da primeira parte da obra, que relata a viagem de Telémaco em busca de notícias do pai; ou eleger algumas expressões que o caracterizam.
d) Uma outra possibilidade seria a de distribuir pelos alunos, em grupo, alguns episódios da Odisseia (eventualmente a versão infanto-juvenil de Frederico Lourenço, A Odisseia de Homero adaptada para jovens; Cotovia) que não constem de Ulisses, para que cada grupo faça uma ou mais leituras do episódio que lhe foi atribuído e o reconte à turma, que o desconhece. Com um exercício deste género toda a turma está atenta porque quer ouvir o que não conhece e quer contar aquilo que sabe. Para além disso, a orientação desse reconto trabalhado em grupo permite que os alunos sintetizem informação, organizem a acção logicamente, identifiquem e infiram a caracterização de personagens ou espaços, produzam alguns juízos afectivos.
Ficam as sugestões.

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Leituras



Odisseia, Homero

tradução de Frederico Lourenço
Cotovia

Aconteceu assim:
Por razões profissionais estive a ler A Odisseia de Penélope, uma recriação da Odisseia de Homero, agora na perspectiva da mulher, Penélope, que nos conta a sua versão dos acontecimentos à luz da mentalidade do séc.XX: cínica, pragmática, complexada, vingativa. Não gostei do livro, porque me pareceu que ficou aquém da sua intenção, para além de ter sentido que desvirtuava o texto original.
Eis como um mau livro pode ser um incentivo à leitura: a intriga suscitou-me tamanha curiosidade que me dediquei à leitura do grande clássico. Queria saber o que de facto acontecia, como tinha Homero caracterizado a personagem feminina, bem como o filho do casal, Telémaco, que no livro de Margareth Atwood, é um adolescente revoltado que começa a medir forças com os adultos e as regras instauradas.
E perdi-me na leitura deste livro magnífico. São vinte e quatro cantos onde impera a acção, muito bem encadeada e suspensa para prender a atenção do leitor, com imensas descrições de locais, personagens, rituais que aparentemente nos desorientam, com medo de não os conseguirmos apreender todos. À medida que a leitura prossegue, percebemos que de muito nos esqueceremos, claro, mas que a repetição cíclica de enunciados, ou de momentos que só levemente se alteram, tornam-se rapidamente um leit-motiv em que nos apoiamos para ganhar fôlego para as novas informações.
Este Clássico, ao contrário de outros livros cuja leitura difícil e densa os liga ao cânone literário mais do que ao prazer da leitura, é hoje uma obra actual, fantástica, histórica, de aventura e até drama psicológico, em que as personagens não são representativas do bem vs mal e ganham a nossa confiança e a nossa empatia através dos seus próprios argumentos.
Ao lermos a Odisseia percebemos o papel fundamental que desempenha ao longo da história da literatura ocidental, e como, a par da Bíblia, funda os alicerces temáticos e retóricos que continuam a presidir à criação.
Frederico Lourenço resistiu à tentação de explicar ou adensar a obra com notas, e a sua introdução dá pistas de leitura muito importantes.
Este livro é um paradigma do prazer e da fruição de ler, na sua plenitude.

domingo, 5 de novembro de 2006

XVII Edição do Encontro de Literatura para Crianças

Encontro CONTADO ÀS CRIANÇAS
Auditório 2, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
Dias 8, 9 e 10 de Novembro

Exposição LIVROS COM HISTÓRIA(S)
Exposição retrospectiva da obra de escritores e ilustradores que veceram o Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças entre 1980-2004.
Como sempre, a entrada é livre.
Para além das várias conferências, estará patente uma exposição dos

Aqui fica o programa completo.

Plano de Leitura da Biblioteca Escolar da EB 2/3 D. António da Costa

A Biblioteca/CR da António da Costa, em Almada, tem um Plano de Leitura bastante aliciante para o ano lectivo 2006/2007. Conta com o envolvimento dos professores de Língua Portuguesa, mas a organização parte do grupo de professoras que gere aquele espaço.
Assim, para além da Feira do Livro anual, contam-se quatro concurso: A Batalha dos Livros consiste numa espécie de jogo de conhecimento por eliminatórias, em que os alunos que se inscreverem devem responder a perguntas sobre os livros propostos no início do concurso; O Melhor Texto de Natal, O Melhor Leitor e Os Melhores Poemas decorrem cada um num período lectivo e consistem em leituras em voz alta (encenada) de textos literários, produzidos ou não pelos alunos.
Outros eventos destinam-se à divulgação de textos literários, e à partilha de experiências de leitura.
Tempo de Poesia acontecerá uma vez por período escolar, na Biblioteca, e em cada sessão serão declamados e apresentados poemas por declamadores, de forma a que os alunos tenham contacto com a audição de poesia.
O cinema e a literatura propõe o visionamento de filmes feitos a partir de obras literárias, como forma de motivar os alunos para a leitura dos livros, comparando as duas linguagens. Cada sessão será contextualizada com uma apresentação ou um debate.
As iniciativas Partilhar Leituras e Outros Olhos, Outras Leituras, promovem um intercâmbio de opiniões acerca dos hábitos e preferências de leitura de cada um. A primeira consiste na apresentação de livros entre alunos, semanalmente, na Biblioteca. A segunda, na apresentação de um livro por um professor, um familiar, um escritor, um funcionário..., mensalmente, também na Biblioteca. Os alunos conhecem assim outras facetas de pessoas com quem convivem, e partilham experiências sociais em torno do livro. Iniciativas como estas são importantes para que os não leitores não sintam que o acto de ler é um hábito de um pequeno grupo de 'cultos', mas sim um hábito que qualquer pessoa pode ter, escolhendo o livro que lhe dá prazer.
As sessões estão planificadas e calendarizadas desde o início do ano, permitindo que os professores de língua portuguesa façam a gestão das suas aulas contando desde logo com tais eventos. A participação de todo o grupo, a rotatividade dos alunos, a diversidade de opções, são factores essenciais para a criação de hábitos e experiências em torno da leitura. Os alunos da EB 2/3 António da Costa terão uma oferta privilegiada ao longo dos cinco anos em que frequentam a escola, de forma a que a sua relação com o livro será inevitavelmente melhor e mais sólida, pela persistência e repetição destas actividades no tempo.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

O tempo da leitura

Um dos dogmas que está associado à leitura é a imagem do tempo ideal para ler: aquele que cada um imagina como tempo livre, num espaço acolhedor ou sugestivo, silencioso, confortável... um quadro como tantos outros que criamos para alimentarmos os nossos desejos e justificarmos os nossos limites.
A ideia de um momento vazio, destinado ao livro, não existe. Por isso, a falta de tempo serve tantas vezes de justificação para não lermos, nós, os bons leitores. E assim todos somos leitores, apesar de não termos tempo para ler...

Daniel Pennac destrói o mito, no seu livro Como um romance:

«Tudo bem, mas a que parte do atarefado dia podemos ir buscar essa hora de leitura diária? Aos amigos? À televisão? Às viagens? Aos serões familiares? Às minhas obrigações?
Onde desencantar tempo para ler?
É um problema grave.
E não é o único.
O tempo disponível para ler e o desejo de ler, nem sempre coincidem. Porque, se virmos bem, ninguém tem tempo para ler. Nem os pequenos, nem os médios, nem os grandes. A vida é um perpétuo entrave à leitura.
_ Ler? Eu bem gostava, mas sabe... o trabalho, as crianças, a casa, não tenho tempo...
_ Nem sabe como o invejo por ter tempo para ler!
Mas como se explica que aquela que trabalha, vai às compras, educa os filhos, guia o carro, ama três homens, vai ao dentista, vai mudar de casa para a semana que vem, arranje tempo para ler, e este casto celibatário que vive dos rendimentos, não consiga?
O tempo para ler é sempre um tempo roubado. (Como aliás o tempo para escrever, ou para amar.)
Roubado a quê?
Digamos que ao dever de viver.
É sem dúvida por essa razão que o metropolitano - símbolo tranquilo do referido dever - é a maior biblioteca do mundo.
Tanto o tempo para ler como o tempo para amar dilatam o tempo de viver. Se encarássemos o amor pela perspectiva do emprego do tempo, o que sucederia? Quem tem tempo para estar apaixonado? No entanto, alguma vez se viu um apaixonado não ter tempo para amar?
Nunca tive tempo para ler, mas nada, nunca, me impediu de acabar um romance de que gostava.
A leitura não resulta da organização do tempo social, ela é como o amor, uma maneira de ser.
A questão que se coloca não é saber se tenho ou não tempo para ler (tempo esse que, aliás, ninguém me dará), mas sim se tenho ou não prazer em ser leitor.»
(ed. Asa, col. Fnac de Bolso; pp. 132-133)