quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Leitura e Ilustração em análise

Realiza-se nos próximos dias 13 e 14 de Outubro em Braga, Campus de Gualtar, o 6.º Encontro Nacional / 4.º Internacional de investigação em leitura, literatura infantil e ilustração. O programa já é conhecido e envolve a participação de especialistas de diferentes áreas numa discussão em torno das questões da leitura. Estarão presentes membros de universidades estrangeiras para uma troca de experiências que, esperamos, possa ser útil para encontrar soluções para os nossos graves níveis de iliteracia. No campo da literatura infantil, serão proferidas comunicações sobre as obras de Manuel António Pina e Matilde Rosa Araújo.
Para mais informações, poderão consultar este link.

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Leituras



Português Corrente, estilos do Português no ensino secundário

Maria Raquel Delgado-Martins; Hugo Gil Ferreira
Editorial Caminho, Lisboa, 2006


Este livro pode ser muito útil a docentes de língua portuguesa, porque aborda questões fundamentais no ensino das competências de leitura, escrita, funcionamento da língua e expressão oral. Partindo de conceitos didácticos, os autores apresentam sugestões de trabalho, na maioria dos casos que visam a compreensão, por parte dos alunos, de conceitos e situações que se relacionam com o discurso. Para além de uma acurada distinção entre a utilidade do texto literário e do texto não literário, também o discurso oral é trabalhado quer numa perspectiva espontânea de diálogo professor-alunos quer numa perspectiva preparada.
As escritas especializadas, a inter-disciplinaridade e a comunicação social estão igualmente presentes.
No final, um capítulo dedicado à literacia apresenta algumas definições sucintas de literacia e analfabetismo, alguns dados do PISA 2001, da OCDE, o caso irlandês e algumas actividades a realizar com os alunos de forma a sensibilizá-los para a questão, ao mesmo tempo que treinam as suas competências numa tipologia de escrita ou de texto.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Histórias Itinerantes

Descobri mesmo agora o projecto «A escola, a biblioteca, a comunidade», que foi levado a cabo no ano lectivo 1997/98. Com o apoio de uma professora destacada para o efeito, várias EB1 contavam parte de uma história que no final seria o resultado do trabalho conjunto de todos os grupos. Cada escola criava parte da narrativa, a partir do que recebia da escola anterior, e ilustrava o seu momento. Quando se completava a história concebia-se um livro onde constava a produção escrita e a ilustração de cada grupo. Aqui todos viam o resultado do seu trabalho e de todos os outros meninos que não conheciam.
As histórias e o projecto estão disponíveis aqui. Vale a pena uma visita. A internet começa a guardar as memórias colectivas e individuais que nos formam e contribuem para formar novos públicos.

domingo, 20 de agosto de 2006

Memórias de uma lacobrigense

Estivemos em Lagos a passar o fim de semana prolongado, em casa de uma amiga que viveu lá grande parte da infância e a adolescência. Em conversa, ficámos a saber que a Biblioteca fixa da Gulbenkian em muito ajudou a alimentar a sua curiosidade pelo mundo. À época, o espaço era exíguo, uma sala albergava todos os públicos que desejassem ler ou requisitar livros. Mas a bibliotecária tinha um afecto e um conhecimento específico acerca dos interesses dos mais novos, recomendando livros e responsabilizando as crianças pelos objectos preciosos que levavam para casa.
Quem não se lembra deste urso fanático por panquecas, do seu barco e dos seus amigos? Foi assim que a nossa amiga os conheceu. E ainda se lembra do momento.

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Diário dos Açores VII

Ver para Crer

A última actividade para o curso foi uma exposição com os trabalhos do grupo. Na véspera da última sessão colocámos os desenhos nas vitrines do corredor que dá acesso à sala de leitura infantil e às salas de expressão plástica (onde estávamos) e dramática. Com a ajuda da equipa de animação da biblioteca tapámos os vidros de forma a que ninguém se apercebesse quando passasse. Assim, convidámos os nossos pequenos artistas a um breve passeio de inauguração. À medida que foram retirando as cartolinas, os olhinhos brilhavam à procura dos seus desenhos, colagens e histórias.
Depois, entregámos a cada um um convite destinado aos pais, feito pela equipa de animação. Ali, todos puderam revisitar a semana que passáramos juntos, sentindo-se recompensados pelo seu trabalho. Para mais tarde recordar.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Ouvir falar de livros

Acabou há pouco o programa semanal Livro Aberto (RTPn). O convidado de Francisco José Viegas foi Fernando Pinto do Amaral, a propósito do seu livro de contos que saiu recentemente pela D. Quixote (Área de serviço e outros contos).
Mas o que me manteve presa ao programa foi a simplicidade com que o poeta, professor, e agora ficcionista, falou da importância dos livros e da leitura. A conversa não era genérica, por isso escapámos às frases feitas: ler é importante porque...
A propósito dos clássicos, Fernando Pinto do Amaral deu um argumento que me parece inquestionável, a partir de uma ideia de Italo Calvino (Porquê ler os clássicos, Teorema, 1994): os clássicos devem ser lidos porque neles nos reconhecemos, enquanto seres humanos. Simplesmente isso. Homero, Shakespeare, e outros, abordam temas intemporais, como o poder, as grandes paixões (em sentido lacto), o ciúme, a inveja, a morte. O que Fernando Pinto do Amaral diz é que é importante estabelecermos essas pontes, porque ao encontrarmos pontos de contacto não só nos reconhecemos (nós, leitores), como nos questionamos acerca de nós próprios e daquilo que ainda não conhecemos.
Assim, os clássicos são os livros que o crivo da leitura não mata, o crivo da relação íntima entre leitor e texto, mais do que aqueles que um ou outro cânone fixa. Até porque pode haver obras consideradas clássicas que não surtem tal efeito simultaneamente reconfortante e desconcertante.
A propósito dos Lusíadas, a ideia é outra, não se prendendo tanto com essa intimidade individual da leitura e mais com uma auto-imagem colectiva que a época tinha do que era ser português, e do aproveitamento desde então até agora de imagens consideradas úteis, benéficas, relevantes para a auto-estima de uma identidade.
Ouvir falar de livros assim contribui para desmistificar o lugar inacessível do pensamento literário e das hierarquias de leitura.

domingo, 6 de agosto de 2006

Leituras

A Princesa que bocejava a toda a hora

Mister Corvo

Neste final de tarde abrasador fomos até à Fnac do Chiado. Para além da nova disposição da secção infantil e juvenil, que tem agora mais estantes e está dividida por faixas etárias, chamaram-nos para uma leitura mais profunda dois livros da recém-chegada editora OQO. Não temos muita informação sobre a sua origem, apenas que é Galega, o que muito nos apraz, e que, tal como outras (a Kalandraka, por exemplo), recolhe a adapta contos tradicionais de todo o mundo, mas não só. As ilustrações são muito boas recorrendo a técnicas, traços e tonalidades bastante diferentes. A tradução para português é da responsabilidade de Dora Batalim.
Ficam as sugestões. Bem diferentes: a primeira com uma moral mais linear, a segunda mais surpreendente. Mas ambas trouxeram a sensação boa de inocente realização ao final de mais um domingo citadino.

A Princesa que bocejava a toda a hora,
Carmen Gil
Elena Odriozola
(Não conseguimos importar a imagem da capa, o que é uma pena.)




Mister corvo,

Luisa Morandeira
Mauricio A. C. Quarello

Diário dos Açores VI

Ver para Crer



Com o livro «O Sultão e os ratos» a actividade foi diferente e mais estimulante. A partir de algumas das ilustrações do livro, pedimos a cada grupo que inventasse uma história. Contámos com a preciosa ajuda das auxiliares que deram apoio aos vários grupos quando tentavam ordenar as imagens, para a partir daí contar a história.
Depois cada grupo escolhia um porta voz que contava a história em voz alta. Nós registámos cada uma delas e limámos algumas falhas de sentido. Esta actividade pareceu-nos muito útil para a construção de um raciocínio narrativo, diacrónico e causal. Pode ser feita com grupos, ou com a turma toda, numa construção conjunta apoiada pelo professor. Quando há várias histórias que resultam da mesma fonte, as crianças comparam espontaneamente as versões, os elementos novos, e até o sentido da história. O acto de contar é importante para criar uma distância em relação ao produto criado. Este tipo de actividade pode ser repetida com variantes, até porque depois a leitura da história é sempre benvinda e actua como confirmação da história criada.
O Sultão e os Ratos
Texto do Grupo A
Era uma vez três castelos que estavam em cima de um queijo. Neste reino, o trabalho dos elefantes era fazer queijo. Um dia os ratos apareceram e atacaram os queijos. O sultão, que mandava no reino, viu e quis mandar embora os ratos. Para resolver o problema chamou os cães. Mas as pessoas ficaram com medo deles. De repente, o sultão ficou doente e foi ao médico para se curar. Como poderia acabar com o medo das pessoas?
Texto do Grupo B
Era uma vez um rei, uma rainha e uma menina que viviam num castelo. Um dia apareceram por lá leões e o rei começou a chorar porque tinha medo deles. Os leões atacaram-no. O rei foi ao médico, que o tratou e quando chegou a casa, a cozinha estava cheia de ratos. Então, o rei foi ao jardim zoológico onde encontrou três elefantes. Queria pedir-lhes ajuda para se livrar dos ratos.
Texto do Grupo C
Era uma vez um castelo onde vivia um rei. Um dia o rei estava com dores de cabeça e foi ao médico. Quando voltou, a casa estava cheia de ratos em cima dos queijos. O rei pediu ajuda aos elefantes por serem muito grandes, mas eles fugiram com medo dos ratos. Então apareceram os leões que deixaram o rei a chorar por ter medo deles.
Texto do Grupo D
Era uma vez um castelo que estava por cima de um queijo gigante. O sultão que vivia no castelo ficou com gripe das aves. Foi ao médico que o tratou com a água da vida. O povo estava todo a chorar com medo que ele morresse. Quando o sultão voltou os ratos estavam nos queijos, mas os cães afastaram-nos. Por causa disso os elefantes assustaram-se, fugiram e atropelaram toda a gente.

Diário dos Açores V

Ver para Crer

A ilustração foi um recurso essencial no curso. É um tipo de linguagem que as crianças desta idade dominam muito bem, e através dela podemos até percepcionar algumas características de cada uma, como o perfeccionismo, a dificuldade de organização espacial, a necessidade de representar dentro dos limites da realidade, a importância de certos elementos relativamente a outros.
Com «O Bebedor de Tinta», desejávamos que respondessem pelo desenho à crítica que tinham implicitamente feito à capa do livro, quando maioritariamente votaram nela como aquela de que menos gostavam. Mas no fundo os seus desenhos não se afastaram muito do homem estranho ou do menino curioso que o persegue. Alguns, mais preocupados em dar informações sobre a história incluiam um livro.
Com os «Avós», pedimos-lhes que desenhassem o que quisessem a partir da história que lhes haviamos contado. Quase todos desenharam o baile, o motivo mais importante da narrativa, e os avós. Neste exercício comprovámos que o grupo tinha percebido a lógica narrativa, já que escolheram espontaneamente o aspecto essencial da história.
Apesar de não serem actividades novas para eles, o desenho, tal como a escrita, constitui um recurso muito útil para treinar desde muito cedo, as competências de leitura.