terça-feira, 31 de outubro de 2006

A leitura recreativa na aula - algumas estratégias

A 2ª sessão da acção de formação em Promoção da Leitura teve início com uma sistematização do que havíamos reflectido na semana passada: a relação entre a condição de leitor de cada um e a sua função de mediador.
Desde há muito que as professoras da EB 2/3 António da Costa, em Almada, fazem contratos de leitura recreativa com os seus alunos. O grupo que integra a formação dá actualmente aulas ao 2º ciclo, 5º e 6º anos. As regras são claras: cada aluno deve ler, fora do espaço da sala de aula, um livro por mês, escolhido por si, e sobre o qual deve dar conhecimento à professora.

Propus ao grupo que cada uma criasse uma actividade de iniciação a essa leitura recreativa, que lhes permitisse conhecer o perfil dos seus alunos, enquanto leitores (potenciais ou efectivos).
Eis algumas propostas muito interessantes que surgiram, foram debatidas por todas e em alguns casos, retocadas:
A Raquel iria desafiar os alunos a recordarem o primeiro livro que se lembravam de ter lido, ou de ter ouvido ler em casa, e a trazê-lo para a próxima aula.
Uma iniciativa simples como esta permite:
1) que os alunos interajam com os pais em casa, em busca de um livro (que pode não ser o 1º, mas um de que tenham gostado quando eram pequenos, ou aquele que o tio lhes ofereceu, ou aquele que os pais se lembram de lhes ler...), o que proporciona uma experiência afectiva familiar de promoção da leitura;
2) que os alunos partilhem, na aula seguinte, as suas memórias afectivas com os colegas, logo que tenham uma experiência de sociabilização em torno do livro e da leitura;
3) que a professora identifique algumas características do aluno enquanto leitor, bem como do seu ambiente familiar.
A Josabete escolheria oito livros de diferentes temáticas e tipologias, que passariam pelos alunos para que os observassem e escolhessem aquele que preferiam. Dar-se-ia início ao processo de leitura recreativa. Em complemento da leitura, criar-se-ia um quadro de leitura da turma, onde periodicamente se registariam dados bibliográficos do livro, em que momento da leitura cada aluno estava, o que mais gostara até ali (uma personagem, um momento, uma frase...), o que menos gostava. O quadro ia passando pela turma, de forma a que todos pudessem partilhar estas informações, que ajudariam na escolha individual, quando chegasse a altura de trocar de livro.
Objectivos que cumpre:
1) Divulgação de livros variados;
2) Escolha responsabilizante;
3) Evita que os alunos leiam os livros porque têm de os apresentar à professora ou fazer uma ficha;
4) Permite aos leitores menos competentes constatar que é possível ler mais e gostar de ler, quando observam os dados do quadro colectivo;
5) Permite que as sugestões de leitura sejam feitas entre iguais, a partir de um acervo alargado previamente escolhido pela professora.
A Ângela propõe a audição de uma história da menina que não tem bicicleta, e por isso no Verão não se pode divertir com os amigos. Por isso descobre uma biblioteca e a leitura será a sua grande companheira. Depois da leitura, serão depositadas pequenas caixas em mesas de grupos de alunos que dentro delas vão descobrir objectos vários. Finalmente, em cima de uma mesa os alunos podem procurar que livro tem na sua história os objectos da sua caixinha surpresa.
1) é uma actividade de sedução para a leitura, pela mensagem da história e pela curiosidade que instala;
2) permite que a leitura possa ser feita por mais do que um aluno (se houver mais do que um exemplar do mesmo livro na biblioteca, ou os pais o puderem comprar);
3) permite criar expectativas de leitura nos outros;
4) a seguir à leitura os grupos poderão contar a história que leram aos restantes, que devem identificar os objectos importantes na história;
5) os alunos podem fazer pequenos marcadores para colocarem na página em que aparece pela primeira vez cada um dos objectos da caixa, sendo uma forma de o professor acompanhar a leitura.

Ficam três actividades a partir das quais se pode traçar um plano de unidade de leitura recreativa, da mesma forma como podem ser interligadas. São meras sugestões, que se adaptam e funcionam com um grupo e não funcionam com outro. Mas são importantes para que a leitura recreativa cumpra o seu objectivo primordial: a liberdade individual que a criança deve dscobrir no acto de ler.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Balanço do debate na Casa Fernando Pessoa

O debate de ontem sobre o Plano Nacional de Leitura, na Casa Fernando Pessoa, não acrescentou muito ao que se sabe. Questionaram-se mais as intenções que as estratégias, o que foi pena. De qualquer forma, Teresa Calçada, coordenadora do Plano, identificou alguns pressupostos relativamente à leitura e clarificou os grandes objectivos deste projecto:
«(...) A leitura é exigente do ponto de vista do tempo. (...)Pode haver mais leitores que há dez, vinte, trinta anos, mas por outro lado, quem tem hábitos de leitura, lê menos por causa do seu próprio tempo subjectivo.»
E porque a leitura esclarecida e persistente é inseparável do exercício da cidadania, como disse Mário de Carvalho, Teresa Calçada deseja que se encontrem, através do trabalho com os mediadores de leitura, formas estimulantes de incentivar o treino de leitura, de forma a democratizar este hábito.
Nesta primeira fase, pelo que afirmou, é suposto dotar as escolas básicas (dos JI's aos 2ºs ciclos) de livros (10, 15 exemplares do mesmo livro), de acordo com as escolhas de cada agrupamento, grupo de professores e bibliotecas escolares, de forma a que na sala de aula se possam realizar leituras colectivas da mesma obra. O livro deve entrar nos hábitos da criança, não só enquanto conteúdo, mas enquanto objecto, com o qual cada leitor desenvolve uma relação particular.
Discutiu-se mais uma vez o porquê de ser Portugal um país com tão baixos níveis de literacia, e com tão poucos hábitos de leitura.
Em primeiro lugar está a ditadura, que vedou o acesso ao ensino para a maioria da população, e formou más elites. O fechamento ao mundo, às correntes estéticas e filosóficas, ao debate de valores, ao aprofundamento da prática da liberdade, condicionaram em muito a mentalidade portuguesa. O paternalismo e o medo continuam instituídos de forma a corroerem as estruturas do discurso, da exigência e da responsabilidade cívica.
Mas, em segundo lugar, e talvez por esta magna razão, Teresa Calçada resume: «ensinamos mal, aprendemos mal, formamos mal os professores».
Embora seja uma afirmação generalista, não deixa de nos implicar a todos, principalmente às elites. É delas a maior responsabilidade. As elites que viveram o 25 de Abril, as elites que dirigem instituições culturais e académicas, as elites que devem produzir conhecimento devem igualmente ter o entusiasmo de o levar a outros públicos, e de os motivar para a reflexão, a consciência e o sentido crítico.
É importante que tenhamos um Plano Nacional de Leitura para que se definam estratégias, que se desenvolvam acções e que se responsabilizem os envolvidos (que em última análise devemos ser todos). Mas é importante que as elites expliquem aos não leitores a verdadeira importância e liberdade da leitura, e que os respeitem, ou cairemos num novo e perigoso modismo de consumo de um recuperado produto.
Nesta perspectiva, as intervenções de Teresa Calçada pareceram-me bastante mais lúcidas que as de Clara Ferreira Alves, Vasco Graça Moura e Maria Filomena Mónica, num debate a propósito dos clássicos, neste mesmo espaço, em Maio.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Plano Nacional de Leitura na Casa Fernando Pessoa

Amanhã, pelas 21h30, há mais uma sessão de Livros em desassossego, na Casa Fernando Pessoa. Desta vez, discutir-se-á o Plano Nacional de Leitura, com Teresa Calçada (coordenadora do projecto); Vicente Jorge Silva (jornalista) e Mário de Carvalho (escritor).
Poderá ser o local apropriado para conhecer estratégias e esclarecer dúvidas.
Para além do tema central, a sessão conta ainda com a presença do poeta António Osório que apresenta um novo livro e de Alexandre Manuel, editor da Casa das Letras, que escolhe três livros que gostaria de ter editado.
Para seguir as actividades da Casa Fernando Pessoa, fica o blog www.mundopessoa.blogspot.com

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Banda Desenhada com todas as letras

Promoção de Banda Desenhada
Hoje debateu-se a situação da criação e edição da Banda Desenhada em Portugal, no auditório Maestro Frederico de Freitas, na Sociedade Portuguesa de Autores. Esta iniciativa, da responsabilidade da revista Os meus livros, contou com a participação de António Jorge Gonçalves (autor), Maria José Pereira (editora Asa), Pedro Silva (editor VitaminaBD) e Sara Figueiredo Costa (crítica).
O diagnóstico a esta arte é semelhante ao que outros agentes traçam para outras áreas artísticas: ausência de público, falta de dinamização do sector, falta de informação e divulgação nos meios de comunicação, falta de comunicação entre agentes. Consequência mais do que evidente: poucos meios de sobrevivência. Esta é uma situação crónica em Portugal, e nunca foi por isso que qualquer expressão artística morreu. Contudo, algumas informações dão que pensar.
Rosa Barreto, directora da Bedeteca de Lisboa, considera muito prejudicial para a divulgação da Banda Desenhada que estes livros integrem o catálogo infanto-juvenil das Bibliotecas Municipais, e não ocupem uma secção própria. De facto, este é um dos principais preconceitos associados à 9ª arte. Outro é o de que ler Banda Desenhada é um estádio anterior ao da leitura de textos literários, porque supostamente é mais fácil. Outro ainda, e de todos o mais grave, que a Banda Desenhada é prejudicial no desenvolvimento de competências de leitura das crianças e jovens.
Esta questão está intimamente ligada a outra: a formação de leitores de Banda Desenhada tem de começar na infância, ou não teremos novos leitores.
Não confundamos as coisas. Formar leitores não é formar categorias de leitores.
Formar leitores é dotá-los de competências de leitura como sejam:
encontrar informação num texto;
perceber lógicas de causa-efeito;
identificar nexos de temporalidade e causalidade;
caracterizar personagens;
identificar marcas retóricas (símbolos, imagens, enumerações, comparações, metáforas);
produzir juízos afectivos e argumentativos;
sintetizar informação;
relacionar informação;
distinguir sentidos denotativos e sentidos conotativos;
etc, etc, etc...
Estes objectivos específicos do ensino da competência da leitura são transversais ao género de texto que se lê, e por isso este treino deve ser feito com recurso a tipologias distintas.
Que se deve incentivar a leitura de Banda Desenhada desde tenra idade, parece-me evidente. Do mesmo modo que se deve incentivar a leitura de poesia, teatro, narrativa, notícia, slogan, instrução. Que a arte literária (na sua diversidade) desenvolve o imaginário, a sensibilidade, a criatividade, o conhecimento, mais que um texto informativo, nem sempre é verdade. Não sejamos fundamentalistas, sejamos auto-críticos. Procuremos distinguir qualitativamente a leitura, e sejamos rigorosos na sua promoção. Será melhor ler um mau livro de BD a não ler nenhum? Não há resposta para esta pergunta. Por um lado, ler um mau livro não permite ao leitor ter contacto, por exemplo, com noções inovadoras de perspectiva, ou de disposição gráfica, ou de questionamento da causalidade, ou de ironia. Mas, por outro lado, ler um mau livro pode levar à leitura de outro, talvez melhor, ou igual, e à procura de outros, elevando o nível de exigência do leitor e de qualidade do livro.
Ao nível da promoção devemos ser exigentes connosco próprios, tanto quanto generosos na partilha do que de mais precioso sabemos. Relativamente ao leitor, devemos respeitar as suas escolhas.
É claro que é possível a um adulto descobrir a Banda Desenhada, como é possível descobrir a literatura clássica, o teatro ou a poesia. Mas é também muito provável que o adulto só a descubra se tiver solidificadas as suas competências, ou seja, se for leitor, como afirmou a Sara, no debate.
Promover Banda Desenhada implica divulgá-la junto das crianças e jovens, de forma a que estes sejam leitores do género ao longo da sua vida, e do mesmo modo divulgá-la junto de adultos leitores. Como se faz? Com esforço, criatividade, e acima de tudo com muito entusiasmo e muita honestidade intelectual.

Promoção da Leitura para professores

Estou mesmo de saída para Almada, onde vou dar uma acção de formação para professores, sobre promoção da leitura, na Biblioteca Municipal. Hoje, às 15h será a 1ª sessão, onde vamos falar da condição de leitor de cada um, e da importância desta condição na acção de mediação da leitura.
Vamos explorar algumas actividades lúdicas, que posteriormente os próprios professores poderão realizar nas suas aulas ou na biblioteca escolar, na promoção da leitura recreativa.
Espero que corra bem.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

A Terra do Nunca - Peter Pan

Ficam agora algumas imagens das ilustrações de Susanne Janssen para o livro Peter Pan.




quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Leonor e O Capuchinho Vermelho

Na semana passada, levámos à nossa sobrinha Leonor dois livros do Noddy. Ela escolheu qual deles mais lhe agradava, e o Sérgio começou a ler-lhe a história. Apesar de ver os desenhos animados na televisão, de conhecer as personagens e identificar algumas das suas características, a pequena Leonor começou a ficar entediada. Propôs-nos então um outro livro, O capuchinho vermelho. Foi buscá-lo e começou a contar-nos a história. Folheava o livro e construia os nexos narrativos a partir da memória e das ilustrações.
Este 'capuchinho' não era especialmente interessante, mas comprovámos que as histórias tradicionais têm um peso muito importante na autonomização da leitura e na relação com o livro, enquanto objecto reconhecível.
É sabido que este conto tem diversos níveis de sentido, e são múltiplas as interpretações simbólicas que se fazem. Contudo, é certo que todas partem do mesmo princípio de curiosidade, risco e consequência. Com ou sem moral, esta história tem de universal e intemporal mais do que a menina, a avó, a natureza ou o lobo mau; é um paradigma de abertura ao mundo, ao desconhecido, é um desafio iniciático de liberdade. Cada criança recebe-o de acordo com a sua experiência, os seus afectos e os medos que a constituem.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

A Terra do Nunca

Em primeiro lugar, fica a recomendação de leitura do post da Sara, no Beco das Imagens, sobre a exposição. Lá se descreve mais pormenorizadamente as técnicas da ilustradora, bem como a organização da exposição.
Capuchinho Vermelho


A Terra do Nunca


Sábado fomos ao Barreiro ver a exposição de Susanne Janssen. Dela constam ilustrações, esboços e linogravuras de quatro dos livros que ilustrou e que não existem em português. São eles: Peter Pan, J. M. Barrie, Éditions Être, 2005; Le Petit Chaperon Rouge, Grimm, Seuil Jeunesse, 2002; Un Soir Prés d’Un Grand Lac Tranquile, J. Richter, La Joie de Lire, 2004; La Leçon de Piano de Madame Butterfly, S. Janssen, Milan Jeunesse, 2000.
A sua proposta de leitura dos dois clássicos surpreende, principalmente por evidenciar figuras únicas, longe da imagem paradigmática da criança. Os medos e os desafios conjugam-se com a escala das personagens, que ocupam mais do que o espaço que lhes é dedicado. O efeito tridimensional causado pelas colagens de desenhos, e fotografias enriquece o ambiente conferindo-lhe mais importância do que normalmente tem.
A questão que fica é qual será a receptividade por parte das crianças. A ilustradora afirma que, pela sua experiência em ateliers, as crianças gostam, chegando até a divertir-se com as ilustrações.
Auditório Augusto Cabrita (no Parque da Cidade), de 3ª a domingo, entre as 16h e as 22h.
Até 29 de Outubro

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Experiências em Estarreja III - aventura poética

A segunda sessão, depois do almoço, começou com poesia. O exercício proposto não é fácil, mas normalmente é recebido com entusiasmo pelos alunos. Chama-se "Elemento estranho ao poema" e consiste na descoberta, pelos alunos ,do verso estranho a cada um dos seis poemas que lhes damos.
Com alunos do 3º ciclo, e às vezes até do 2º, usamos poemas de Fernando Pessoa ortónimo, Alberto Caeiro, Miguel Torga, Luíza Neto Jorge, Sebastião Alba. Desta vez, por ser uma turma do 4º ano do 1º ciclo, optámos por Vergílio Alberto Vieira, Luísa Ducla Soares e António Torrado.
O exercício requer a nossa ajuda constante, e é dessa ajuda que depende o sucesso da actividade. As pistas que damos devem ajudar os alunos a distinguir as características formais dos poemas, nomeadamente o que é um verso ou onde está a rima. Depois, pedimos-lhes para lerem o poema em voz alta para os outros elementos do grupo ouvirem, porque talvez ajude... Outras vezes, apelamos ao sentido, ao assunto do texto.
Durante cerca de trinta minutos, os alunos da Escola João de Deus aplicaram-se ferozmente na tarefa de descobrirem os elementos estranhos, lendo e relendo cada poema, mais do que o fariam num exercício de interpretação simples. A cada pista os seus olhos brilhavam, enquanto se iam aproximando da grande vitória.
Mas o jogo ainda não tinha acabado. Quando encontraram os seis versos estranhos propusemos-lhes novo desafio: organizar aqueles seis versos num novo poema.
No final, em jeito de correcção, lemos todos os poemas sem intrusos, para que a turma pudesse ouvir de forma pausada e clara os textos que tantas vezes tinha lido.
Na minha opinião, foi um dos grandes destaques deste atelier, porque até os meninos com mais dificuldades, ou aqueles que menos se concentravam, participaram activamente, colaboraram e respoderam de forma muito positiva aos vários estímulos que lhes fomos dando ao longo do exercício. Creio ser este um bom treino da leitura do texto poético, porque não renega o sentido simbólico ou o ritmo próprio da sua construção, mas não prende o leitor à sua decifração intensiva. A partir deste exercício, outros se podem fazer, aprofundando então conceitos como o de símbolo, metáfora, métrica, estrofe, etc.

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Site do Bicho dos Livros

Já se encontra on-line o site com os projectos que temos desenvolvido no âmbito da Promoção da Leitura. Nele podem encontrar-se acções para adultos, diversos ateliers para crianças e jovens, acções de formação e novas propostas. Do diálogo com crianças, jovens, pais e professores, novas experiências surgirão.
A actualização deste espaço será uma realidade.

A morada é www.obichodoslivros.no.sapo.pt e o link estará em permanência na barra aqui ao lado.

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Experiências em Estarreja II

O atelier correu bem. A turma era equilibrada e os alunos estavam bem preparados. Sobre a primeira sessão, o destaque vai para a actividade «Os cinco sentidos do livro». A partir de uma lista de associações, cada aluno escreveu a descrição de um livro que seria único, especialmente criado no universo da imaginação de cada um.
Ficam algumas descrições (corrigidas):

O meu livro é a história da minha sucessão. Chama-se "A minha família". Tem a história do meu bisavô, o que ele fazia, como conheceu a mulher, e as histórias amorosas dos descendentes. Por mais estranho que pareça, tem a minha primeira história de amor.
Mariana
O meu livro chama-se "As coisas estranhas do meu livro". Sabe a muitas coisas, como morango, laranja e chocolate. O meu livro cheira a pizza, a hamburguer e a cachorro. Consigo ouvir o meu livro a rir às gargalhadas, a cacarejar e a chorar.
Duarte Melo
O Livro mistério
O livro mistério é o tal de que toda a gente fala. Esse livro é aquele que só eu tenho, e vou-vos contar como ele é:
- Ele é grande, branco, cheio de penas cor de rosa; e só eu o tenho, muito bem guardado dentro de um cofre cheio de cadeados.
Estou a contar-vos tudo porque ele é especial.
Ana Margarida Lopes
Surpresas no safari
O meu livro mostra a selva, os animais e o safari. Quando toco no meu livro, sinto que é quentinho e aventureiro; quando o leio entro na selva e vejo muitos animais selvagens e herbívoros.
Rafael
O livro feiticeiro
Quando tocamos no livro ele pode saber a banda-desenhada com bonecos saltitantes, saber a morango de uma fruta boa, e a flores como a rosa. Quando cheiramos o livro, ele pode cheirar a flores, que sabem a laranja, e a perfume. Posso falar com ele, cantar e pedir ajuda quando estou a chorar.
Ana Margarida Soares

Acendeu-se o Farol de Sonhos

Relembramos que de hoje até Domingo a Biblioteca de São Domingos de Rana acolhe o Farol de Sonhos com as suas exposições, conferências e workshops. O programa completo está disponível aqui.

domingo, 8 de outubro de 2006

Experiências com Letras em Estarreja


Estamos de partida para Estarreja, onde vamos realizar o atelier Experiências com Letras, no âmbito da carteira de itinerâncias do IPLB. Tal como aconteceu em Arouca, trabalharemos a narrativa breve, o texto poético, a ilustração e o livro enquanto objecto. A turma é do quarto ano do 1º ciclo, por isso escolhemos pequenas histórias do António Torrado e poemas do Vergílio Alberto Vieira. Para além disso, levamos cinco livros para lhes apresentar.
Estamos curiosos para saber as suas preferências.

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

Leituras

Conto estrelas em ti,
17 poetas escrevem para a infância

coordenação José António Gomes
ilustração João Caetano

Campo das Letras

Estive a reler a colectânea de poesia para a infância Conto estrelas em ti.
Procurava um poema com rima cruzada, com mais do que uma estrofe e mais do que duas rimas diferentes, para um exercício que vou realizar com um grupo do 4º ano do 1º ciclo. Devido a este objectivo específico, pude debruçar-me sobre a obra e as várias tipologias de poemas que lá podemos encontrar. Para além deste tipo de poema, com rima, encontrei outros mais centrados na metáfora, como é o caso dos poemas de João Pedro Messeder, que define sentimentos, relações ou objectos afectivos; ou pequenas histórias em verso, como as de António Torrado, Papiniano Carlos ou Álvaro Magalhães. Por estes poemas cruzamos todas as temáticas da infância, desde a natureza à aventura da descoberta, passando pela importância dos outros.
Ao nível da construção poética, temos poemas de uma única estrofe ou várias, com o mesmo número de versos ou não, com diversas combinações rítmicas. A comparação não falta, bem como a antítese, a anáfora, a repetição de versos inteiros ou partes de verso no verso seguinte.
A partir desta diversidade, o professor pode trabalhar a diversidade de sentidos e de possibilidades desde muito cedo, pela leitura em voz alta, pela memorização, pela reprodução de poemas pelos alunos, pela troca de versos, pela distinção das várias estruturas, pelo trabalho com as várias figuras retóricas.
Trabalhar textos poéticos desde cedo é talvez um dos melhores recursos para trabalhar a palavra e ginasticar a apreensão de sentidos.
Finalmente, há que destacar as ilustrações cujos traços, cores e técnicas utilizadas dialogam com os sentidos de cada poema.
Este é um dos livros recomendados pelo Plano Nacional de Leitura. Vale a pena aprofundar a sua leitura, porque nele podemos encontrar muitos recursos para trabalhar temas ou discursos. É bom não esquecer, igualmente, a qualidade da maioria dos seus poemas, e o prazer que temos ao lê-los.

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

A cave que ri



Hoje recomendo o blog da 'nossa' ilustradora e amiga Sílvia Moldes. A cave que ri é um blog de criação algo caótica e surpreendente, em que os eixos da lógica, do espaço, do tempo e do verosímil se perdem em imaginários, bestiários reconvertidos, metamorfoses inúteis. Afinal, é da inutilidade que nasce a liberdade.
Fica a dica.

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Ontem na Fnac

Ontem à tarde passámos pela Fnac do Chiado, para ver as novidades e não só, da secção infantil e juvenil. Pois enquanto folheava um belo livro (que vou ler para depois me pronunciar), reparava numa criança que deveria ter os seus quatro anos e se debatia com a árdua tarefa de escolher um livro. A mãe fazia tudo segundo as boas regras da promoção: dava-lhe liberdade para explorar os livros, ver as ilustrações, sempre por perto mas sem interferir. Ia estimulando o menino através das imagens, sugeriu até que o filho escolhesse um livro para ela lhe ler ali.
Estive lá uns bons trinta minutos, e a criança estava muito relutante. Numa certa altura queria levar um livro que já tinha, o que faz sentido na lógica de repetição em que as crianças desta idade se encontram, no que respeita as narrativas.
A situação pôs-me a pensar... É importante que os adultos tenham sempre presente que as melhores estratégias não significam sucesso imediato. Por vezes, ao planificar ateliers ou cursos, imagino um grupo de crianças felizes e os objectivos cumpridos na íntegra. E todos sabemos por experiência própria que nem sempre acontece, e muiats vezes somos até surpreendidos, com actividades de que não gostamos tanto e que as crianças adoram e por isso aderem mais facilmente.
Por isso, ontem na Fnac, gostei de observar o cuidado daquela mãe, a sua paciência e insistência em algo que ela sabe importante, fundamental até, na promoção do acto de leitura, junto do seu filho. E, apesar de já ter tido (muito provavelmente) outras experiências de pouco sucesso, não desiste da sua condição privilegiada de mediadora.