terça-feira, 27 de junho de 2006

Livros em Desassossego - Como seria o blogue do O'Neill?

A quarta edição de Livros em Desassossego marcada para 29 de Junho às 21h30, na Casa Fernando Pessoa, tem por título Blogues e livros: cúmplices ou rivais? Na discussão participam Pedro Mexia, blogger, poeta e cronista (que já publicou um livro – Fora do Mundo - em que reúne textos que nasceram em blogues que manteve); Eduardo Prado Coelho, professor universitário, cronista e crítico literário (que diz não ler blogues) e Fernanda Câncio, blogger e jornalista (que não se vê a publicar em livro aquilo que escreve no blogue). O editor de serviço será Vasco Santos, da Fenda. Maria Antónia Oliveira faz a pré-apresentação da biografia de Alexandre O’Neill e tenta encontrar resposta para a dúvida sobre se, caso fosse vivo, o poeta d’A Feira Cabisbaixa teria um blogue. A moderação estará a cargo de Carlos Vaz Marques.
Informação retirada daqui.

sábado, 24 de junho de 2006

Há lugar para o não literário?

A Sara deixou-nos, num comentário, esta recomendação de leitura. É sobre o lugar da Banda Desenhada na literatura infanto-juvenil, e os diversos preconceitos que existem a respeito, nomeadamente que a Banda Desenhada não tem a mesma qualidade literária que outros textos narrativos ou poéticos, ou que se começa pela Banda Desenhada (que está num escalão inferior) para chegar à dita literatura.
Alguns dos argumentos apresentados no texto, de forma a contrariar estes preconceitos, fizeram-me pensar sobre a importância da literatura.

Agora que se volta a discutir, por causa da lista do Plano Nacional de Leitura, a importância dos 'clássicos', questiono-me se alguém está a pensar em todas as outras leituras necessárias a um indivíduo adulto. Mais, leituras necessárias e leituras de prazer.
Assim, será que estes 'clássicos' desenvolverão o gosto, nas crianças, por enciclopédias temáticas, por revistas científicas ou tecnológicas, por livros de história, demografia, geografia física, filosofia, psicologia, e uma infinitude de catálogos como aqueles que encontramos nas estantes das livrarias ou das revistas de crítica e divulgação de livros?
Conheço casos de pessoas cujo nível de literacia será claramente alto, com currículos científicos invejáveis e cujos interesses de leitura não passam pela literatura.
No que diz respeito à literatura, não estou radicalmente contra a fixação de um cânone (apesar de todas as questões teóricas acerca do conceito de cânone e de clássico). Mas não estaremos a subestimar a motivação para a leitura de textos não literários?
Muitas vezes, os não leitores não sabem que existem livros sobre assuntos que lhes interessam. E não podemos perder leitores por essa razão, não quando sabemos que actualmente é possível encontrarmos tudo. Basta que nos interessemos o suficiente pelas pessoas, e por livros.

sexta-feira, 23 de junho de 2006

Leituras: a ler «O Principezinho»

Estou a ler O Principezinho, que comprei na Feira. E começo a perceber a razão que o torna um dos clássicos da literatura infantil. A ideia só por si é brilhante: uma criança que vive sozinha num planeta só seu (como todas imaginam), mas que é tão pequeno que não tem nada para explorar (o que todas as crianças desejam, conhecer outras coisas). A partir daqui, todos os seus encontros nos dão a conhecer valores, sempre vestidos de personagens humanas, animais ou até vegetais, como acontece com a flor que pede para ser libertada da redoma que supostamente a protegia dos perigos do clima e de outros animais. A repetição e a enumeração estão lá, o que prova o conhecimento da estrutura cognitiva das crianças, mas as imagens serão talvez radicalmente surpreendentes. Quer a ideia de fábula, quer a de conto moral, são muito ultrapassadas por esta narrativa, pelos episódios distintos que a compõem. O estranhamento acerca da inverosimilhança do texto é evidente para um leitor adulto, o que dizer de uma criança. Mas para um leitor adulto as analogias simbólicas são facilmente identificáveis, o que torna o texto ainda mais bonito.
Não tenho grandes certezas, por tudo isto, se O Principezinho é um livro para crianças, ou se os livros para crianças devem ser imediatamente entendidos por elas. Mas, na história da literatura infantil, este é um livro incontornável precisamente por nos fazer questionar a sua recepção no tempo bem como as fronteiras do que podemos catalogar como literatura infantil.

quinta-feira, 22 de junho de 2006

«Quem disse que não gostamos de ler» chega ao fim

As Comunidades de Leitores nas EB 2/3 da Amadora chegaram ao fim. Foi hoje a última sessão na Miguel Torga. Este projecto foi muito gratificante porque me permitiu percepcionar algumas questões metodológicas ao nível didáctico e motivacional, mas essencialmente porque através dele criei laços com os vários grupos.
Neste momento a certeza mais convicta que tenho é a de que todos juntos criámos uma memória afectiva em torno das sessões, logo em torno dos livros. Em todos os grupo houve leitores surpreendentes, ou pela sua maturidade, ou pelo seu prazer pela leitura, ou pela forma como se foram envolvendo cada vez mais.
Infelizmente, por razões que me ultrapassam a mim e à bibliotecária da Amadora, o projecto não poderá continuar. Pelo menos não nos mesmos moldes. Mas este ano lectivo ficará marcado para nós como aquele em que voltei à escola, e senti o espaço de todos os que participaram.
Não sei se formámos leitores. Sei, porque alguns o disseram ou escreveram nos questionários de avaliação do projecto, que houve que tivesse descoberto que até gostava de ler. Mas certamente vão ficar histórias para contar mais tarde. E isso poderá ser um contributo essencial para que um dia adultos, estes adolescentes compreendam a importância da leitura para os seus filhos.
Esta é a ilustração da Sílvia Moldes para o cartazete e para os folhetos de divulgação das comunidades.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Leituras de Verão???

O que é isso de leituras de férias? É suposto que sejam leves, sobre espaços paradisíacos, ou aventuras empolgantes? Ou apenas o aproveitamento do tempo livre para tranquilamente, num outro ambiente, longe das rotinas desgastantes do dia a dia, disfrutar de um bom livro?
Certo é que a Fnac apresenta no seu site uma breve lista de livros para férias, catalogados entre os destaques da página inicial das sugestões de férias, os romances, os guias e os livros de actividades.
No que diz respeito à ficção, apenas um livro escrito por um autor português consta do cardápio: «Primeiro as senhoras» de Mário Zambujal, Oficina do Livro. Não querendo entrar numa discussão sobre a verdadeira promoção da leitura, ou sequer a escolha de bons, médios ou maus livros para ler, nem por outro lado regozijar-me por não constar nenhuma autora da chamada literatura ligh, fica apenas esta nota.
A Fnac é uma cadeia multinacional de livrarias. Não tem nenhum dever de promoção da leitura, para além (e foi muito importante para a recepção dos livros em Portugal) de permitir ao público manusear e ler os livros na livraria. Provavelmente a secção é patrocinada, como acontece com os escaparates, pelas editoras que podem pagar a publicidade.
Mas, se a literatura ainda pode, e acredito que sempre poderá, ser utopia, confesso que gostava de encontrar outros títulos. Pelo menos, que alargassem o catálogo do que se entende por romance, para além do drama, acção, história, mistério, fantástico, e alguns pózinhos de boas descrições.

segunda-feira, 19 de junho de 2006

Feira do Livro de Lisboa - que futuro?

Passados alguns dias sobre o encerramento da Feira do Livro de Lisboa, e depois de várias notícias que apontam para cenários catastróficos, importa reflectir sobre o modelo que existe e sobre as modificações que podem conduzir a uma melhoria das condições para editores e visitantes.
Desde que se iniciaram as obras do Túnel do Marquês, há cerca de três anos, a entrada para a Feira do Livro passou para o topo do Parque Eduardo VII. Esta alteração trouxe diversas desvantagens a começar por uma maior dificuldade de acesso para quem se desloca em transportes públicos e levou, também, a que a Feira se tornasse menos visível e menos acessível para quem circula no Marquês de Pombal, local de acesso privilegiado na cidade. O investimento na promoção deste evento diminuiu visivelmente. Se o ano passado assistimos a programas em directo na SIC Notícias, a anúncios de televisão e rádio e à colocação de cartazes por toda a cidade, este ano pouco ou nada se fez. Foram realizados alguns directos em canais de televisão, mas, no que diz respeito à promoção, a Feira tornou-se quase invisível. Em conversa com um visitante da Feira, enquanto se discutiam estas questões, foi apontado o exemplo da Feira do Livro de Madrid que marcou presença em canais de televisão durante uma semana e ocupou diariamente cerca de cinco ou seis páginas em jornais de referência.
A aposta num programa de acções culturais redundou num fracasso. Os únicos dias em que se registou uma enchente no auditório coincidiram com dois concertos e com a apresentação de um ou dois livros. Importa também falar do auditório e do edifício que o acolhia no topo do Parque. Quando me dirigi à Feira no primeiro dia pensei que o edifício não estava terminado. Para além da estrutura metálica, opção arquitectónica discutível, não havia qualquer indicação sobre as datas de início e fim da feira. Ao entrar no auditório, e depois da excelente opção do ano anterior, em que se podia desfrutar de uma excelente vista sobre Lisboa, a sensação de claustrofobia quase se fazia sentir. Se a Feira se realiza em Maio/Junho, meses em que se registam temperaturas elevadas, julgo não fazer sentido construir um edifício todo em madeira apenas com duas entradas de ar.
Muitas vozes se levantam sobre a necessidade de mudar a localização da Feira, transferindo-a para o Parque das Nações. Este projecto parece-me desajustado. O Parque das Nações, apesar de ter hoje uma taxa de visitantes razoável, está situado numa das entradas da cidade e não no centro, como acontece com o Parque Eduardo VII. A solução passará por colocar a Feira no início do Parque, junto ao Marquês de Pombal, contribuindo desta forma para um aumento de visibilidade dos pavilhões e de acessibilidade. Para quem defende que o Parque das Nações poderá permitir um maior afluxo de pessoas das zonas de Vila Franca ou Alverca, importa lembrar que junto ao Marquês de Pombal se situa um terminal de transportes provenientes dos Concelhos de Oeiras e Amadora.
Quanto à programação associada à Feira, e se no ano anterior o programa elaborado por Paula Moura Pinheiro reuniu ofertas mais estimulantes, uma das possibilidades talvez passasse por organizar espectáculos ao ar livre, aproveitando o espaço envolvente. A realização de outras feiras ou mostras de artesanato, de produtos biológicos ou até de música, desde que não retirassem o papel central ao livro, poderia funcionar como atractivo para mais visitantes.
Nesta reflexão não se podem esquecer outros factores que talvez contribuam para mais um fracasso, a começar pela baixa taxa de leitores que associada à crise económica afasta o livro das prioridades e pela coinicidência de datas com dois festivais de música, que num país como o nosso, por razões culturais e de mentalidade e por investimentos avultados em massacrantes campanhas publicitárias, secam a restante oferta cultural.
Muitas destas questões serão, talvez, afloradas pelas duas Associações que organizam a Feira do Livro, a APEL e a UEP. Resta saber se algumas tensões, que já se arrastam há alguns anos e que têm origem na visibilidade que cada organização reclama e na presença de livreiros em associação com editores, não levarão uma vez mais ao coro de lamentos que todos os anos se levanta no final de cada Feira.

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Pressupostos da leitura

Estive ontem a reler a comunicação da Dora Batalim, «Das histórias nascem histórias. Leituras», no 6º encontro sobre Literatura para Crianças e Jovens, em Beja, 2004.
Dora Batalim conta a história de um atelier realizado por si e por Fernanda Fragateiro a partir de uma exposição encomendada pelo IPLB à artista plástica, de acordo com uma temática literária. As obras escolhidas foram A Floresta e A menina do mar, de Sophia de Mello Breyner. Então, criou-se um ambiente em quatro fases, de acordo com as abordagens à leitura e às possíveis explorações que se pode fazer dela. Entre a audição da história, os livros, a criação de um ambiente ilustrado e objectos especiais promove-se a imaginação e a criatividade.
Estas fases, para além de servirem como orientadoras do processo de leitura, podem ser sugestões teóricas para outras criações, quer no âmbito da leitura recreativa, quer no treino de leitura em aula.
Eis os quatro pressupostos: da recepção à intervenção.
«Ler porque nos contam.»
«Ler porque cada um recolhe pedaços diferentes. A ilustração e a escrita»
«Ler porque agarramos palavras e criamos outros textos. Das palavras nascem histórias.»
«Comunicação: ler, lendo-me com outros»
Podem encontrar a comunicação neste livro.

terça-feira, 13 de junho de 2006

13 de Junho, dia importante II

Há um ano atrás, morreu Eugénio de Andrade.

Frente a frente

Nada podeis contra o amor,
contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!

Para os mais novos, fica


um livro em prosa


História da Égua Branca









e um de poesia

Aquela nuvém e outras

13 de Junho, dia importante I

13 de Junho de 1888, nasce Fernando Pessoa.

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes,
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na louça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado -,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubada na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...
Álvaro de Campos. 15 de Outubro de 1929
Ficções do Interlúdio, Assírio e Alvim, 1998

Despedida da Feira do Livro

Acaba hoje a Feira do Livro.
Estou um pouco melancólica, faz parte. Foram dias e especialmente noites bem passadas a subir e descer o Parque Eduardo VII, a procurar aquele saldo mesmo a calhar. Agora fica uma lista do que vou comprar a seguir.
A Assírio e Alvim oferecia talões de saldo e pela compra de Folhas de Erva ganhei três vales, que vou usar até Dezembro numa das suas livrarias. Vou comprar Palavras difíceis, do António Mega Ferreira, da colecção infantil, a Assirinha, e Me, myself and I, do Manuel de Freitas, sobre o Al Berto.
Também não comprei a Teoria Estética, do Adorno, das 70. Nunca foi Livro do Dia, e apesar de ser uma obra de referência para a teoria da literatura, não é um livro de que precise para já. Mas está reservado nas minhas intenções.
Com pena, ficaram o Frederico, da Kalandraka, que foi Livro do Dia, anteontem, mas não consegui chegar a tempo de o comprar; e a Correspondência a três: Rilke/Pasternak/Tsvétaieva.
E mais, boas, memórias.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

Compras e memórias II



Acabei de abrir o meu Folhas de Erva. Vinha envolvido numa película de plástico e quando a rasguei senti um cheiro a cola, ou a tinta (não sei bem), que me lembra os desenhos que pintávamos sobre uma enorme mesa de madeira, com tintas e pincéis, num papel fosco, lá na saudosa escola primária.
Fiquei um bocadinho desapontada por o livro não ser bilingue. Embora não seja muito competente para as línguas, gosto de ler a tradução podendo recorrer ao original para marcar o ritmo, ou identificar alguma palavra ou expressão. Paciência.
Já não leio nada do Walt Whitman desde os primeiros tempos de faculdade, quando resolvi que seria interessante comparar o Canto de mim mesmo com a poesia do Alberto Caeiro. A professora não se interessou muito pela ideia, já que a comparação mais evidente é feita com Álvaro de Campos. Ainda hoje estou para saber se seria um erro assim tão grande arriscar no outro heterónimo. De qualquer forma, à época não o conseguiria fazer. E abandonei o Whitman.
Quando vi o livro a um preço tão apetecível, ontem, pensei que era agora ou nunca que iria revisitar, com outros olhos, aquele que por muitos é considerado o primeiro grande poeta americano (1819-1892).
Quando mo deram a conhecer tinha uns dezassete anos. Houve versos de que gostei, que me chamaram a atenção. Mas não o compreendi. Recordo vagamente um pulsar de sensações a partir do eu, sempre o eu, enorme!
A carga lírica de Whitman está associada a uma fase incipiente do meu contacto com a poesia, diria uma fase pré-baudelairiana. Não conheço Folhas de Erva - em inglês soa muito melhor: Leaves of grass. É uma recolha, feita pelo autor, de toda a sua poesia, incluindo Cálamo e Canto de mim mesmo. Vai ser uma experiência e tanto, agora que há muito ultrapassei essa fase de deslumbramento com o mundo, a fase pré.

Compras e memórias

Ontem entusiasmei-me com os livros do Dia. Acabei por comprar apenas Folhas de Erva, do Walt Whitman, edição Assírio e Alvim, e O Principezinho, de Saint-Exupéry, edição Presença.
Parece que foi de propósito, depois do último post, ver o livro no escaparate de Livro do Dia.
Lembrei-me então de que já o lera, quando era pequena, e que, tal como aconteceu com muita gente da minha geração, não me lembro de perceber grande coisa acerca do livro. Pelo contrário, lembro-me da sensação de estranheza que me provocou, e que despoletou um certo desconforto. Li-o até ao fim, porque nunca tive o hábito de abandonar livros a meio quando era pequena. Mas não gostei. Hoje acho curioso lembrar-me tão bem das sensações que a leitura me despertou, quando não tenho nenhuma imagem minha a ler O Principezinho. Creio que terá sido através da biblioteca de turma que fazíamos na primária, pelo que devia ter uns oito ou nove anos. Mais não sei. Mas o mais engraçado é que as sensações que a minha memória recupera hoje estão muito próximas das que procuro ter quando leio prosa, e até alguma poesia. Dá que pensar. Que livros formam afinal as nossas memórias?

sábado, 10 de junho de 2006

Miguel, o Príncipe

Para a Sílvia.

Compras pela Feira

Ontem o meu passeio pela Feira deu frutos. Estou muito entusiasmada.


Crítica, ensaios, artigos e entrevistas, Fernando Pessoa, Assírio e Alvim


Tem os artigos que Pessoa escreveu em defesa de António Botto, quando alguns estudantes de Coimbra se manifestaram contra o poeta, nomeadamente «Aviso por causa da moral», que já li há uns anos numa edição da saudosa Hiena. Também um ensaio sobre Mário de Sá-Carneiro depois da sua morte, que começa assim: «Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga.»

Música Antológica & onze cidades, Rui Pires Cabral, Presença

É um dos livros de poesia mais consensuais, no que diz respeito à considerada nova geração. E, apesar de só ter dado uma vista de olhos, já estou a gostar.



O segredo do rio, Miguel Sousa Tavares, Oficina do Livro

Os segredos são angústias doces quando se fazem de sentimentos por pessoas, animais, objectos ou espaços. Este segredo é ternamente ecológico, pedagógico e principalmente muito afectivo.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Livros do Dia

Sugiro dois livros infantis que estão hoje com o desconto do dia. Apesar de já passar das 21h, ainda se pode passear pela Feira até às 24h.

O Segredo do Rio, Miguel Sousa Tavares, Oficina do Livro



A Mosca Fosca, conto tradicional russo, Kalandraka

Ainda não decidi qual dos dois vou comprar, mas não vou voltar de mãos vazias...

Kalandraka na Feira


Ando muito atrasada com as actualizações, mas desta vez fica só uma referência à Kalandraka. Ontem comprei no Pavilhão da Kalandraka da Feira do Livro de Lisboa o álbum Avós. É um exemplo do que pode ser um bom livro infantil: o elogio da velhice sem paternalismos nem moralismos, a organização enumerativa das acções, o recurso à repetição que prende a atenção do leitor a cada novo elemento que se introduz ao mesmo tempo que memoriza os que se vão repetindo, e a comparação como recurso simbólico. Claro, as ilustrações são muito, muito bonitas.
Vale a pena descobrir a Kalandraka, pelo cuidado, o amor e o rigor que coloca na edição de textos, nas traduções, nas ilustrações.
Para além disso, os livros são testados em escolas, jardins de infância e associações por educadores e professores que a editora contacta.
Não me canso de elogiar.

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Plano Nacional de Leitura

Foi ontem apresentado o Plano Nacional de Leitura, um projecto pensado para os próximos dez anos e promovido pelos Ministérios da Cultura, da Educação e dos Assuntos Parlamentares.
Na sessão de apresentação foram tornadas públicas as decisões de dotar cada sala de aula com um número mínimo de livros, um para cada dois alunos, propondo-se uma hora de leitura diária no 1.º Ciclo e referências constantes à leitura nas aulas de Português do 2.º Ciclo. É também referida a necessidade de formar mediadores de leitura que podem ser os pais, os professores e a sociedade em geral através do reforço de competências em cada um destes grupos. As Bibliotecas Públicas deverão reforçar o seu plano de acções apostando em locais não convencionais como lares de idosos ou espaços públicos diversos. O orçamento para a execução deste plano ronda os dois milhões de euros e nos próximos dias deverá entrar em funcionamento um site onde serão disponibilizadas informações detalhadas sobre as acções a desenvolver.
Quando forem conhecidos mais pormenores voltaremos a este assunto.

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Dia Mundial da Criança

É um dia especial, mesmo quando crescemos. Lembramo-nos sempre das pequenas surpresas que ficavam reservadas para este dia. Porque os dias especiais podem ser multiplicados, fica com Um livro para todos os dias, o desejo de que renovemos os sonhos.Para todos os que se sentem crianças e, especialmente, para elas.

Um livro para todos os dias, Isabel Martins e Bernardo Carvalho, Planeta Tangerina

De volta a Lisboa


Experiências de Ponta Delgada

Já regressámos à base, após algum nervoso miudinho nos voos. Por falar em medos, os alunos que frequentaram os quatro ateliers na Biblioteca Pública confessaram-nos que algumas salas de arrumação, gabinetes e armários da escola lhes metiam medo. A que propósito?
Para nos conhecermos melhor, claro! Mas sobretudo, porque através de algumas confidências (medos, coisas que gostavam ou não de aprender, férias e saudades), lançavámos pistas para a audição da história O Sam e o som (Ana Saldanha e Basil Deane, com ilustrações de Gémeo Luís, ed. Caminho). Depois, com o jogo da palavra proibida, explorámos sinónimos e significados, que os grupos identificavam à medida que íamos lendo a narrativa.
O livro funcionou bem por outra razão. O facto de terem contacto com um texto bilingue foi interessante e especialmente útil porque, para além de já terem iniciado a aprendizagem do inglês na escola, têm um contacto familiar e social privilegiado com crianças que vivem em países anglófonos, nomeadamente nos E.U.A..
A Biblioteca Pública está integrada num antigo convento, num espaço amplo e esteticamente privilegiado. Para além da sala de leitura para adultos e da sala infantil, lá podemos encontrar uma sala de expressão plástica e outra de expressão dramática. Mas o que poderá contribuir para que a Biblioteca consiga segurar o seu público ao longo das várias fases de desenvolvimento é o facto de contarem com uma sala juvenil. Esta aposta está ganha à partida, porque sabemos que na adolescência, todos desejam ter um espaço só seu, sem intrusos. E a equipa da Biblioteca mostra assim a consideração e atenção que dedica a todos os seus públicos.