domingo, 30 de abril de 2006

Visita a Santarém - os mediadores

No sábado fomos a Santarém conversar com a bibliotecária Florbela Rebelo. O mote da visita foi a apresentação dos nossos projectos de animação e formação de mediadores. Mas o diálogo estendeu-se para além deste assunto e permitiu-nos partilhar experiências de promoção da leitura. O nosso diagnóstico é semelhante e não surpreende: as acções pontuais são importantes como forma de divulgação mas não formam, por si, leitores; é importante desenvolver projectos de continuidade com crianças desde muito cedo, sem esquecer os adolescentes e a dificuldade que todos encontramos na escolha da literatura juvenil; não será possível formar e acompanhar novos leitores sem formar ou ajudar a delinear estratégias junto dos mediadores de leitura (pais e professores).
O papel dos mediadores merece umas palavras. Florbela contava-nos que num projecto de animação em duas EB1s do Concelho, uma das escolas respondeu de forma muito positiva contrastando com a segunda. A diferença centrava-se claramente no apoio que encontrava nos docentes da primeira escola, o que não acontecia com a outra. Esta situação é, infelizmente, transversal, quer ao nível geográfico, quer no que respeita aos níveis de ensino.
Deixo dois exemplos que sucederam comigo e/ou com o Sérgio.
No atelier Experiências com Letras, com um grupo do 3º e 4º ano do 1º ciclo, as duas professoras passaram as duas sessões a conversar. Fornecemos-lhes os materiais que usámos mas não se mostraram interessadas em saber o porquê das nossas escolhas ou sequer os nossos objectivos. Fiquei especialmente chocada quando percebi o interesse de um aluno por assuntos históricos. O menino tinha escolhido uma carta de foral na estante da biblioteca. Então, perguntei-lhe se conhecia os livros da colecção Viagens no tempo, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Não conhecia. Fomos buscar um dos livros à estante e deixámo-lo com o aluno durante as sessões, para que pudesse explorá-lo.
Deixo a pergunta: Como é possível que nós, animadores, em três horas tivessemos percebido os interesses do aluno e que a sua professora ainda não os tivesse aproveitado para o incentivar a ler?
A outra situação é oposta. Num atelier de uma hora, Ver para Crer, o meu principal objectivo era estimular a curiosidade dos alunos (3º e 4º ano do 1º ciclo) pelos livros e pelas histórias. Para isso a turma realizava um jogo de correspondência em vários grupos, com capas, títulos e primeiras páginas. Depois avaliavam criticamente cada livro, sempre na perspectiva do contacto anterior à leitura. Em suma, a ideia era que escolhessem os livros a partir dos seus indícios paratextuais e textuais. No final do atelier, a professora escolheu outros livros na Biblioteca para repetir os exercícios na sala de aula.
Esta é a diferença. E as consequências serão cada vez mais notórias. Para o bem e para o mal.

A propósito do Dia Mundial da Dança

Comemorou-se ontem o Dia Mundial da Dança. A propósito da efeméride recordo um conto de Alice Vieira: «Valsa a Três Tempos».

É o primeiro conto do livro Trisavó de Pistola à Cinta e outros contos (ed. Caminho). Foi a primeira proposta de leitura para as comunidades de leitores do projecto
Quem disse que não gostamos de ler, que se realiza durante este ano lectivo com seis grupos de alunos de escolas EB 2,3 do Concelho da Amadora e é da responsabilidade da Biblioteca Municipal com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

Quando apresentei o livro aos grupos atribuí-lhes uma tarefa de acompanhamento da leitura: cada um deveria escolher de entre os dez contos aquele de que mais gostava, e fazer um livro artesanal a partir do conto. Para isso havia algumas regras: a atribuição de um novo título, a inclusão de badanas e o registo de um pequeno resumo numa delas.

«Valsa a três tempos» foi um dos contos mais escolhidos. Provavelmente porque a temática romantica agradou às raparigas e porque era o primeiro conto do livro (para os mais preguiçosos).

Deixo alguns exemplares.

Aproximam-se as Feiras do Livro de Lisboa e Porto

Já são conhecidas as datas para a realização da Feira do Livro de Lisboa, que decorrerá entre 25 de Maio e 13 de Junho, e para a Feira do Livro do Porto, a decorrer entre 24 de Maio e 11 de Junho. O número de editoras representadas será o mesmo, mas, reflectindo algumas dificuldades económicas, o número de pavilhões será menor. Entretanto, e no que diz respeito à Feira do Livro de Lisboa, sabe-se que, à semelhança do ano passado, as noites de 5.ª a Sábado terão uma programação musical da responsabilidade da EGEAC e que existirão outras actividades a programar pela Casa Fernando Pessoa e pelas Bibliotecas Municipais de Lisboa.

Horários de funcionamento:
Feira do Livro de Lisboa (Parque Eduardo VII)
Abertura
: de Segunda a Sexta-feira às 16 horas;Sábados, Domingos e Feriados às 15 horas;No dia 1 de Junho (Quinta-Feira, Dia Mundial da Criança), às 10 horas
Encerramento: de Domingo a Quinta-feira às 23.00 horas.Sextas-feiras, Sábados, véspera de Feriado e último dia de Feira às 24 horas.

Feira do Livro do Porto (Pavilhão Rosa Mota)
Abertura
: Segunda a Sexta-feira às 16 horas;Sábados, Domingos e Feriados às 15 horas;No dia 1 de Junho (Quinta-Feira, Dia Mundial da Criança), às 10 horas
Encerramento: de Domingo a Quinta-feira às 23,30 horas.Sextas-feiras, Sábados, véspera de Feriado e último dia de Feira às 24 horas.

(Post inicialmente colocado a 27 de Abril de 2006)

Liberdades de Leitura

Ler na TV

No programa Sociedade Civil (2, 14h-15h30m, diariamente) de hoje falou-se do prazer de ler. E, como acontece normalmente, debateram-se as causas para o pouco interesse pela leitura; as formas de promoção, os livros obrigatórios que constam nos programas escolares, os que criam novos hábitos e aqueles que não contribuem para o desenvolvimento do leitor…

É sempre bom ouvir falar de livros, até porque quanto mais se ouve mais as pessoas se consciencializam de que ler é importante. Mas continuamos a ser confrontados com uma terrível dificuldade: demonstrar a cada não leitor porque é importante ler no seu caso particular, o que deve procurar, que tipo de livros gostará ou não de ler.

Como sabem, por experiência própria, os leitores, o acto de ler é complexo porque faz parte das experiências que constituem a vida e a identidade de cada um. Ler ultrapassa em muito o acto prescritivo de uma receita para sermos mais cultos, mais informados, mais imaginativos, mais argumentativos… Ler não é por isso um comprimido que se tome a contragosto porque nos faz bem à alma.

E por isso me assusta por vezes ouvir repetidamente mensagens que se reduzem a esta tese, que se esvazia e nos prejudica a todos. Temo que se instale silenciosamente um clima de humilhação e vergonha em relação ao livro, em que todos confrontamos e somos confrontados com perguntas ou asserções como: "Já leste…?", "O quê, não conheces…?", "Tens de ler…"

Estas atitudes de ostentação inibem valores fundamentais da leitura e do leitor: o da liberdade e responsabilidade individual da escolha de cada um. A promoção passa claramente pela divulgação, mas por uma partilha e aceitação das escolhas, ou todo o encanto que tem a relação privilegiada entre leitor e livro se perde nos tentáculos opressivos dos lançamentos e da actualidade. A leitura não tem outro tempo que não o seu, e os não leitores têm de ser sensibilizados para isso.

Durante o programa, foi lido um email de um jovem que frequenta o 11º ano, e que perguntava como seria possível motivar-se para a leitura d'Os Maias, um livro demasiado grande, quando tinha a internet e os 'Morangos com Açucar'? Nenhum dos três convidados (Maria João Lopo de Carvalho, José Jorge Letria e João Aguiar) lhe soube responder. Imediatamente a conversa derivou para o erro que era serem Os Maias um livro obrigatório no programa de Português. Ora, independentemente dos argumentos relativamente aos programas, o que está em causa é que a lucidez com que este jovem escreve o seu email indica claramente que se preocupa, que está pelo menos consciente da importância da motivação para a leitura. Não é fácil responder. Maria João Lopo de Carvalho acabou por dizer que tudo dependia dos professores, porque havia maneiras e maneiras de dar a obra. Claro que sim.

Em primeiro lugar, a minha sugestão iria no sentido de que o jovem começasse o livro no segundo capítulo e lesse algumas páginas, a ver o que achava. Depois, que tentasse encontrar no seu universo de interesses um livro que lhe chamasse a atenção; que o lesse. Finalmente, que fizesse um esforço para ler 10 págs. por dia d'Os Maias e tentasse comparar o que é ler por gosto e por obrigação.

Quem gosta de ler não abandona a leitura por ser obrigado a ler um livro de que não gosta. No entanto é essencial que um não leitor tenha pelo menos uma boa experiência de leitura antes de uma experiência dolorosa. Outro aspecto a reter é que o acto de ler não é sempre ligeiro e fácil, às vezes custa. E isso, com o tempo, acaba por ser bom, muito bom mesmo.

(Post inicialmente colocado a 24 de Abril de 2006)

Bibliofilias

«Cito novamente:"bibliófilo, pessoa que ama os livros, que colecciona livros raros e preciosos."»

Da definição que Berit envia ao primo Nils no epistolário que escrevem um ao outro (Biblioteca Mágica, Jostein Gaarder e Klaus Hagerup, Presença), à última crónica de Jorge Silva Melo no Mil Folhas de ontem: o amor aos livros, o que neles nos chama a atenção, as nossas histórias com eles…

«A capa, primeira crítica» descreve a importância da relação entre o leitor e a capa do livro que vê pela primeira vez. E de como um bibliófilo com conhecimentos gráficos, Germano Facetti, deu à Penguin uma identidade.

«Com as suas capas, Facetti, cujo nome fixei nesses meus 20 anos, foi um meu primeiro leitor de tantos livros. Não eram capas inocentes, eram capas que me faziam ler com ele. Acompanhavam-me, intrometiam-se no texto (…).

«E, ainda 30 anos depois, dão-me a nota para eu seguir a pauta. Eu diria que a história da literatura não as pode ignorar, a estas capas. Talvez tenham sido, na imediatez das suas associações, na clareza da sua paginação, nas promessas que faziam, na maldição que lançavam sobre o texto (tão coladas a ele) um dos mais originais exercícios críticos do século, activas, intuitivas, rápidas como epigrama.»

Voltaremos a falar de capas, dos sentidos que podem despertar, da relação que podemos estimular entre elas e potenciais leitores.

Voltaremos a falar de Jorge Silva Melo, e das suas experiências bibliófilas.

(Post inicialmente colocado a 23 de Abril de 2006)

O Bicho nasce no Dia Mundial do Livro

Hoje é um dia especial. Aquele em que se comemora este objecto pessoal e universal que nos alimenta. Hoje é o dia em que se trocam rosas por livros, de acordo com a tradição catalã.

Hoje nascemos do desejo de falar de livros, de projectos que se vão fazendo em torno da leitura, das casas onde os vemos e lemos, das pessoas que a eles se dedicam. E de nós, do que vamos fazendo e sentindo, das experiências que nos acontecem.

(Post inicialmente colocado a 23 de Abril de 2006)