quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Experiências em Ansião



Entre as Festas de Natal e os desejos da Passagem de Ano, rumámos quarta-feira a Ansião, para realizarmos o atelier Experiências com Letras. Desta vez o nosso público não foi uma ou duas turmas e sim um conjunto de jovens entre os 11 e os 13 anos que frequentaram o atelier juvenil por inscrição directa na Biblioteca Municipal e por iniciativa de ATLs que frequentam. Por isso alguns dos quinze participantes vinham acompanhados por animadoras que assistiram e participaram no atelier.
Para além dos livros com sentidos, o exercício de escrita criativa com que quebramos o gelo e que introduz o tema da leitura e do livro, o grupo fez o exercício das metades, votou nos seus livros preferidos e encontrou os elementos estranhos em seis poemas.
Os livros que despertaram mais curiosidade no grupo foram, como é habitual, As crónicas de Spiderwick e o O Bebedor de Tinta, mas Ynari, a menina das cinco tranças e Uma argola no umbigo receberam muitos votos. O grupo era heterogéneo quanto a preferências e a curiosidade fê-los votar em vários livros.
Fechámos bem o ano.

sábado, 23 de dezembro de 2006

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Livros que foram e podem voltar a ser prendas

Antes de dar início às festividades e já em contagem muito decrescente, fica a última sugestão que é, simbolicamente, a da Mafalda. Mandei-lhe um email a desafiá-la a escolher um livro. Deixo aqui a sua resposta. Continuamos a trocar ideias, livros não tanto. Mas num jantar cá em casa, há um pouco mais de um ano, resistimos até às 5h da manhã a revisitar a obra do Saramago, de quem ela é uma fidelíssima leitora.
Quando me lançaste o desafio de escolher um livro que me tenha marcado, que me tenham oferecido ou que eu própria tenha dado como prenda a alguém, desatei freneticamente a dar voltas à cabeça para determinar exactamente qual o livro que mais me tinha marcado. Depois de algum tempo nesta luta, a rever mentalmente os livros que li e sobre os quais, na maioria das vezes guardo sensações agradáveis (e raramente a memória da história precisa) cheguei à conclusão que era muito difícil escolher "o" mais marcante. No entanto, lembrei-me de um livro que me surgiu no encalço de outro que li: "A história do Senhor Sommer". Sempre que me lembro deste livro sorrio. Já viste que boa sensação esta? Surgiu-me este livro depois de ler "O Perfume". Tal como referiste no teu post, foi um livro que li quase sem parar para respirar, na adolescência. Foi dos primeiros livros "para grandes" que li e foi tal o entusiasmo que resolvi ler todos os livros do autor. E quando me deparei com a "História do Senhor Sommer" fiquei rendida! Reli-o hoje a tarde, durante a sesta do Guilherme, porque (mais uma vez!) guardava na memória apenas sensações, mas não a história completa nem o "sempre importante" final. E voltei a perceber o fascínio deste pequeno livro, excelente prenda para miúdos e graúdos. Uma pequena narração que nos faz regressar às recordações da nossa infância, aos pequenos grandes dramas do dia-a-dia de uma criança, relatado num discurso de alguém que não esqueceu a visão mágica dos mais pequenos, nem a sua argumentação. Este livro tem como mote um rapazinho que habita uma aldeia onde vive também o Senhor Sommer, que anda a pé de um lado para o outro permanentemente, dia e noite, com sol ou neve, incansável num percuso interminável e sem razão aparente. Mas não é o enigmático Senhor Sommer o elemento de fascínio, mas sim o desenrolar dos dias do garoto, que nos leva a recordar aquelas perguntas que fazíamos apenas a nós mesmos e às quais respondíamos usando a nossa melhor e mais simples argumentação. Como no dia em que o pequeno vizinho do senhor Sommer aprende a andar de bicicleta: "Mas andar de bicicleta nunca me interessara particularmente. Este vacilante meio de transporte com apenas duas rodas magrinhas parecia-me de muito pouca confiança, até mesmo inquietante, pois ninguém conseguiu explicar-me por que razão uma bicicleta em descanso caía imediatamente, desde que não estivesse apoiada, encostada ou segura por alguém - mas não devia cair quando nela se sentava uma pessoa de trinta e dois quilos e nela passeava sem qualquer apoio ou suporte".De certeza que quando o li, te telefonei excitada a contar-te o quão encantador é este livro!
Mafalda Galhardas Pinto

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Livros que foram e podem voltar a ser prendas

Não sei bem como, veio parar-me às mãos, há 36 anos atrás, Giovanni’s Room, de James Baldwin (autor negro, americano e homossexual, lutador incansável pelos direitos humanos, que morreu em 1987). Muito sucintamente: David é a personagem central do romance. Americano, branco, troca os EUA por Paris, e enquanto a namorada viaja por Espanha envolve-se com um barman italiano, Giovanni. Este relacionamento põe em causa toda a identidade sexual de David, ainda que este nunca assuma explicitamente ser bissexual. Quando Hella regressa a Paris (embora mais tarde a abandone, preferindo relações diversas, sobretudo com marinheiros), o relacionamento com Giovanni acaba com consequências dramáticas para os vários personagens que Baldwin nos revela ao longo do romance. A intensidade narrativa, a construção da trama, as emoções contraditórias, os sentimentos de culpa, a abordagem de (um) tema(s) ainda hoje passível(eis) de tantos preconceitos e incompreensões (imagine-se então há 36 anos atrás), o portentoso núcleo de personagens, marcaram-me profundamente. De tal modo, que (éramos tão jovens) ofereci o livro a alguém que se sentia perdido, discriminado, perseguido, devassado na sua privacidade e magoado pelo ostracismo a que a sociedade o votava. Este alguém era negro, homossexual, e uma das melhores pessoas que conheci até hoje. Este alguém disse-me, depois de ler o livro: «Que paz eu senti. A solidão já não me assusta. Acho que posso começar a viver.» Nunca mais consegui encontrar o livro, para o ter comigo de novo. Mas tenho muitas vezes o eco das palavras deste alguém, que nunca esqueci e que poucos mais anos viveu, mas a quem, pela minha mão, James Baldwin e o seu Giovanni’s Room mudou, qualitativa e quantitativamente, a vida.
Rita Pais

Livros que foram e podem voltar a ser prendas

Pelos 13 anos, as leituras que herdara da infância e pré-adolescência começavam a não me satisfazer. Já não sentia o prazer e a gula pelos livros, a ansiedade de nunca parar de os ler, aquele folêgo, aquela emoção, aquela entrega.
Alguns especialistas em Literatura Infantil consideram que não existe uma verdadeira literatura juvenil, já que na adolescência e juventude os leitores têm já adquiridas as competências básicas de leitura para poderem ler livros de adultos. A questão prende-se muitas vezes com o desinteresse por certos temas ou estilos, bem como o treino da concentração. Por isso a literatura juvenil mais não seria do que a adaptação de um tema, uma narrativa, um assunto ao contexto simplificado dos jovens. Não tenho muitas certezas quanto a estes argumentos mas percebo que há um rol de usos retóricos na escrita para a infância que dão aos textos níveis de leitura, ritmos e efeitos do belo próprios da ideia literária, em geral.
Contudo, a experiência que desenvolvi no Natal dos meus 13 anos parece aproximar-se daqueles que defendem a passagem da literatura infantil para a literatura para adultos.
Não sabendo como escolher os livros a pedir no Natal, resolvi recorrer ao meu manual de Português, e dele seleccionei um conto e uma crónica de que tinha gostado particularmente. Assim foi, integrei na lista Os novos contos da montanha, do Miguel Torga, e Deste mundo e do outro, de José Saramago.
Li-os aos dois. Na época lembro-me que fiquei bastante entusiasmada com o livro do Saramago. Tinha um misto de narrativa linear e mistério. O 'realismo mágico', que ainda não conhecia e nunca aprofundei, espantou-me. Ao contrário de Torga, cuja angústia compreendia e partilhava pela leitura, com Saramago questionava. Foi talvez o meu primeiro contacto com a literatura para adultos: aquela que já não se torna leve na memória, aquela que faz experiências connosco.
Curiosamente, não voltei a ler um único livro de Saramago até muito mais tarde, no 1º ano da faculdade, ser (ainda bem) obrigada a ler O memorial do convento. Gostei muito, mas continuo a não ser sua leitora regular.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Livros que foram e podem voltar a ser prendas


LIVROS EMBRULHADOS

Livros e prendas de Natal sempre foram sinónimos, ainda que não exclusivos. Com as memórias um bocado baralhadas, acho que o primeiro livro que me recordo de ter recebido no Natal era um livro ilustrado dedicado à época natalícia. Calculo que ainda não tenha sido transferido cá para casa, porque não o consigo encontrar, o que significa que não me vou lembrar do título ou do autor. Mas lembro-me bem da capa azul escura com uma árvore de Natal rodeada de crianças que cantavam. A história era uma espécie de calendário do advento, explicando algumas tradições natalícias de diferentes países e as ilustrações ainda tinham aquele traço ‘antigo’, quase clássico, e faziam-me regressar todos os anos à contagem decrescente até ao dia 24.
Mais tarde, recordo uma colecção do Círculo de Leitores que incluía três títulos que li e reli, e que continuam a pertencer à lista das mais agradáveis memórias de infância: O Pequeno Fantasma, de Otfried Preussler, Konrad, ou o Menino Que Saiu de uma Lata de Conservas, de Christine Nostlinger e Emílio e os Detectives, de de Erich Kastner.
Um ou dois anos depois, houve o embrulho com três álbuns do Tintin, de Hergé, os primeiros álbuns de banda desenhada que recebi, ainda sem saber que a banda desenhada me continuaria a acompanhar de modo tão regular ao longo dos anos. Eram eles O Caranguejo das Tenazes de Ouro, O Ceptro de Ottokar e A Ilha Negra. Todas estas prendas natalícias foram oferecidas pelas minhas mães (não é gralha), assim como uma série de muitos outros livros que aqui não caberiam.
Os livros-prendas de Natal continuam a ser um hábito. E sempre em regime de surpresa. O que significa que já estou a contar os dias para os livros que aí virão na noite de 24...

sábado, 16 de dezembro de 2006

Leituras


O Livro do Meio
Maria Velho da Costa e Armando Silva Carvalho
Caminho, 2006

Acabei na noite passada este 'romance epistolar'. Tal como me aconteceu com a Odisseia, fiquei com aquela sensação de vazio, que se tem quando entramos na narrativa, nas personagens, nos espaços.
A correspondência entre os dois escritores relata a infância de ambos, entre comentários e apontamentos sobre o quotidiano. Mas o que este livro tem de especial é um mistério, uma alma que não se desvenda, mas sempre se vislumbra, na leitura. A intenção do livro, bem como a sua metodologia é desvendada pelos narradores, por isso não se trata de um recurso oculto de organização do texto. Tudo é revelado. Com o tempo de leitura, distinguimos as personagens, distinguimos os estilos dos narradores, entramos e imaginamos o universo rural da infância de Silva Carvalho ou o ambiente citadino burguês de Velho da Costa. Fica porém um silêncio, um véu entre o que se diz e não diz, e a minha condição de leitora resvala entre a cumplicidade permitida e os seus limites. E disso também falam os autores.
Quando Mega Ferreira e Isabel Allegro apresentaram o livro, ambos falaram em 'tom', e na sua importância. Agora identifico o sentido deste ritmo: o romance epistolar cria duas personagens cuja vida nasce e se alimenta em diálogo. Não são as memórias de dois escritores, não são duas infâncias em oposição, são um romance no sentido em que as partes, sozinhas, não existem. Aqui reside o tom, aqui reside o mistério, aqui reside o limite da palavra para a alma.
«Sangue e tinta, em transfusão mais perpétua que nós.» (última frase)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Pais empenhados

Quando se pede a participação dos pais nas actividades de Promoção da Leitura, chega-nos um email da Associação de Pais e Encarregados de Educação da Escola Básica do 1º Ciclo de Valado dos Frades. Esta Associação pede-nos que contribuamos com a oferta de um ou mais livros para a biblioteca da Escola, que serão entregues durante a festa de Natal, no próximo sábado, dia 16.
Ficámos curiosos, pelo que perguntámos em que situação se encontrava a biblioteca. Soubemos então que o espaço da Biblioteca é actualmente partilhado com a sala de professores e o apoio pedagógico. A recém-criada associação comprometeu-se a adaptar o espaço para que as crianças se sintam mais confortáveis, visto que a própria escola sofre de carências básicas ao nível das instalações e equipamentos. Através de diversas iniciativas, a Associação já conseguiu uma carpete para forrar parte do chão da sala, uma televisão e dois computadores usados.
Quanto aos livros, "Uma criança, um livro de presente para a Biblioteca Escolar" está prestes a atingir o seu objectivo com a contribuição preciosa da Estampa e da Lusodidacta, assim nos disse a presidente, Carla Almeida. O agrupamento garantiu o concurso à Rede de Bibliotecas Escolares, mas até lá é fundamental construir um espaço cultural, saudável e lúdico que as crianças identifiquem como seu.
Mas os pais querem dinamizar o espaço e têm em projecto a realização de uma semana da leitura, levando um escritor à escola, e uma iniciativa com um nome apelativo: "Pais, contem-nos histórias".
Um exemplo a reter.
Se alguém quiser contribuir com um livro para a causa, a morada é a seguinte:
Associação de Pais e Encarregados de Educação
Escola Básica do 1º Ciclo de Valado dos Frades
Rua Professor Arlindo Varela
2450 Valado dos Frades

A Casa da Árvore


«A Casa da Árvore» é um projecto multidisciplinar que se desenvolve em interacção com o público a partir de um livro com o mesmo nome. A autora, Margarida Botelho, explicou-nos como nasceu e funciona o projecto:
«A Casa da Árvore nasceu como um livro e é na realidade uma edição de autor, (em que eu sou a autora do texto e das ilustrações). Anexo ao livro existe um projecto de teatro e de ateliers artísticos. Neste momento aluguei um espaço (uma sala) na Fermento a qual serve de galeria de exposição das ilustrações originais do livro (que são maquetes e marionetas). Neste espaço também estão as ilustrações de outros livros, nomeadamente do livro "Meia-bola" ilustrado pelo André da Loba. Durante um mês temos uma programação com oficinas para adultos (durante a semana) e crianças (durante o fim de semana). Até 18 de Dezembro estaremos sempre neste espaço, depois a ideia será percorrer (com a árvore e o cenário do livro) vários lugares, promovendo o mesmo tipo de actividades à volta da Casa da Árvore. Estamos sempre abertos das 11h às 20h (também domingos e feriados).»
Vale uma visita no próximo fim de semana, para quem esteja em Lisboa.
Deixamos também o site, para mais informações: http://www.boxdesign.info/a_casa_da_arvore

Qual o futuro do livro?

Um dos assuntos na ordem do dia é o do futuro do livro tal como o conhecemos. A evolução tecnológica, comprovada pela profusão de novas plataformas de leitura, de audição, coloca este objecto e as editoras perante uma encruzilhada. De que forma se poderá avançar para uma adaptação a esta nova realidade? Quantos mais anos fará sentido continuar a editar livros na sua forma actual? Até que ponto assistiremos à sua substituição definitiva por audiobooks, e-books e afins?
O site do The Institute for the Future of the Book apresenta uma série de textos de professores universitários norte-americanos que abordam estas questões. Ao mesmo tempo, apresenta um conjunto de links para uma série de sites que nos permitem estabelecer um contacto mais próximo com algumas destas novas abordagens ao livro.
Numa opinião muito pessoal, motivada por razões de ordem cultural e afectiva, parece-me difícil a substituição total do objecto-livro por audiobooks, e-books, etc... No entanto, se pensarmos que as gerações futuras se caracterizam, também, pela facilidade na utilização de ferramentas informáticas, das quais derivam os suportes destes "novos livros", e se observarmos que, hoje em dia, um dos factores de aproximação dos jovens às Bibliotecas reside na possibilidade de contactar com um computador, neste caso, teremos que aceitar como provável uma verdadeira revolução no campo editorial. Voltarei mais tarde a este assunto. Entretanto, a caixa de comentários encontra-se disponível.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Livros que foram e podem voltar a ser prendas

Nesta época não se foge às prendas, às sugestões, às memórias de anos passados.
Por isso recordamos alguns livros que recebemos ou oferecemos no Natal. O convite estende-se a todos os que queiram partilhar uma memória. Podem fazê-lo enviando-nos um mail, que será publicado no blog.

Desde cedo que os livros fazem parte da minha lista de Natal. Em tempos idos, a minha lista era estrategicamente concebida de acordo com a da Mafalda, minha amiga de infância, de forma a que os nossos presentes nunca se repetissem e pelo contrário, se complementassem.
Quando entrámos na fase das colecções, escolhiamos os números dos livros que cada uma pedia. Lembro-me da colecção da Patrícia, acho que era da Verbo, que nós adorávamos. Apesar de serem livros de aventuras de um grupo de adolescentes, as descrições e a intriga era já um pouco mais complexa que a dos Cinco ou de Uma aventura. Depois de receber as prendas, quando me deitava, levava comigo vários livros e tentava explorá-los a todos, deliciava-me a escolher e nessa noite lia sempre muito pouco, de tal maneira era difícil e exigente optar entre a sinopse da contracapa, a ilustração, o início da narrativa, os capítulos...
Depois, logo no dia seguinte, dia de Natal, eu e a Mafalda actualizávamos a informação ao telefone, e o entusiasmo crescia até ao dia do reencontro... Entretanto, adiantávamos serviço, lendo cada uma o primeiro livro que escolhera. Para mais tarde partilhar.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

David Mourão Ferreira na Biblioteca Municipal de Sines


A Biblioteca Municipal de Sines dedica o mês de Dezembro à obra de David Mourão Ferreira. O programa inclui uma exposição biobibliográfica patente ao público desde o passado dia 6, uma conversa com uma especialista na poesia do autor, hoje pelas 21h30, um documentário (nos próximos dias 14 e 21), e uma leitura encenada, no dia 22. Mais informações aqui.
De realçar que as iniciativas acontecem todos os meses sob a mesma designação genérica, o que permite uma progressiva familiaridade por parte do público: Exposição; "Os livros em cima da mesa"; Documentário; "Leituras em voz alta". Assim, cada um (individualmente ou organizado em grupo) poderá atempadamente preparar a sua visita, de acordo com a iniciativa que melhor responde à sua curiosidade ou necessidade.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Visão de contexto, precisa-se

A propósito do debate que a denominada sociedade civil tem vindo a alimentar entre si e com o governo sobre as alterações no Ensino Superior, recomenda-se uma visita ao blog manchas, de Luís Mourão. Desde a véspera do 'Prós e Contras', e em confronto de ideias com Eduardo Pitta, Luís Mourão continua a bater-se por uma reflexão séria sobre a matéria, expondo argumentos, dando exemplos, evidenciando os paradoxos que resultam de propostas impensadas que não se sabe a quem servem, se é que servem alguém.
A minha sugestão pode parecer estranha aos princípios orientadores do bicho dos livros, mas 'isto anda tudo ligado', e estas ligações são mais sérias e profundas do que parecem. Grande parte dos problemas do ensino em Portugal, para além de derivarem de medidas políticas muitas vezes irreflectidas e até pouco sérias, são da responsabilidade dos professores. Não é a mesma responsabilidade que se lhes imputa quando o aluno tem más notas. É uma responsabilidade cívica, até corporativa, se assim alguns quiserem chamar. Como não concordo com o corporativismo, entendo-a como um princípio de integração no mundo.
Acontece-me com alguma frequência ouvir os professores de um determinado ciclo queixarem-se que os alunos que recebem vêm cada vez mais mal preparados. A culpa é do professor do ciclo anterior - é um argumento imediato que resolve em absoluto todas as questões. E não pensemos que isto acontece apenas por parte do secundário relativamente ao básico, ou do 2º ciclo para com o 1º. Enquanto aluna, também o ouvi na Faculdade. Pois bem; o que sabe um professor universitário acerca do programa do professor de 1º ciclo? Ou de 2º? Ou até do 3º? E inversamente, o que sabe um professor do 2º ciclo acerca do programa do professor universitário? Nada, porque cada professor universitário tem um programa próprio (reporto-me à área das ciências sociais e humanas). Não seria útil que todos soubessem genericamente o que os outros andam a fazer, para além das directrizes dos programas que supostamente o prevêem? Não seria útil que no secundário os alunos aprendessem noções de ritmo, prosódia e retórica nas aulas de português para que quando chegassem a uma qualquer faculdade de letras e fossem confrontados com um professor que dá este conhecimento como adquirido, não ficassem para sempre coxos na análise de um texto literário? Ou, inversamente, se um professor universitário de literatura ou estudos literários o soubesse, poderia partir de um grau zero nesta matéria.
Outro caso: o inglês, como promessa eleitoral, está a ser inserido no curriculum do 1º ciclo, embora com carácter facultativo, já que nem todas as escolas têm condições para disponibilizar esta disciplina. O que pode fazer um professor do 5º ano, quando na mesma turma tem alunos que dominam a língua no seu nível mais básico e outros para quem a mesma é uma completa novidade?
Há uma tradição hierárquica no ensino que tem vindo a ser ameaçada com o progressivo aumento da escolaridade obrigatória e a diversidade de opções que se apresentam no ensino superior (nomeadamente com os Institutos Politécnicos): a escala de importância do docente.
O educador de infância estava na base da pirâmide, onde não tinha sequer estatuto de professor. Seguia-se o professor primário (que todos consideram basilar na formação para o futuro da criança!), depois os professores de 2º ciclo, 3º, secundário, e então os do ensino superior. Quando as escolas secundárias estavam separadas do ciclo, os professores mais antigos, que tinham o poder de fazer horários e turmas, escolhiam para si as turmas do antigo complementar, porque os alunos eram mais maduros. Nem todos o faziam, é certo. Hoje, que o 2º e 3º ciclo estão na maioria dos casos no mesmo espaço, há professores do mesmo grupo (português, por exemplo) que não trabalham juntos, mantendo a divisão entre 2º e 3º ciclos.
E os professores das antigas universidades vêem agora chegada a sua hora, depois de terem asistido placidamente ao descontentamento dos colegas dos outros níveis de ensino. É o efeito da democracia, felizmente. Infelizmente, neste caso, o dever democrático de participação e solidariedade não se fez sentir, e todos sofrem os efeitos da sua própria indiferença e desinformação.
Os textos de Luís Mourão são, por isso, uma pedrada no charco. São fruto não só de um interesse próprio em defesa da profissão de docente universitário, como de um sentido de responsabilidade. Não está sozinho. No dia-a-dia, encontramos professores empenhados, dedicados, atentos. Anónimos. Que lutam contra os poderes e as ideias instituídas. Honra lhes seja feita, sempre. Mas são poucos, ainda.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Livros 24 Horas por dia

Começou hoje a funcionar na Batalha um sistema inovador de empréstimo de livros que permite o acesso à leitura a qualquer hora do dia. Trata-se do Biblio Clube, uma máquina localizada junto ao posto de turismo da vila que "fornece" livros aos utilizadores que possuam um cartão anteriormente solicitado na Biblioteca Municipal. O utilizador dispõe então de dez dias para ler o livro e voltar a devolvê-lo à máquina.
O catálogo disponível apresenta 170 títulos de diversas áreas temáticas e pode ser consultada uma pequena sinopse de cada obra.
O design da máquina resultou de uma parceria com o Centro Português de Design.
Esta experiência permite colmatar as dificuldades de horários que alguns utentes da Biblioteca encontram e torna mais visível a oferta de leitura no espaço urbano.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Nuvem alta - II

Recebi hoje um email da prof. Manuela Caeiro. Em resposta à minha curiosidade acerca do funcionamento do blog que criou com o seu 5º7ª, a Manuela apresentou-me o projecto, com aquela infinita disponibilidade. Agardeço a partilha e espero que possa ser mais uma proposta para outros professores.
Aqui fica o texto.
«Reflexões de uma professora.... de Português

Ensinar é uma missão complicada... Porque não basta ensinar: é preciso que cada aluno queira aprender!...
Ora, em Português, esse objectivo pode tornar-se particularmente difícil de alcançar!... Porque temos de levar cada aluno a empenhar-se em ler e escrever, sobretudo se ele revela grandes dificuldades, sabendo nós que, portanto, o seu esforço terá de ser muito maior... e a sua vontade será, à partida, mais difícil de mobilizar...
Há que encontrar soluções para motivar estes alunos... E, do mesmo modo, há que encontrar formas de não deixar desmotivar todos os outros que têm essas competências já mais desenvolvidas e que devem ir mais além...
Percebe-se, pois, que gerir o trabalho numa sala de aula - onde estão mais de duas dezenas de crianças, onde cada um é tão diferente de todos os outros, onde as necessidades e interesses são muito variados, onde as atitudes face à aprendizagem são tão diversas... - é mesmo uma missão complicada...
Mas também não pode ser considerada “missão impossível”... e muito menos fazer-nos desistir!
É assim que, ao longo dos anos, tenho procurado traçar projectos, com os meus alunos, que os mobilizem para trabalhar: fundamentalmente, ler e escrever, tentando dar visibilidade às suas produções...
Fazer jornais impressos tem sido uma constante... Eles pesquisam e divulgam notícias, fazem entrevistas, reportagens, seleccionam ou criam passatempos, falam de filmes ou livros... A qualidade do trabalho varia de acordo com os “jornalistas” de cada turma, em cada ano... Mas o objectivo cumpre-se, a cada edição...
Há dificuldades... e insucessos...
(Haveria sempre!...)
Este ano resolvi fugir às dificuldades da impressão, da venda do jornal, da contabilidade... Perdemos assim uma boa oportunidade de doar a verba conseguida a uma instituição de solidariedade social ou de a destinar a uma visita de estudo... Em compensação, preservamos o Ambiente, poupando papel...
Mas, sobretudo, procurei criar um novo projecto...
Estamos na era da blogosfera. Sei de crianças de dez anos que já têm os seus próprios blogues...
Assim me surgiu a ideia de criar um blogue para a turma. Um sonho..., uma “Nuvem-alta”...
Eu sirvo-me regularmente dos computadores, mas... não sou particularmente hábil no seu uso. Nunca me tinha aventurado nesta área... Quis experimentar. Socorri-me da boa vontade e apoio de uma colega jovem, de passagem pela escola... numa substituição... a Elsa Neves.
Esta iniciativa foi acarinhada pelo meu 5º7ª...
...uma turma complicada... com meninos dos 9 aos 15 anos... alguns que ainda soletram... outros que dão, à vontade, três erros por palavra...
Os trabalhos publicados são (e serão sempre) todos da turma.
Até agora, uns foram feitos em casa. (Cada aluno, em Língua Portuguesa, tem de respeitar um Contrato de Trabalho Individual e deve apresentar, regularmente, um portfolio, o que facilita a selecção de trabalhos, quer pelo professor quer pelos colegas. Mas isto ainda não foi bem assimilado... e os portfolios começam a aparecer, paulatinamente...)
A maioria dos trabalhos foi feita em Oficina da Palavra: uma área não curricular, que é oferta de escola, leccionada pelo professor de Língua Portuguesa de cada turma. (Apenas 45m por semana...)
Um dos trabalhos editados foi escrito em Estudo Acompanhado... que eu também lecciono.
No futuro, poderemos divulgar trabalhos feitos em outras disciplinas ou áreas disciplinares. Porque agora o nosso blogue já tomou forma e foi divulgado ao Conselho de Turma.
À sexta-feira, a seguir a Oficina da Palavra, aí vamos nós para a biblioteca escolar, publicar os trabalhos escolhidos... Geralmente, vão os autores, todos orgulhosos, e um pequeno grupo de colaboradores que se está a tornar habitual. A minha presença é garantida: serve para coordenar e dar apoio.
Fazendo um balanço desta curta experiência, é inegável que tem sido grande o entusiasmo... de quem vê um trabalho seu escolhido para ser publicado... na Internet! E também é grande o entusiasmo de quem vai à biblioteca colaborar na sua edição, na escolha de uma imagem para esse texto... e que vê, em primeiro lugar, o blogue a crescer... com “novo visual”...
Incluindo eu...
Não é o “ovo de Colombo”...
Não resolverá todos os problemas desta turma... nem todos os meus problemas com esta mesma turma... Mas tenho gostado muito desta nossa experiência!

Acrescento que outros blogues estão a ser criados na minha escola. Indo à nossa página, ao
www.eb23-cmdt-conceicao-silva.rcts.pt, encontra-se uma secção, “A Palavra aos Alunos”, onde é dada voz aos jovens... Daí, há uma ligação para o blogue do 5º7ª... e para outras iniciativas. Nesta tarefa da construção da página WEB, e da nossa Sala de Estudo Virtual, há que destacar a colaboração da colega Isabel Ferreira.
Alunos... e professores... não param...
E, como dizia António Gedeão, “o sonho comanda a vida”...»

Maria Manuela Martins Caeiro
Professora de Língua Portuguesa
do 2º Ciclo
na E.B 2.3 Comandante Conceição e Silva,
Cova da Piedade,
Almada

domingo, 3 de dezembro de 2006

Feira do Livro de Autor

A Biblioteca Municipal da Amadora acolhe, desde ontem, uma Feira do Livro de Autor, onde todos aqueles que alguma vez escreveram e publicaram um livro podem participar. Aqui, à margem do mercado editorial, podem ser folheados outros livros, outras capas, outras propostas de leitura e composição gráfica, de acordo com as possibilidades e os desejos de cada um. A Feira não tem como principal propósito a venda mas a exposição. Está aberta das 9h às 19h, até dia 16.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Experiências em Albufeira


Mais livros imaginários...

O meu livro chama-se ATA.
Quando o leio, o sabor entra pela boca dentro. Tira-me a constipação ou gripe e faz-me cheirar o cheiro do meu livro. O meu livro conta-me a história quando não quero ler, faz-me sentir feliz quando estou em baixo. O meu livro deita um holograma, com o texto e imagens, em forma de planta e da família. Muda de tema de acordo com o que eu quero.
Alexandre Dias, 6º A
O meu livro chama-se Os cinco sentidos
O meu livro parece um gato com uma flor. Ao tocar nele sinto o pêlo dum gato e as penas de uma ave. Eu oiço o meu livro a contar histórias e anedotas. O livro sabe a morango e cerejas. O livro também cheira a gelado de morango e a bolo de bolacha.
Michaela Uscata, 6º A
O meu livro chama-se "Uma aventura em Viagem"
O meu livro come todos os dias uvas e ameixas para ficar com a capa roxa, depois põe perfume e toma banho na água salgada da Escócia. Ele gosta de cantar e rir, quando toco nele sinto tremer, e que está quente. Às vezes parece um monstro simpático e quando o levo numa viagem ele toma a forma de um castelo.
Rui Gonçalves, 6º A
O meu livro chama-se Saltibrinca
Ele sabe a amora no Inverno e na Primavera e a laranja no Verão e no Outono. Oiço o meu livro a cantar e a rir. Ele canta de dia e ri-se de noite. O meu livro parece risonho e brincalhão. Ele é risonho quando eu conto anedotas e brinca comigo quando estou triste. E cheira a gasolina e a frango. Quando anda em algum transporte cheira a gasolina e quando estamos a almoçar ou a jantar cheira a frango.
Vitor Almeida, 6º A

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Leituras... alheias

A Débora recomenda a colecção Os Mumins, que ao que parece está esgotada em Portugal, mas fez furor nos anos 70. Para além dela, também o Pedro nos falou desses livros. Estou muito curiosa, embora não saiba se os vou conseguir encontrar por cá.
De qualquer forma, fica o relato entusiasmado da Débora, no seu tue-tue. Percorrendo o blog, mais confiamos no seu juízo de leitora...
A foto foi 'roubada' à Débora do post Mumins, de 7 de Novembro.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Livros online - Duas sugestões

Aqui ficam duas sugestões de sites onde se podem ler livros infanto-juvenis de forma gratuita.

No primeiro caso, www.childrenslibrary.org, é possível consultar diversas obras, em diferentes línguas, encontrando-se até dois livros em português. A pesquisa pode ser feita por autor, por tema, por livro premiado ou por idioma.


No www.childrensbookonline.org, entramos no site do Rosetta Project que construiu online uma biblioteca, em permanente actualização, de livros antigos disponíveis para leitura. Destaque-se a particularidade de, em algumas obras, ser possível traduzir o conteúdo das páginas, originalmente em inglês, para português.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Núvem alta

A prof. Manuela Caeiro, da EB 2/3 Comandante Conceição e Silva, foi uma das professoras presentes e assíduas na formação em Promoção da Leitura que dei na Biblioteca Municipal de Almada.
Recebi ontem um email dela, e fiquei muito contente. Para além de um entusiasmo contagiante e uma curiosidade invejável, a Manuela tem um espírito profundamente interventivo o que nos possibilitou discutir mais assuntos e propostas relacionadas com a ideologia de cada professor, nomeadamente no que respeita ao que deve e não deve ser lido pelos alunos; o que é literatura de qualidade.
Ontem, no email, apresentou-me o blog que criou para os textos produzidos pela sua turma do 5º 7ª. Chama-se nuvem alta e nasceu no início de Novembro. Assim que souber mais detalhes, darei conta deles aqui.
Por agora, fica o incentivo para os professores de língua portuguesa, que muitas vezes não sabem como diversificar os exercícios de escrita. O mais importante na motivação dos alunos para a produção do escrito é reconhecerem-lhe uma finalidade. A Manuela está consciente disso e partilhou-o na acção. Esta foi uma das formas que encontrou para que os alunos pudessem considerar válido ao seu esforço.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Experiências em Santa Maria da Feira


A turma do 6º ano da EB 2/3 da Corga do Lobão chegou de manhã, às 10h, preparada para passar o dia na Biblioteca Municipal. Com os alunos vinham duas professoras, a de português e a de história. Com eles, traziam o seu almoço e muita curiosidade. A turma era bastante boa, com muitos alunos a lerem fluentemente, percebendo sem dificuldades os enunciados que lhes apresentávamos. De todos os exercícios, o mais difícil foi o Corta e Cola, pelas palavras que tínhamos seleccionado para integrarem o poema que os vários grupos iam criar. Mas todos acabaram por ordenar as rimas numa construção ora mais narrativa ora mais poética, de acordo com o ritmo e a criatividade de cada um.
Realizámos todas as actividades previstas, inclusivamente duas de poesia, bem como o exercício das metades dos contos, o de escrita criativa e o de motivação para a leitura recreativa a partir de um grupo de livros. Finalmente, para além das duas sessões que tinham tido connosco, o grupo pediu ainda para visitar a biblioteca. Graças à infinita disponibilidade das professoras e da colaboração da equipa de animação, foi possível que todos conhecessem os diversos espaços do edifício.
O destaque vai para a dedicação das professoras, nomeadamente da professora de português, que, vencendo todos os impedimentos, conseguiu levar aquela turma à Biblioteca durante um dia, almoçou com os alunos na sala, jogou com eles no período do almoço, tirou notas sobre os exercícios, ajudou-nos incansavelmente esclarecendo dúvidas dos alunos, e no final, ainda a pudemos ver, através das vidraças do bar, a organizar o grupo para todos juntos tirarem uma fotografia à porta principal, que guardaria na memória aquele dia especial.
A dedicação e o prazer que estas professoras transmitiram são o principal trunfo de motivação para a aprendizagem e para a curiosidade. Parabéns!

domingo, 26 de novembro de 2006

Mário Cesariny (1923-2006)

foto de Fernando Lemos
cantiga de amigo e de amado

ca morreu o meu amigo
o que surealista migo
na escurana da manhã,
ca morreu o meu amigo
por todolo bem que fez consigo
vou pôr outro Dolviran

ca morreu o meu amado,
o que se fazia no prado
sobre las terras da louçã,
ca morreu o meu amado,
pelo sabor que me ha cobrado
vou pôr outro Dolviran

ca morreu trigoso e gentil
e não mais irá a fossado
nem de seu elmo constelado
terá nome Alexandre O'Neil
ca morreu má hora e mau grado,
em as ondas do mar quebrado
vou pôr outro Deprimil

e s'dormiu, o de corpo delgado,
sob'lo pano mais fraguado
que todolos que possam estar,
nessa côrte que não tem lado,
em o quarto mais retirado
o seu sopro quero catar

e se lá secam as delgadas
e as aljavas deslustradas
que gostosa eu lavava aqui,
não mais serei destas estradas
e destas terras desterradas
irei pôr o Dolviran i.

in Pena Capital, Assírio e Alvim, 2004
(1ª ed. 1957, Contraponto)

Banda Desenhada na Biblioteca de Santa Maria da Feira


Na Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira, podemos encontrar na sala de leitura de adultos uma pequena secção dedicada à Banda Desenhada. Apesar de não ser conhecedora ou leitora de BD, agrada-me ver que houve o cuidado, na organização e catalogação do fundo, de distinguir a Banda Desenhada infantil e juvenil da Banda Desenhada para adultos, tal como acontece com a narrativa, a poesia ou o teatro.
Infelizmente, na maioria das Bibliotecas, também porque o fundo de BD é normalmente muito limitado, resumindo-se à tradicional franco-belga (Tintin e Asterix), este 'género' está consignado ao espaço infanto-juvenil, contribuindo para perpectuar a falácia de que a BD nasceu para crianças e a elas se destina em primeiro lugar.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Experiências com Letras em Tábua

Aqui ficam os livros imaginários de alguns alunos das duas turmas do 6.º ano com quem trabalhámos em Tábua:


O meu livro chama-se Golo.
Sabe a morangos e a maçã e quando lhe toco sinto que vou lê-lo e vejo como ele é grande.
O meu livro é misterioso e assustador. Cheira a rosas e é perfumado. Ouço o meu livro a falar comigo e quando o abro ele grita gooolo. Quando o fecho ele ri-se para mim.


O meu livro chama-se Sol e é fofinho e macio.
O meu Sol sabe a pêssego e manga. Quando o abro cheira a pêssego e quando o fecho cheira a manga.
O meu livro parece-se um Gato fofo e macio e um Sol de luz brilhante muito luminosa.
Quando toco no Sol faz-me lembrar a praia como no Verão, e o Gato faz-me lembrar o Inverno e o quentinho da lareira.
Ouço o Gato a falar comigo quando estou triste e o Sol a rir para me animar na manhã fria de Inverno.


O meu livro chama-se «Surfar».
Sabe a morango e abacaxi, mas cheira a rosas e Outono. Ouço o meu livro contar-me as suas histórias e andar sempre ao meu lado para todos os lugares. Ao tocar no livro sinto magia e inspiração pelo que cai acontecer a seguir, pois ele parece um mar de letras e uma mochila para as letras.

O meu livro chama-se «A Amizade».
Sabe a rebuçado no Inverno e na Primavera sabe a morangos. Quando levo o livro para a praia cheira a água do mar e quando o levo para o jardim cheira a rosas.
Ouço o meu livro a chamar por mim quando não o estou a ler; quando estou a ler ele sorri.
Quando toco no meu livro dá-me vontade de o ler e fico alegre. O meu livro parece um ser humano e dá muita alegria.

Leituras encenadas na Biblioteca Municipal de Sines

No próximo dia 26 de Novembro, pelas 22 Horas tem lugar na Cafetaria da Biblioteca Municipal de Sines um conjunto de Leituras Encenadas a partir das Canções Heróicas de Fernando Lopes-Graça. Neste espectáculo, da responsabilidade do Grupo de Teatro Estúdio Fontenova de Setúbal, poderemos ouvir os temas que Lopes-Graça compôs a partir de poemas de autores portugueses como Carlos de Oliveira, João José Cochofel, José Gomes Ferreira, Armindo Rodrigues, Arquimedes da Silva Santos, Edmundo Bettencourt, Joaquim Namorado, Mário Dionísio, entre outros.
Esta iniciativa está incluída no mês que a Biblioteca Municipal de Sines dedica ao compositor no ano em que se comemora o centenário do seu nascimento.
A opção por programas mensais, subordinados a um único tema, reflecte, de acordo com a bibliotecária Carla Chainho, a preocupação com a criação de um espaço multidisciplinar com a presença de diversas linguagens artísticas. Desta forma, será possível fazer da Biblioteca e do Centro de Artes de Sines um ponto de encontro para diversos públicos e diferentes tendências.
É essa a sua premissa.

domingo, 19 de novembro de 2006

Experiências em itinerância

Estamos de partida para Tábua, onde vamos realizar o atelier Experiências com Letras. Terça-feira estaremos em Santa Maria da Feira. No regresso, mais apontamentos, mais curiosidades, e esperamos que mais leitores.

A arte da leitura de pais para filhos - parte II

Ontem foi a sessão conjunta, com as mães e os seus rebentos, em Sines. Foi muito divertido. O ambiente era bastante informal, com direito a bolachinhas e um maravilhoso bolo feito pela mãe Eugénia. O facto de adultos e crianças se conhecerem e serem amigos ajudou a que os jogos tivessem outra dinâmica e que a expectativa fosse maior.
As mães deveriam adivinhar qual o livro escolhido por cada filho, de entre um grupo vasto, que se encontrava em cima da mesa; o mesmo acontecendo depois com os filhos. Com maior ou menor dificuldade, todos acertaram, colocando questões e pedindo pistas. Este exercício permitia-lhes explorar as informações paratextuais e as ilustrações, bem como imaginar o assunto ou género da narrativo.
Foi a nossa primeira experiência com esta acção. Ficámos satisfeitos com o interesse e o entusiasmo das mães, que conseguiram até convencer os seus filhos mais velhos, com 11 e 13 anos, a participar. Claro, todos são leitores.
No entanto constatámos que a diferença de idades das crianças deve ser menor, para que as actividades sejam mais específicas. Ou então os grupos terão de ser sempre pequenos, com um total de 10 a 12 participantes, no total.
No final, para além do diploma, cada um levou para casa o seu BI de leitor, onde poderá passar a registar as suas leituras, quer aquelas de que gosta como aquelas que abandona. E poderá igualmente dar uma espreitadela aos BIs da restante família e amigos.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

O prazer de requisitar livros...

Fica o link para o post da Sara: um breve apontamento sobre a possibilidade de requisitar livros na Bedeteca. E o enorme prazer que ela sente.

http://becodasimagens.blogspot.com/2006/11/requisies-linha-vermelha-escadas.html

Experiências em Tondela

Estivemos em Tondela na passada quarta-feira com o atelier Experiências com Letras, para o 2º ciclo. Em quatro sessões, estiveram na biblioteca oito turmas, num total de 130 alunos.
A bibliotecária Luísa Melo teve a preocupação de proporcionar esta acção ao maior número possível de crianças, aproveitando a nossa ida, através da Carteira de Itinerâncias do IPLB. As sessões correram bem mas pudemos constatar diversos problemas ao nível da aquisição das competências de leitura. Muitos dos alunos de 5º e 6º ano ainda não conseguem ler com fluência, soletrando e seguindo com o dedo as palavras na frase.
Esta situação, que se passa por todo o país, e também nas grandes cidades, como me confirmaram as professoras da EB 2/3 D. António da Costa, em Almada, é muito grave. Não é da responsabilidade dos professores do 1º ciclo, pelo que me tem sido possível observar. É da responsabilidade do sistema de avaliação: os alunos apenas podem ficar retidos no final de cada ciclo, o que significa que em muitos casos vão progredindo sem consolidar competências próprias de cada nível. Um ano pode ser crucial, e seria melhor que as crianças ficassem retidas na altura certa, e não um ou dois anos depois de começarem a denotar dificuldades estruturantes que nunca serão efectivamente colmatadas, mas sempre remendadas.
Para além de inviabilizar que os alunos tenham o seu próprio ritmo, este sistema desmotiva aqueles que têm dificuldades, porque nunca as superam, da mesma forma que desmotiva aqueles que as não sentem mas não progridem tanto como poderiam, porque o professor tem de baixar o nível de exigência para tentar equilibrar o grupo. Se estes sintomas se sentiram sempre, durante o ano lectivo, o que dizer agora, que o período de progressão obrigatória se estende a quatro, dois ou três anos.
No espaço da biblioteca, o trabalho em grupo visa anular as diferenças, porque tentamos incutir nos alunos o espírito do jogo e do juízo crítico, e nunca o do teste. Mas, no diálogo personalizado com os alunos, quando surgiam dúvidas, ou davamos pistas, percebiamos as dificuldades.
Houve, claro, aspectos positivos. Alguns alunos ficaram claramente motivados para a leitura de um ou outro livro que lhes apresentámos. Houve quem quisesse requisitar imediatamente o primeiro livro de As crónicas de Spiderwick, houve igualmente quem anotasse os dados bibliográficos de Ynari, a menina das cinco tranças, O meu primeiro livro de poesia, ou Rosa, minha irmã Rosa, para depois os adquirir.
A Biblioteca Municipal tem um bom fundo infantil e juvenil, e o público que frequenta aquela sala está a aumentar. Mas é importante que os livros cheguem às crianças e aos jovens das freguesias rurais, é importante sensibilizar os professores para a dinamização das bibliotecas escolares, é importante criar teias de comunicação e interajuda entre os vários mediadores. Luísa Melo está de acordo.

Maratona de Leitura na Culturgest

Um bocadinho em cima da hora, deixamos uma recomendação: A Maratona de Leitura da Culturgest, amanhã, a partir da 15h e até às 19h30, no seu edifício, em Lisboa. A entrada é livre.
Eis uma possibilidade de assistir e participar numa experiência de sociabilização da leitura, num ambiente em que ler se pressupõe natural e igual entre todos os que têm desejo.
«O tema deste ano da Maratona de Leitura é o fantástico. O que permite, mais uma vez, uma escolha muito diversificada de textos bem sedutores.
A fórmula é já conhecida pelas pessoas que nos têm visitado ao longo dos anos. Durante uma tarde de sábado, em Novembro, quando os dias já são mais curtos e o Inverno se aproxima, em diversos espaços da Culturgest vários convidados nossos lêem em voz alta para quem os quiser ouvir.
António Mega Ferreira, Clara Pinto Correia, Vítor Nobre e Ricardo Carriço são alguns dos nossos leitores convidados – os autores escolhidos são tão diversos como Robert L. Stevenson, Flannery O’Connor, Saint-Exupéry, Gabriel Garcia Marquez e Mário de Sá Carneiro.
O ano passado havia um espaço onde ia ter quem, embora não tivesse sido convidado, podia também ler. Várias pessoas apareceram e leram. E ouvintes e leitores conversavam sobre o que liam ou ouviam. Este ano vamos manter esse cantinho. Se gosta de ler para os outros, traga um ou dois livros, e venha ter connosco. Vai de certeza ter quem a/o queira escutar.
Continuaremos a ter dois espaços dedicados às crianças. Um, onde poderão ouvir ler histórias mais próprias da sua idade; outro onde terão um programa de ateliers durante toda a tarde e onde pode deixar os seus filhos se quiser ir ouvir sossegado as leituras.Uma tarde a ler e a ouvir ler. É esse o nosso convite.»

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Identificar lógica narrativa

Para as crianças não é fácil perceber a ordem narrativa de um texto. Até muito tarde, os professores queixam-se de que os alunos não conseguem dividir o texto em partes, distinguir o início do desenvolvimento e da conclusão.
Em Sines, a questão foi levantada pela Solina, quando explicava que recorria à expressão 'Vitória, vitória! Acabou-se a história!' para que a filha percebesse que a narrativa tinha chegado ao fim. Efectivamente, seja porque as crianças têm picos de concentração mais curtos, seja porque a estratégia causal da acção não é evidente, seja porque para si a história não tem de acabar naquele momento, há uma dificuldade da parte dos mais pequenos em aceitar um desfecho.
Por alguma razão, quando contamos histórias, somos tantas vezes inquiridos com um 'e depois?' que nos deixa numa posição delicada: o que vamos inventar a seguir?, quando é que podemos parar?.
Porque não reconhece a criança que o fim, a conclusão, é quando termina a acção principal, quando se resolve o enigma ou o problema deixa de existir? Muito provavelmente porque a sua capacidade ou interesse pelo texto não lhes permite abstrairem-se e analisarem literariamente o mesmo. Como fazemos com as personagens de uma série, também as crianças seguem mais atentamente um aspecto, que pode não se fechar no final da história.
Então, podemos começar ao contrário, perguntando à criança que final gostava que a história dela tivesse: casamento, salvamento, regresso a casa, a hora de dormir; acordar de um sonho...
A partir do diálogo de previsão que faz com a criança, o adulto lê ou conta então uma história cujo final seja aquele que a criança escolheu, de forma a que esta mais facilmente o reconheça. Mesmo que não resulte na primeira tentativa, ou que resulte apenas parcialmente, este exercício permite que a criança fique mais atenta à progressão da história para comprovar o seu final. Igualmente, o jogo torna o acto de leitura menos repetitivo, logo mais apelativo.

Sessão para pais em Sines

A 1ª sessão da acção A Arte da Leitura de Pais para Filhos correu bem. Estavam poucas mães, das quais três são professoras do 1º ciclo. Cumprimos a nossa planificação, que constava de um diálogo inicial acerca da condição de leitora de cada uma delas, as suas memórias de infância e a sua relação com o objecto livro. Em seguida centrámos a nossa atenção na sua função de mediadoras e nas características específicas dos seus filhos, de acordo com as idades, os gostos, os comportamentos. Finalmente apresentámos algumas estratégias de acompanhamento da leitura antes, durante e depois da aquisição da competência da leitura, sugerindo alguns livros.
A conversa desenrolou-se com muita familiaridade, porque o grupo era bastante participativo e interessado.
O número reduzido de participantes deveu-se a alguns factores exteriores, como nos explicou a bibliotecária, mas todos estamos conscientes de que são sempre poucos os que se interessam por estas questões. Infelizmente, não tivemos um único pai a participar, o que é igualmente sintomático de uma divisão de tarefas no acompanhamento e educação dos filhos, erradamente.
Mas a única forma de combater esta indiferença é repetindo as acções, falando delas, e motivando aqueles que já participaram a colaborar na sua divulgação. Tal como acontece com as Comunidade de Leitores, as Apresentações de Livros ou os debates ou Cafés-Concerto, a melhor publicidade é a opinião positiva daqueles em quem confiamos.
A dinamização da Biblioteca de Sines nestes moldes ainda é recente, por isso é muito bom sinal a relação privilegiada que tem com as professoras do 1º ciclo. Através delas mais facilmente chegará à Associação de Pais, aos pais e às crianças.

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

A Arte da Leitura de Pais para Filhos


Que estratégias para promover a leitura entre pais e filhos?
Que dificuldades encontram os pais quando tentam motivar os filhos para ler?
Como podem os pais escolher livros para os filhos?
Tentaremos encontrar respostas para estas questões na acção de sensibilização que hoje realizamos com um grupo de pais na Biblioteca Municipal de Sines.
No próximo fim de semana, no Sábado, desafiamos os mesmos pais, acompanhados pelos filhos, a descobrirem em conjunto o seu perfil de leitor. Pela escolha.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Utilidade didáctica da Odisseia para a leitura de Ulisses

Um dos livros recomendados para o 6º ano, como obra de leitura integral é Ulisses de Maria Alberta Menéres. Será uma das propostas que reúne maior sucesso entre os alunos, que normalmente aderem bem às aventuras fantásticas do herói, destacando-se o episódio do Ciclope, a feiticeira Circe, a descida ao Hades, e o canto das sereias. A mitologia clássica atrai bastante o público juvenil, e muitas vezes os professores recorrem a este tema quer para promoverem trabalhos de pesquisa quer para estimularem a leitura da obra.
Ora, depois do filme Tróia (diga-se em boa da verdade, numa adaptação muito pobre da Iliada), percebemos quando falamos com o público mais jovem que naturalmente se interessam por esta trama (principalmente os rapazes). O conhecimento da Odisseia poderá contribuir para diversificar estratégias na abordagem a Ulisses.
a) Uma das possibilidades é treinar a compreensão da lógica dos acontecimentos: criar um gráfico com a ordem dos acontecimentos na obra Alberta Menéres. Depois, tentar em grupos que os alunos recontem a história de Ulisses com outra ordem, mas respeitando a lógica temporal original. Seria uma estratégia prática para que os alunos percebessem que a narrativa não tem de seguir uma linearidade sequencial. Este exercício poderia ser feito oralmente, ou ligando os episódios com um novo excerto escrito pelos alunos.
b) Outra hipótese, com base na lógica dos acontecimentos, é comparar a ordem das acções em Ulisses e na Odisseia, apresentada pela professora, e imaginar que recursos usou Homero para manter a lógica numa narrativa que, para além do início em media res, tem analepses e prolepses.
c) Já no âmbito da caracterização das personagens, a professora poderia fazer um exercício oral de previsão acerca de Telémaco (como seria o filho de Ulisses, parecido com o pai?, como se sentiria ele com a ausência do pai?; e em relação à mãe, qual era o seu comportamento?...). A partir daqui a professora poderia tentar fazer uma leitura de alguns excertos da primeira parte da obra, que relata a viagem de Telémaco em busca de notícias do pai; ou eleger algumas expressões que o caracterizam.
d) Uma outra possibilidade seria a de distribuir pelos alunos, em grupo, alguns episódios da Odisseia (eventualmente a versão infanto-juvenil de Frederico Lourenço, A Odisseia de Homero adaptada para jovens; Cotovia) que não constem de Ulisses, para que cada grupo faça uma ou mais leituras do episódio que lhe foi atribuído e o reconte à turma, que o desconhece. Com um exercício deste género toda a turma está atenta porque quer ouvir o que não conhece e quer contar aquilo que sabe. Para além disso, a orientação desse reconto trabalhado em grupo permite que os alunos sintetizem informação, organizem a acção logicamente, identifiquem e infiram a caracterização de personagens ou espaços, produzam alguns juízos afectivos.
Ficam as sugestões.

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Leituras



Odisseia, Homero

tradução de Frederico Lourenço
Cotovia

Aconteceu assim:
Por razões profissionais estive a ler A Odisseia de Penélope, uma recriação da Odisseia de Homero, agora na perspectiva da mulher, Penélope, que nos conta a sua versão dos acontecimentos à luz da mentalidade do séc.XX: cínica, pragmática, complexada, vingativa. Não gostei do livro, porque me pareceu que ficou aquém da sua intenção, para além de ter sentido que desvirtuava o texto original.
Eis como um mau livro pode ser um incentivo à leitura: a intriga suscitou-me tamanha curiosidade que me dediquei à leitura do grande clássico. Queria saber o que de facto acontecia, como tinha Homero caracterizado a personagem feminina, bem como o filho do casal, Telémaco, que no livro de Margareth Atwood, é um adolescente revoltado que começa a medir forças com os adultos e as regras instauradas.
E perdi-me na leitura deste livro magnífico. São vinte e quatro cantos onde impera a acção, muito bem encadeada e suspensa para prender a atenção do leitor, com imensas descrições de locais, personagens, rituais que aparentemente nos desorientam, com medo de não os conseguirmos apreender todos. À medida que a leitura prossegue, percebemos que de muito nos esqueceremos, claro, mas que a repetição cíclica de enunciados, ou de momentos que só levemente se alteram, tornam-se rapidamente um leit-motiv em que nos apoiamos para ganhar fôlego para as novas informações.
Este Clássico, ao contrário de outros livros cuja leitura difícil e densa os liga ao cânone literário mais do que ao prazer da leitura, é hoje uma obra actual, fantástica, histórica, de aventura e até drama psicológico, em que as personagens não são representativas do bem vs mal e ganham a nossa confiança e a nossa empatia através dos seus próprios argumentos.
Ao lermos a Odisseia percebemos o papel fundamental que desempenha ao longo da história da literatura ocidental, e como, a par da Bíblia, funda os alicerces temáticos e retóricos que continuam a presidir à criação.
Frederico Lourenço resistiu à tentação de explicar ou adensar a obra com notas, e a sua introdução dá pistas de leitura muito importantes.
Este livro é um paradigma do prazer e da fruição de ler, na sua plenitude.

domingo, 5 de novembro de 2006

XVII Edição do Encontro de Literatura para Crianças

Encontro CONTADO ÀS CRIANÇAS
Auditório 2, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
Dias 8, 9 e 10 de Novembro

Exposição LIVROS COM HISTÓRIA(S)
Exposição retrospectiva da obra de escritores e ilustradores que veceram o Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças entre 1980-2004.
Como sempre, a entrada é livre.
Para além das várias conferências, estará patente uma exposição dos

Aqui fica o programa completo.

Plano de Leitura da Biblioteca Escolar da EB 2/3 D. António da Costa

A Biblioteca/CR da António da Costa, em Almada, tem um Plano de Leitura bastante aliciante para o ano lectivo 2006/2007. Conta com o envolvimento dos professores de Língua Portuguesa, mas a organização parte do grupo de professoras que gere aquele espaço.
Assim, para além da Feira do Livro anual, contam-se quatro concurso: A Batalha dos Livros consiste numa espécie de jogo de conhecimento por eliminatórias, em que os alunos que se inscreverem devem responder a perguntas sobre os livros propostos no início do concurso; O Melhor Texto de Natal, O Melhor Leitor e Os Melhores Poemas decorrem cada um num período lectivo e consistem em leituras em voz alta (encenada) de textos literários, produzidos ou não pelos alunos.
Outros eventos destinam-se à divulgação de textos literários, e à partilha de experiências de leitura.
Tempo de Poesia acontecerá uma vez por período escolar, na Biblioteca, e em cada sessão serão declamados e apresentados poemas por declamadores, de forma a que os alunos tenham contacto com a audição de poesia.
O cinema e a literatura propõe o visionamento de filmes feitos a partir de obras literárias, como forma de motivar os alunos para a leitura dos livros, comparando as duas linguagens. Cada sessão será contextualizada com uma apresentação ou um debate.
As iniciativas Partilhar Leituras e Outros Olhos, Outras Leituras, promovem um intercâmbio de opiniões acerca dos hábitos e preferências de leitura de cada um. A primeira consiste na apresentação de livros entre alunos, semanalmente, na Biblioteca. A segunda, na apresentação de um livro por um professor, um familiar, um escritor, um funcionário..., mensalmente, também na Biblioteca. Os alunos conhecem assim outras facetas de pessoas com quem convivem, e partilham experiências sociais em torno do livro. Iniciativas como estas são importantes para que os não leitores não sintam que o acto de ler é um hábito de um pequeno grupo de 'cultos', mas sim um hábito que qualquer pessoa pode ter, escolhendo o livro que lhe dá prazer.
As sessões estão planificadas e calendarizadas desde o início do ano, permitindo que os professores de língua portuguesa façam a gestão das suas aulas contando desde logo com tais eventos. A participação de todo o grupo, a rotatividade dos alunos, a diversidade de opções, são factores essenciais para a criação de hábitos e experiências em torno da leitura. Os alunos da EB 2/3 António da Costa terão uma oferta privilegiada ao longo dos cinco anos em que frequentam a escola, de forma a que a sua relação com o livro será inevitavelmente melhor e mais sólida, pela persistência e repetição destas actividades no tempo.

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

O tempo da leitura

Um dos dogmas que está associado à leitura é a imagem do tempo ideal para ler: aquele que cada um imagina como tempo livre, num espaço acolhedor ou sugestivo, silencioso, confortável... um quadro como tantos outros que criamos para alimentarmos os nossos desejos e justificarmos os nossos limites.
A ideia de um momento vazio, destinado ao livro, não existe. Por isso, a falta de tempo serve tantas vezes de justificação para não lermos, nós, os bons leitores. E assim todos somos leitores, apesar de não termos tempo para ler...

Daniel Pennac destrói o mito, no seu livro Como um romance:

«Tudo bem, mas a que parte do atarefado dia podemos ir buscar essa hora de leitura diária? Aos amigos? À televisão? Às viagens? Aos serões familiares? Às minhas obrigações?
Onde desencantar tempo para ler?
É um problema grave.
E não é o único.
O tempo disponível para ler e o desejo de ler, nem sempre coincidem. Porque, se virmos bem, ninguém tem tempo para ler. Nem os pequenos, nem os médios, nem os grandes. A vida é um perpétuo entrave à leitura.
_ Ler? Eu bem gostava, mas sabe... o trabalho, as crianças, a casa, não tenho tempo...
_ Nem sabe como o invejo por ter tempo para ler!
Mas como se explica que aquela que trabalha, vai às compras, educa os filhos, guia o carro, ama três homens, vai ao dentista, vai mudar de casa para a semana que vem, arranje tempo para ler, e este casto celibatário que vive dos rendimentos, não consiga?
O tempo para ler é sempre um tempo roubado. (Como aliás o tempo para escrever, ou para amar.)
Roubado a quê?
Digamos que ao dever de viver.
É sem dúvida por essa razão que o metropolitano - símbolo tranquilo do referido dever - é a maior biblioteca do mundo.
Tanto o tempo para ler como o tempo para amar dilatam o tempo de viver. Se encarássemos o amor pela perspectiva do emprego do tempo, o que sucederia? Quem tem tempo para estar apaixonado? No entanto, alguma vez se viu um apaixonado não ter tempo para amar?
Nunca tive tempo para ler, mas nada, nunca, me impediu de acabar um romance de que gostava.
A leitura não resulta da organização do tempo social, ela é como o amor, uma maneira de ser.
A questão que se coloca não é saber se tenho ou não tempo para ler (tempo esse que, aliás, ninguém me dará), mas sim se tenho ou não prazer em ser leitor.»
(ed. Asa, col. Fnac de Bolso; pp. 132-133)

terça-feira, 31 de outubro de 2006

A leitura recreativa na aula - algumas estratégias

A 2ª sessão da acção de formação em Promoção da Leitura teve início com uma sistematização do que havíamos reflectido na semana passada: a relação entre a condição de leitor de cada um e a sua função de mediador.
Desde há muito que as professoras da EB 2/3 António da Costa, em Almada, fazem contratos de leitura recreativa com os seus alunos. O grupo que integra a formação dá actualmente aulas ao 2º ciclo, 5º e 6º anos. As regras são claras: cada aluno deve ler, fora do espaço da sala de aula, um livro por mês, escolhido por si, e sobre o qual deve dar conhecimento à professora.

Propus ao grupo que cada uma criasse uma actividade de iniciação a essa leitura recreativa, que lhes permitisse conhecer o perfil dos seus alunos, enquanto leitores (potenciais ou efectivos).
Eis algumas propostas muito interessantes que surgiram, foram debatidas por todas e em alguns casos, retocadas:
A Raquel iria desafiar os alunos a recordarem o primeiro livro que se lembravam de ter lido, ou de ter ouvido ler em casa, e a trazê-lo para a próxima aula.
Uma iniciativa simples como esta permite:
1) que os alunos interajam com os pais em casa, em busca de um livro (que pode não ser o 1º, mas um de que tenham gostado quando eram pequenos, ou aquele que o tio lhes ofereceu, ou aquele que os pais se lembram de lhes ler...), o que proporciona uma experiência afectiva familiar de promoção da leitura;
2) que os alunos partilhem, na aula seguinte, as suas memórias afectivas com os colegas, logo que tenham uma experiência de sociabilização em torno do livro e da leitura;
3) que a professora identifique algumas características do aluno enquanto leitor, bem como do seu ambiente familiar.
A Josabete escolheria oito livros de diferentes temáticas e tipologias, que passariam pelos alunos para que os observassem e escolhessem aquele que preferiam. Dar-se-ia início ao processo de leitura recreativa. Em complemento da leitura, criar-se-ia um quadro de leitura da turma, onde periodicamente se registariam dados bibliográficos do livro, em que momento da leitura cada aluno estava, o que mais gostara até ali (uma personagem, um momento, uma frase...), o que menos gostava. O quadro ia passando pela turma, de forma a que todos pudessem partilhar estas informações, que ajudariam na escolha individual, quando chegasse a altura de trocar de livro.
Objectivos que cumpre:
1) Divulgação de livros variados;
2) Escolha responsabilizante;
3) Evita que os alunos leiam os livros porque têm de os apresentar à professora ou fazer uma ficha;
4) Permite aos leitores menos competentes constatar que é possível ler mais e gostar de ler, quando observam os dados do quadro colectivo;
5) Permite que as sugestões de leitura sejam feitas entre iguais, a partir de um acervo alargado previamente escolhido pela professora.
A Ângela propõe a audição de uma história da menina que não tem bicicleta, e por isso no Verão não se pode divertir com os amigos. Por isso descobre uma biblioteca e a leitura será a sua grande companheira. Depois da leitura, serão depositadas pequenas caixas em mesas de grupos de alunos que dentro delas vão descobrir objectos vários. Finalmente, em cima de uma mesa os alunos podem procurar que livro tem na sua história os objectos da sua caixinha surpresa.
1) é uma actividade de sedução para a leitura, pela mensagem da história e pela curiosidade que instala;
2) permite que a leitura possa ser feita por mais do que um aluno (se houver mais do que um exemplar do mesmo livro na biblioteca, ou os pais o puderem comprar);
3) permite criar expectativas de leitura nos outros;
4) a seguir à leitura os grupos poderão contar a história que leram aos restantes, que devem identificar os objectos importantes na história;
5) os alunos podem fazer pequenos marcadores para colocarem na página em que aparece pela primeira vez cada um dos objectos da caixa, sendo uma forma de o professor acompanhar a leitura.

Ficam três actividades a partir das quais se pode traçar um plano de unidade de leitura recreativa, da mesma forma como podem ser interligadas. São meras sugestões, que se adaptam e funcionam com um grupo e não funcionam com outro. Mas são importantes para que a leitura recreativa cumpra o seu objectivo primordial: a liberdade individual que a criança deve dscobrir no acto de ler.

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

Balanço do debate na Casa Fernando Pessoa

O debate de ontem sobre o Plano Nacional de Leitura, na Casa Fernando Pessoa, não acrescentou muito ao que se sabe. Questionaram-se mais as intenções que as estratégias, o que foi pena. De qualquer forma, Teresa Calçada, coordenadora do Plano, identificou alguns pressupostos relativamente à leitura e clarificou os grandes objectivos deste projecto:
«(...) A leitura é exigente do ponto de vista do tempo. (...)Pode haver mais leitores que há dez, vinte, trinta anos, mas por outro lado, quem tem hábitos de leitura, lê menos por causa do seu próprio tempo subjectivo.»
E porque a leitura esclarecida e persistente é inseparável do exercício da cidadania, como disse Mário de Carvalho, Teresa Calçada deseja que se encontrem, através do trabalho com os mediadores de leitura, formas estimulantes de incentivar o treino de leitura, de forma a democratizar este hábito.
Nesta primeira fase, pelo que afirmou, é suposto dotar as escolas básicas (dos JI's aos 2ºs ciclos) de livros (10, 15 exemplares do mesmo livro), de acordo com as escolhas de cada agrupamento, grupo de professores e bibliotecas escolares, de forma a que na sala de aula se possam realizar leituras colectivas da mesma obra. O livro deve entrar nos hábitos da criança, não só enquanto conteúdo, mas enquanto objecto, com o qual cada leitor desenvolve uma relação particular.
Discutiu-se mais uma vez o porquê de ser Portugal um país com tão baixos níveis de literacia, e com tão poucos hábitos de leitura.
Em primeiro lugar está a ditadura, que vedou o acesso ao ensino para a maioria da população, e formou más elites. O fechamento ao mundo, às correntes estéticas e filosóficas, ao debate de valores, ao aprofundamento da prática da liberdade, condicionaram em muito a mentalidade portuguesa. O paternalismo e o medo continuam instituídos de forma a corroerem as estruturas do discurso, da exigência e da responsabilidade cívica.
Mas, em segundo lugar, e talvez por esta magna razão, Teresa Calçada resume: «ensinamos mal, aprendemos mal, formamos mal os professores».
Embora seja uma afirmação generalista, não deixa de nos implicar a todos, principalmente às elites. É delas a maior responsabilidade. As elites que viveram o 25 de Abril, as elites que dirigem instituições culturais e académicas, as elites que devem produzir conhecimento devem igualmente ter o entusiasmo de o levar a outros públicos, e de os motivar para a reflexão, a consciência e o sentido crítico.
É importante que tenhamos um Plano Nacional de Leitura para que se definam estratégias, que se desenvolvam acções e que se responsabilizem os envolvidos (que em última análise devemos ser todos). Mas é importante que as elites expliquem aos não leitores a verdadeira importância e liberdade da leitura, e que os respeitem, ou cairemos num novo e perigoso modismo de consumo de um recuperado produto.
Nesta perspectiva, as intervenções de Teresa Calçada pareceram-me bastante mais lúcidas que as de Clara Ferreira Alves, Vasco Graça Moura e Maria Filomena Mónica, num debate a propósito dos clássicos, neste mesmo espaço, em Maio.

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Plano Nacional de Leitura na Casa Fernando Pessoa

Amanhã, pelas 21h30, há mais uma sessão de Livros em desassossego, na Casa Fernando Pessoa. Desta vez, discutir-se-á o Plano Nacional de Leitura, com Teresa Calçada (coordenadora do projecto); Vicente Jorge Silva (jornalista) e Mário de Carvalho (escritor).
Poderá ser o local apropriado para conhecer estratégias e esclarecer dúvidas.
Para além do tema central, a sessão conta ainda com a presença do poeta António Osório que apresenta um novo livro e de Alexandre Manuel, editor da Casa das Letras, que escolhe três livros que gostaria de ter editado.
Para seguir as actividades da Casa Fernando Pessoa, fica o blog www.mundopessoa.blogspot.com

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Banda Desenhada com todas as letras

Promoção de Banda Desenhada
Hoje debateu-se a situação da criação e edição da Banda Desenhada em Portugal, no auditório Maestro Frederico de Freitas, na Sociedade Portuguesa de Autores. Esta iniciativa, da responsabilidade da revista Os meus livros, contou com a participação de António Jorge Gonçalves (autor), Maria José Pereira (editora Asa), Pedro Silva (editor VitaminaBD) e Sara Figueiredo Costa (crítica).
O diagnóstico a esta arte é semelhante ao que outros agentes traçam para outras áreas artísticas: ausência de público, falta de dinamização do sector, falta de informação e divulgação nos meios de comunicação, falta de comunicação entre agentes. Consequência mais do que evidente: poucos meios de sobrevivência. Esta é uma situação crónica em Portugal, e nunca foi por isso que qualquer expressão artística morreu. Contudo, algumas informações dão que pensar.
Rosa Barreto, directora da Bedeteca de Lisboa, considera muito prejudicial para a divulgação da Banda Desenhada que estes livros integrem o catálogo infanto-juvenil das Bibliotecas Municipais, e não ocupem uma secção própria. De facto, este é um dos principais preconceitos associados à 9ª arte. Outro é o de que ler Banda Desenhada é um estádio anterior ao da leitura de textos literários, porque supostamente é mais fácil. Outro ainda, e de todos o mais grave, que a Banda Desenhada é prejudicial no desenvolvimento de competências de leitura das crianças e jovens.
Esta questão está intimamente ligada a outra: a formação de leitores de Banda Desenhada tem de começar na infância, ou não teremos novos leitores.
Não confundamos as coisas. Formar leitores não é formar categorias de leitores.
Formar leitores é dotá-los de competências de leitura como sejam:
encontrar informação num texto;
perceber lógicas de causa-efeito;
identificar nexos de temporalidade e causalidade;
caracterizar personagens;
identificar marcas retóricas (símbolos, imagens, enumerações, comparações, metáforas);
produzir juízos afectivos e argumentativos;
sintetizar informação;
relacionar informação;
distinguir sentidos denotativos e sentidos conotativos;
etc, etc, etc...
Estes objectivos específicos do ensino da competência da leitura são transversais ao género de texto que se lê, e por isso este treino deve ser feito com recurso a tipologias distintas.
Que se deve incentivar a leitura de Banda Desenhada desde tenra idade, parece-me evidente. Do mesmo modo que se deve incentivar a leitura de poesia, teatro, narrativa, notícia, slogan, instrução. Que a arte literária (na sua diversidade) desenvolve o imaginário, a sensibilidade, a criatividade, o conhecimento, mais que um texto informativo, nem sempre é verdade. Não sejamos fundamentalistas, sejamos auto-críticos. Procuremos distinguir qualitativamente a leitura, e sejamos rigorosos na sua promoção. Será melhor ler um mau livro de BD a não ler nenhum? Não há resposta para esta pergunta. Por um lado, ler um mau livro não permite ao leitor ter contacto, por exemplo, com noções inovadoras de perspectiva, ou de disposição gráfica, ou de questionamento da causalidade, ou de ironia. Mas, por outro lado, ler um mau livro pode levar à leitura de outro, talvez melhor, ou igual, e à procura de outros, elevando o nível de exigência do leitor e de qualidade do livro.
Ao nível da promoção devemos ser exigentes connosco próprios, tanto quanto generosos na partilha do que de mais precioso sabemos. Relativamente ao leitor, devemos respeitar as suas escolhas.
É claro que é possível a um adulto descobrir a Banda Desenhada, como é possível descobrir a literatura clássica, o teatro ou a poesia. Mas é também muito provável que o adulto só a descubra se tiver solidificadas as suas competências, ou seja, se for leitor, como afirmou a Sara, no debate.
Promover Banda Desenhada implica divulgá-la junto das crianças e jovens, de forma a que estes sejam leitores do género ao longo da sua vida, e do mesmo modo divulgá-la junto de adultos leitores. Como se faz? Com esforço, criatividade, e acima de tudo com muito entusiasmo e muita honestidade intelectual.

Promoção da Leitura para professores

Estou mesmo de saída para Almada, onde vou dar uma acção de formação para professores, sobre promoção da leitura, na Biblioteca Municipal. Hoje, às 15h será a 1ª sessão, onde vamos falar da condição de leitor de cada um, e da importância desta condição na acção de mediação da leitura.
Vamos explorar algumas actividades lúdicas, que posteriormente os próprios professores poderão realizar nas suas aulas ou na biblioteca escolar, na promoção da leitura recreativa.
Espero que corra bem.

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

A Terra do Nunca - Peter Pan

Ficam agora algumas imagens das ilustrações de Susanne Janssen para o livro Peter Pan.




quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Leonor e O Capuchinho Vermelho

Na semana passada, levámos à nossa sobrinha Leonor dois livros do Noddy. Ela escolheu qual deles mais lhe agradava, e o Sérgio começou a ler-lhe a história. Apesar de ver os desenhos animados na televisão, de conhecer as personagens e identificar algumas das suas características, a pequena Leonor começou a ficar entediada. Propôs-nos então um outro livro, O capuchinho vermelho. Foi buscá-lo e começou a contar-nos a história. Folheava o livro e construia os nexos narrativos a partir da memória e das ilustrações.
Este 'capuchinho' não era especialmente interessante, mas comprovámos que as histórias tradicionais têm um peso muito importante na autonomização da leitura e na relação com o livro, enquanto objecto reconhecível.
É sabido que este conto tem diversos níveis de sentido, e são múltiplas as interpretações simbólicas que se fazem. Contudo, é certo que todas partem do mesmo princípio de curiosidade, risco e consequência. Com ou sem moral, esta história tem de universal e intemporal mais do que a menina, a avó, a natureza ou o lobo mau; é um paradigma de abertura ao mundo, ao desconhecido, é um desafio iniciático de liberdade. Cada criança recebe-o de acordo com a sua experiência, os seus afectos e os medos que a constituem.

terça-feira, 17 de outubro de 2006

A Terra do Nunca

Em primeiro lugar, fica a recomendação de leitura do post da Sara, no Beco das Imagens, sobre a exposição. Lá se descreve mais pormenorizadamente as técnicas da ilustradora, bem como a organização da exposição.
Capuchinho Vermelho


A Terra do Nunca


Sábado fomos ao Barreiro ver a exposição de Susanne Janssen. Dela constam ilustrações, esboços e linogravuras de quatro dos livros que ilustrou e que não existem em português. São eles: Peter Pan, J. M. Barrie, Éditions Être, 2005; Le Petit Chaperon Rouge, Grimm, Seuil Jeunesse, 2002; Un Soir Prés d’Un Grand Lac Tranquile, J. Richter, La Joie de Lire, 2004; La Leçon de Piano de Madame Butterfly, S. Janssen, Milan Jeunesse, 2000.
A sua proposta de leitura dos dois clássicos surpreende, principalmente por evidenciar figuras únicas, longe da imagem paradigmática da criança. Os medos e os desafios conjugam-se com a escala das personagens, que ocupam mais do que o espaço que lhes é dedicado. O efeito tridimensional causado pelas colagens de desenhos, e fotografias enriquece o ambiente conferindo-lhe mais importância do que normalmente tem.
A questão que fica é qual será a receptividade por parte das crianças. A ilustradora afirma que, pela sua experiência em ateliers, as crianças gostam, chegando até a divertir-se com as ilustrações.
Auditório Augusto Cabrita (no Parque da Cidade), de 3ª a domingo, entre as 16h e as 22h.
Até 29 de Outubro

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Experiências em Estarreja III - aventura poética

A segunda sessão, depois do almoço, começou com poesia. O exercício proposto não é fácil, mas normalmente é recebido com entusiasmo pelos alunos. Chama-se "Elemento estranho ao poema" e consiste na descoberta, pelos alunos ,do verso estranho a cada um dos seis poemas que lhes damos.
Com alunos do 3º ciclo, e às vezes até do 2º, usamos poemas de Fernando Pessoa ortónimo, Alberto Caeiro, Miguel Torga, Luíza Neto Jorge, Sebastião Alba. Desta vez, por ser uma turma do 4º ano do 1º ciclo, optámos por Vergílio Alberto Vieira, Luísa Ducla Soares e António Torrado.
O exercício requer a nossa ajuda constante, e é dessa ajuda que depende o sucesso da actividade. As pistas que damos devem ajudar os alunos a distinguir as características formais dos poemas, nomeadamente o que é um verso ou onde está a rima. Depois, pedimos-lhes para lerem o poema em voz alta para os outros elementos do grupo ouvirem, porque talvez ajude... Outras vezes, apelamos ao sentido, ao assunto do texto.
Durante cerca de trinta minutos, os alunos da Escola João de Deus aplicaram-se ferozmente na tarefa de descobrirem os elementos estranhos, lendo e relendo cada poema, mais do que o fariam num exercício de interpretação simples. A cada pista os seus olhos brilhavam, enquanto se iam aproximando da grande vitória.
Mas o jogo ainda não tinha acabado. Quando encontraram os seis versos estranhos propusemos-lhes novo desafio: organizar aqueles seis versos num novo poema.
No final, em jeito de correcção, lemos todos os poemas sem intrusos, para que a turma pudesse ouvir de forma pausada e clara os textos que tantas vezes tinha lido.
Na minha opinião, foi um dos grandes destaques deste atelier, porque até os meninos com mais dificuldades, ou aqueles que menos se concentravam, participaram activamente, colaboraram e respoderam de forma muito positiva aos vários estímulos que lhes fomos dando ao longo do exercício. Creio ser este um bom treino da leitura do texto poético, porque não renega o sentido simbólico ou o ritmo próprio da sua construção, mas não prende o leitor à sua decifração intensiva. A partir deste exercício, outros se podem fazer, aprofundando então conceitos como o de símbolo, metáfora, métrica, estrofe, etc.

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Site do Bicho dos Livros

Já se encontra on-line o site com os projectos que temos desenvolvido no âmbito da Promoção da Leitura. Nele podem encontrar-se acções para adultos, diversos ateliers para crianças e jovens, acções de formação e novas propostas. Do diálogo com crianças, jovens, pais e professores, novas experiências surgirão.
A actualização deste espaço será uma realidade.

A morada é www.obichodoslivros.no.sapo.pt e o link estará em permanência na barra aqui ao lado.